terça-feira, setembro 18, 2007

Notas sobre a Praxis Olissiponense

Vim para Lisboa em 2000, para leccionar.
Por cá fiquei, apesar das saudades da minha capital beiraltina.
Ao longo deste anos, alguns aspectos pude observar, no respeitante à praxis e espírito académicos que vieram enriquecer e suportar algumas ideias pré-concebidas sobre a vivência da cidadania académica na capital.
De um modo abrangente e genérico, diria que Lisboa não apenas não tem tradição académica, como é viveiro de contínuo atropelos à tradição, à praxis e, até, à inteligência.
É certo que, pontualmente, ainda se verificam honrosas e corajosas tentativas de inverter a situação (ou pelo menos tentar criar um rumo), mas numa cidade desta dimensão, onde se promoveu a cultura de burgo e enclave (ao contrário do Porto, por exemplo), as poucas excepções existentes são fugazes e insuficientes para se sobreporem àquilo que acontece um pouco por toda a cidade à beira Tejo deitada.
O esforço que se reconhece a algumas tunas lisboetas contribuíu, ao menos, para a existência de alguns oásis que assumem o papel de excepção, mas manifestamente insuficientes numa academia cujos seus protagonistas viveram tempo demais de costas voltadas, fechados em si mesmos, enquanto reclamavam para si o direito e sapiência de fazer como bem lhes dava na tóla.

Não é costume ver muita gente trajada, não com a frequência e normalidade de outras cidades. Por aqui, traja-se por festa, para cumprir calendário. Por aqui, traja-se mal, muitíssimo mal.
Malas, pastas e pastinhas (a tiracolo ou não), de mil cores e feitos, com capa e batina é "pão nosso de cada dia", saias que parecem cintos, sapatos que já vi de cor castanha ou sapatilhas pretas a combinar; p'ins em ambas as lapelas (que em muitos casos deixam de se ver, tal a quantidade de medalhas e condecorações).
Isto, quanto a estupidez humana não nos faz a afronta de considerar Traje Académico um Kilt escocês - sim porque até disto há por estas paragens.

Extraordinário, também, é assistir à "Benção das Pastas" na cidade universitária.
Esta gente nunca deve ter ouvido falar no que é a "Pasta da Praxe". Agora temos modelos do mais requintado estilo, como capas de duas abas apenas, que servem somente para lá ter fitas. Pastas que não são mais do que meras capas pretas, com logótipo estampado e fitas que são quantas se quiserem (chega a ser 1 fita por pessoa, pois já me deparei na situação de assinar uma nessas condições).
Pessoas à futrica com "pasta" e fitas, mal trajadas.............. uma caldeirada de ignorância, desrespeito e palhaçada autêntica que só denigrem a imagem que alguns ainda tentam construir para a Lisboa Académica.

Sim, porque há excepções, há quem cumpra, há quem tenha dois dedos de testa, espelho em casa e alguma educação e bom-senso.

Enquanto os vários organismos de praxe (ou pelo menos um grupo representativo), não der o primeiro passo rumo ao entendimento, acerto de critérios....... rumo a um código (que legisle os aspectos essenciais e basilares, pelo menos, comuns a todos, como o caso do traje, insígnias, entre outros), qualquer esforço será vão pela força dos números, pela mentalidade que impera, porque ninguém quer ceder nem coloca o bem comum acima das suas egoísticas pretensões de protagonismo.

Lisboa teria tudo para singrar como urbe académica, tem tudo para tal.
Conheci alguns estudantes, ligados à praxis, que tinham o desejo de fazer algo.
Pois que o façam. Terão de começar por algum lado, com poucos, mas trilhando caminho seguro. Mas tudo passará, antes de mais, pela formação. Pelo que apurei, e das conversas que mantive, o cerne da questão está numa total falta de saber e conhecimento sobre praxis, história, tradição. Chega a ser assustadora a falta de conhecimentos básicos nessa área.
É tarefa para alguns anos, mas há que ter a coragem de semear e ir preparando outros para cuidar, cultivar e, depois, todos poderem colher os frutos.

Enquanto as manifestações académicas puserem a tónica em concertos, festarolas e mega-eventos desse tipo, nada se conseguirá, pois a praxe, para crescer, não pode, nem deve, comer no mesmo prato que o interesse comercial ou do associativismo afunilado.
à custa do expediente Praxe, se construíu toda uma indústria "académica" que usa, e abusa, da tradição para ganhar o seu, promover o "fogo de vista", afogando qualquer inquietude ou descontentamento em muitas promoções e diversidade de "consumíveis" etílicos.
Haja festa para manter o pessoal na sesta, parece-me ser, nesta cidade, mais evidente 8pois infelizmente, é cada vez mais comum por este país fora).

A analogia da situação da praxis nesta cidade olissiponense com a da comunidade tunante torna-se muito similar, se virmos bem.

segunda-feira, setembro 17, 2007

Notas sobre o Traje Académico e Traje de Tuna

Alguma tinta tem corrido sobre o assunto, pese o facto de ele ser, ainda em muitos casos, mais tratado “off record”, em “meias palavras”, ou no fácil exercício de conjecturar.
Escrever sobre o assunto obriga a urdir o pensamento com alguns cuidados redobrados, quanto mais não seja apresentando argumentos, e factos, objectivos e idóneos.
Actualmente, torna-se, cada vez mais, difícil falar-se em “Traje de Tuna”, pelo menos da Tuna Portuguesa, tendo em conta a cada vez maior multiplicidade de panos e indumentárias.
Numa clara fuga à capa e batina, por motivos que aludirei mais à frente, constata-se o crescendo instalar de uma descaracterização total da identidade Tuna, no que respeita ao aspecto estético da mesma, dos seus componentes, dos seus tunos.

Pelo contrário, no país vizinho, a estandardização de um padrão comum criou, em torno da Tuna Espanhola, uma imagem inequívoca e imediatamente reconhecível, tal como o é, ainda, por cá (mesmo se parece votado ao contrário), a capa e batina que prefigura o estudante universitário.
Por terras lusas, o ressurgimento das tunas na década de 80 do século passado coincidiu, grosso modo, com o reavivar das tradições académicas, em plena época, também, de profusa expansão do ensino superior.
Já disso falei neste blogue: a emancipação e pseudo-auto-determinação académica, ocorrida em muitos pontos, levou a uma clara reinterpretação da tradição e desejo, na maior parte das vezes néscio e acéfalo, de “ser diferente”.
Com muita ignorância à mistura, uma boa dose de desrespeito e falta de dois dedos de testa, levou à adopção de novos panos académicos, ditos “trajes académicos”, com o "amen" das respectivas instituições de ensino, ávidas de publicidade e tudo quanto as tornasse "únicas".
Subtil, e maliciosamente por vezes, se registaram espantosos argumentos de história ficcionada para justificar a necessidade ou plausibilidade de um traço próprio; próprio, segundo muitos, mas que mais não foi do que querer distanciar-se da “sombra” de Coimbra como se, para isso, tudo se remediasse na adopção de nova indumentária com selo de origem controlada (razões da etnografia local, etc. de que não se conhece nem um estudo publicado, pasme-se - nem sequer nos respectivos códigos de praxe, mostrando a seriedade da coisa).
E já não falo no ridículo de muitos desses códigos de praxe, repletos de invenções que enfeitam, mas nada trazem de substancial (isto quando não promovem atentados ao bom senso, educação e civismo).
Seja como for, pegou moda a “mania” e toca de fazer trajes novos a metro, quanto mais diferentes e espalhafatosos melhor, para dar uma ”identidade” própria a cada academia e, principalmente, não se confundir com Coimbra. Todos esqueceram algo fundamental: a etnografia não cabe num uniforme estudantil, precisamente porque a sua razão de existir foi precisamente distinguir-se dos demais mesteres,profissões e classes, criando um fro próprio. Aliás, nem a etnografia nem o folclore contemplam a figura do estudante. Está bom de ver, pois, que qualquer argumento etnográfico cai por terra.

Resultado?
Bem, ele está á vista: só quem traja capa e batina é, de facto, identificado, e bem, com o estudante universitário, todos os demais……. ou têm de dar explicações adicionais ou são confundidos com tudo menos com aquilo a que o pano, supostamente, deveria servir (há trajes que parecem o fato domingueiro que vejo em alguns ranchos, só para dar um exemplo).
Temos mais diversidade, mais criatividade estilística, panos para todos os gostos, cujo resultado final é uma enorme confusão, a ponto de, neste momento, dificilmente de identificar quem quer que seja, tal a quantidade e diversidade.
Salvo um ou outro caso de sucesso (que não significa que  esteja correcto), a maioria das invenções não resultou, chegando-se ao caricsato de termos academias com 6 trajes diferentes, como sucede em Castelo Branco.
Alguns dos usuários desses ditos panos académicos terão, em algum momento, ter tido de explicar o seu vestuário (eu já assisti pessoalmente a isso) a algum transeunte, algum curioso ou turista....... pelo que não vejo qual a diferença entre um estudante de capa e batina de Leiria, por exemplo, dizer que é de Leiria, apesar de trajar com um traje conotado com Coimbra. Pelo menos é identificado como estudante universitário nacional, jáque o Traje Nacional assim foi reconhecido.
Já a questão geográfica quanto à localidade, é mero pormenor que rapidamente se ultrapassa com “sou estudante de Lisboa” (Viseu, Santarém, Beja etc.). Mas mais: em tempo algum um uniforme teve por objectivo a identificação geográfica do seu portador, mas a expressão do seu estatuto: estudante.

