quarta-feira, setembro 10, 2008

Notas sobre O Grito Académico "F.R.A."

Merece alguma atenção este assunto, porque me parece haver alguma falta de conhecimento sobre a forma e razão de ser deste tipo de interpelação e expressão efusiva de alegria e comemoração.
 

Para além disso, já não é a primeira vez que, no  mail do N&M, caem pedidos de esclarecimento sobre este assunto e, por esse mesmo motivo, decidi escrever alguns considerandos.
O Grito Académico divulga-se ao mundo tunante e académico nacional, com o lançamento do CD "Estudantina Passa", mesmo se, já antes, era de uso comum, com especial incidência em Coimbra  Porto.
 Não possuo qualquer dado documental e fidedigno que aponte a data da sua criação, até porque, como sabéis, o grito foi sofrendo alterações sucessivas ao longo dos tempos (nomeadamente nestes últimos 20 anos).
 O Grito Académico, comunemente usado, divide-se em 2 partes, a saber:  Dedicatória e Aclamação (em que existe uma voz de "comando" a que responde a assembleia). Assim, temos:
 
- Então (malta), e para............não vai nada, nada, nada, nada?
- Tudo !
- Mas mesmo nada, nada, nada, nada?
- Tudo!
- Então, com toda a cagança, com toda a pujança ..........(e outros dizeres)..... aqui vai/sai um...F-R-A!
 - Frá!
- FRE!
-Fré!
-FRI!
- Fri!
- FRO!
- Fró!
- FRU (com prolongamento do som É da letra  F: "éf "- concluindo com RU - "ériu").
- Fru!
 -(todos) FRA, FRE, FRI, FRO FRU
ALIQUA, (a)liquá, (a)liquá (BIS)
CHIRIBIRIBI-TÁ-TÁ-TÁ-TÁ (BIS)
HURRA, HURRA, HURRA!!!
 
 
Alguns irão torcer o nariz, porque o interpretam de outra forma, nomeadamente a parte do Aliqua ou do chiribiribi, mas mais à frente se explica.
 Obviamente que não podemos esquecer que, deste grito, também conhecemos a parte do "Aos canhões, a rolar peças!" ou ainda do "Ginga Baleia" (muito na moda no Porto, diga-se), tão bem reproduzido no grito que a E.U.C. eternizou no seu 1º CD (já acima mencionado).
 Mas, qual o significado deste grito, de onde provém e qual a sua razão de ser?
 
 

F.R.A. ("éfférreá")
 
A sigla F.R.A., e o actual grito, parecem provir dos tempos conturbados da Crise Académica (Frente Revolucionária Académica ou Falange de Renovação Académica), inspirados, no FRA brasileiro (Frente Republicana Académica) que alguns estudantes cariocas, em finais do séc. XIX terão criado - grito esse que voltaria a fazer-se ouvir em Coimbra, pelos refugiados estudantes brasileiros, albergados na República dos Cágados.

Estes estudantes recriam a Frente Republicana Académica de outrora, sob a batuta de um tal Divaldo Freitas (grande divulgador do grito) gritando "FRA!", como acrónimo codificado, contra o regime de Getúlio Vargas (1883-1954), o qual chegara à presidência da república brasileira em 1934, instaurando uma ditadura com o  golpe de Novembro de 1937.
Divaldo Freitas (que já entoaria essa sigla nos jogos de futebol do Cantanhede, segundo o avançado por Octávio Sérgio) passará esse grito para os quintanistas de medicina que, em 1938, o estreiam no jardim botânico da UC, rapidamente passando a todos os cursos que, nessa queima, o cristalizam e oficializam.
 
O grito passa, então,  para diversos contextos, nomeadamente o do futebol, ouvindo-se nas partidas da "Briosa", como forma de incentivar, exteriorizar, expressar alegria ou, como no caso da crise de 1968, como lema reivindicativo e contestatário.
 
Parece provável, contudo, a ligação à ideia revolucionária até porque quando referia a parte do "Aos canhões; a rolar peças" (popularizado pela EUC), está presente esta ideia bélica que, ao que tudo aponta, se referiria ao famoso Batalhão Académico de 1808, num exercício de saudosismo histórico da participação e garra dos Estudantes de Coimbra na luta contra os exércitros napoleónicos (1ª invasão). Deste modo, tudo indica ter origem no espírito "revolucionário" que grassou em finais da década de 60 do século passado.

O jogo de vogais AEIOU poderá ser influência de um tema brasileiro conhecido.

No Porto, segundo Eduardo Coelho, o Orfeão Universitário utiliza  AEIOU Ypsilon (que provém desse famoso tema de Vera Cruz), sendo o final do «grito orfeónico», que começa por «Arri-barri-barri-bá - Bá!», etc. até «Urri-burri-burri-bu - Bu!» (em uníssono). Ao que parece, é uma forma que só o OUP utiliza.
 
Ainda uma achega sobre a forma como alguns prolongam as vogais, mais parecendo, como diz o amigo Hugo, no Blogue Tesoural Tertúlia, citando o Dr. Octávio Abrunhosa : "...parecem ovelhas a balir! (calma, calma! Ainda há-de chegar o tempo em que gritarão “I-Ó, I-Ó”)".
 
Aliqua Vs Arriquá
 

Já no que respeita ao ALIQUA, dizer que o termo original, que é um pronome indefinido, é ALIQUIS (alguém, algo, algum), embora possa assumir-se como substantivo (aliquis, aliqua, aliquid – algum, alguma, alguém, algo, alguma coisa) ou, ainda, como adjectivo (aliqui, aliqua, aliquod – algum, alguma, algo).
 
É declinado como QUIS, mas com a adição do prefixo ali-: aliquis, aliqua, aliquod, com a única diferença que, no feminino, ele faz aliqua, e não *aliquae".
 
Pessoalmente, vejo isso como uma interpelação (recurso estilístico conhecido por Apóstrofe ou invocação), na ideia de arregimentar, chamar, congregar, reunir a atenção e vontades de todos e, por isso mesmo, a que está correcta.
 

Poderá também provir do termo Aléguá, que significa radioso (ou emite raios/que brilha), expressando alegria ("Aléguá, guá, guá"), um grito já em voga, ao que parece, nas claques brasileiras do início do séc. XX, numa corruptela de "Allez! Go! Hack!" (que Olavo Paes de Barros teria entoado no estádio do São Paulo, misturando termos de vários idiomas, após um temporal ter interrompido os treinos da equipa, incentivando os jogadores).
 
