terça-feira, abril 23, 2013

Os Mitos da Praxe - Das origens aos equívocos.



Evento no Facebook

Tradição;
Praxe e suas origens;.
A Queima das Fitas (origens e evolução);
Traje (origem, evolução....) e apêndices (emblemas, pins, relógios, rasgões, dobras, nº ímpar.....);
Fitas e pasta da Praxe, "insígnias" de finalista (o que são e de onde vêm);
Grito académico, FRA;
Traçar da capa (equívocos);
......................






terça-feira, abril 09, 2013

Notas a um livro sobre Praxe


O insígne historiador António M. Nunes, porventura o maior especialista da actualidade em idumentária e insígnias académicas, bem como sobre tradições estudantis, acaba de publicar o seu mais recente trabalho:

Identidade(s) e moda.

Percursos contemporâneos da capa e batina e das insígnias dos conimbricenses 

(clique no título para aceder ao link)

 
 
 
O livro pode ser encomendado em formato normal (22€) ou comprado em versão E-book (10€) na editora Bubok.

Mais um trabalho que ´permitirá conhecer melhor as tradições e a evolução da praxiologia académica, nomeadamente a da sociedade estudantil conimbricense.

Parabéns pela inicitativa.

segunda-feira, abril 08, 2013

Notas à Pasta e Fitas de Finalista

Poderia aqui discorrer sobre as origens da Pasta, mas não é isso que agora importa ao caso.

Importa, isso sim, e de forma expedita, ou seja sendo curto e grosso, alertar para aquilo que é uma Pasta da Praxe, que os finalistas usam com as fitas, e para aquilo que para alguns parece (ou até será), mas não passa de uma imitação introduzida por duvidosas lógicas comerciais, e que atentam à tradição.

Já em anterior artigo (clique AQUI) se falou sobre esse verdadeiro circo de fitas e de pseudo-pastas que inundam o mercado por força das novas praxes criadas não por estudantes, mas inventadas pelo comércio que vive das tradições estudantis, como também nos mereceu artigo (ver AQUI)

Aliás, os códigos (pelo menos os que têm algo de pés e cabeça) não contemplam sequer essas falsificações, esses estúpidos "faz de conta" de Pasta.

Pasta da Praxe é preta, em pele (ou imitação de pele), lisa e simples. Serve para transportar livros, sebentas, apontamentos.

A Pasta da Praxe não foi expressamente criada para transportar fitas.
Se a sua foi, não é Pasta da Praxe, nem é da Praxe.

Pasta da Praxe, como manda a Tradição, é assim (e só assim) e só permite 8 fitas (8 apenas):


As fitas são da cor da faculdade (área de estudos) que se frequenta. Mais recentemente (anos 90), vieram as "cores de curso" (outra parvoíce), e as fitas passaram a contemplar essa subdivisão (por isso temos pastas com fitas de mais de  uma cor, pois temos cursos com 2, e por vezes 3, cores).
As fitas, no total de 8, são "pregadas" pasta por meio de colchetes ou de velcro, sendo que por serem poucas, a escolha de quem as assina é usualmente muito criteriosa. Há sempre a possibilidade de permutas, caso uma das fitas fique por assinar, como disso pode ser exemplo a fita reservada a professores ou a irmãos que se não tenha (podendo nesse caso serem reservadas a colegas, amigos...).
As fitas dos finalistas têm origem nas fitas que eram utilizavadas para abotoar a pasta dos estudantes, sendo inicialmente 6  (duas talas de cartão dobradas, fechando com o auxílio de 3 ordens de pequenas fitinhas de cada lado, que serviam para atar a mesma com nós e laçarotes.Mais tarde passaram a 8, dividindo-se em 4 pares, ocupando, assim, cada lado da pasta.
A partir dos anos 70 do século XIX, começam a surgir as chamadas "Pastas de Luxo", começando as pastas a  já apresentar fitas largas, caídas para fora, presas às telas.

As 8 fitas de finalista são simples, lisas, sem brasones, estampados, desenhos ou quejandos. Todo o seu espaço é para assinatura das pessoas e não devem ser ostentadas com iconografia, como se fossem emblemas da capa.


As Fitas dos Fitados, apresentam-se com cerca de 7,5 cm de largura e 40 cm de comprimento.

Simplicidade e sobriedade, sem espaço a show-off, por muito que isso possa irritar os mais vaidosos ou ainda certas indústrias, mais ou menos caseiras. 

A fazer negócio à conta das tradições, que estas sejam respeitadas.



O resto, o que vemos por aí (e que abaixo exemplificamos) são contrafacção, são anti-praxe, são a subordinação da Praxe à lógica comercial, e só usa quem se está realmente nas tintas para a tradição.
A Praxe não é um traço pessoal ou individual e, nestas coisas, há que saber distinguir o nosos umbigo daquilo que é a pertença e observância de uma cultura transversal, usualmente regrada em código.

Poderiam, alguns (apesar de nunca esse argumento ter sido apresentado - indiciando claramente que não era, nem é, essa, sequer, a intenção) alegar que as actuais pastinhas da treta são como que uma cópia das antigas Pasta de Luxo que vigoraram até inícios do séc. XX, como que uma reabilitação da mesmas, tendo em conta que estas eram, e passo a citar:

"... pastas de acabamentos de veludo e monogramas de prata, que de tão estreitas para nada serviam, mas que tinham umas fitas largas, imponentes e lustrosas como as fitas largas de hoje. Eram oferecidas aos quartanistas pelos padrinhos ou pelas noivas e, naturalmente, não serviam para transportar nada, muito menos sebentas. Mas também não era preciso, porque diz a tradição que depois do 4º ano nunca se chumbava." in Penedo d@ Saudade - As (verdadeiras) Origens da Queima -  artigo de de 17 Maio 2010

Contudo as pastas de luxo eram isso mesmo: um luxo; pelo que de uso não generalizado, mesmo se bem presente.
Ainda assim, estamos a falar de algo que já há décadas que não faz parte da praxis e e que em momento algum foi sequer contemplado em qualquer código. Para além disso, caberia sempre a organismso de Praxe reintroduzir e definir as Pastas de Luxo e nunca a empresas ou lógicas comerciais (que não têm legitimidade para tal).
A única Pasta da Praxe consagrada é pois a que acima ilustramos em imagem e não outra. Só ela pode receber as ditas fitas que, repetimos, são 8 apenas.