A capa e batina, no seu actual modelo (com pouco mais de 100 anos) NÃO É DE COIMBRA!
Quem o enverga deveria ter a obrigação de conhecer a sua história, sabendo, por isso, que ele não é “de Coimbra”, pois traje de Coimbra só na etnografia, no folclore local (que os Ranchos tão gratamente preservam e divulgam).
O grande erro começa logo pelo chauvinismo de alguns (muitos?) estudantes conimbricenses que apregoam que o traje é deles (ainda há pouco, num fórum sobre Praxe de Coimbra, assisti a essa lenga-lenga), que a tradição do seu uso é deles, quando isso não corresponde aos factos.
A capa e batina, no seu actual modelo, resulta do movimento laico anti-clerical que, para cortar com o traje talar (de natureza eclesiástica) impõe o modelo do fato burguês, sucedendo à "abatina", logo disseminado no Porto, Coimbra, Lisboa e liceus nacionais (capitais de distrito).
Por isso, o traje não é de uma cidade, mas nacional (como viria a ser formalmente reconhecido, aliás, por decreto governamental). O que herda de Coimbra é a designação "capa e batina" (que é o nome pelo qual o traje é conhecido na gíria estudantil).


Esta falta de rigor é que levou a tantas decisões erradas que fizeram escola, desde logo pela tontice de tantos novos "trajes académicos" só par aser diferente de Coimbra. Veja-se agora a argolada monumental. E não podemso esquecer que em qualquer cidade ou vila com ensino, o traje nacional era usado. E muito menso esquecer que todos os estabelecimentos onde nasceram "novos trajes" usaram antes capa e batina.


A “Capa e Batina” é, e assim designada,  o Traje Nacional do Estudante Universitário Português.
Depois da extinção do seu uso obrigatório por decreto do governo provisório da república a 23 de Outubro de 1910 ou seja, “a partir de 1911, o Traje Talar deixou de ser um simples uniforme para significar valor cultural, património da Comunidade Académica, sublimado pelo espírito de Coimbra”. (in, Qvid Praxis). Em 1918, mais precisamente a 6 de Julho, são estipulados os Estatutos Universitários, os quais contemplam o traje, mas não o impõem.Mas se a obrigatoriedade do seu uso foi extinta, é facto que só a partir daí é que o traje assume maior divulgação no foro liceal, com a nacionalização do Traje Académico para todas as universidades, liceus e escolas superiores, definida no decreto n.º 10290, de 1924, do então Ministro da Instrução Pública, Teixeira Gomes, no qual se refere, também, a punição para todo aquele que traje indevidamente.
Assim, temos um traje nacional, devidamente reconhecido como o do estudante universitário, ponto final.
Tudo o mais me parece fogacho.

Mais informações pormenorizadas sobre a origem do traje: AQUI e AQUI


O caso do Minho, onde é reabilitada uma indumentária (O “Tricórnio”) usada nos tempos em que lá teria havido Estudos Gerais (que não devem ser confundidos com Universidade, já que no séc. XVIII esses estudos eram reportados à formação eclesiástica e não à noção de universidade, como existia em Coimbra), não foi, também, mais do que aproveitar um facto passado, que carece de estudos mais aprofundados, para justificar o “corte” com Coimbra.
Pesquisei algo sobre o assunto e parece-me que o resultado final do traje lá usado é uma adaptação ou recriação, não totalmente fidedigna (nem de longe nem de perto), parecendo-me haver uma propositada sinédoque: tomando, “convenientemente” uma parte pelo todo, umas pinturas ou ilustrações como sendo traje académico.

Uma coisa me parece certa, não se pode afirmar ter havido um traje universitário diferente em Braga no séc. XVIII, tido como tal, como sucedia em Coimbra que pudesse "justificar" o reabilitar de um "traje antigo dos estudantes". O Tricórnio é uma cobertura (chapéu) usada pelos civis e militares no séc. XVIII, cuja verdadeira “tradição” é militar e/ou aristocrática (e nem é portuguesa sequer). No dobrar desse mesmo séc., a partir de 1760, sensivelmente os bicórneos ou chapéus de dois bicos, já se tinham imposto, vendo-se de tamanhos diversos, sendo alguns enormes e com as pontas exageradamente grandes e descaídas até aos ombros, acairelados de penas, com grandes penachos; as borlas, as presilhas e os botões enriquecidos de pedrarias valiosas e bordados a fio de ouro ou prata! (de que conhecemos a moda do “chapéu à Napoleão).

Justificar a existência de estudos Gerais em Braga no séc. XVIII é ficcionar e fazer uma interpretação ad hoc da noção de Universidade, até porque se os responsáveis pela criação do traje “Tricórnio” fazem referência aos Jesuítas, há que relembrar que os jesuítas portugueses, quando expulsos de Portugal, em 1759, dirigiam vinte e oito colégios de ensino secundário, em Portugal, e a Universidade de Évora (que lhes foi oferecida em 1559 pelo cardeal D. Henrique), não constando que dirigissem qualquer Universidade em Braga (voltariam a Braga, é verdade, mas em 1875, ou seja finais do século XIX, mais dedicados ao apostolado do que ao ensino, sendo preciso esperar pela década de 40 do séc. XX, depois de terem sido novamente expulsos em 1910 e regressarem em 1934, para se falar, então sim, de universidade em Braga: em 1942 o Curso Superior de Ciências Filosóficas" e, em 1947, a Faculdade Pontifícia).
Nessa altura, em 1875, o traje usado no Liceu Nacional de Braga era a Capa e Batina!

Cai por terra, pois, a justificação de ter existido uma universidade propriamente dita, com praxis enraizada e materializada num traje académico (o que ocorreria, isso sim era que os escolares desses estudos, a maioria eclesiásticos, vestiriam conforme a sua condição e posses, um pouco como sucedia nos primórdios do traje em Coimbra, séculos antes).

Reclamar a história do Colégio de S. Paulo, em Braga, como tendo tido privilégios de graus e traje, parece pouco fundamentado para legitimar a ideia de ter havido um traje académico bracarense, quando não podemos cair no erro de confundir Colégios com Universidades.
Mas, e se quisessemos atalhar, bastaria lembrar que em Braga, antes do Tricórnio, se usou, na própria UM, e antes dela, por exemplo, no liceu nacional (desde o séc. XIX), como ainda há pouco aludi, capa e batina. Por isso, se algum traje tinha sentido em Braga, certamente que era o Traje Nacional - esse sim por ter uso geral e reiterado pela larga maioria dos seus estudantes. O único traje estudantil com tradição secular em Braga sempre foi a capa e batina.
Não foi essa a opção posterior, mas não se queira apagar aquilo que é uma tradição bem mais antiga e histórica com pseudo-estudos nunca legitimados cientificamente, para justificar a validade do tricórnio, que só a tem em si mesmo, e a partir do momento em que foi generalizado nestas quase 3 décadas que leva.

Sobre o assunto clique AQUI

Tomei o exemplo da UM, mas poderia ter sido outro.


O facto é que a tradição do Tricórnio foi imposta (impostura, diga-se) com base em algo artificial, uma intrujice histórica, num pseudo-estudo etnológico feito por quem não apenas não tinha competência para o efeito, mas por quem não se coibiu de inventar tradição. Nem se percebe como tanta gente foi na cantiga, mas deve ter dado jeito aos bolsos de alguns, no início.
Hoje é essa a herança. Nada a obstar, conquanto saibam conviver com esse facto, reconhecendo o mesmo, ao invés de propalar "virtudes históricas" que são inexistentes.


Importa é dizer que a capa e batina tem sido o pano oficial da praxis e não vejo grandes vantagens em termo-nos desfeito do seu valor congregador e unificador, identificativo e histórico para quem, mais do que ser do sítio A, B ou C é estudante universitário.
Apostou-se mais em parecer do que em ser e, agora, verifica-se que o pano não ajudou, em nada, a promover uma praxis e espírito académicos dignos desse nome, pelo menos não verifico que houvesse melhorias depois de tantos gritos de “Ipiranga” que se fizeram ouvir um pouco por todo o lado.
Continuamos a ser uma manta de retalhos onde se torna, cada vez mais, difícil discernir e encontrar o que é genuíno, verdadeiramente tradição e identificativo, até, da nossa cidadania académica, da nossa nacionalidade estudantil.