Sobre a possibilidade do "Aléguá", deixamos ao leitor a seguinte transcrição:
 
"Esquecidos os vivas “à Revolução Social” e “à inconsolável viúva do padre António Vieira”, lançados e popularizados pelo Pad-Zé, sem dúvida que só o F-r-á conquistou direitos de cidade entre a Malta coimbrã.
Não será curioso, então, fixar o momento em que tal brado se radicou na Academia de Coimbra? Cremos que sim e, por isso, redigimos este apontamento.
Quando – ainda não era, sequer, morrão de candeia – comecei a assistir a desafios de futebol, ouvi, uma e muitas vezes o Ribeirinho ( capitão de equipa ), tenente dos artilheiros…capitão dos carvoeiros, lançar o clássico “hip-hurrah”.
Por essa mesma altura lembro-me de ter ouvido um outro grito que creio ter tido apenas uma vida episódica e de que recordo só a parte final: - “Carvão, meninas…”.
O “ hip-hurrah “ era, entretanto, de uso generalizado e só os rapazes da República dos Grilos utilizavam a voz do seu insecto totémico para grilarem o seu “ cri-cri, cri-cri e os bichos o erudito “ Hic, haec, hoc “ ou o “ Qui, quae, quod “.
Outros brados tiveram memória transitória ; “ala-ala-arriba”, “ Cow-boy… tau-tau-tau… Allô, sheriff “ e o do “ …pico-pico… meia-hora “ mas, como inicialmente observámos, só o “ F-r-à “ se radicou fortemente e foi alastrando de um curso para a Academia, começando a ser o brado distintivo dos desportistas académicos e dos elementos dos organismos culturais da Academia – e com eles se faz ouvir de Norte a Sul de Portugal, nos relvados, nos rinques, nas piscinas, nos teatros, nos salões de recepção e nas ruas.
 Vejamos, então, a sua origem:
 Foi em 1937 que um grupo de estudantes brasileiros estagiou em Coimbra, tendo ficado instalados nas Repúblicas então existentes. Foram, precisamente, estes rapazes que trouxeram para Coimbra o F-r-à, que, aliás, como toda a semente de planta que se preza, levou algum tempo a germinar – um ano, exactamente – mas depois se enraizou como sabemos…
Recordada a sementeira, vejamos como se deu a eclosão da planta e o jardineiro a quem se deve a obra.
 Na Queima das Fitas de 1938 os festivais realizaram-se no Jardim Botânico. Numa das noites juntou-se um grupo bastante grande que resolveu fazer pé de vento. Propostas, apreciadas e recusadas várias sugestões, fixámo-nos em duas que recolheram a unanimidade dos sufrágios: o irmos cantar às meninas uma parte de uma canção que começava pelo verso “Deixa essa triste cara…” e lançar como brado o F-r-à. O que é certo é que foi o Divaldo, que acompanhara os seus compatriotas no ano anterior e que aprendera ( e ainda bem que recordou ) o Frá, fré, fri, fró, fru ,que deu a primeira sugestão e dito e feito, após meia dúzia de ensaios iniciou-se a digressão de todos os quintanistas de Medicina presentes que formaram um cordão que cercou as moças consideradas jeitosas e… e despejaram a cantilena.
 No dia seguinte (27 de Maio) quando chegámos ao festival, à futrica, encontrámos muitos grupos, grandes e pequenos, de académicos, fitados, grelados e sem insígnias, que cantavam por todos os cantos o “ Deixa essa triste cara, em que ninguém repara…” e por todos os cantos bradava “ F-r-á, frá; f-r-é, fré;…”.
A sorte estava lançada…
 …E quanto ao “F-r-á” não se pode dizer que a sorte lhe tenha sido madrasta.
 VERSÃO ORIGINAL:
“ F-r-á… frá ; f-r-é… fré… ; f-r-i… fri ; f-r-ó… fró ; f-r-u… fru ;
“ Alêguá guá-guá ; alêguá guá-guá ; chi ri bi bi tá-tá tá-tá ; hurrá , hurrá !”
 
(Fonte: Mário Temido in “Rua Larga. Revista dos Estudantes de Coimbra")
 
 
Uma outra tese aponta para a eventual proveniência  num suposto grito crioulo, também provindo do Brasil, que se pronunciaria como "aléquá, aléquá!". A pesquisa feita ao dicionário de crioulo diosponível na Net não contempla, contudo, tal, pelo que a corruptela para "aliqua" se avera algo improvável.
 Muitos pronunciam "ARRIQUÁ", mas é erróneo, pelo já explicado. Esta expressão, de que não consigo vislumbrar significância, poderá ter surgido por um facilitismo fonético (é mais fácil de pronunciar velozmente e é mais marcado e sonante) ou por influência do grito do Orfeão do Porto que, ao invés disso, pronuncia "Arribá" (de Arriba - acima/para cima), mas, seja como for, o "arriquá" é um erro.
 
CHIRIBIRIBI-TA-TA-TA-TA
 
Já o "CHIRIBIRIBI-TA-TA-TA-TA" é, ao que tudo indica, referente a uma Marcha Carnavalesca de Victor 34.115B, interpretada pelo "Bando da Lua", gravada em novembro de 1936 e lançada em dezembro de 1936.
 Recordo que, em inícios do séc. XX, as festividades estudantis, nomeadamente os cortejos, eram conhecidos por "Carnavais de Estudantes" (ou termo similar), sendo, pois, lógico que conste do grito uma referência histórica a esse facto e que, no fundo, traduz o espírito de folia, alegria e festa.
O "Foguete" (Final)
 
Por fim, a questão do FOGUETE (Chhhhhhh....Pum/....) e dos ditos que se lhe seguem (cada qual à sua maneira e tradição) é um a introdução muito recente. O meu amigo Eduardo Coelho, "Conquistador", diz-me que na 1ª vaga de Tunas do Porto não exisitia sequer.
 
Apenas condenar os que "inventaram" o palavrão final, tal como todos os acéfalos que o reproduziram. Estudantes do Ensino Superior deveriam destacar-se, também, pela eloquência e excelência, pelo menos em público.
 No Porto, segundo Eduardo Coelho, o «foguete» sempre se usou - o que é recente é o «té-ré-ré-ré-ré» (3x) seguido de «F...-se!», que é uma invenção pós-82... e que algumas tunas «de faculdade» usarão, por influência das respectivas «praxes».
Em Suma:
 
Uma coisa é certa: não há certezas, contudo julgo que esta explicação me parece a mais provável e verossímil (ou, pelo menos, há o cuidado de argumentar nesse sentido).
É óbvio que há coisas, nisto de gritos e afins, que podem nem sequer terem sido criadas com ideia de terem sentido ou explicação, mas terem saído assim só por acaso (mesmo se acredito pouco em acasos, neste particular).
Importa, julgo eu, que as pessoas reflictam sobre isto e sobre aquilo que gritam de peito cheio, de maneira a saberem o que dizem e por que o dizem (e o cuidado em, neste aspecto, fazê-lo "secundum praxis").
Não deixa de ser curioso que parte substancial do grito seja uma importação (3 aspectos do mesmo provêm do Brasil), o que não nos menoriza, antes mostra a riqueza da nossa diáspora.
 Se virmos bem, também os emblemas que se colocam nas capas são uma importação das Tunas Espanholas, inspiradas, por sua vez, na "Moda Mochilera" dos anos 60.
Haja o cuidado, inteligência e sobriedade intelectual, isso sim, de perceber por que se faz e as origens desse fazer.
Dizia o meu amigo, e ilustre, Eduardo Coelho, que "mais grave do que a censura do Estado Novo é a actual "Censura da Ignorância".
 
 
Sábias palavras!!!







 

quarta-feira, agosto 20, 2008

Notas&Melodias vai de férias.

Chegou a hora do Notas&Melodias, também ele, fazer uma breve pausa para férias.
Um ano de intenso labor que, somado aos anteriores, constitui motivo de satisfação quer pelo gozo que dá em urdir este espaço, mas também pelo eco que tem junto dos seus "consumidores".


Quase 3 centenas de artigos e posts, e mais de 12 mil visitas por parte dos leitores - a quem agradeço a gentileza da(s) visita(s) ao blogue, justificam, mais do que orgulho e contentamento de quem aqui investe muito tempo e suor, algum descanso.


Agradecido aos amigos e aficionados que dispensam a sua preferência ao Notas&Melodias, subscrevo-me, em nome do Conselho de Administração, com os votos de umas boas férias, ou bom reinício do trabalho - conforme for o caso.

O Notas&Melodias, regressa, o mais tardar, nos primeiros dias de Setembro . Nem dá para ter saudades!!!


