domingo, março 01, 2009

Melodias Panegíricas a Augusto Mesquita

Estas melodias vão direitinhas para um dos grandes vultos, dos nomes maiores, da música em Portugal e que tenho o privilégio de tratar por amigo - e de que já fizera uma leve referência num artigo dedicado ao Coro "Alma de Coimbra". Falo, obviamente, do Maestro Augusto Mesquita.
A sua grandeza musical, proporcional à sua simplicidade, trespassa fronteiras e é, certamente, dos maestros mais simpáticos que conheci.

Mais do que ser eu a discorrer sobre o génio, sobre o homem, o mestre, o amigo, recupero, aqui, uma entrevista publicada em 2006 no jornal "O Figueirense" .

Maestro Augusto Mesquita
...
“Há vida para além da música”
...


O que têm em comum a Associação dos Antigos Tunos da Universidade de Coimbra, o Orfeão de Leiria, o grupo Alma de Coimbra, o coro Advocal, o Festival de Música de Coimbra, e um sem fim de orquestras e coros de todo o país, com nomes como os de Dulce Pontes, Nuno Guerreiro, Luís Represas, Sara Tavares, Inês Santos ou Rui Veloso?
Já todos trabalharam com Augusto Mesquita.


Augusto Mesquita nasceu em Vila Nova de Famalicão, mas fez o liceu em Braga, onde iniciou os seus estudos musicais, com o compositor Manuel Faria. “Aos 13, 14 anos já tocava em público”, recorda em conversa com O Figueirense. Anos depois, chegava a Coimbra para cursar a Faculdade de Direito, mas seria o conservatório da cidade dos estudantes que lhe consumiria mais tempo. Aos 21 anos já era professor naquela prestigiada instituição, depois de ter estudado com nomes como Mário de Sousa Santos ou Gilberta Paiva. “Gostaria muito de ser quase exclusivamente pianista”, confessa. Mas a vida tinha-lhe reservado muitos, muitos outros projectos…
...
Música da claridade
...


Conheceu a Figueira da Foz ainda como estudante em Coimbra, e adquiriu casa na ‘Praia da Claridade” em 1992, aí tendo passado muitos fins-de-semana e outros períodos de descanso, recordando, não sem algum saudosismo, “as manhãs de segunda-feira, em que aproveitava para ir ao mercado, ao sapateiro, ao banco, sempre com esta claridade e esta maresia por companhia”. Agora, porém, as suas visitas à Figueira são mais raras. “Cedi a casa à minha filha, embora possa obviamente utilizá-la. Mas estou aqui tão perto, em Ançã, que não se justifica pernoitar por cá”, explica, acrescentando, no entanto, que espera “mais tarde, poder voltar a passar mais tempo na Figueira da Foz”. Porquê? “Sabe que nem sei bem explicar? Gosto da Figueira, sinto-me cá bem…”, conclui. Para já, porém, as actividades de composição, a direcção de orquestras e de coros, os arranjos musicais e o ensino, entre outras, preenchem-lhe o dia de projectos e a vida de música. A ponto de, hoje, optar por não a ouvir, por exemplo, durante as inúmeras viagens de automóvel, de Ançã para todo o país, onde actua ou trabalha. “Chega a uma altura que é massacrante para mim ouvir música”, admite, lembrando os mais de 200 CDs “por ouvir” que se acumulam no seu escritório, junto aos três computadores – que guardam já mais de 12 mil entradas musicais – e ao teclado onde vai ensaiando novas composições ou arranjos. “Sobretudo quando se aproxima um concerto, não adianta praticar até à exaustão. A forma física é importante para um músico, e estar descansado é essencial. Nos dias dos concertos opto por ensaiar o menos possível. Acho que é uma característica dos músicos mais maduros”, afirma.