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Trazendo isso à realidade tunante, o que assistimos é uma profusa moda de trajes avulso, pelo precedente criado pela sucessiva delapidação da identidade académica nacional, transformando a nossa comunidade estudantil numa mosaico mais rico que a regionalização preconizada, há uns anos pelo governo.
Aí, detenhamo-nos para observar duas ordens de razão para tantos trajes de tuna, que não a capa e batina: a primeira respeita àquelas tunas que, pela sua natureza, englobam alunos provindos de diversas instituições de ensino de uma mesma cidade ou área metropolitana. Neste caso, no intuito de evitar a colisão estética de panos díspares e regulamentação própria (nem sempre comum entre instituições) de cada traje, foi necessário adoptar-se um traje que esbatesse essas diferenças. “Obrigadas” a correr atrás do prejuízo, este tipo de tunas (que são poucas, diga-se), não tiveram outro remédio senão ter um traje próprio, criando um entendimento onde ele não existia.
A inspiração deste está normalmente ou numa cópia do traje espanhol, com uma ou outra peça que evoca mais particularmente uma figura da região, ou então um traje que faz o compromisso entre a capa e batina e o traje espanhol.
No segundo caso, as razões giram em torno de ideias, mais ou menos peregrinas, invenções puras e, em alguns casos, num total rejeitar do traje académico em vigor na sua academia (algo que constitui, já, outro tipo de desvio).
Se no primeiro caso se compreende essa necessidade forçada, já no segundo me parece forçado, quando o não é ridículo.


Temos tunas com fatiotas parecidas com as tunas espanholas, o que me parece, ainda assim, menos gravoso do que trajes e capas azuis ou cor de vinho, já que a cópia se faz directamente do nascente tunante (mesmo se o actual traje espanhol é produto recente, embora inspirado em panos anteriores).
Já o que também me parece não ajudar muito é o ridículo do “condomínionismo” que ocorre num já existente precedente bairrista.
Já não bastando determinada academia ter um traje académico diferente (e digo diferente em relação ao traje nacional: capa e batina), registam-se subdivisões muito interessantes e de uma criatividade ímpar. Se determinada academia tiver 5 tunas, pois todas trajarão de forma diferente, mudando ou a cor das meias, dos botões, da gravata, da lapela ou o que quer que seja (cor de curso, cor da cidade, cor disto e daquilo, tudo servindo de justificação). Não apenas se regista desvio do traje em vigor nessa academia, como se dão nuances de quantas maneiras for possível, consoante o nº de tunas que surgirem.
Por que diabo essa necessidade de aparentar?
Também não se percebe, por isso, que Tunas que representem especificament euma academia com um só traje, passem a poder envergar dele apenas partes, como o caso da UBI onde uma das suas tunas troca as calças do traje por uns calções às bolinhas brancas que também devem ter alguma explicação de natureza etnográfica.
Não se entende essa necessidade de aparentar, de mostrar que se pertence à Tuna  com isso pondo em causa a própria imagem e a imagem de todos em geral.
E já nem cito o Kilt do IADE porque aquilo nem é traje sequer, ao retakhar a capa e batina e coser-lhe peças escocesas que nada têm de académicas e muito menos a ver com a nossa cultura.

Criou-se uma tal multiplicidade de cores, ornamentos, detalhes e afins, que é preciso já um livro ou código iconográfico para se identificar uma larga fatia de tunas deste nosso rectângulo multicolor.
Já não bastando ter de decorar as cores dos cursos , ainda temos de o fazer com as tunas.
Perde-se, com isto, até, a própria noção de traje/uniforme, seu objectivo, e, a espaços, a sua credibilidade.
Aproveito esta longa reflexão para relembrar um aspecto que merece atenção: tenho lido e ouvido dizer à boca cheia que o a capa e batina foram assim criados para esbater as diferenças sociais. Até poderá ter esse efeito (que não a causa), mas nunca vi isso justificado em qualquer documento histórico. Sempre me deparei nas minhas pesquisas com capas e batinas para todas as carteiras, umas de pano mais nobre, outras menos, coletes de cores diversas (antes de ficar tudo a preto). Aliás já no tempo do traje talar vestia-se segundo as posses, a ordem eclesiástica, chegando a ser castanho,  pardo o traje de muitos estudantes...... .
O traje académico existe como modo de estandardização e padronização, mas por motivos identificativos, como imagem e identidade da condição universitária, não tanto para esbater fossos sociais, antes para diferenciar os estudantes de outras profissões ou mesteres.


No actual quadro de vazio e entendimento académico nacional, não vejo solução para a questão dos trajes académicos, o que obriga as tunas, também, a fazerem jogo de cintura e correrem, em muitos casos, atrás do prejuízo. Contudo, também estou ciente de que muitas inventaram a aparência Tuna sem qualquer outro suporte que não as sua veia estilística, algo que poderá merecer alguma atenção numa outra configuração desta comunidade, num futuro próximo.


Se não sabemos inventar decentemente, olhemos o exemplo do país vizinho e que ele nos inspire, pelo menos, o desejo de urdir um fato de tuna transversal e único em Portugal, E se este tiver de ser outro que não a capa e batina (mas que atenha como referência e inspiração, ao menos), que seja algo que identifique e dignifique inequivocamente a Tuna Portuguesa, contribuindo para a sua união, ao invés deste “carnaval tunante”.

quinta-feira, setembro 06, 2007

Melodias de Requiem a Luciano Pavarotti


Com 71 anos de idade, faleceu em sua casa, rodeado pelos familiares, aquele que é considerado o maior Tenor e cantor lírico do séc. XX.

Adivinhava-se o fim, depois de detectado um cancro no pâncreas, contudo temos sempre a tendência para esperar que os grandes vultos da música e da cultura resistam e nos acompanhem sempre.

Não tenho dúvidas em dizer que ele nos acompanhará por muitos anos e que a sua voz perdurará muito depois de nós mesmos lhe seguirmos o certo caminho da sepultura.

Uma voz inigualável, a VOZ, que figura, já, no Olimpo dos grandes deste mundo.


Paz à sua alma e um reconhecimento por tudo quanto fez.

Aquilo que lhe presto o meu singelo tributo, como admirador e fã, por tudo quanto trouxe de sublime à arte de cantar....... e encantar!

sexta-feira, agosto 31, 2007

Melodias sobre a Guitarra de Coimbra

Desde há uns tempos largos que venho seguindo de perto um blogue muito especial, não por se tratar, apenas, de mais "depósito" informativo sobre Guitarra e/ou Fado de Coimbra (Canção de Coimbra, dirão outros), mas porque o dinamismo, actualidade e informação veiculadas o revestem de enciclopédia viva, de um dinamismo e actualidade que fogem ao comum. Falo, está claro do A Guitarra de Coimbra.

O ilustre Octávio Sérgio, uma figura de renome no meio, tem conseguido trazer-nos uma quantidade de factos, notícias, informações, e muito mais, com uma qualidade impressionante (quer pelo conteúdo, quer pelo rigor), tornando-se o seu blogue um repositório de inestimável valor, uma biblioteca virtual riquíssima sobre tudo quanto diz respeito à Guitarra de Coimbra, para além de, pontualmente, se aventurar noutros campos (com a mesmíssima qualidade e pertinência, diga-se).

Vale a pena o desvio e uma visita demorada!

Aproveito para, publicamente, lhe agradecer a amabilidade e ajuda que me prestou, quando o solicitei para assuntos musicais.

quinta-feira, agosto 23, 2007

Notas do regresso

Bem,
regressado que estou à capital da mourama, vulgo Lisboa, depois de ter deixado para trás a bela cidade de Viseu, familiares e amigos, eis que se reinicia nova temporada. Em breve regressarei ao trabalho, daí aproveitar estes dias que restam para servirem de pré-época e entrar, assim, com menos estranheza em mais um ano de labuta.
Fica a "sôdade", porque o tempo de férias parece que mingua, porque longe da pátria serrana, longe do alfobre das memórias e protagonistas da mesmas.

A todos os que já regressaram, ou o estão a fazer, votos de um bom arranque de ano de trabalho.

quinta-feira, julho 26, 2007

Melodias da Toada Coimbra

Meia dúzia de ilustres e insígnes académicos cristalizaram 20 anos de carreira num trabalho discográfico que me chegou em mão no início deste mês.
Estou a falar do grupo de fados/canção de Coimbra, Toada Coimbrã, o qual dispensa apresentações biográficas, dado ser um grupo sobejamente conhecido e reconhecido.

Como dizia, recebi um exemplar das mãos do meu amigo Dr. João Paulo Sousa, quando aqui passou por Lisboa em trabalho, telefonando-me para irmos beber um copo e trocar dois dedos de conversa.
Falou-me deste CD com aquele orgulho e vaidade (e com razão, diga-se, que o disco esta soberbo) de quem anunciava ter mais um rebento, explicando-me, contando-me, narrando-me os pormenores, o trabalho e esforço por detrás da gravação deste "Best-Of" que vem coroar duas décadas a cantar Coimbra................ e a encantar quem os foi ouvindo.





A Toada Coimbrã já tinha em casa, em dois trabalhos discográficos, da chancela da Secção de Fados da A.A.C., de seu nome “Baladas de Despedida, anos 80”, com a participação de três grupos e onde a Toada interpreta dois temas, e o das "Baladas de Despedida dos anos 90" (onde a Toada apenas interpreta um tema, já que os grupos participantes no disco eram mais), mas este CD já era esperado na minha colectânea há algum tempoe, por certo, com muita expectativa e curiosidade.