Abreijos!!!

domingo, julho 20, 2008

Notas sobre o Palito Métrico

...

Não devem ser poucos os que tropeçam nesta designação, mas não sabem do que se trata.
Grosso modo, aqui fica uma breve síntese do que é:

"Palito Métrico" é uma colectânea de poemas, cartas e recomendações escritas em latim macarrônico, assinado por Antonio Duarte Ferrão, pseudónimo atribuído a um presbítero secular, o padre João da Silva Rebello (1710-1790), doutor em Teologia ou Cânones pela Universidade de Coimbra.

O autor dessa obra de referência para a comunidade académica, nasceu em 1710 no Sortam, lugar da freguesia do Vimeiro, concelho de Alcobaça.

Publicado pela primeira vez em 1746, o "Palito Métrico"teve inúmeras edições e funcionou durante largas décadas como breviário das praxes académicas de Coimbra. O título, aliás, baseia-se numa praxe antiga que obrigava os caloiros a medirem determinada distância com um palito…

É, assim, o antecessor do Código da Praxe de Coimbra.

O "Palito Métrico" está inserido numa obra mais vasta denominada "Macarronea Latino-Portugueza" que, além do "Palito", contém outras obras de diversos autores, todas escritas em latim macarrónico - umas em prosa, outras em verso.



Sobre o Palito Métrico recorda João Baeta o seguinte:

"As tradições e costumes escolares fôram recolhidos no Alcorão da praxe denominado Palito Métrico.
Como a da Biblia divina e a dos sagrados Veddhas, foi respeitada por cem gerações a auctoridade dos seus preceitos.
(…)
...

E toda a arruaça, toda a desordem, lá estava o Palito Métrico a rege-Ia com o despotismo theologico dum canon.
Ali se continham sabias disposições dogmáticas, uma liturgia de respeito, desenvolvida com largueza, conselhos a novatos, regras de moralidade académica, varios poemas em latim macarronico, narrativas, elegias, apologias, todo um corpo de doutrina para que veiu contribuindo, desde o seculo XVIII a graça anonyma das gerações coimbrãs.
O Palito Metrico é o riso aberto dos rapazes de outrora, riso vingativo da férula cathedrática, uma caricatura engraçadissima do viver escolar de Coimbra, no tempo em que havia mocidade
e alegria, já desde quando a cabra e o cabrão, do alto da torre do Paço, começaram a mandar para os ares, de manhã e á noite, o aviso e a ordem para começar o estudo, as horas tristes, como se dizia no tempo de nossos avós."

Coimbra Doutora” de Hipólito Raposo (1885-1953). Coimbra: F. França Amado, 1910 - Pág. 87/89
 
 

Para mais informações, e com maior detalhe, ler: http://penedosaudade.blogspot.pt/2011/09/palito-metrico-codigo-da-praxe-ou.html
....

segunda-feira, maio 26, 2008

Notas de outrém sobre o blogue (IV)

O Notas&Melodias, desta feita referenciado pelo blogue maisK3D, com especial incidência sobre um artigo respeitante à Polifonia nas Tunas (Julho de 2007):



quarta-feira, maio 21, 2008

Notas sobre a Praxis Olissiponense (II).

Realizada que foi a Benção das Fitas na cidade universitária, em Lisboa, oferece-me lançar alguns considerandos que irão ao encontro do já dito, em anteriores artigos, sobre praxe, pasta, fitas, entre outros.

Não é a primeira vez que urdo um reparo à praxis lisboeta (daí esta 2ª Nota) e ao modo como ela é entendida e vivida, até porque, como os leitores mais atentos se recordarão, por mais que uma vez afirmei, não se poder falar propriamente de praxe, de verdadeira praxe, nesta academia, mas, desta feita, julgo que importa que os leitores alfacinhas, ainda ligados a esta vertente do exercício da cidadania académica, possam sair da sua letargia e imprimir um outro caminho, sob pena de “abandalhar”, definitivamente, o actual circo em que se tornou a praxe por estas bandas.

Este fim de semana que passou, as televisões, como é costume, deram alguma atenção à celebração da Missa dos Finalistas, com alguns canais a entrevistarem alunos em conclusão de curso. Nada de anormal, pelo contrário, neste particular (pena é não o fazerem noutras ciades). Anormal, isso sim, é o que se continua a ver e ouvir.

Saberão os académicos, os estudantes do ensino superior em que consiste a Pasta da Praxe? Não sabem, isso é um facto, bastando ter visto os simulacros de pastas abanadas com uma parafernália de fitas que mais parecia um carnaval carioca.
Saberão, estes mesmo estudantes, que as fitas a usar são em número de 8 apenas, e que existe uma ordem de colocação e atribuição das mesmas para assinar?
Não sabem, é facto, não apenas pelo que na TV se ouve (a roçar o ridículo ou o cómico por tanta ignorância junta) ou pelo que eu próprio constatei por antigos alunos meus.

Já nem vou falar, sequer, no trajar com malas e malotes de senhora, porque me dá voltas ao estômago.
O que prendeu a minha atenção foi ouvir uma finalista a explicar ao jornalista a simbologia do seu traje, símbolos, pins e afins.
Hilário e tantos outros académicos devem ter dado muitas voltas “em número ímpar”, onde quer que estejam!

Com que então, o grelo, pregado na lapela esquerda com in pin (!?!), é composto por duas fitinhas de seda?
Com que então usa-se grelo e fitas ao mesmo tempo em missa de finalistas?
Com que então a colher de café, posta na gravata é símbolo académico?
Com que então, o traje serve de uniforme militar, onde nem as golas se véem de tanta “medalha” (vulgo pins) ganha, e que se usam, principalmente, em cerimónias oficiais?
Com que então pasta comprada “na stapples” (ou equiparado), brasonada por fora com logotipo, é Pasta da Praxe?
Com que então usa-se pasta e fitas sem traje?
Com que então ela, a Pasta, só serve para transportar milhentas fitas (na moda de que é uma por cada subscritor)?

Tenham lá paciência, mas pergunto quem andou a formar, ensinar e orientar estas pessoas na praxe, porque, esses sim, são os verdadeiros culpados e hereges, num acto de vandalismo à tradição e cultura académicas sem precedente.

Não posso, em consciência, colocar o todo o ônus da culpa apenas nos finalistas e outros, porque muitos não têm culpa de quem inventou ou deixou que se inventasse tanto. Tenho pena, apenas, que a classe estudantil seja tão pouco esclarecida e desconhecedora das práticas e regras, da sua história e significado, para a viverem de forma mais consciente e crítica.
Onde estão os responsáveis, os veteranos, conselhos de praxe Dux e afins?
Que formação, idoneidade e competência têm para assumir essas funções?
Se não são solução, são parte, ou a grande parte, do problema e, por isso, como dizia uma colega minha, “quem não tem competência, não se estabelece”!
Se a cidade é incapaz de se colocar sob os auspícios de um organismo inter-academico, em termos de coordenação da praxe, pelo menos que cada instituição prime pela excelência em termos de praxis, de modo a evitar-se aquele ajuntamento que mais não é do que uma passerelle vergonhosa daquilo que ainda têm a distinta lata de chamar de praxe.

Desculpem o tom mais azedo, mas nestas coisas, entenda-se, de uma vez por todas, que não há meias medidas: ou é ou não é.
Diz o chavão que “Dura Praxis sed Praxis”, máxima que muitos, tolhidos intelectualmente, apenas ligam ao ritual de acolhimento dos caloiros, quando o significado se prende muito mais com a forma de se ser e estar, pois a praxe não é dura (como já o foi em tempos remotos), mas é firme, séria, primando pelo rigor. Esse é o sentido de Dura Praxis, reforçada pela adversativa “Sed Praxis” - nesse tal sentido de que não tem outra forma de o ser (porque, quando não, passa a outra coisa qualquer).