Fixando um ponto de referência, podemos dizer que na segunda metade do séc. XIX apenas os estudantes Quintanistas, usavam Pasta – Pasta de Luxo.
Já utilizadas em 1850, estas eram de qualquer cor (mas normalmente da faculdade), em tudo similares às pastas vendidas nas livrarias da especialidade: duas talas de cartão dobradas, fechando com o auxílio de 3 ordens de pequenas fitinhas de cada lado, ou seja, cada Pasta tinha 6 pequenas fitas que serviam para atar a mesma com nós e laçarotes.
Mais tarde, com a magnificência das Récitas dos Quintanistas é que se definiram as famosas Pastas de Luxo nas Faculdades de Direito e Teologia, já de Fitas Largas, caídas para fora, presas às telas forradas de rico cetim bordado, veludos com embutidos de prata, ouro e mármore.
 
As Pastas de couro ou cabedal, embora menos vistosas, mas bem  mais baratas, generalizam-se na primeira década do séc. XX, introduzidas nomeadamente pelos estudantes militares (e também em voga nos geógrafos, arqueólogos e outros especialistas nos seus trabalhos de campo, contrastando com o luxo ostensivo das pastas dos quintanistas e podendo ser usadas pelos demais estudantes no seu quotidiano, então sim, para transportar sebentas (as de luxo serviam apenas para a festividade de fim de curso).
O seu uso generalizado no Porto  desde finais do séc. XIX, alargou-se a Coimbra e a todo o país.



NÃO É DA PRAXE O QUE SE SEGUE:




A imagem acima ilustra uma outra "versão": que a cor das fitas é conforme quem as assina (uma cor para pais, outra para colegas, outra para professores....) numa concepção sem nexo, sem senso algum.










Quem quer respeitar a tradição segue a mesma e não a que é ditada pelas lojas ou pela "lógica da carneirada" em que se copia o vizinho (e de preferência se ultrapassa o mesmo) sem sequer se atender ao código, ao respeito que deve merecer a Praxe.
Obviamente que os Conselhos de Praxe ou de Veteranos, as comissões e afins têm enorme culpa no cartório, mas a incompetência generalizada dos organismos de praxe não pode justificar o surto de ignorância colectiva que, repentinamente se verifica nos finalistas, nesta época do ano.

O mesmo se aplica a certos fundamentalismos como o que diz que caloiros não podem traçar a capa sem ser antes o padrinho ou que só usam traje pela 1ª vez na serenata (ver AQUI), que é mais um mito alimentado pelo ignorância de uns ou má fé de outros.

Fica este reparo, uma vez mais, para quem o quiser levar em linha de conta.


Para os estudantes que, contudo, pretendam ter muitas outras fitas, pois que o façam e as guardem, evitando ostentar na sua pasta mais que as 8 que a Tradição contempla.

Para os finalistas, o nosso FRA!


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As fotos utilizadas foram obtidas na net, via motor de pesquisa google.

quarta-feira, março 27, 2013

Notas a uma Serenata a sério



É claro e sabido que, por Lisboa, aquilo a que alguns têm a distinta lata de chamar Serenata Monumental, que abre os festejos da Semana Académica (vulgo Queima das Fitas)  na capital é tudo menos Serenata, é tudo menos tradição, é tudo menos adequado, sendo que só se lamenta o facto de algumas tunas se prestarem a esse papel e ao circo que esse dito "evento".

Mas as coisas não têm de ser sempre cinzentas, nem Lisboa tem de ser um caso sempre perdido no que respeita a respeitar a Tradição e a Praxe.

Tanto assim é que, de há uns anos a esta parte, o IST tem liderado uma verdadeira renovação de mentalidades no desejo de bem fazer, no estrito respeito por aquilo que é tradição, de facto, desfazendo-se de tudo quando são acessórios circenses, práticas sem nexo ou conceitos sem fundamentação (mitos, invenções...).

Desta feita, o IST, através do organismo que tutela a sua praxis, mostra, mais uma vez, como se faz, e bem, uma Serenata Monumental (a 1ª, porventura, de facto, em Lisboa), provando que excelência e qualidade não estão forçosamente arredadas das práticas estudantis.
Parabéns ao MCP do IST, na pessoa do seu Dux-Veteranorum, e aos seus estudantes.

Assim é que se promove e dignifica a Praxe.



segunda-feira, março 11, 2013

Notas às Lojas de Artigos Académicos

Este artigo já há muito que o devia a mim próprio e aos leitores do blogue.

Já por diversas vezes aqui se falou sobre a praxis de emblemas, pins... mas nunca tínhamos abordado uma outra questão, porventura de pormaior importância: o papel das lojas e empresas dedicadas à confecção e/ou venda de artigos académicos.