Mas, voltando à coisa, dizer que, no meio conhecedor, se aguardava, com expectativa algo que deixasse um legado e registo para as gerações futuras.
O João Paulo já me falava disso há algum tempo, mas não havia maneira do trabalho ver a luz do dia.
Hoje, finalmente, cá está, para gáudio de todos quantos gostam e apreciam boa música, e especialmente a canção de Coimbra.

Uma óptima companhia para preencher algum do tempo livre com som de qualidade e temas belíssimos onde continuo a destacar, acima de todas as outras a Balada do 5º Ano Jurídico 88/89.

Mais do que um grupo famigerado, de fama bem merecida, a Toada Coimbrã alberga alguns académicos de referência no que concerne as Tunas, onde destacaria o meu amigo João Paulo Sousa (o “TunoGasto”) e o António Vicente, ícone e marco incontornável da história tunante, cujos poemas e músicas ocupam um lugar cimeiro do imaginário tunante nacional.
Estamos perante um grupo que fez parte da geração que impulsionou o boom tunante, que esteve na proa da cultura académica de Coimbra e foi testa de ferro na promoção das tradições académicas.

Este CD, com o título Toada Coimbrã, a própria designação do grupo, encerra, desta forma, um capítulo glorioso da Canção de Coimbra, sendo considerado pelos mais entendidos na matéria como o grupo de referência nestes últimos anos.
Soa este trabalho, também, a nostalgia e saudade, tal como parece antever o final de um ciclo, mas uma coisa é certa: ficarão até morrer (como tão bem expressa o tema da faixa 3), agora que perenizaram o seu labor e testemunho em registo áudio.

Parabéns, Toada Coimbrã, pelo caminho percorrido e fizeram percorrer aos fãs.

Boa nota pelas notas!

quarta-feira, julho 25, 2007

Notas de Outrém sobre o Blogue (I)

O Notas&Melodias mereceu simpáticas palavras e referência no prestigiado blogue tunante "As Minhas Aventuras na Tunolândia", conduzido pelo ilustre Ricardo Tavares, "Sabanda".



Por tal incentivo e atenção, retribuo com um humilde obrigado e um grande abraço.





terça-feira, julho 24, 2007

Notas sobre a Tuna e os Códigos de Praxe

Reinicio a escrita, passado todo este tempo, tomando como primeiro assunto a questão da contextualização das tunas académicas/universitárias na praxe da realidade que representam.

O assunto foi já abordado por diversas vezes no portugaltunas, bem como mais recentemente no blog do meu correlogionário Ricardo Tavares, o nosso bem conhecido e estimado "Sabanda".

Oferece-me dizer que dissociar as tunas da praxis académica é algo que tem tanto de benéfico como de pernicioso, senão vejamos o quão incoerente será falar-se de tunas académicas/universitárias que trajam capa e batina (ou "equivalente") e cujos elementos partilham de uma tradição/vivência comum e um mesmo "espaço" académico e, depois, querer fechar os olhos à implícita associação daí decorrente (até porque normal e correcta).



Se muitos dos códigos não têm referência explícita ao fenómeno tunante, não é menos verdade que os há que tiveram esse aspecto em conta. Além disso, muitos dos códigos não foram alvo de qualquer revisão perante um fenómeno que só agora começa a assentar as primeiras poeiras (criando o necessário distanciamento para ser entendido).

Mas deve a tuna ser uma realidade regulamentada como se de uma mera manifestação da praxis académica se tratasse?


Obviamente que não, nem faria qualquer sentido querer fundir aspectos que, embora se tocam e cruzam, são distintos no modus procendi e, até, na sua génese e percurso, apesar das actuais tunas terem o seu alfobre na reabilitação das tradições académicas.

No caso que conheço, porque fui legislador desse código (na UCP de Viseu), apenas se referenciavam as tunas directamente ligadas ou representativas da UCP de Viseu. Nessa altura o grupo existente (extinto há já alguns anos) era a Tuna da Associação Académica, entidade tinha uma relação de cooperação e trabalho directo com o Conselho da Praxe, daí que o código fizesse a ponte entre os vários organismos académicos, por consentimento de ambas as partes.

Assim, definia-se para as tunas da casa que observassem o traje e correcto trajar em vigor na academia, respeitassem as hierarquias em vigor (no caso em concreto era impedido qualquer rito aplicado a novos tunos que fosse equiparado ao rito próprio para caloiros - excepto se fossem caloiros em ambas as realidades - evitando-se a perda da honorabilidade e "dignidade" da condição de doutor ou veterano na praxe).

Sentiu-se, na altura, a necessidade de distinguir o que era rito para caloiros daquilo que eram ritos de iniciação nas tunas, salvaguardando, nomeadamente, a repetição ou os casos menos bonitos de ver doutores ou veteranos na praxe submetidos a actos pouco dignos da sua condição.
Para além disso, eram dadas as normais beneces aos caloiros que entrassem na tuna (isenção de praxe nos tempos de ensaio e actuação, excepto por elementos do Conselho de Praxe em caso de dolosa violação do código - e em que não houvesse intervenção de mais ninguém), para além da lei de protecção de instrumento (conquanto provasse saber executá-lo).

[Episódio curioso (em jeito de aparte) é que essa tuna foi extinta por decisão da reitoria, depois de ter sido consultado o conselho de praxe (que já tinha intervindo e admoestado o grupo por "delitos" anteriores) por esta. Algumas posturas e atitudes dos seus elementos de então puseram em causa o bom nome e prestígio da universidade local, da praxe e dos costumes académicos, pelo que foi retirada a autorização de representar a academia e de no seu espaço funcionar como instituição (e que teve o apoio, também, da associação académica da altura -1999)].


Julgo que é o que deve tender a existir: um respeito pela praxis de cada academia, pelo seu código, mas respeito também pelo espaço "tuna" e sua própria forma de viver essa condição.

A Tuna não é burgo que não deva prestar contas a ninguém em termos de praxis, porque tem o dever (pelo menos moral) de uma conduta coerente com a academia de que é oriunda, mas também não é seara dos conselhos de praxe onde estes possam lavrar a seu belo prazer, como se de uma vulgar trupe de tratasse.

Ainda assim, convirá recordar que um tuno estudante deve lealdade, em primeiro lugar, à praxe e ao código da instituição que o acolhe (ou, visto de outro prisma: na qual ingressa), pois é a condição de académico, em primeira instãncia que lhe confer eo estatuto necessário para, posteriomente, usufruir da condição de tuno numa tuna académica/universitária.

Assim, mesmo tratando-se de realidade distintas (mas não desconexas), só depois deve essa fidelidade à tuna.

No caso dos antigos estudantes, por certo que só á tuna devem contas e por eles responde a tuna institucionalmente no que concerne ao respeito pelas tradições.

Se as tunas representam uma realidade que as diferencia de outras tunas (das populares, por exemplo), então devem traduzir no seu modo de ser e estar esse respeito e vivência da praxis, nomeadamente (e quase resumidamente), ao correcto uso do traje, conforme determinado na sua academia.

Ainda fazer notar que julgo descabidos alguns ritos tunescos que reproduzem e repetem práticas que têm lugar nos ritos de iniciação ao caloiro, aquando da sua entrada na faculdade. Alguns desses ritos ou práticas tunantes acabam por tornar ridículo esse acto (porque copiado ou retirado de um contexto que não é origialmente seu), dado não serem uma tradição de tuna, mas uma cópia (às vezes barata), em detrimento de usos mais criativos e apropriados a uma tuna

Basta, por exemplo, perceber a forma como alguns novatos ou caloiros das tunas são (mal)tratados (alguns deles nem sequer novatos na vida académica), num puro exercício de sadismo e falta de bom gosto que não dignifica nenhuma das partes.

E nisso ajuda a confusão que depois se faz entre praxe e tunas.

Por certo que o meu leitor me chamará a atenção para o que sucedeu no boom tunante de finais da década de 80, em que os grandes dinamizadores da praxe e das suas academias eram também os mesmos impulsionadores e "timoneiros" das tunas que se iam criando .
Mas se houve muita "terra de ninguém" e a necessidade de, num primeiro momento, pedir a praxe emprestada para dar contornos de alicerce legitimador às tunas, também já vem sendo tempo de emancipar as tunas e terminar o empréstimo que mais não foi do que uma renda paga de algo que, no fim do contrato, volta a seu dono ficando as tunas com..................... (eis a questão: com o quê?).

Os ritos e praxe nas tunas precisam de ser melhor compreendidos e pensados, retirando-lhes os aspectos que nada têm a ver com elas, deixando apenas o pertinente e promovendo uma cultura própria, mesmo que influenciada ou adaptada na sua génese (até porque se corr eo perigo, nos antípodas, de inventar gratuitamente práticas ainda mais ridículas). Ver tunas que dão autênticos shows de praxe como se de um circo de rua se tratasse é mais um pálido contributo para a imagem deste fenómeno e, ainda mais, para o da praxe e estudante universitário.