Não quero, com este artigo, deitar qualquer bréu sobre a festividade da Missa dos Finalistas – longe mim!
O facto de finalizar um curso, o estatuto de finalistas é motivo de gaúdio, júbilo, de festa rija e, numa época tão competitiva, de conjunctura económica e social tão apertada, temos mais é que dar os parabéns a toda esta gente, mesmo se paira no ar a incerteza de um futuro tão risonho quantodesejado, para a maioria deles, no mercado e trabalho.

Mas se, naturalmente, nos associamos à alegria daqueles que obtêm, após tanto esforço, o merecido canudo, tal não nos deve coibir de apontar o dedo e repudiar tudo quanto é perpetrado em nome da praxe e da tradição. ou desculpado só porque é festa!

Se certos senhores que se dizem “praxistas” (expressão que erradamente é tida como o acto de praxar) tivessem, isso sim, a lucidez de pensar em informar-se e formar-se, para depois informar e formar os outros (em vez de andarem a perseguir caloiros e em festiolas etílicas – resumindo nisso a sua acção), quem sabe as coisas não tivessem chegado a esse ponto.
É que certos indivíduos ainda não passaram da pré-primária da praxis, por isso só ainda sabem pintar e fazer desenhos nos caloiros ou brincar ao “faz de conta”.

A Praxe Académica, sua cultura e tradição, não é assunto de enclaves, mas diz respeito a todos, porque a praxe é um património nosso. E não falo, obviamente, dos pequenos aspectos que vão diferindo de instituição para instituição, sem se perder o essencial.
Neste caso, sobre capa e batina, pasta da praxe, grelo, fitas………. não há cá lugar a modas ou invenções, não há cá lugar a “praxe à moda de Lisboa” (ou qualquer outra localidade)!

Fica o reparo e o alerta, que espero possam servir de repto às forças vivas e sérias da academia lisboeta (muitos também ligados ao mester tunante), no intuito dela poder encetar uma mudança profícua que a dignifique, enquanto tal.

Os ditos líderes da praxe, responsáveis pela aplicação e respeito dos usos e costumes universitários, se não sabem, não podem ou não querem, que se demitam e possam dar lugar a quem assuma essa função com elevação, excelência, conhecimento e saber sobre praxe, para que lhe restituam todo o seu brilho e carisma, toda a sua significância (e possa assim ser vivida por todos).


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quinta-feira, maio 15, 2008

Notas de outrém sobre o blogue (III)

O Notas&Melodias continua a suscitar interesse em terras vizinhas, desta feita no losmermes's Fotolog:
Link directo: http://www.fotolog.com/losmermes

quarta-feira, maio 14, 2008

Notas sobre o VIII Centenário da Universidade de Salamanca

A perfazer oito séculos de existência, a Universidade de Salamanca, numa visão verdadeiramente universal ("Universitas"), abriu, e pediu, em colasboração com o M.I.E., a participação de todos os interessados, "urbi et orbi", para contribuírem com ideias e/ou materiais, no intuito de se cumprir o desejo de criar, em termos físicos, o Museu Internacional do Estudante, com especial incidência, neste apartado, sobre a história (e as muitas "estórias") desta distinta e secular instituição de ensino.

Nesse intuito, foi criado um site que dará cobertura ao evento e será a porta de entrada para todos quantos queiram, e possam, dar o seu contributo: http://centenario.usal.es/ , através de sugestões e mensagens diversas.

É possível votar em opiniões e sugestões já dadas, bem como sugerir outras: http://centenario.usal.es/index.php?option=com_content&task=view&id=59&Itemid=26 .

Uma iniciativa muito válida, numa altura onde a preservação e promoção da memória colectiva, dos valores da tradição académica, sua praxis e cultura, têm sido pouco estimados, respeitados e vividos, de facto.

Espero que tal possa sensibilizar a nossa massa estudantil e tunante para o dever de defender o seu património histórico, cultura e praxis académica/tunante, ao invés da contínua delapidação, abandono e desrespeito a que tem sido sujeitas por uma certa facção neo-inventora.

Parabéns ao amigo Tachi e a toda a equipa que leva por diante este projecto de cariz verdadeiramente universal.

Parabéns, obviamente, à Universidade de Salamanca por tudo quanto significa para a tradição universitária de ambos os lados da fronteira.

terça-feira, maio 13, 2008

Notas de outrém sobre o blogue (II)

O Notas&Melodias despertou a atenção do fórum TUNOS.COM (Fórum espanhol de cariz internacional sobre o fenómeno tunante):


Link directo para o tópico sobre o Notas&Melodias: http://www.tunos.com/foro/index.php?act=ST&f=7&t=6229&s=cbcf56adea45fde41612f6f4dbeb7031

domingo, maio 11, 2008

Notas sobre o Barrete do Traje Académico

"Bonete"

Exemplo do Barrete Redondo (Coimbra), ou "Bonete Redondo de Cuatro Picos" (Salamanca, Valladolid) usado por estudantes e lentes das universidades históricas da Península Ibérica, referido em estatutos universitários, literatura académica vária e iconografia, pelo menos desde o século XVI.
Os estudantes usavam-no em preto, sem cristas (estas mais comuns nos barretes quadrados), aplicando-lhe na parte superior central da copa uma borla curta ou pompom. Os lentes, conforme o grau académico, mantinham a base preta, mas aumentavam o tamanho da borla caso fossem bacharéis, licenciados, mestres ou doutores. As
borlas franjadas mais longas, a cair em cascata para a base do barrete, eram as doutorais. No auge do aparato permitiam a exibição de cores correspondentes a várias ciências.
Em Coimbra, este barrete foi mantido como uma das variantes do chapéu doutoral até à entrada do século XVIII, mas com a peculiaridade de os franjados atarracharem superiormente num florão de madeira forrado de passamanaria, ornato que se foi alteando a tal ponto que nas borlas redondas de Teologia da segunda metade do século XVII passou de florão médio a pega de tipo borla de reposteiro.
Este barrete deixou de usar-se em Coimbra desde o reinado de D. João V, tendo os estudantes abandonado o chapéu de alguidar (sombrero), o barrete redondo e o barrete quadrado em favor do vulgar gorro de pano dos estudantes sopistas e manteístas (num período em que se asseverava praticamente impossível conciliar o gorro em forma de manga com as cabeleiras postiças).
Em Salamanca, desde o último quartel do século XVIII que o "bonete" foi perdendo território para o tricórnio e para o bicórnio napoleónico de feltro preto. Nos anos de 1834-1835 o antigo traje académico estudantil espanhol foi oficialmente abolido, e com ele se perdeu o "bonete". A título de curiosidade, refira-se um exemplar avistado num elemento da Tuna Universitária de Santiago de Compostela pelo ano de 1993.
Em 1850 o governo espanhol aboliu os antigos trajes e insígnias dos docentes universitários, impondo como traje à escala nacional a toga preta de advogado, e a título de insígnias, o barrete preto de advogado revestido de borla compacta e franjados (praticamente idêntico ao dos advogados portugueses e membros do corpo docente da antiga Escola Médico-Cirúrgica do Porto). Em tempos de abolicionismo e de laicização, com os intelectuais universitários a oscilarem entre o paradigma vestimentário judiciário e a voga franco-napoleónica da casaca bordada/bicórnio/espada, o governo espanhol apenas autorizou reter do passado o anel doutoral e o capelo de capuz longo (muceta).