Floresceram nos anos 90, acompanhando o grande “boom” das tradições académicas e das tunas e oferecendo, quais hipermercados, artigos a um preço bem mais acessível – e a concorrência acabou por beneficiar o consumidor final (ainda que, muitas vezes, à custa da qualidade, diga-se, em abono da verdade).
Antigamente, os trajes adquiriam-se em alfaiatarias ou modistas; depois, em lojas de pronto-a-vestir comuns. Sapatos, esses, numa sapataria, obviamente, ao contrário do que hoje se torna comum: as lojas também os fornecerem.
Hoje massificou-se o negócio, a que se colou uma parafernália de acessórios tão inúteis quanto ridículos.
Nada a obstar, até aqui, excepto, precisamente, o que ainda agora acabámos de dizer: a venda de artigos cuja utilidade e pertinência é nula.
Cada um tem de fazer pela vida, é certo; mas um negócio sério deveria ser mais respeitador das tradições, evitando adulterar as mesmas a pretexto de lógicas comerciais que transforam a seriedade e sobriedade num verdadeiro carnaval. Não é bem um vender "cavalo por vaca", mas disponibilizar ambos por atacado.
 Dir-nos-ão que os estudantes só compram o que querem e que ninguém os obriga. Muito certo, mas não podemos ignorar (porque não somos papalvos) as bem urdidas técnicas comerciais de venda, para além de algo que parece por demais óbvio: parte-se do princípio de que uma loja que vende artigos académicos é séria e respeita a Tradição, pelo que tudo o que ela coloca à venda é “da Praxe”.
Ora é precisamente nesse ponto que se alicerçam os equívocos e com os organismos de praxe a fazerem vista grossa ao assunto.
Os estudantes, esses, seja por questões de carteira, seja por ignorância, compram o que lhes aparece à frente, sem grande critério, diga-se. E nos tempos que correm, então quanto mais der nas vistas melhor.
O resultado está bom de ver: às custas da tradição que se deturpa e, por isso, delapida, enchem-se as caixas registadoras dos euros ganhos a venderem pseudo-pastas da praxe para finalistas; fitas de finalista sem pés nem cabeça (estampadas, com desenhos…e às dezenas); emblemas sem fundamento algum; “penduricalhos”, como as famosas “madeirinhas”, que são mais um adorno vazio de sentido...  tudo contribuindo para a Praxe se vá progressivamente tornando num verdadeiro carnaval e feira de vaidades.
Têm as lojas culpa nesse corso carnavalesco?
Têm, claramente, ao colocarem no mercado artigos que os códigos (pelo menos os mais sérios) e a Tradição não contemplam, lado a lado com o que é autêntico e tradicional; ao venderem sem aconselhamento, sem procurarem, seriamente, respeitar a Tradição ou informar-se sobre a mesma (mesmo se sabemos que, algumas vezes, seguem código, eles próprios, pejados de artificialismos estapafúrdios).
 Muitas das invenções, muitas “árvores de Natal ambulantes” que vemos, são não apenas culpa, por omissão ou incompetência, dos organismos de praxe, veteranos e praxistas, mas são-no também das lógicas comerciais ávidas, que não olham a meios para atingir os seus fins.
Mais espantoso e digno de censura se torna quando algumas dessas casas comerciais foram fundadas e são propriedade de antigos veteranos e pessoas que desempenharam cargos de responsabilidade em Praxe.
Não têm que olhar à Tradição, pois as lojas não são organismos de Praxe, responderão, e bem. Certo. Não são, de facto, e, desse ponto de vista, nada a acrescentar. Mas perguntaríamos então, de onde provêm as pastas de finalistas e as fitas estampadas ou desenhadas (pois não consta que fossem iniciativa estudantil - legislada em código)? Se não são organismos de praxe, por que razão apareceram certos artigos (madeirinhas, certos emblemas, pastinhas de finalista e outras tretas......) que nunca foram contemplados autorizados ou criados no foro estudantil? Afinal quem dita a Praxe? Afinal onde mora a culpa de certas "invenções"? E depois querem fazer crer que é tudo "da Praxe"? Da "praxe" de quem?

Por isso importa falar de ética e seriedade no respeito por uma Tradição de que se aproveitam comercialmente.
E no que toca a ética... não devemos estar muito longe da verdade se dissermos que não há uma loja no país que não tenha telhados de vidro. Mas quando são os próprios estudantes que atiram pedras aos próprios sapatos… até “percebemos” que as lojas sacudam a água do capote, nesse capítulo, pois se os protagonistas comem e calam… alguém tem de lhes dar de “comer”. 


Seja como for, se os estudantes têm culpa no cartório pela sua falta de critério, as lojas e empresas que se dedicam a este tipo de comércio não saem de todo ilesas, ao terem inundado o mercado de acessórios que vendem, muitas vezes, com argumentos ou justificações erróneos.
As seguintes imagens são de algumas lojas que têm página na Net (muitas outras não têm), onde podemos ver os tais artigos à venda, confirmando o que acima expusemos (imagens a que colocámos jocosamente o "selo" de "Not Approved", para que o leitor possa perceber que "nem tudo o que luz é ouro", como diz o chavão).
 
Respeitamos e compreendemos a lógica comercial e a eficácia do cross merchandising.
Entendemos, no entanto, que estes estabelecimentos podem e devem ter, também, uma função pedagógica, ajudando a separar o trigo do joio; o que é essencial, do que é acessório; o que é Tradição do que o não é.
As nossas portas estão, como sempre estiveram, abertas para ajudar e aconselhar, dentro da modéstia dos nossos conhecimentos.




































quarta-feira, fevereiro 06, 2013

Notas a Códigos de Praxe I (UBI)


 

Um primeiro (de vários) artigo, que pretende fazer análise-reflexão sobre o que registamos por este nosso país fora no que concerne a Códigos de Praxe - os quais precisavam de revisão, feita por quem tivesse por finalidade, separar o acessório do essencial, procurando, também, reaproximar alguns conceitos e noções aos modelos originais de que são sucedâneos.

Neste primeiro caso, escolhi um código que, de uma maneira geral, nem está mal feito (embora esteja mal organizado, na sequência dos assuntos a meu ver), para evidenciar que mesmo um código que parece estar  bem desenhado, pode conter inúmeras falhas, imprecisões e muitos equívocos.