Muitos profissionais liberais regem-se por um código deontológico próprio, sem que tal substitua a obrigação de respeitar as regras do civismo e boa educação que a todos dizem respeito enquanto, antes de mais, cidadãos.

Do mesmo modo os tunos devem observar a tradição e respeitar os códigos e praxe em vigor, sem que isso entre em conflito com o seu próprio "código deontunológico", enquanto cidadão académicos e, também, tunos.

Diria que estas questões seriam de deixar ao bom senso de cada um, mas está provado que cada um se acha dono do mesmo e seria continuar tudo na mesma (com indícios, até, de piorar).
Daí que vejo a necessidade de Conselhos de Praxe e Tunas se sentarem à mesma mesa e conversarem, pois é a falta de diálogo que foi dando aso a muita confusão e equívocos.

Para terminar, dizer que mal vai a procissão quando o sacristão tem de fazer as vezes do Padre; mal vai pois a praxis e tradição académicas quando se propala que as tunas é que devem promover o revivalismo e as tradições académicas, substituindo-se a quem de direito, vestindo um mesmo traje para dois ofícios distintos, mesmo que, usualmente, concomitentes.

Com efeito, há que dar a César o que dele é, deixando de misturar alhos e (bo)galhos.

Já muito li de gente bem intencionada a afirmar que se deve às tunas a continuidade das tradições, da praxe, do uso do traje ....... e que elas devem assumir esse papel promotor e, até, serem protagonistas da mudança, por manifesta falta de competência e atitude dos conselhos de praxe. Mas uma coisa são as medidas individuais ou de grupo, outra é confundir associação de pessoas com a instituição tuna, mesmo se têm intervenientes comuns.

Se as academias sofrem dos problemas que todos conhecemos, se a culpa pode ser dividida entre os factores sociais, culturais educacionais, somando a inaptitude dos muitos conselhos de praxe há, contudo, que separar as águas.
As tunas devem preocupar-se com elas mesmas, porque muito têm que fazer, porque também elas a braços com muitos problemas (e nisso deveriam, até, ter o discernimento de aprender com o exemplo da praxe, cujos actuais problemas afectam, também, as tunas).

A cooperação e colaboração é imprescindível e benéfica para ambas as partes 8e deveria ser algo comum em todo lado), mas uma coisa é esse relacionamento amistoso e fraterno, outro é substituir-se, confundir, emiscuir e desvirtuar, trocando as voltas e só ajudando a por do avesso aquilo que mais ou menos torto estava.

Há uma coisa que muitos se esquecem, infelizmente, mas deveriam colocar no postulado: o dever de viver a cidadania académica de forma interventiva...........que deixe obra feita.

domingo, maio 27, 2007

Notas sobre a Serenata da Queima de Coimbra















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Não irei tecer considerandos, nem urdir qualquer apontamento histórico ou sociológico. Apenas o deleite de algumas imagens, recolhidas na Net, que falam por si.


Pena é ver, cada vez mais, gente que la vai fazer turismo, sem traje............e sem respeito!







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sábado, fevereiro 03, 2007

Notas livrescas sobre Tradição Académica

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Dois títulos que poderão se rdo interesse de quem estuda, ou quer saber algo mais, sobre praxe e tradição académicas, nomeadamente em Coimbra.


Academia de Coimbra 1537-1990: Historia. Praxe. Boemia e Estudo. Partidas e Piadas.

Organismosacademicos, A
Lamy, Alberto Sousa
Editor: Rei dos Livros
Nº Edição: 2
Ano de edição: 1990
Local de edição: Lisboa
Número de páginas: 865
ISBN: 3530590



Coimbra e a Delinquencia Estudantil ( 1580-1640)



Braga, Paulo Drumond
Editor: Hugin
Nº Edição: 1
Ano de edição: 2003
Local de edição: Lisboa
Número de páginas: 125
ISBN: 972-794-207-5
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quarta-feira, dezembro 20, 2006

Melodias Centenárias a Fernando Lopes Graça

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Fernando Lopes-Graça nasceu em Tomar a 17 de Dezembro de 1906, cidade onde, apenas com 14 anos, começou a trabalhar como pianista no Cine-Teatro local, procedendo ele próprio aos “arranjos"(?) dos trechos que interpretava, tocando peças de Debussy e de compositores russos contemporâneos.
Em 1923, frequenta o Curso Superior do Conservatório de Lisboa; em 1927, frequenta a Classe de Virtuosidade, onde tem como professor o maior pianista português de todos os tempos: Mestre Viana da Motta (antigo aluno de Liszt).
Em 1931, conclui o Curso Superior de Composição com a mais alta classificação, concorrendo de seguida a professor do Conservatório, em piano e solfejo, o que lhe viria a ser vedado devido à sua oposição ao regime político, sendo inclusivamente preso e desterrado para Alpiarça.
Leccionaria na Academia de Música de Coimbra, vindo a colaborar na Revista “Presença��?, um dos esteios da poesia em Portugal.
Em 1937 ganha uma bolsa de estudo para Paris, a qual contudo lhe seria igualmente recusada por motivos políticos. Não obstante, decide partir para França por conta própria, aproveitando para ampliar os seus conhecimentos musicais, estudando Composição e Orquestração com Koechlin.
Em 1938, a Maison de la Culture de Paris encomenda-lhe uma obra: «La fiévre du temps» (ballet-revue). Em 1939, com a II Guerra Mundial, alista-se no corpo de voluntários dos Amis de la République Française, colaborando também com exilados da Guerra Civil espanhola.
Após 3 anos em Paris, regressará a Portugal, desenvolvendo a sua actividade como compositor.
Em 1940, ganha o prémio de Composição do Círculo de Cultura Musical com o 1º Concerto para Piano e Orquestra, iniciando, em 1941, a sua acção na Academia de Amadores de Música, a convite de Tomás Borba. Em 1942, obtém o prémio do Círculo de Cultura Musical com a «História Trágico-Marítima» (poema de Miguel Torga). No ano de 1944, venceria novamente o Prémio de Composição do CCM com a «Sinfonia». Em 1945, seria dirigente do MUD.
Entretanto colabora também, de 1946 a 1949, na Revista “Seara Nova��?. Também em 1949, integra o júri do Concurso Internacional Béla Bartók em Budapeste, sendo contudo impedido de sair do país.
Defensor da música tradicional portuguesa, realizou intenso trabalho na sua recolha e divulgação; dedicar-se-ia a pesquisas folclóricas, começando a trabalhar estreitamente com o etnólogo francês Michel Giacometti, percorrendo o país de lés a lés, recolhendo canções cantadas pelos camponeses, transmitidas oralmente de pais para filhos.
A partir de 1960, passa a viver na Parede (onde a Escola Secundária viria a receber o seu nome). Em 1961, edita com Michel Giacometti o 1º volume da Antologia de Música Regional Portuguesa; viriam mais tarde a editar o Cancioneiro Popular Português. Inicia de seguida o In Memoriam Béla Bartók (8 suites progressivas para piano) que viria a completar em 1975.
A par da sua vastíssima e extremamente diversificada produção vocal, escreveu música para piano e outros instrumentos, tais como guitarra e violino, música de câmara e música sinfónica.
Entre as mais valiosas, destacam-se: 11 Glosas; Para uma Criança que Vai Nascer; Bosquejos (para orquestra de arcos); o ciclo de canções As mãos e os Frutos; Canto de Amor e de Morte (para conjunto instrumental); Cantata Melodrama D. Duardos e Flérida; Concerto de Violoncelo, escrito a pedido do célebre violoncelista soviético Rostropovitch (por este interpretado em 1969); o Quarteto de Cordas, com o qual ganharia o Prémio Rainier III de Mónaco.
Viria a falecer a 27 de Novembro de 1994, na sua casa na Parede. Em 1995, seria editado pela Câmara de Cascais / Museu da Música Portuguesa o Catálogo do Espólio Musical de Lopes-Graça, um dos mais importantes compositores da história da música em Portugal.