Texto retirado do blogue Virtual Memories

terça-feira, maio 06, 2008

Notas sobre o que queima a Queima

Época de loucura e exageros. É o momento que se vive um pouco por todo o país com as Queimas no seu auge.
Os estudantes soltam amarras e vêm para a rua festejar, mesmo que, ainda, antecipadamente, o final de mais um ano lectivo e, para alguns, o final dos seus estudos superiores.
É época de festa e, de facto, há motivos para festejar: a economia do país está em alta, o poder de compra está forte, as saídas profissionais estão descongestionadas e a sociedade vai ser capaz de absorver mais uns milhares de licenciados (nem que seja nuns biscates no Lidl, Continente ou afins)!!!!

É tradição, a tradição secular que manda, mas questiono-me sobre o modo como as queimas são, hoje em dia, percepcionadas e vividas. Época propícia à reivindicação, inconformismo e manifestação, acabamos por perceber que esta juventude está mais preocupada em divertir-se, beber até cair e exagerar no “carpe diem”, ao invés de, também, fazer destes eventos uma forma de contestar a actual situação em que vivemos e que, no caso destes, muito os irá afectar quando saírem para o mercado de trabalho (mesmo que com grandes médias).

Pegando na ideia do Ricardo Tavares, se antes existia uma forte identidade corporativista, que defendia o interesse dos estudantes, traduzido no F.R.A. (Frente Revolucionária Académica), onde a luta se fazia para preservar a cultura e tradição académica do aproveitamento político que delas queriam fazer os governantes, hoje em dia parecem-me os estudantes mais tolhidos intelectualmente – incapazes de perceber o aproveitamento que deles se faz, subordinado ao interesse económico.

Não posso aceitar que a tradição e praxis académica sejam, actualmente (e desde há uns anos a esta parte) movidas pelo quase exclusivo interesse económico. A praxe comercializou-se quase totalmente, obedecendo já não aos seus próprios preceitos, mas à programação dos investidores e organizadores de mega-eventos a metro, mais direccionados para um público anónimo do que para os estudantes, de facto.

No meio disto, dizer, pois, que a Queima é, infelizmente, um evento já não para estudantes, mas onde estes são uma parte menorizada, uma desculpa para atingir outro público mais vasto, para atingir metas financeiras e lucrar à custa daquilo que dizem ser uma festa académica.

Qual a posição dos organismo de praxe, dos Conselhos de Veteranos, daqueles que devem assumir a primeira linha de defesa e preservação da cultura e tradição?
Pelo que vamos vendo, a sua ausência, e comprometedor silêncio, parecem estar argumentados no já comum aliciamento destes, num acto que roça o “suborno”, onde os responsáveis pela praxe recebem regalias por parte das organizações (bilhetes à borla, livre-trânsitos - isto quando não são directamente remunerados) para se arregimentarem do lado do interesse comercial e económico em que se travestiram as Queimas. Parece ser assim, pelo menos assim dá a entender este crescente desvirtuar da Semana Académica, onde os actos puramente praxísticos são uma gota de água no oceano da programação e oferta deste eventos ditos académicos.

Nisto tudo, bem que é de perguntar para que servem as tais Federações Académicas. Pouco mais lhe vejo trabalho do que a organização da Semana do Caloiro e Queima das Fitas, resumidas unicamente ao papel de "fazedores de eventos", empresas especializadas em festas.
O carácter abengado e a gratuidade já eram há muito, obviamente.
Se isso é defender o interesse dos estudantes, se isso é associativismo estudantil....vou ali e já venho!

A Queima é, hoje em dia, um evento já não para o estudante, como alvo, mas para a cidade ou o país, onde importa é lucrar e ter casa cheia, onde os concertos XPTO e as discotecas foram abafando as expressões mais simples (mas mais genuínas) da vivência académica.

A população universitária, essa, levada por uma certa ignorância e alheamento, assume o papel de populaça anónima (mesmo se muitos, nessa altura, assumem, pontualmente para "inglês ver", o papel de académicos e tiram, finalmente, o traje do armário), na onda de uma cultura pimba onde “Maria vai com as outras” e importa mais parecer do que ser.

A falta de intervenção por parte dos organismos de praxe, na promoção de eventos que formem e unam os estudantes em torno da sua cultura e tradição, leva a que essa mesma cultura e tradição sejam, gradualmente, substituídas por manifestações que nada têm a ver com praxe. Aliás, basta ver o afunilado entendimento geral que se tem de praxe, sendo assustadora a ignorância que os própriso estudantes têm desta, do seu significado e vivência.

A Queima é, também, hoje em dia, olhada como uma competição, onde importa é fazer melhor que a Queima da academia X, Y ou Z, gastando fortunas (e mesmo assim lucrando) que tanta falta fazem a outras actividades e grupos académicos, chegando mesmo a haver uma espécie de espionagem inter-cidades para calendarizar as datas dos eventos nos melhores dias.

É a era do Queimódromo, onde tudo se concentra, abandonando as ruas e as praças, tudo para satisfazer as necessidades dos grandes concertos e das multidões que pouco se importam com o que se está a festejar e se estão borrifando para a tradição.

Não estou contra os concertos, pois há que ir ao encontro dos gostos dos estudantes, mas enoja-me ver cartazes onde ¾ dos mesmos são concertos e onde as actividades realmente académicas quase passam despercebidas. Revolta-me ver que as programações visam o grande público e não os estudantes em si, relegando-os para segundo plano, reduzindo-os e servindo-se deles e da tradição como desculpa para fazer dinheiro, delapidando a praxe e colocando no fundo da hierarquia de prioridades, as actividades de foro estudantil e académico.

Lamento que os nossos jovens, que os organismos que regem a praxe, se fiquem, se calem e sejam cúmplices deste atentado às nossas tradições. Lamento que não haja quem tenha coragem para dizer “Basta!” e assuma a necessidade de devolver aos estudantes a sua festa, a sua Queima, mesmo que isso signifique uma simplificação programática e o deixar de encaixar umas milenas de euros (que só favorecem os organizadores e raramente quem precisa par a investir no que é, realmente, importante).

Nunca vi uma geração tão passiva e acomodada, tão pouco reivindicativa e desprovida grandes causas por que lutar - o que não auspicia nada de bom e não abona a favor da futura elite e quadros superiores do país!

sábado, abril 05, 2008

Notas sobre Coimbra Orfeon of Portugal

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O sempre atento, e grande estudioso do Fado e Canção de Coimbra, Octávio Sérgio, não perde, nunca (e bem) a oportunidade de nos trazer tesouros históricos e culturais, quer ligados a Coimbra, quer outros de relevo.
Tomei a liberdade de plagiar, repetindo a mesma informaçao que colocou no seu soberbo blogue, em 2 de Abril de 2008.