Neste caso, uns reparos ao Código da Praxe da UBI de 2012 (http://pt.scribd.com/doc/105052281/Codigo-de-praxe-UBI-2012), para dizer que é:

 
- Um código que define a Praxe como sendo, e passo a citar, "... todo o tipo de atividades lúdico-recreativo praticadas individual ou coletivamente, e orientadas por um ou mais praxantes [aqui temos um novo termo: “praxantes”] de forma adequada ao enunciado neste código.".
Parece claro o equívoco de não se saber distinguir devidamente Praxe de "praxes", chegando a entender as “praxes” como jogos de escuteiros e afins, e até consegue complicar ainda mais a coisa ao dividir esse conceito em 3 tipos de "Praxe": “básica”, “superior” e “laudem”;

Damos uma ajuda:

 

 

- Um código que diz que um objector de praxe é o mesmo que um anti-praxe e que, por isso, não pode ir à bênção de finalistas, usar traje e participar em qualquer acto académico.
Mais ainda: um código que aceita que as pessoas não sejam "pela Praxe" pedindo, ainda assim (e bem), que pelo menos a respeitem, contudo não demonstra, por sua vez, essa mesma atitude para com quem não quis ser humilhado nas praxes.
Se é pedido respeito, seja igualmente respeitada a diferença, ao invés de se ostracizar uma pessoa que não quis ser praxada (porque muitas supostas “praxes” estão longe de ser sequer aceitáveis), proibindo-a de exercer a sua cidadania académica (pois que tem direito a ir aos actos académicos e a trajar, ao contrário do que se apregoa);

 - Um código que diz, e bem, que não é aceitável a "violência gratuita", contudo deixando em aberto que outro tipo de violência (justificada) o pode ser. Uma incoerência ridícula.
- Um código que determina que quem abuse será punido pelas suas instâncias, mas em lado algum determina o que não são praxes e o que não é Praxe, não definindo a fronteira entre aquilo que é aceitável em Praxe e aquilo que é abuso e crime - e deve ser denunciado desde logo às autoridades (PSP, GNR...).
Tanta coisa com a tal Carta de Princípios do Conselho Nacional para as Tradições Académicas (se bem se recordam da pompa e circunstância mediática), mas, depois, na prática, nos códigos...... népia! Neste particular, mais uma vez parece ser o o adágio do "Olha ao que digo, mas não ao que eu faço!".

 - Um código que pretende usar o latim (macarrónico) sem procurar fazé-lo secundum praxis, pois consagra a frase "avemus praxis", quando o termo é "Habemus" (avemus é derivado de quê, de "avé"?).
Num segundo exemplo, temos a expressão "IN NOMEM PRAXIS AVEMUS PRAXIS", quando o termo a usar é "In NOMINE"!!!. Quando não se sabe ou tem certeza, pergunta-se a quem sabe, digo eu;

 - Um código que determina regras e nomes para quem nem sequer é da UBI ou nem é estudante da mesma, como os graus de "Canen" (estudantes não matriculados na UBI), "Pastores" (que apenas exercem funções na UBI – e que devem ser os funcionários). Claramente, aqui, um excesso de zelo ao entrar numa ”jurisdição alheia”  num querer ser mais papista que o Papa;

 - Um código que chama "mestre a um aluno de 2 matrículas" (uma expressão que, cuidado, não significa expressamente um grau de ensino), e que será algo exagerado, e depois mistura nomenclatura do império romano (cuja inspiração parece algo forçada, pois a Covilhã não reclama mais romanização ou figura romana que qualquer outra cidade) com a da maçonaria (Grão-mestre...) o que não deixa de ser bastante confuso;  ou que chama veterano a um aluno apenas com 4 matrículas, tornando equívoca a própria significação linguística, histórica e tradicional do termo.
Nesse capítulo das designações hierárquicas, estamos perante um caldo sem nexo, onde se introduz na linguagem e tradição estudantis coisas que nunca com ela tiveram a ver (ler AQUI);

 - Um código que proíbe os caloiros, mesmo que  apenas durante uma primeira fase do seu "estágio", de permanecerem numa valência da instituição (na qual nem sequer é permitida praxe), como é o caso do bar, por mais de 15 minutos. Só não se percebe como não se lembraram de fazer o mesmo para as casas de banho ou não determinaram tempo máximo para permanecerem nas cantinas.
Não ocorreu aos "praxis maker" que alimentar-se é também uma necessidade fisiológica para a qual cada um tem o seu ritmo?

 - Um código que proíbe os caloiros de trajarem antes da Serenata, num perpetuar e alimentar de um mito sem fundamento histórico algum. O caloiro sempre trajou, porque o traje é uniforme estudantil (ver AQUI).
Um traje que é vedado a estudantes em função de normativos praxísticos é um traje que nunca pode ser considerado académico (ver AQUI).


 
 - Um código que proíbe os antigos alunos da UBI de usarem traje académico, excepto em organismos reconhecidos pela AAUBI, esquecendo-se que antigos alunos podem associar-se em organizações de antigos alunos em que o traje possa ser a indumentária escolhida, sem precisarem, para tal, de reconhecimento de instância estudantis (quando eles próprios não são estudantes). Por outro lado, os antigos alunos não estão abrangidos pelo código, daí que a haver esse tipo de situação, ela está fora da alçada do código;

 - Um código que chama "Melícias" às trupes, quando o termo a usar é "MILÍCIAS" (com I)!! Também aqui, quem fez o código mostrou descuido nestes pequenos pormaiores;

 - Um código que preconiza um traje próprio, mas carece de explicações inequívocas sobre as modificações das peças que o compõem. Num ou noutro caso apenas uma muito superficial explicação sobre a inspiração/proveniência. O que não há é evidência entre a peça em que foi inspirado e a peça final do actual traje (por exemplo com fotos, desenhos…).
Também não se conhece qualquer estudo publicado e público sobre o traje e que tenha servido, por exemplo, para o justificar tal qual ele é. Uma falha, a meu ver, quando se reclama historicidade etnográfica. Se vemos tantos lapsos no que concerne a Tradições Académicas, claramente que colocamos fortes reservas e dúvidas sobre certas “explicações” de teor etnográfico. Não nos quer parecer que tenham sido especialistas no assunto que, na altura, trataram deste processo. O traje merece todo o respeito, mas os pressupostos do mesmo é que levantam fortes reservas.