No dia em que se comemora o centenário do nascimento de Fernando Lopes-Graça, é hoje inaugurado em Tomar o monumento evocativo do que foi um dos nomes maiores da cultura portuguesa do século XX, um “Grande Português“.
O programa de comemorações do dia de hoje compreende, entre outras, os seguintes eventos:
- Pelas 15h30, no antigo Cine-Esplanada, junto ao Estádio Municipal, inauguração do monumento a Fernando Lopes-Graça e ao seu amigo Fernando de Araújo Ferreira (”Nini Ferreira” – outra figura de relevo tomarense).
- A partir das 17 horas, no Cine-Teatro Paraíso, inauguração de uma exposição de trabalhos escolares, a pretexto da digressão pelas escolas do 1.º ciclo do ensino básico da exposição “De pequenino se fala do Graça”.
- De seguida, apresentação e lançamento de várias obras: (i) “A construção de uma identidade – Tomar na vida e obra de Lopes-Graça”, de António Sousa; (ii) reedição de uma das mais procuradas obras de Lopes-Graça, “Reflexões sobre a música”; (iii) “Fernando Lopes-Graça”, de Ricardo Cabrita, banda desenhada, cujo lançamento em livro deverá ocorrer a 1 de Março; (iv) partitura “Tomar”, com poemas de Nini Ferreira, musicados pelo compositor, lançada pela Canto Firme.
- A partir das 21h30, também no Cine-Teatro, decorre um grande concerto comemorativo, o “Concerto do Centenário”, com o pianista Miguel Henriques e a Orquestra Clássica de Espinho, com destaque para a primeira audição do “Concerto para Piano e Orquestra n.º 2″ de Fernando Lopes-Graça.
As comemorações do centenário de Lopes-Graça prolongar-se-ão com o “Prémio Lopes-Graça de Composição” (concurso aberto a obras para quatro vozes mistas sobre texto ou canção popular portuguesa, que deverão ser entregues até dia 2 de Janeiro de 2007), o qual será anunciado a 1 de Março e atribuído na Festa dos Tabuleiros, em Julho de 2007.
Prosseguirão ainda as obras de recuperação da casa onde nasceu o compositor, na qual será criada a “Casa Memória”.

Ainda no âmbito das comemorações do centenário do nascimento de Fernando Lopes-Graça, a Antena 2 lançou uma caixa com 10 CD’s com peças do compositor, extraídas do arquivo da RDP, compreendendo ainda um documentário de António Cartaxo e uma entrevista radiofónica realizada por Igrejas Caeiro em 1957.
Entretanto, o Ministério da Cultura criou também um site, com uma “web radio“, em que é possível ouvir obras de Lopes-Graça.


Texto retirado, integralmente, do site http://memoriavirtual.net/.
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sexta-feira, dezembro 08, 2006


Parabéns ao Coro dos Antigos Orfeonistas que tanto nos enche de orgulho!


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sábado, novembro 04, 2006

Notas sobre a Queima das Fitas


QUEIMA DAS FITAS, BREVE HISTORIAL

A Queima das Fitas, de acordo com a forma que hoje possui, só parece ter surgido em Coimbra a partir de 1919.

No entanto, os alicerces que lhe deram origem remontam a 1899, com a realização do Centenário da Sebenta que pretendia ser uma réplica dos centenários comemorados entre 1880 e 1898. A intenção destas festividades seria a de homenagear várias personalidades e acontecimentos. Mais tarde, celebra-se o enterro do Grau.

«O ponto comum destes centenários era a sua apresentação pública na forma de um cortejo, com fogo de artifício, sarau e touradas. Porém, estas formas de homenagem não eram as mais próprias, uma vez que deturpavam o verdadeiro significado das efemérides. Surge assim, a ideia da realização de um centenário humorístico, ridicularizando os até então feitos, tomando por base a sebenta, compilação dos apontamentos do professor. O Centenário da Sebenta passa a ter, assim, um âmbito critico de carácter geral e, ao mesmo tempo, particular, já que se protestava contra a exploração dos sebenteiros. A estrutura de tal manifestação confinou-se a cortejos alegóricos e a um sarau. Tratava-se agora de desenvolver esta ideia.
Nos anos seguintes, o 4.º ano jurídico organiza festas da mesma espécie e introduz um aspecto inovador: o queimar das fitas que se usavam nas pastas e que eram indicadoras da sua condição de pré-finalistas. A fita é uma consequência das pastas dos meados do século passado que tinham para prender as duas partes que a compõem, três laços de fita estreita da cor da Faculdade do utente, um de cada lado, ao meio das bordas da pasta. O queimar das fitas acabou por se transformar num acto simbólico cujo significado assenta no atingir um objectivo próximo: o término do curso.
Em 1905 realizou-se o Enterro do Grau, em consequência de uma reforma dos cursos universitários que mantinha os graus de Licenciado e Doutor e abolia o grau de Bacharel. Este facto levou a um festejo de estrutura idêntica aos anteriores. No entanto o Enterro do Grau é mais uma manifestação a ligar os festejos anteriores ao que viria a ser mais tarde a Queima das Fitas, porque pela primeira vez, se verificou a participação activa da população de Coimbra, começando a verificar-se que a Queima das Fitas era já uma festa de comunhão com a população da cidade, cuja iniciativa pertencia aos estudantes.
No ano de 1913 um episódio marcou a história das festividades académicas, quando no dia 27 de Maio, devido a um incidente motivado pela academia, um tenente da guarda ficou sem o boné.
Eivados da característica irreverência académica os estudantes gritavam constantemente: "olha o boné”. Devido à repercussão que o facto teve na época, este dia foi tornado, durante muitos anos, como o dia principal dos festejos.
Verificaram-se até 1919 alguns interregnos, condicionados pelas condições políticas, económicas e sociais da época como, por exemplo, a proclamação da República, e a 1.ª Grande Guerra Mundial.
Mas foi de facto neste ano, 1919 que as celebrações académicas começaram a adquirir a estrutura que conservam actualmente.

Pela primeira vez os finalistas de todas as faculdades celebraram em pleno a festa da Queima das Fitas, para além de se ter dado um passo importante para a sua sedimentação.»

(in Código da Praxe Académica de Coimbra, 1993)

Notas sobre as Latadas - Dados


AS LATADAS


As Latadas são uma das festividades académicas mais irreverentes e divertidas, marcando actualmente a iniciação dos caloiros à Praxe Académica. Neste cortejo, os caloiros vão vestidos com fantasias ao gosto dos doutores da praxe transportando normalmente cartazes de carácter crítico respeitantes à vida circum-escolar, política e social da nação e da comunidade internacional.
A partir dos anos 50 e 60 passam a realizar-se no início do ano lectivo e não no final como acontecia antes.

Após o fim do período de Luto Académico, em 1979 a Praxe Académica volta à actividade. É a partir desta data que se passa a realizar uma só Latada para todas as Faculdades. Anteriormente, até aos anos 50 e 60, faziam-se tantas Latadas quantas as Faculdades, mas o aumento significativo do número de estudantes levou a que se procedessem a alterações nas realizações das Latadas

As "Latadas" remontam ao século XIX quando os estudantes exprimiam ruidosamente a sua alegria pelo termo do ano lectivo - em Maio. Utilizavam para tanto todos os objectos que produzissem barulho, designadamente latas...

Durante os 3 primeiros dias que antecediam as férias de ponto ninguém na Alta
(Bairro Latino) tinha sossego. Das instituições académicas subsistentes foi das
que melhor testemunhou o longo processo evolutivo, porquanto chegou quase aos
nossos dias ligada simultaneamente à cerimónia de imposição de insígnias e à
iniciação dos caloiros (baptismo).
Como a “Queima” as “Latadas” representam
um modo de reconhecer a autenticidade das instituições e o poder político
decorrente da legitimidade saída de uma sociedade fortemente tradicionalista.»
(in A sociedade tradicional Académica Coimbrã de A.R. Lopes, s.d.,)

Analisemos o relato de Trindade Coelho para tentarmos compreender melhor a vivência académica do seu tempo:

«Ora foi na aula do Chaves, nem mais nem menos, que o Pássaro, rasgando uma
folha em branco da Novíssima Reforma Judiciária, fez no 4.º ano o programa das
latas, o célebre programa das latas, que é hoje raríssimo, e uma das peças
clássicas da boémia de Coimbra - tão afamado como o Palito Métrico! Apanhado, o
programa foi impresso; e impresso, não houve ninguém que o não comprasse no dia
seguinte, à Porta Férrea, por um vintém - pois que de mais a mais tinha
oportunidade: as aulas de Direito fechavam-se nesse dia, e à noite, como era da
tradição, a rapaziada tinha de sair pelas ruas de Coimbra - naquela
extraordinária inferneira chamada a Festa das Latas, em que cada um, incluindo
os novatos, que nesse dia ficam emancipados e já podem sair de noite sem
protecção, arrasta atrás de si as latas que pôde ir juntando durante o ano, ou
as que comprou na «feira das latas» aos garotos, que vendem uma banheira velha
por um pataco e três cântaros de «folha» por um vintém!
Essa é a tremenda
noite de Coimbra, em que ninguém prega olho - troça aos estudantes das outras
Faculdades, que ainda têm aulas no dia seguinte -, e que uma vez obrigou a fugir
não sei que inglês touriste, que berrava, de mala na mão, a correr para o
caminho-de-ferro:
- Doidos! Doidos! Doidos varridos!» Fim de citação.


Bibliografia: In Illo Tempore; Coelho, Trindade; Publicações Europa-América, Livros de Bolso, n.º 287; s.d.; pp. 14

Notas sobre as Origens da Universidade em Portugal


AS ORIGENS DA UNIVERSIDADE EM PORTUGAL



As Universidades surgiram em Portugal no Sec. XIII, pois nessa época o nosso país vivia um ambiente cultural e sócio-económico próprio.
Na altura era a Igreja que detinha todo o monopólio do ensino e do saber, mais ainda, cada vez mais sentia a necessidade, por ser universal, de que todos falassem a língua oficial desta: o Latim. Ora, só o podia falar quem o tivesse estudado. Deste modo os grandes mosteiros e catedrais mantinham escolas que aos poucos foram proliferando.