COIMBRA ORFEON of PORTUGAL
Monitor, U.S.A., MP 596, 1962


Serenata Açoriana (J. M. Sequeira)In
ParasceveMinha Mãe (José Afonso)
Sonhando (Raposo Marques)
Fado da MentiraRapsódia Luso – Brasileira (Raposo Marques)
Melodia de Amor (Rui Coelho)
É tão Lindo o teu Olhar
O vosso Galo, Comadre! (Canção Popular Galega)
Balada Aleixo
Hallelujah (Messias de Handel)
Balada da Saudade
A Oliveira da Serra
FRA (Grito de aclamação da Univeridade de Coimbra)



Intérpretes:

Orfeon, sob a regência de Raposo Marques
Sousa Pereira, Barros Madeira e Sutil Roque (fados)
Zeca Afonso (baladas)
Jorge Tuna e Jorge Godinho (guitarra)
José Niza e Durval Moreirinhas (viola)


Este disco foi reeditado em 1991 e em 2001 pela Ovação OV – CD – 012.
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sexta-feira, fevereiro 29, 2008

Notas sobre o Museu Internacional do Estudante

Uma iniciativa de relevo para a comunidade académica em geral, e tunante em particular.
Vale a pena a visita a este Museo Internacional del Estudiante, sob direcção do amigo Roberto Martínez del Río (presente no IV ENT de Viseu - 2006), dado a grandeza e alcance do mesmo.
Colabora, também, neste projecto, uma Equipa Lusa para além de conceituados investigadores espanhóis e sul-americanos.

Para apresentar este projecto, nada melhor do que transcrever:

El Museo Internacional del Estudiante que se pretende crear viene avalado por un notabilísimo fondo documental y expositivo existente al respecto.La inestimable aportación que supondrán sus fondos situará a al Museo en la vanguardia de los estudios relacionados con este campo, ya que se trata de un proyecto de carácter único dentro y fuera de nuestras fronteras.El desarrollo del área museística servirá de referencia, consulta, difusión, estudio e investigación de la historia de las universidades, abarcando el periodo comprendido desde la creación de los primeros estudios hasta nuestros días. Por otro lado, un espacio dedicado a la exposición permitirá al visitante disfrutar del rico y extenso legado que han dejado los estudiantes, a la vez que servirá de medio de financiación para el proyecto.La universidad es la cuna de las tradiciones estudiantiles españolas. No obstante, en los albores del nuevo milenio, no existe ningún lugar en el mundo donde se de cabida a tantos siglos de avatares. El paso del tiempo ha condenado al olvido o ha provocado la pérdida de piezas insustituibles que habrían ayudado a comprender mejor la magnitud de este colectivo. En los últimos años, se han realizado estudios relacionados con la vida estudiantil encaminados a conocer nuestro pasado y tradición, pero continúa pendiente una deuda histórica hacia todos esos estudiantes anónimos que han sido la vida y el motor económico de las ciudades universitarias.La situación actual es la idónea para abordar la creación de este Museo, ya que la colección dispone de un amplio fondo para su puesta en marcha. No se debe desaprovechar la oportunidad de abanderar los actos que han de conmemorar el octavo centenario de la universidad española.La creación del Museo Internacional del Estudiante está acreditada por importantes investigadores y coleccionistas de este tema existentes en la actualidad. La aportación que realizarían en cuanto a material documental y expositivo es inestimable. Esto contribuiría a la calidad óptima del Museo para su puesta en marcha y posterior desarrollo.La exposición y custodia de los fondos, requerirá de un espacio cercano a los 1500 metros cuadrados. La mayor parte estaría destinada a la sala expositiva, aunque es necesario disponer de zonas destinadas a almacén, investigación, consulta y biblioteca.

Um projecto que está a dar os primeiros passos, pelo que ainda sujeito a um trabalho laborioso para que todos os materiais possam estar disponíveis, para além de se esperarem mais documentos, estudos e outros contributos que irão enriquecer, gradualmente, o espólio deste museu ímpar e, até à data, único.

terça-feira, novembro 13, 2007

Notas sobre uma execrável desafinação!

Para ser coerente com a linha editorial a que me propus, e com a postura que sempre adoptei na vida, terei, também aqui, de usar este espaço, também dedicado a Tunas, de facto, para fazer referência a algo que, de todo, o não é, denunciando o travestir e a pretensa legitimidade de uma coisa que se apelida de tuna, mas mais não é do que a caricatura disforme de uma dantesca figura camaleónica.


Se as sapatilhas da Cartola fizeram correr muita tinta, talvez pela projecção que a mesma tem, e pelo percurso conforme que sempre teve, antes de "virar o bico ao prego" (e não falo exclusivamente da bota), este grupo de pseudo-tunos, consegue ultrapassar, em muito, o até aqui conseguido.


Já dele tinha ouvido falar, ou melhor: ouvira falar sobre o exisitir um traje assim num instituto qualquer, mas hoje podemos tecer considerandos de forma mais explícita, dado que, também estes, fazem questão de ostentar essa coisa a que chamam Traje Académico, através de fotos, em blogue próprio e de acesso ao público em geral!




Estes........ (faltam-me as palavras) são uns tais que se auto-intitulam de A Tuna Académica do IADE (Instituto Superior de Artes Visuais, Design e Marketing) e usam, segunda consta, o traje em vigor lá pelas bandas da sua instituição de ensino.


Obviamente que estes senhores precisavam de cursar algumas cadeiras de história e, quiçá, de uma qualquer terapia que remediasse tamanha ignorância, descaramento e estupidez.


O que estes tais ousam fazer não nada menos que delapidar e atentar aos nossos valores e património académico, ousando misturar uma peça de origem anglo-saxónica (da Escócia, para ser mais preciso), o Kilt, com uma camisa branca, colete e gravata, "roubados" à capa e batina, ao traje nacional, e colocando uma capa preta pelos ombros.

Como saberão os leitores, o traje académico existe para distinguir o foro académico dos demais mesteres. Desde logo por isso é que, por exemplo, a incorporação de  peças do folclore e etnografia regional, onde a figura do estudante é inexistente, se afigura um paradoxo. Com efeito, o Traje Académico é um traje corporativista (uniforme estudantil), e não pano identitário de uma localidade ou de uma actividade agrícola, piscatória ou outra que não a estritamente expressiva da condição de estudante (figura inexistente na etnografia e folclore).
Mas o Kilt nem sequer é isso que acima se descreve. Nem sequer vai beber a qualquer tradição etnográfica portuguesa. Esse "traje" o que faz, é desmembrar o Traje Nacional (desde logo um desrespeito enorme) e costurar-lhe peças escocesas que, por sua vez, nada têm a ver, no país de origem, com estudantes - recordemos que a Escócia não tem traje universitário e que o Kilt em nenhum momento é próprio de estudos, antes um traje etnográfico próprio de uma geografia que nada, mesmo nada, tem a ver connosco.
Assim sendo, essa importação é, ela própria, um atentado cultural, pois também faz do traje escocês uma espécie de "rodízio", onde se escolheu o que se achou giro, travestindo o próprio significado do traje anglo-saxónico.
Esse McTraje é, por isso, uma roupagem que nem é o traje etnográfico escocês, nem o traje académico nacional. É uma aberração folclórica digna de um carnaval circense, sem qualquer credibilidade ou fundamentação histórica.


Sacrilégio gritariam muitos a dar cambalhotas no túmulo, disso não duvido, tal como, pessoalmente, me dá uma nausea ignara e abjecta ao olhar para esta..........."coisa".

Só mesmo nesta Lisboa, que já não é de outras eras, pois estou certo que, noutras urbes (e estou a lembrar-me da Invicta, por exemplo), até a antiga polícia académica ressurgiria das brumas.


É pacífico, mesmo se não consensual, as indumentárias equiparadas ou semelhantes às dos nossos vizinhos espanhóis (e de que temos exemplos vários cá em Portugal), até porque neles inspirados e/ou com eles partilhando muitos laços históricos, culturais e sociais, mas fazer a importação do Highlander Connor ou Duncan McLeod, só porque um qualquer afecto ao filme/série "The Immortal" achou piada e pensou ser isso criatividade e arte........deixem-me que me vire pró lado e regurgite o meu jantar.