Por outro lado, não é próprio de um uniforme corporativo, de índole estudantil, a inclusão de peças de origem folclórica ou etnográfica. Por alguma razão não existe nem no folclore nem na etnografia a figura do estudante. Não perceber isso é não apenas desrespeitar a matriz identitária do folclore e etnografia como igualmente a matriz tradicional académica (ver AQUI).


 
 
- Um código que chamam de "insígnias" a emblemas evidencia falta de rigor e induz em algumas confusões (já visíveis nos denominados "objectos"de praxe). 
Já agora, dizer que não é conceito original  só se colocarem emblemas de sítios onde se foi trajado. Ir em missão académica não implica obrigatoriamente ir trajado. É o caso de uma equipa de desporto universitário, por exemplo, ou de quem vai assistir a um congresso noutra cidade/país. Também não faz sentido restringir os emblemas de cariz religioso de assentada (mesmo se também acho que não deve haver espaço a "beatices"), pois podem existir organismos académicos de pendor religioso (Pastoral do Ensino Superior, por exemplo). Aliás, veja-se o paradoxo: o código fala  e reconhece a Bênção dos Finalistas, que tem uma natureza religiosa, mas depois proíbe qualquer emblema de contexto religioso. Claro que, aqui, deveria haver uma adenda numa explicação mais pormenorizada sobre esse “teor, contemplando, por exemplo, e como excepção, o caso que eu acima referi. Sobre a origem e correcta colocação de emblemas, clique AQUI.

 - Um código que determina que o relógio usado com traje tem de estar oculto, não se percebe muito bem o sentido de tal recomendação. Sobre o uso de relógios, cliquem AQUI;

- Um código que, pasme-se, apelida de "objectos de praxe" aquilo que correctamente se deve designar por insígnias de Praxe (ver AQUI);



 

 - Um código que coloca "rótulos" nos alunos, introduzindo "pins" (que são mais umas pequenas "placas" que outra coisa) que identificam a hierarquia, transformando o traje num uniforme militar e esquecendo a sobriedade que o mesmo deve(ria), a meu ver, ter. Pena que não optassem por reabilitar, por exemplo, o uso de fitas no braço, junto ao ombro, como era costume em finais do séc. XIX e inícios do XX, em detrimento de “chapas de identificação”. Sobre pins, cliquem AQUI;

 
- Um código que determina o uso de traje nas Tunas é não perceber que  Tunas e Praxe são coisas distintas e que a Tuna não se subordina à Praxe (vd. Manifesvum Tvnae);

 



São alguns aspectos, de muitos outros igualmente equivocados ou totalmente desadequados, deste código que mereciam revisão e reflexão, porque alimentam, por vezes, equívocos, erros, mitos e invencionismos (pois quem conta um conto.......).
Tais lapsos, erros e invenções são correntes na larga maioria dos códigos existentes (com maior incidência, até, nas instituições mais recentes) e só uma reflexão séria, um procurar razões, precedentes….permite perceber se o essencial da Tradição (existe uma matriz na qual toda a gente se inspirou e que ao servir de modelo, deve ser respeitada e preservada na sua essência e significação, mesmo quando adaptada) de modo a poder-se proceder aos ajustes necessários.
Porque há, de facto, ajustes a fazer nos nossos códigos, sob pena de se abrir espaço, em muitas localidades, à total descaratcerização da cultura e tradição estudantis.
Não se trata de cercear a liberdade da identidade própria, mas copiando modelos, não os adulterar ou inventar novas significâncias.


 

Pena que, em Portugal, quem veste o papel de “praxis maker” ou de “legislador de código” (e quem, muitas vezes, ocupa organismos que regem a Praxe) careça, tantas vezes, desse cuidado em respeitar em conhecer melhor a matriz de que a larga maioria das "tradições" são sucedâneas, evitando que na sua adopção e/ou adaptação, troquem o essencial pelo acessório ou se afastem a tal ponto do precedente que se descaracteriza a causa e o próprio efeito.

Para a UBI, que aqui "emprestou" o primeiro exemplo, um abraço, especialmente às suas Tunas!
 
Nota: Espero que os que vierem a ler este artigo e lhe queiram responder, nomeadamente os “UBIanos”, não vistam o papel de madonas ofendidas a quem não se pode fazer reparo às suas práticas e "leis", mas que, discordando, digam exactamente em quê, apresentem argumentação para tal e o façam com elevação.

domingo, janeiro 13, 2013

Notas ao fim da capa e batina nos liceus

Sempre me intrigou o "súbito" desaparecimento da capa e batina dos estabelecimentos de ensino secundário - os antigos liceus.

Mais estranheza causa quando a adopção do traje académico resultou, na maioria dos casos, da persistência e de esforços continuados por parte da comunidade estudantil junto das autoridades educativas - e que redundaram na publicação de um decreto que autorizava (não obrigava) os alunos dos liceus a envergar capa e batina.

Na obra "Tuna Académica do Liceu de Évora" (Adília Zacarias e Isilda Mendes), lê-se, a pp. 34, o seguinte:

"No entanto, a política também não foi estranha a alguma quebra no uso do traje. Estão neste caso momentos como a implantação da República, o Estado Novo e o pós 25 de abril. 
A principal interferência no uso do traje académico, durante o Estado Novo, teve, sobretudo, a ver com o espírito da M. P. [Mocidade Portuguesa] que se traduz, por exemplo (...) na perseguição caricata ao uso da "capa e batina" (...) o que levou o deputado António Gromicho (que era também o Reitor do Liceu de Évora) a declarar na Assembleia Nacional: 
com o aparecimento da M.P. e com a expansão desta organização, estabeleceu-se uma certa confusão e equívoco, pois formou-se o mito, na minha opinião erradíssimo, de que o uso da capa e batina é um obstáculo à actuação da M.P. Dizia-se, e creio que continua a dizer-se, que o trajo (sic) académico representa ideias e costumes contrários às doutrinas daquela organização. (Labor, N.º 157, abril de 1956, p. 478)"

e, na p. 65, referindo-se ao lento processo de "passagem" da Associação Académica para a Mocidade Portuguesa:

"Ostensiva ou subreticiamente, a M.P. opunha-se às tradições [democráticas] que tão orgulhosamente os académicos [do Liceu de Évora] respeitavam e preservavam."