A mais antiga referência a estudantes portugueses aparece num documento de 1072 relativo à catedral de Braga, sendo que o mais antigo professor é mencionado num outro documento que data de 1088 e que dava pelo nome de Pedro Gramático.
D. Afonso Henriques teria ele também um amigo chamado João Peculiar que era mestre na escola da catedral de Coimbra sendo mais tarde um dos fundadores de Santa Cruz de Coimbra (1131).
Inicialmente virado para o clero, o ensino em breve se alargou para as gentes da emergente burguesia nascendo assim os centros de ensino, laicizando o saber.

A fim de não proliferarem “mestres” e alunos sem se exercer o mínimo controlo e, com o crescente número de mentores de uma multidão de alunos, a Igreja disciplinou o ensino e exigiu que os mestres possuíssem uma licença para ensinar (“Licentia Docendi”), daí o nome de “licenciado”.
Como este estudo se destinava quer ao clero quer aos leigos, para ser distinguido do ensino reservado apenas aos clérigos, passou-se a chamar de estudos gerais, sendo na base destes que nascem as Universidades. Universidade: palavra que tem origem latina “Universitas” que significa conjunto ou totalidade.

A Igreja, mediante o crescente aglomerado de mestres e alunos, uns do clero e outros não, cognominou esse conjunto de Universitas Scolarum et Magistrorum, sendo reconhecida primeiramente a de Paris [entre 1200 e 1231 (1215 segundo J. H. Saraiva)] e mais tarde a de Toulouse e Bolonha. (1229). Em Espanha temos Palença (1214-1216) e Salamanca (1230). Embora muitos apontem a Universidade belga de Louvaine (“Leuven”) como a primeira de todas, os registos apontam para a sua fundação em 1425-26 (in “Le Petit Larousse illustré” de 1995).

A consciência de que os tempos eram novos, de que se opunham à época precedente, gera uma consciência polémica que define alguns aspectos da nova mentalidade, da vontade de instaurar outras formas de educação e de vida: uma outra sociedade. É dentro deste movimento que os prelados portugueses superiores de algumas ricas comunidades eclesiásticas ( Alcobaça, Santa Cruz de Coimbra, S. Vicente de Lisboa, Santa Maria de Guimarães, entre outros ) dirigem uma petição ao Papa (1288) com o fim de que este os autorizasse a aplicar uma parte dos rendimentos na sustentação de um estudo geral em Lisboa, facilitando a formação de pessoal para a Igreja e evitando os perigos e despesas que a frequência dos estudos noutros países exigia.
O Papa Nicolau IV através da Bula STATU REGNI PORTUCALIAE (1290) confere então a Lisboa o tão ansiado estudo geral, sendo nesse mesmo ano confirmado o estudo, em Carta promulgada por El- Rei D. Dinis: “ Dada em Leiria a 1 de Março. Por mandado d´El - Rei a notou Afonso Martim. Era de 1328.” (1290).
Os estudos extramonacais começaram portanto com um atraso de muitas dezenas de anos em relação a outros países, tal deve segundo alguns estudiosos, quer no facto de a influência de Santa Cruz de Coimbra e de Alcobaça junto dos nossos reis, que julgava suficiente os centros de estudos existentes, suficientes para satisfazer as necessidades culturais da época, quer pela influência do ensino feito à margem da Igreja, nas sinagogas, onde estudaram muitos colaboradores dos primeiros monarcas.
Seja como for, está também nas causas deste atraso, o baixo desenvolvimento social e cultural, que levava muitos portugueses a irem estudar para outras paragens, D. Sancho I teria disposto de 400 morabitinos para pagar estudos de portugueses no estrangeiro. No entanto, mesmo com os estudos gerais em Lisboa, apenas os mais pobres por lá ficavam, pois quem tinha posses enviava seus filhos para o estrangeiro, como por exemplo para Montpelier (criada em 1289) , pois frequentar as universidades estrangeiras era muito mais prestigiante. Deste modo Lisboa e os seus estudos gerais limitou-se a ter uma função secundária ao serviço da Igreja e do Estado: para a primeira preparava religiosos, bons sabedores de Latim e para o segundo, criava letrados que eram encaminhados para a burocracia ou, à margem dela, exerciam a advocacia.


Nunca se chegou a construir um edifício próprio para a universidade como aconteceu em Coimbra sob mando de D. Dinis, não se sabendo por isso onde funcionou a primeira universidade portuguesa.
A Igreja continuava a possuir entre os seus membros os mais cultos da sociedade da época contudo, os estudantes começam a formar uma camada social à parte pela sua rebeldia e irreverência o que provocava desacatos com as autoridades militares e conflitos escolares com os cidadãos. Assim, a Universidade criou um "Foro Académico" que libertava os estudantes de responder em tribunal civil e desta forma separa os estudantes da população. Esta separação entre estudantes e demais sociedade está patente através da transferência da Universidade para Coimbra em 1308 e 1354 por ordem do Rei, umas vezes pela pressão popular, farta de zaragatas e de barulhos outras vezes, pela ameaça da burguesia cuja Universidade era o suporte ideológico e cultural.

Voltará a Lisboa em 1377 por vontade de D. Fernando, que alega que só com a Universidade em Lisboa poderá contratar mestres no estrangeiro pouco dados a viver na província longe do centro geopolítico do reino.
A influência das universidades na sociedade de então é, segundo alguns autores, mais importante do que nos é dado pensar; há quem afirme que a revolta dos concelhos contra D. Dinis ter tido como principal mentor um advogado de Beja; deste modo já não eram os simples vozeiros que defendiam as causas de justiça apoiados numa retórica pouco fundamentada mas sim verdadeiros doutos em Direito (ensinado nas universidades) que sabiam a lei e os processos mais intrínsecos das “démarches” judiciais.
A Universidade será mais tarde e finalmente implementada em Coimbra de onde nunca mais se desenraizou.
O estudante, demarca-se assim da população, constituindo uma classe que cada vez mais é prestigiada, distinta, até, pelo uso do Traje Académico, constituído pela batina e pela capa, cuja forma original sobrevive ainda no "Hábito Talar" dos actos de Doutoramento.


Os problemas e os distúrbios dos estudantes, o facto de a Universidade andar em bolandas de Coimbra para Lisboa e definitivamente para Coimbra, conotou o Traje como Coimbrão. E assim, Coimbra, a " Menina e Moça" do Mondego, tornou-se a “Mãe” de toda uma tradição aqui nascida e enraizada. Com a expansão das Universidades e a proliferação dos Institutos Politécnicos, as praxes são levadas aos quatros cantos da nossa "Lusitânia", como é o caso da vetusta "Ciuitas" de Viseu, capital da Beira Alta.
O estudante com o seu traje típico foi habituando a sociedade portuguesa, àquele indivíduo simultaneamente generoso, impertinente e sentimental. Criou-se quase uma lenda, um tipo social, a quem todas as audácias eram permitidas. As suas extravagâncias e boémias, todo um conjunto de usos e costumes que a tradição oral e escrita fixou e transmitiu, constituiu uma lei e uma moral à parte da sociedade: A Praxe Académica. É este tipo de estudante que se imortalizou e fez passar a tradição de geração em geração.


Celebrizou-se o estudante libertino da quadra popular, do canto amoroso, da saudade, do eternizar da mocidade, nos quais se contam Augusto Hilário, imortal estudante coimbrão que nasceu e morreu em Viseu e, que para melhor eternizar o canto e canção coimbrã, dotou o fado de lindos poemas e baladas de amor que contribuíram para o enriquecimento da nossa cultura, um símbolo da nossa Universalidade Lusa, que é o amor cantado e celebrado nas serenatas, deixando pairar no ar um nostálgico Sebastianismo, num eterno voltar às origens.