Não posso crer que seja por ignorância em alunos que cursam o ensino superior, ou então alguma coisa não está bem na exigência colocada para se militar nessa instituição, pois que mesmo o mais néscio saberia ter o discernimento e aplicar algum bom-senso em questões de praxis e tradição no que respeita ao Traje Académico e à Tuna Portuguesa (seja ela popular, ou de cariz estudantil), não perpetrando tamanha heresia escatológica.


Deixem-me o direito à indignação, depois ao riso e, finalmente, ao gozo.
Compreendam que,  perante esses preparos e vil ataque à cultura escocesa e portuguesa, a última coisa que tal indumentária me merece é respeito e consideração. Isso não é Tradição nem tem fundamentação em nenhum acultura estudantil portuguesa ou seja de que país for.
A instituição merece-mo, muitos dos seus alunos também, mas a decisão de tal, a argumentação e a configuração desse suposto traje...............nenhum.


Como diz o reclame, mas eu incuto-lhe um tom sarcástico e irónico: "Há coisas fantásticas, não há?"


Nota de 25 -11-2007: A pedido do Ensaiador do grupo em questão, Júlio Martins, que solicitava o retirar das fotos, decidi manter as mesmas, mas tapando a cara dos intervenientes para, assim, as pessoas fotografadas não serem personalizadas ou "coladas" com os juízos de valor tecidos sobre os alunos e membros do grupo musical em questão (preocupação do Senhor Júlio Martins que compreendo).

As fotos constantes neste artigo foram retiradas do blogue da TAI.

quinta-feira, outubro 25, 2007

Notas sobre III Congresso Nacional da Tradição Académica

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III Congresso Nacional da Tradição Académica

Após o sucesso do I congresso em Évora, o Magnum Consillium Veteranum da Universidade do Porto, respondendo ao repto lançado, prontamente se empenhou e organizou distintamente o II Congresso Nacional da Tradição Académica.

O III Congresso Nacional da Tradição Académica pretende por isso, continuar o debate iniciado nos I e II congressos, englobando, desta feita, todos os agentes que participam na “Tradição Académica”, não estando limitado apenas aos órgãos que a coordenam e regem.O Conselho de Notáveis da Universidade de Évora vem por este meio convidar todos aqueles que perpetuam a Tradição Académica a participar no III Congresso Nacional da Tradição Académica.


PROGRAMA:

Dia 1 de Novembro - Quinta-feira

Dia da Universidade e da Abertura Solene das Aulas
- Empossamento dos Novos membros do Conselho de Notáveis da Universidade de Évora
- "Capamento"
- "Chocalhada"
- "Largada dos Sapatos"


Dia 2 de Novembro - Sexta-feira


14:00 - Sessão de Abertura

* Magnifico Reitor da Universidade de Évora
* Drª Renata Amaro
* Representante do Governo Civil
* Membro do Conselho de Notáveis

15:00
- Conferência: "Cegarrega e o Conselho de Notáveis – 20 anos"
* Moderador: Membro do Conselho de Notáveis
* Dr. Manuel Cabeça (Notável fundador)
* Prof. José Rafael (Notável fundador)
* Luís Matos (Membro actual do Conselho)

16:00
- Coffee Break

17:30
- Conferência: "O traje académico - Origens e Evolução"
* Moderador: Membro do Conselho de Notáveis
* Prof. Doutor Armando Carvalho Homem (Universidade do Porto)
* Membros das academias de Coimbra, Aveiro e Minho


Dia 3 de Novembro - Sábado


14:00
- Conferência: "A tradição académica e a cidade"
* Moderador: Vasco da Câmara Pereira (Ex "Geraldo ou Geraldes sem Pressa")
* Prof. Doutor Manuel Ferreira Patrício (Ex - Magnifico Reitor da Universidade de Évora)

15:00
- Conferência: "As Tunas Académicas como vivência da tradição"
* Moderador: Membro do Conselho de Notáveis
* Membro da Tuna Académica da Universidade de Évora (T.A.U.E)
* Membro da Tuna Feminina da Universidade de Évora (T.A.F.U.E)
* Membro do Grupo Académico Seistetos (G.A.S)
* Membro da Tuna Académica de Évora (T.A.E)
* Membro da Tuna Universitária do Instituto Superior Técnico (T.U.I.S.T.)
* Membro da Tuna Universitário do Porto (T.U.P)
* Membro da Estudantina de Coimbra


16:00
- Coffee Break

16:30
- Conferência: "Tradição Académica – Perspectivas Várias"
* Prof. Doutor Aníbal Frias (Universidade da Sorbonne - Paris)
* Luís Filipe Borges (Apresentador)
* Caloiro da Universidade de Évora

17:30
- Conferência: "Processo de Bolonha e o futuro da Tradição Académica"
* Moderador: Prof. Bravo Nico (deputado)
*Membros das academias de Évora, Coimbra, Porto, Minho, Aveiro, Covilhã, Vila Real e Madeira

18:30
- Sessão de Encerramento
* Magnifico Reitor da Universidade de Évora
* Membro do Conselho de Notáveis

Contacto para mais informações: 962730354

terça-feira, outubro 02, 2007

Notas de cor sobre a Capa e Batina

Porque me foi pedida essa informação, e também porque acabei por perceber que não havia dados sobre o assunto, escreverei breves linhas sobre a razão de ser da cor negra do traje académico.

Antes de responder, farei uns breves considerandos para contextualizar, aproveitando para desfazer o mito do "traje comunista", utopia de uma só classe.
Como muitos saberão, certamente, a "capa e batina" não tem origem nas lobas, sotainas e batinas do clero, mas em vestes burguesas que vieram substituir ou sobrepor-se à "abatina", numa clara tentativa progressista e anti-clerical iniciada na década de 80 do séc. XIX.
Ao contrário do que muitos pensam, e apregoam à boca cheia, a capa e batina, como traje académico, não foi instituída para criar qualquer paridade ou igualdade entre os universitários (entre pobres e abastados). VER AQUI
O argumento de que o traje serve para esbater as diferenças sociais não podia estar mais errado.

Se o traje talar assumia feições de "uniforme" para diferenciar os estudantes das demais classes sociais, para identificar o foro académico que reclamava, para si, o direito de ser uma classe à parte (vincadamente diferenciada da dos artesãos, juristas, comerciantes, médicos, etc.), a Capa e Batina deu seguimento a essa identitária diferenciação, servindo, para identificar o estudante português.
Assim, o traje académico foi a componente visível do estabelecer de uma identidade que se queria demarcada e prontamente identificada, não sendo confundida com nenhuma outra classe, profissão ou mester.

Eis a razão do traje.

Dizer que foi para tornar todos iguais é uma patetice, já que, até à nossa história recente, os que cursavam a universidade vestiam conforme a sua condição (daí haverem panos melhores, mais berloques nuns, cores diferenciadas noutros, etc.), variando inclusive o tipo de traje em certas instituições (Agrária, em Coimbra, que sempre teve traje diferenciado, por exemplo).
E se recuarmos aos modelos anteriores á abatina, então encontramos trajes com outras cores, como o castanho, o cinzento, ou até o branco, conforme a indumentária em vigor nas ordens religiosas e segundo o grau hierárquicos dos clérigos que frequentavam os estudos gerais.

Quando se fala em traje académico que veio tornar todos iguais, isso é tão somente um consequência (recente, até), possível quando o traje se fixou com um padrão definitivo trazido pela produção em linha por parte das fábricas de confecção, pois que é de La Palisse que quando todos trajam igual não haja diferenças, mas isso é descobrir o óbvio.....a posteriori.