Será que o caso do Liceu de Évora pode ser extrapolado para todos os liceus nacionais da época?

Estamos em crer que sim, muito embora não disponhamos de dados tangíveis que nos levem a dar uma inequívoca resposta afirmativa.

No entanto, e tendo em conta que o processo de adopção é semelhante em todos os liceus (também nas antigas "províncias ultramarinas"), não vemos razão pela qual o processo, "filosofia" e sobretudo o agente da extinção do traje possa ou deva ser diferente caso a caso. O Liceu de Évora nem era o único a usar capa e batina nem o único a possuir estruturas estudantis democráticas. Temos, assim, que a Mocidade Portuguesa procurou (e conseguiu) insinuar-se como estrutura organizativa centralizada (e centralizadora) das actividades recreativas juvenis.

Por outro lado, cai por terra a argumentação dos que vêem na capa e batina um símbolo do regime fascista do Estado Novo - uma vez que o próprio regime via no traje académico um "obstáculo" e a representação de "ideias e costumes contrários às [suas] doutrinas".





















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ZACARIAS, Adília, e MENDES, Isilda M. Tuna Académica do Liceu de Évora (100 Anos de História e Tradições), [s.n.], Évora, 2012

As autoras escreveram de acordo com as normas do AO90, que respeitámos na transcrição dos excertos.

terça-feira, novembro 13, 2012

Notas ao "Quarto de hora Académico" - Origens


 O “¼ de hora Académico”

 
Todos saberão o que é. Todos dele terão tirado proveito ou, então, criticado duramente esta institucionalização do atraso, querendo dar roupas de virtude a algo que não deixa e ser um erro, um mau hábito.

De uma maneira geral, temos ideia que tal costume é intrinsecamente nosso e parte daquilo que nos caracteriza enquanto cultura, naquele cliché rebatido de que o pessoal nos países mediterrânicos não tem pressa nem “stressa” com os ritmos mais frenéticos de outros povos mais a norte.

Por isso é que ao pretender saber da origem dos “15 minutos da praxe”, que se dão de tolerância para quase tudo, também ia com aquela firme certeza de ser este um traço muito nosso, bem português.

Fazia fé, e tal como eu muitos, que o “quarto de hora académico” nascera na UC em tempos remotos, por uma qualquer razão mais ou menos lógica (que nisto de tradições tanto há pertinência e pragmatismo como perfeita patetice).
Após ter pedido ajuda e alguns esclarecimentos a antigos estudantes de Coimbra, percebi pelas respostas que, provavelmente, o mais que se conseguiria seria apresentar algumas teses e possibilidades.

Aliás, aqui faço minhas as palavras do Zé Veloso, do blogue “Penedo d@ Saudade”, ao dizer que:

 "Quando procuramos a razão de ser de uma dada tradição ou de uma dada expressão cuja origem se perde no tempo é raro haver verdades absolutas. Há apenas teorias, mais ou menos plausíveis.”[1]
 
É o que aqui partilho, após ter aprofundado um pouco mais a pesquisa, tanto quanto me foi possível fazer tal, sem sair de casa.

 A 1ª teoria que encontrei foi a seguinte:

 “A dispersão dos Colégios pela cidade, assim como o facto de a maioria dos estudantes viver em alojamentos arrendados aos moradores, deu origem a que o relógio da Universidade estivesse meio quarto de hora atrasado, relativamente aos da cidade, para dar o devido tempo de deslocação do estudante até às faculdades na Alta. Ficticiamente, na Universidade, as aulas começavam a horas.[2]

 
Esta primeira explicação, provém do próprio site da UC, contudo, como pelos dados que mais adiante partilho, me pareça um argumento altamente falível. Os estudantes tinham mais é que acordar a horas. Não creio que a UC fosse assim tão permissiva que até se desse ao luxo de criar um segundo toque de despertador, quando o qu enão faltava em Coimbra erma igrejas a dar as horas (e recordemos que parte da vida das pessoas era regulada pelos sinos, para se levantarem, rezarem, tomarem as refeições……).

 Atentemos, agora, à 2ª tese:

“A velha torre da Cabra, hoje substituída pelos modernos relógios impostos aos estudantes que vivem freneticamente o seu ritmo académico, foi mandada construir em 1537. Mas não foi esta que chegou aos nossos dias. A disponibilidade financeira e, talvez mais importante, a excentricidade do nosso conhecido D. João V fizeram com que ela fosse aumentada para os 33 metros de altura e assim os seus quatro sinos e quatro relógios fossem vistos em toda a alta universitária (1733)
A sua utilização era regalia de toda a cidade ainda assim o seu principal objectivo era atingir os estudantes da Universidade que eram acordados, todas as manhas, pelo toque de um sino de nome "cabrão", vá-se lá saber porque... Ainda assim o sino mais importante e que torna conhecido o monumento é mesmo A Cabra.
É sabido que Coimbra sempre esteve na vanguarda das lutas estudantis. A sua tradição assim o impõe e, à época, era inevitável uma vez que a Universidade de Coimbra era única no país. E também nestas lutas esteve envolvida a torre e os badalos dos sinos que chegaram a ser roubados para que o "cabrão" não tocasse e, por conseguinte não houvesse obrigatoriedade de cumprir os horários académicos também eles diferentes do resto do país e mesmo da própria cidade de Coimbra. Actualmente os relógios da Universidade de Coimbra estão de acordo com o fuso horário nacional, mas, naquele tempo pode dizer-se que Portugal tinha 3 horas diferentes: (1) a do continente e arquipélago da Madeira, (2) a do arquipélago dos Açores e a da (3) Alta Universitária de Coimbra. Assim era, os relógios da velha torre eram atrasados quinze minutos para que o chamar dos estudantes para as aulas não fosse confundido com o chamar dos fiés para as missas.
A História "d'A Cabra", do cabrão e dos restantes sinos sem nome não se aprende numa subida ao topo da cidade, mas vale mesmo apena disfrutar de uma vista panorâmica que engloba toda a cidade do Mondego e essa, só se consegue no topo da velha Torre d'A Cabra, hoje de cara lavada e aberta ao público.”[3]