Texto adaptado de “História Concisa de Portugal” de J. Hermano Saraiva, “colecção saber” das publicações Europa-América

Notas sobre o Traje Académico - do Hábito Talar à Capa e Batina



Traje Académico, do Hábito Talar à Capa e Batina

Comummente conhecido como “Capa e Batina”, o traje académico representa tão somente uma feição contemporânea do “Hábito Talar”, indumentária clerical que existe desde a fundação da Universidade em Coimbra (Bula “STATU REGNI PORTUCALIAE” do Papa Nicolau IV), por D. Dinis “O Lavrador”(1279-1325) em 1290. Com efeito, desde sempre e durante a idade média a maioria dos escolares eram clérigos que trajavam conforme a sua condição e hierarquia.
Os Doutores, Mestres e Lentes distinguiam-se pelo uso do vestido talar de inspiração romano-clerical (loba e sotaina) e Becas coloridas segundo a moda reinante na corte, isto, além dos hábitos das ordens religiosas, num todo complementado pelo Capelo ou Murça e Barrete com borlas (semelhante ao usado pelos cónegos), ao qual se juntava o Anel e a Capa.
Os Escolares por seu lado vestem consoante a sua condição de civis ou eclesiásticos, sendo elementos mais característicos a Loba, a Sotaina e a Capa, que aliás acabam por prevalecer a partir do séc. XVI.
Com D. João III, na sua ordenança para os estudantes datada de 1539, podemos já falar em Traje Académico, onde o mesmo é rigorosamente definido (Loba, Sotaina, Capa com gola, Calções de talho liso, Botas ou borzeguins e Barrete redondo ou tricórnio). São no entanto inequívocas as influências sofridas da vizinha Espanha (Valladolid e Salamanca), nomeadamente nos cerimoniais académicos (de notar por exemplo que os cerimoniais de doutoramento em tudo se assemelham aos da ordenação dos Bispos), até porque as primeiras insígnias académicas eram as trazidas pelos escolares que estudavam em Paris, Bolonha ou Salamanca.
O Traje Académico oscilou sempre na sua composição em razão de muitos clérigos trajarem segundo a sua condição, ordem a que pertenciam e hierarquia que ocupavam ,etc.
Verificam-se diversas alterações no traje que ocorrem no séc. XVI, XVII e XVIII, sendo que o actual tem origem no séc. XIX com implementação da calça comprida, camisa e gravata e botins pretos (o calção, meia, sapato de fivela e cabeção apenas se mantêm nos cerimoniais de Doutoramento e Actos de Bacharel).
O actual traje, vulgo "capa e batina" é um corte com as antigas vestes talares, fruto do contexto republicano e anti-clerical vivido na época, substituindo as antigas paruras por um modelo assimilado, ou em tudo parecido, com as vestes burguesas. A capa, que incialmente estava previsto desaparecer, é mantida pro vontade exclusiva dos estudantes (pelo imaginário romântico masculino dos romances de capa e espada). O seu uso dissemina-se, gradualmente, a partir da década de 80 do séc. XIX, embora conviva com outros trajes equiparados e reconhecidos com trajes académicos (trajes militares ou o usado na Escola Agrária de Coimbra). Será só a partir de 2ª metade do séc. XX que a capa e batina assume o seu actual cariz transversal e nivelador em termos estéticos, até ao surgimento de novos panos (a partirde dos anos 80/90 do séc. XX).

Em 1911 o Governo da República decretou a extinção da obrigatoriedade do uso diário do traje, que se continuou a usar por pressão dos estudantes do Orfeão e Tuna de Coimbra e Porto, segundados pelso estudantes de Lisboa.


Só na década de 1957 o traje ganha sobriedade passando este a ficar (bem como tudo o relativo à Praxe) sob tutela do Conselho de Veteranos.
O Traje feminino surge pela mão das estudantes do T.E.U.C. que avançaram em 1951 com um modelo de Fato Saia-Casaco, pois até aí trajavam um modelo mais perto da tradição anglo-saxónica. A partir de 1953 predominaria o novo traje cuja divulgação em muito se deve ao surgimento do Coral de Letras e do Orfeon Misto.

Bibliografia: “Subsídio para o estudo genético-evolutivo do Hábito Talar na Universidade de Coimbra” de António Nunes, [in Revista “Via-Latina” – Ad Libitum, 1988/89.]

Notas sobre a Praxe Académica - Breve Resenha Contextual

A PRAXE ACADÉMICA


Por Praxe Académica entende-se os usos e costumes que, perpetuados entre os estudantes desta Universidade, adquiriram estatuto de tradição entre os estudantes do Ensino Superior.
Desta forma, a Praxe Académica engloba os ritos, usos protocolares, regras de conduta, simbologia e demais manifestações estudantis que, enraizadas e legalmente enquadradas, transmitem e manifestam uma dada identidade comunitária, vivida e posta em prática por quem nela se insere.
A palavra Praxe é, no entanto, extremamente recente sendo que esses usos e costumes tiveram a sua génese num conjunto de hábitos vivenciais normalizados entre os clérigos de ordens monásticas mais simples, nesse conjunto de escolares pobres e mendicantes que criaram um “modus vivendi” muito “sui generis”.
Com efeito, embora se aponte para o séc. XIV o início da Praxe Académica, temos conhecimento dela sob o nome de “Investidas”, termo utilizado a partir do séc. XVI. Dessas “Investidas”, constava um pouco de tudo: a tourada, a picaria, os insultos, a caçoada, o pagamento de patente dos novatos aos Veteranos, as troças, o canelão (pagamento de direitos pelo novato, que podia desembocar numas caneladas algo dolorosas para os caloiros).
Com estes ritos algo “ríspidos”, não é admiração encontrarmos pela primeira vez a palavra Praxe em 1863 (e de novo em 1872) ligada ao adjectivo “selvático” o que mostra a opinião da população no que respeitava a tais práticas.
A palavra Praxe toma o seu contexto actual com o desaparecimento desses ritos e alargamento do seu significado para além da estrita relação entre Veterano e Caloiro, passando a congregar todo um conjunto de actividades dos estudantes universitários fundada na tradição que, no desenrolar da sua história, tende a cristalizá-las em formas quase rituais.

Bibliografia: “Subsídio para o estudo genético-evolutivo do Hábito Talar na Universidade de Coimbra” de António Nunes, [in Revista “Via-Latina” – Ad Libitum, 1988/89.]

sexta-feira, agosto 04, 2006

Notas livrescas sobre Tunas do Marão


Uma obra de referência para a comunidade tunante.
Embora o seu custo não seja convidativo, não deixa de ser um bom investimento, dada a sua qualidade .

sábado, maio 27, 2006

Universidade de Coimbra

Praxes: co-autor do estudo rectifica primeiros resultados do inquérito
24.05.2006 - 19h03 Lusa

O sociólogo Elísio Estanque, co-autor de um estudo sobre os estudantes universitários de Coimbra, corrigiu hoje os primeiros resultados do inquérito, afirmando "não ser verdade" que um terço dos alunos seja a favor da violência na praxe académica. "No inquérito é apresentado um conjunto de formulações, uma delas sobre a praxe académica e, de uma lista de oito questões, os inquiridos podiam escolher o máximo de três. A mais escolhida, por 72 por cento dos alunos, é a que diz que a praxe deve ser facultativa", afirmou.
 
O investigador do Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra intervinha na sessão de abertura do colóquio internacional "Movimento Estudantil. Dilemas e Perspectivas", que decorre até amanhã na Faculdade de Economia. Numa primeira análise dos resultados parciais do inquérito, o sociólogo disse que "a praxe continua a ser uma dimensão importante nas festas académicas e no imaginário dos estudantes, mas nota-se também uma vontade latente de alguma remodelação dos seus contornos".
 
"A única ilação do estudo [sobre esta matéria] é que há algum distanciamento crítico em termos das representações subjectivas dos actuais estudantes relativamente à praxe académica e aos contornos que ela encerra", vincou o investigador do Centro de Estudos Sociais (CES) da UC, ao intervir na sessão de abertura de um colóquio internacional. Segundo alguns dados preliminares avançados aos jornalistas, no mesmo capítulo do inquérito dedicado à praxe académica a formulação "Deve repudiar qualquer forma de violência física ou simbólica" foi a segunda mais escolhida pelos inquiridos (68 por cento).
 
O terceiro item mais escolhido pelos alunos (52 por cento) aponta para a revisão da praxe de forma a receber melhor os novos alunos. O presidente da Associação Académica de Coimbra (AAC) manifestou-se hoje contra a violência na praxe académica e considerou que "a larga maioria" dos seus colegas partilha esta opinião. "Discordo da violência na praxe, não é o melhor método para integrar os estudantes. Acho que a larguíssima maioria dos estudantes [da Universidade de Coimbra] é contra a violência", afirmou Fernando Gonçalves, ao comentar os resultados parciais do inquérito, avançados hoje pelo "Jornal de Notícias".
 
A praxe "deve ser sempre um mecanismo de integração e não de superiorização do antigo estudante face ao novo", disse o dirigente estudantil. O estudo abrangeu 2830 alunos da Universidade de Coimbra e foi realizado ao longo de 2005 e 2006, estando prevista a divulgação mais detalhada dos resultados parciais amanhã, na sessão de encerramento do colóquio. O colóquio integra-se no projecto de investigação "Culturas Juvenis - Diferença, Indiferença e Novos Desafios Democráticos", que está a ser desenvolvido no CES sob orientação de Elísio Estanque e do historiador Rui Bebiano.

Fonte: http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1258279&idCanal=

sábado, fevereiro 18, 2006

Prima Nocte

Como senhor deste espaço, tomo-o por meu e, assim, o inauguro .
Não há muito para dizer, para já,, nem sei se virei a aqui dizer(escrever muito), mas como gente que é gente tem um blogue, nem que seja para não me sentir menorizado, também posso gabar-me de ter um.

Versará sobre o fenómeno Tunante (cultura, tradição, actualidade, etc.) praxe e tradição académica, bem como sobre diversos aspectos artísticos e culturais de relevo.

Ora bem, já chega, "Ite, omnia est".
Intés!