E a cor do traje?
Por que razão o preto?

Tem razão de ser a pergunta, porque a resposta não se encontra nos muitos estudos evolutivos do traje ou discertações sobre a origem do mesmo que pululam na net, em sites "especializados" sobre praxe ou traje (eu, pelo menos, nunca encontrei, diga-se).
Fica, aqui, em 1ª mão na Internet (pelo menos), essa explicação, convindo salientar que nem sempre os trajes estudantis foram pretos, convivendo com estes, nomeadamente, os de cor castanha.

Antigamente a "abatina" (de que derivará o termo "batina"), com origem em França e Itália, era usada  por padres e sacerdotes da Igreja Católica para que eles fossem reconhecidos como tais, uma norma que foi abolida (abolição da obrigatoriedade) no Concílio Vaticano II.
A "abatina" era conjunto de capa e túnica (talar) dos abades seculares de França ou de Itália, com vestido de seda negra, capa curta, volta singela e cabeleira pequena.
O preto, que tingia suas vestes, representa o luto, ou seja o desapego do sacerdote pela vida mundana (morrendo para o material, para o mundo "carnal"), para se dedicar a Deus e ao bem comum. Assume carácter simbólico de renúncia e de missão, de entrada num novo estrato social, num novo ministério.

Assim, o preto, que também simboliza, quando brilhante, nobreza, distinção, elegância e masculinidade, acabou por se manter, obviamente, no "paramento académico", não em razão do significado eclesiástico da "abatina", mas pela ideia de dignidade que a cor empresta, para além do cariz pragmático de uma cor que fica bem em qualquer ocasião, além de se sujar menos.
Bastará anuir que a quase totalidade dos que trajam não sabem a razão da cor preta, colando-lhe interpretações várias, muito romanceadas mas imprecisas.

É certo que, romanticamente, poderão muitos doutos emprestar-lhe novas significações e simbologias, como a ideia de noite, de mistério, de fuga, disfarce/camuflagem ou vadiagem, que podem associar-se ao noctívago e boémio estudante ou à arte de "correr la tuna"e .......... correr saias (e/ou fugir de algum pai ou irmão mais "ultrajado"), mas uma coisa são os mitos romanceados e outra são os factos.

Eis, pois, a razão de ser da cor preta nos nossos trajes académicos que, apesar de terem preterido o modelo da "abatina" (um modelo que diferia da dos lentes, que era talar, por ser mais subida) por um modelo laico (na definitiva separação escolar entre Igreja e Estado), mantiveram a cor, emprestando-lhe ou substituindo a significância clerical por uma mais civil, mais assente na etiqueta e no ideário do preto como cor solene, tida como mais em linha com a ideia acima referida de porte formal, de sentido prático (que fica bem em qualquer ocasião), de vantagem em se sujar menos.

Notas sobre o Colete....de forças!

Noticiado recentemente, através, nomeadamente, da TV, parece que, lá pelos lados do Mondego, se vive uma situação assaz insóltia sobre as incidências da revisão do Código da Praxe e o traje feminino.
Em idos de 2001, foi dada a opção das senhoras usarem colete por baixo do casaco. Seja por que razão for, o uso, apenas opcional, disseminou-se por toda a academia, passando colete a entrar com naturalidade, como peça do vestuário feminino do Traje Académico.
Não era obrigatório, mas era permitido, daí que, com mais ou menos pressões comerciais, passou a ser peça presente na venda do traje.


Ora, parece que a opção dada foi AGORA revogada e que a nova revisão do código conimbricense proíbe determinantemente o uso do dito colete pelas senhoras.

Dura praxis sed praxis, diríamos nós. O Conselho de Veteranos legislou, e decidiu, e em matéria de praxe as decisões decretadas, por aquele que é o órgão máximo da praxe, são lei.

Contudo, tal não implica que seja uma decisão correcta. Pessoalmente, julgo que não é, de todo, o caso, muito menos os motivos aludidos que empalidecem que os proferiu.

Antes de mais, deveria ter sido salvaguardado o caso da retroactividade da lei, não penalizando quem já usa o dito colete ou ou adquiriu, até à aprovação das alterações à lei.
As novas disposições deveriam entrar em vigor para todos aqueles (aquelas, neste caso) que, posteriormente à mesma, viessem a trajar.
Neste aspecto, parece que a decisão não foi "coerente".

Quanto às razões evocadas pelo Dux-Veteranorum da academica de Coimbra, parecem-me mal urdidas e amanhadas, e os argumentos apenas provam incompetência e falta de saber.
Justificar o colete como sendo peça de vestuário tipicamente masculina, quando actualmente a calça (que sempre o foi) é de uso comum em ambos os sexos, parece-me ser mais machismo do que tradição (nós, homens, que até já usámos longos vestidos na idade média).


Parece-me que o Dux-Veteranorum de Coimbra precisa de rever os seus apontamentos sobre traje e etnografia, já que o colete é peça do vestuário feminino há muito tempo (apresentando-se, também em alguns casos, sob a forma de corpete) e em muitos locais do país (e estrangeiro). Basta dar o exemplo do trajo de trabalho das mulheres de Espinho, do colete vermelho das senhoras da Póvoa do Varzim, da lavradeira do Minho, só para citar alguns.

É pois, muito pouco consentâneo ouvir afirmações desse tipo em directo para a televisão. Todo e qualquer pessoa minimamente conhecedora de folclore, por exemplo, já para não dizer de história ou etnografia (ou de praxe), certamente que se levanta da cadeira perante tais argumentos.
Para um líder de uma cademia de referência, a nossa Alma Mater, fica uma pálida imagem da qualidade e competências que assitem a quem deve ser um exemplo de excelência no conhecimento das matérias que tem por função promover, preservar e orientar.

O colete não retira a feminilidade das mulheres - quando até é uma peça que usualmente se usa debaixo da batina/casaca, e muito menos em que é que tal possa atentar à tradição, principalmente depois da "abertura", velada de opcional, dada em 2001.
Este tipo de avanço e retrocesso, a jeitos de "experiência piloto" é um tiro no pé e um hino à falta de ideias e bom-senso de quem preside aos destinos da Praxe.

Por outro lado, o uso do colete beneficia, até, o porte e postura, evitando que as batinas pareçam árvores de Natal ou oficiais soviéticos, de tantos p'ins que levam nas lapelas (há quem nem se dê conta do ridículo dessa ostentação desbragada), passando os ditos "coisos" para um local mais discreto: o colete.
Não é o caso em Coimbra, mas a sua utilidade provou-se noutras academias, também para o caso dos pins.

Assim, em momentos ou eventos de maior cerimónia, basta fechar/abotoar a casaca ou batina e fica-se com um aspecto mais condigno, formal e aprumado, secundum praxis.
Na minha academia (de praxis baseada na de Coimbra), aquando da revisão do código (1998/99), foi introduzido o colete no traje feminino, algo que trouxe maior comodidade às senhoras (menos expostas fisicamente, e com local onde porem, para as mais "vaidosas" os p'ins).
Tal não retirou, nem menorizou, a estética do seu traje e do seu porte, e muito menos lhes acrescentou "pêlo na venta".

Já se viveu, em tempos, a guerra das calças, que muitos temas do nosso folclore e música popular ilustram.
Estaremos para assistir a novo reatar bélico entre géneros?

A primeira pedra já foi atirada pelas calças do Conselho de Veteranos. Aguardamos a resposta das saias da Academia Coimbrã.