 
Esta segunda explicação é ainda mais falível que a anterior. Não parece de todo credível que os estudantes de Coimbra se levantassem com o toque do sino e, por erro, fossem à missa, ao invés de irem às aulas. Um segundo toque em nada beneficiava fosse quem fosse. Além disso, trata-se do ¼ de hora dado para o início das aulas e não do toque para despertar os alunos da cama ¼ de hora depois do resto da população acordar.

O que não deixa de ser caricato é o facto de vermos este tipo de tese propalada em reportagens televisivas por quem está a falar  em nome da UC  e que  ao minuto 2:30 diz o seguinte:

  «Rezam as crónicas e os estatutos que este 1/4 de hora (académico) já existe desde 1591 para não confundir o toque dos estudantes com as chamadas para a missa».
 
 

Deve ter a senhora, Chefe do Protocolo da UC ter sido induzida em erro por alguma leitura menos crítica da documentação que estudou. À mistura de factos históricos com ficção damos o nome de lenda.

Os dados em causa, como lembra Sónia Filipe (Vd. FB "Penedo d@ Saudade - TERTÚLIA") parecem apontar para o facto do "décalage"  de 15 minutos entre hora civil e hora académica servir para evitar confusões, mas em tempo algum por causa do horário de missas:

“O cargo de relojoeiro é criado estatutariamente em 1653. Para além de indicarem as funções expressas deste funcionário acrescenta-se a dado passo “que andara sempre atraz do relógio da cidade, meio quarto de hora”, de forma a nunca ser confundido com a regulação do tempo do resto da cidade (quarto de hora académico). O segundo, um artigo sobre as Horas da Universidade, publicado numa coletânea de artigos sobre a UC.”


Nota:  citação acima segundo "Universidade(s), História, Memória, Perspectivas. Actas. 5vols. Congresso História da Universidade, 7º Centenário, Coimbra, 1991" O artigo que referia anteriormente é o seguinte: ARAÚJO, Ana Cristina Bartolomeu (1991), "As horas e os dias da Universidade", vol.3, pp. 365-382.

 


Como acima dito, esta tese carece de lógica. Não parece existir uma razão plausível para andar o relógio da torre atrasado em relação ao resto da cidade, além de que no séc. XVII e até ao XX, Coimbra não era assim tão grande nem há notícia de se passar o dia a ouvir sinos a toda a hora e minuto.
Existem toques bem definidos para a liturgia (eque eu próprio toquei quando jovem, na minha vila de origem):

a) baptismos, com o toque chamado de "repenicado/repique" que se dá no fim;

b) os "sinais", aquando da morte de alguém, que se repetem nos funerais, e a que se chama "dobrar" (porque o sino gira completamente sobre o eixo) e que implica 2 sinos em simultâneo; 
c) a chamada para a missa, dada uma hora antes da mesma e cujo o toque se chama "badalar" (porque é um toque simples).
 
Ainda existem em muitos lugares os toques das "trindades" (ou também apelidados de "ave-marias"), que se davam 3 vezes ao dia: de manhã, pelas 5 horas; ao meio dia e ao cair da noite (17/18 horas no inverno ou pelas 21/22 horas no verão). Esses toques eram 3, espaçados, seguindo-se, a cada um, uma "Avé, Maria", depois um toque dobrado e mais 3 toques espaçados).

Também não me parece que se possa confundir com "Matinas" (pelas 3h00 da manhã, embora inicialmente à meia noite) ou "Laudes", que ocorriam ao nascer do sol (inicialmente pelas 3 da manhã),  por ser demasiado cedo (os estudantes oriundos do clero levantar-se-iam para rezar, depois comer e só depois irem às aulas) ou com "Vésperas" ao fim do dia (porque o  toque académico era para chamar e não para encerrar as aulas).
As demais "horas canónicas", eram assinaladas de forma discreta e nunca a ponto de causar confusão.
Nem mesmo as denominadas "primas" pelas 6h00, usualmente assinaladas com issa pública me parecem ser confundíveis, pois não estou em crer que a essa hora começassem quaisquer aulas (haveria, até, espaço para os próprios estdantes irem à missa). Muito menos as "terças", pelas 9h00, que podiam ser assinaladas com missa solene, por ser uma hora demasiado tardia (a essa hora os estudantes já estariam em aulas (ou a iniciar as mesmas).
Os toques seriam dados com antecedência, mas a que ponto confundíveis com o toque para as aulas?
E a que horas começavam essa aulas?

Certamente, nisso estou seguro, não seria o toque confundível com o inconfundível toque picado ("picado 3 vezes") usado para situações de incêndio.

Os estudantes conheciam bem o toque do seu sino, e o facto de ter o cognome de "Cabra" (nome do sino mais famoso, colocado no séc. XVIII) diz tudo.
 O "Cabrão" é o outro sino, mais recente datado do séc. XIX, normalmente reservado a actos de doutoramento e eventos festivos). Mas antes deste existia (e existe) um outro, o mais antigo (e maior), designado de "Balão", que é de 1561, posto na antiga torre (sobre a qual surgiu a actual, bem mais alta), porque a torre, essa, foi erigida entre 1728 e 1733.

Que tipo de toque era dado pelo sino que chamava os estudantes e professores para as aulas? E a que horas?
Perguntas que ficam no ar, até uma apuramento mais aprofundado da questão (pois certezas não há em definitivo).