“Gosto de arriscar”
....
Augusto Mesquita não se parece nada com o estereotipo de maestro. Não tem barba nem cabeleira fartas, e a sua excentricidade, se a tem, passa despercebida. De conversa e riso fácil, só a sua cultura musical claramente acima da média trai a sua condição de um dos maiores nomes nacionais na sua área. Ainda assim, o seu currículo não o impele a ‘andar na linha’ ou, uma expressão mais apropriada, ‘a ler pelas pautas’.
,,,,
De Macau a Coimbra
....
Com saídas regulares para o estrangeiro, o maestro destaca, nos últimos tempos o convite para ir à abertura dos Jogos da Lusofonia em Macau com o grupo Alma de Coimbra. “Foi um espectáculo absolutamente fantástico, uns jogos olímpicos em miniatura mas com o mesmo brilho”, recorda. Regressou directamente para a abertura do Festival de Música de Coimbra, de que é director e produtor, um evento que vai, este ano, sensivelmente a meio de uma agenda de 23 concertos.
..
“Uma voz especialíssima”
...


De Nuno Guerreiro, que já acompanhou no Casino Figueira e ao lado de quem volta a estar a 2 de Dezembro, num concerto no Centro de Artes e Espectáculos, diz que “é uma voz especialíssima”. O maestro realça “a capacidade, invulgar num contra-tenor, de manter a afinação mesmo quando ultrapassa a sua extensão de voz”. Mais, Guerreiro tem “uma intuição musical fora do comum”, que quase dispensa o maestro de lhe dar indicações. “Nem todos são assim”, comenta com um sorriso quem conhece, bem, o melhor e o pior de muitos nomes sonantes da música portuguesa. Pouco dado a discussões, garante que lida bem com alguns temperamentos artísticos mais ‘difíceis’, que opta, em certas situações, por ignorar.


Regressando ao espectáculo com Nuno Guerreiro, o maestro levanta a ponta do véu: “Será um concerto inimista, com temas do seu último álbum, “Cartas de Amor”, alguns temas de fado, sobretudo Amália, e de outros cantores de que o Nuno gosta particularmente, como Rui Veloso, Sara Tavares e, claro, Ala dos Namorados. Deve ainda querer passar por alguns clássicos, como “Yesterday” e “Can’t help falling in love”, e por um ou outro espiritual negro, que é um género onde ele se sente sempre muito bem”, avança, admitindo que “o alinhamento é feito mais próximo do espectáculo, às vezes mesmo muito próximo (risos), e temos sempre algumas cartas na manga. Conforme a reacção do público podemos saltar um ou outro tema, introduzir outro que não estava alinhado… um concerto é como um jogo, em que o objectivo é conquistar o público”, explica.

Um maestro na cozinha

Nos (raros) tempos livres, Augusto Mesquita gosta de se dedicar à culinária. “Alguns amigos até dizem que sou melhor cozinheiro do que músico”, brinca. Adora viajar, mesmo em trabalho. “Por norma fico sempre um ou dois dias depois dos concertos, e dá para conhecer os locais”, explica o homem que já tem pouco mundo por conhecer. Na literatura os seus gostos são variados, e vão além dos temas relacionados com a música. “Sou um leitor compulsivo”, admite. A jardinagem é outra das suas paixões. “Tenho algum cuidado com as mãos mas não sou obcecado”, garante. E tem as mãos no seguro? “Claro, são o meu instrumento de trabalho, mas acho que seria pior perder a voz do que as mãos”, reflecte.
Quanto valem as mãos do maestro? “Não sei…”, confessa. Diz quem sabe, no entanto, que valem ouro. Para conferir já a 2 de Dezembro, no CAE, ao piano com a voz inconfundível de Nuno Guerreiro.
.....
Para o dileto e insígne Maestro, Augusto Mesquita, um grande abraço e um grande bem-haja pror tudo o que deu, dá e continuará a dar, à cultura e à música em Portugal (e, pessoalmente, pela ajuda preciosa e amiga que me tem prestado em termos musico-corais).
....