Continuo convicto que esta tese traz demasiados inconvenientes práticos, além de que, como abaixo veremos, o "1/4 de hora académico" não é um fenómeno endémico (só nosso), sendo possível que tenah sido importado e que tenha, por cá, sofrido a respectiva aculturação e corruptela.
 
Mais 2 teses se perfilam, referidas pelo amigo Zé Veloso, de que cito a intervenção que teve, sobre o assunto, no FB da sua Tertúlia:

 “Porém, o meu amigo Ricardo Figueiredo acaba de me informar que encontrou a referência abaixo transcrita, que parece confirmar a primeira versão:
(…)
Despesas, Orçamento de 1568:
10- A António Fernandes, Relogieiro da SEE-$500(1)
17- A Tomé Fernandes, que tange o sino de corer 4$500
 (1) Dava-lhe o Bispo mais $500 e o cabido outro tanto. O relógio da Sé era o relógio oficial da cidade; por ele todos se governavam. O da Universidade estava atrasado um tanto, para permitir que professores e alunos chegassem a tempo, costume que vem a dar o quarto de hora de tolerância.[4]

Finalmente, Gonçalo Reis Torgal, que baseia a sua referência ao toque da cabra durante 1/4 de hora na transcrição de uma frase do livro de Diamantino Calisto - "Costumes Académicos de Antanho" - avança uma terceira teoria. Diz ele que a cabra tocava os seus balidos durante ¼ de hora e, daí, a razão de ser do 1/4 de hora académico. Aqui o ¼ de hora bate certo mas não tem a ver com atraso algum, pelo que me parece uma explicação algo duvidosa, pese embora o muito saber do autor de "Coimbra - Boémia da Saudade" sobre as tradições académicas de Coimbra.” [5]

 

A explicação dada pela referência contida no livro de A. Rocha Brito, parece muito plausível (como adiante veremos), sendo, até agora, a mais antiga referência portuguesa de que dispomos sobre o atraso de ¼ de hora tolerado a alunos e professores.
Já o argumento avançado pelo Reis Torgal merece as minhas fortes reservas, secundando o Zé Veloso nas dele, pois não consta que o toque do sino durasse 15 minutos. Nem nas grandes festas religiosas sucedia tal, nos sinos da Sé ou igrejas, quanto mais neste caso. Além disso, sujeitava-se a UC a ver-se invadida de conimbricenses, de baldes de água na mão, a perguntar onde era o fogo!
O que ocorreu foi um erro de leitura/interpretação, como disso dá nota o Zé Veloso, pois "Diamantino Calisto frequentou a UC no final do séc. XIX e a frase que vem na pág 27 do seu livro de memórias é a seguinte: «Tocava (a cabra), com pequenos intervalos, durante um quarto de hora».

Sobre esse toque, recorda o Zé Veloso que, e citando um amigo comum, que "num post do Guitarra de Coimbra": A. M. Nunes refere os dois toques da cabra, o matutino e o vespertino, da seguinte forma: «É tangido vespertinamente, entre as 18:00 e as 18:30h, anunciando as aulas do dia seguinte, e matutinamente, das 7.30 às 8.00h, a lembrar o começo das aulas».
 
E nada mais encontrei, sobre o nosso “quarto de hora académico” português.

Contudo, alertado pelo João Caramalho Domingues, do blogue “Porto Académico”, para o facto de haver referências estrangeiras, em alguns cliques cliques dei de caras, entre outros, com o seguinte excerto, que me escuso traduzir, pois de fácil compreensão:
 
The quarter system dates back to the days when the ringing of the church bell was the general method of time keeping. When the bell rung full hour, students had 15 minutes to get to the lecture. Thus a lecture with a defined start time of 10:00 would start at 10:15.
Academic quarter exists to a varying extent in many universities, especially where the campus is spread out over a larger area, necessitating the need for fifteen minutes for the students to walk from one building to another between classes.” [6]

 Pelos vistos, lá fora, atribui-se este hábito (que, como vemos, não existe só por cá) à necessidade de contemporizar o facto de os alunos precisarem de mais tempo para transitarem entre aulas, quando estas ocorriam em campus cujos edifícios ficam distantes uns dos outros.
Uma explicação que vem reforçar o que ainda há pouco vimos citado da obra de A. Rocha Brito.

 
Sabemos que o ¼ de hora académico é, usualmente assinalado acrescentando-se a abreviaura "c.t." (cum tempore, que significa, em latim, “com tempo”) que se coloca imediatamente a seguir à hora designada; por exemplo "16:00 c.t.".

Quando, no entanto, se pretende que a aula, reunião ou evento começe a horas certas utiliza-se a expressão "s.t." (sine tempore, que significa, em latim, “sem tempo”, ou seja que não dada tolerância e tempo).
Em países anglófonos, por exemplo, onde também existe o “quarto de hora académico”, utiliza-se também, a expressão "sharp" (que significa que são horas precisas/certas), precisamente para deixar claro que é para começar à hora indicada. Exemplificando: "6:00 pm sharp".
Os franceses, por sua vez, utilizam a expressão “pile” (de pilha, numa alusão à exactidão dos relógios a pilhas[7], em contraposição aos antigos que eram de corda), colocada a seguir à hora indicada, para deixar claro que é “em ponto”.

 
Como o leitor já começa a perceber, isto do ¼ de hora de atraso, não é só por cá. Na Alemanha, esse quarto de hora académico é apelidado de “akademisches Viertel" (existindo, inclusive, uma publicação estudantil com essa designação), e essa tolerância é praticada também na Áustria, Escandinávia e Suíça (onde é apelidado de Le quart d'heure vaudois”), entre outros. Também por lá as aulas nas universidades não se iniciam exactamente à hora indicada, mas 15 minutinhos depois, precisamente para darem tempo aos docentes e discentes de se deslocarem de umas salas para as outras, as quais nem sempre se encontram no mesmo edifício (essa é a desculpa, porque o facto é que o atraso de 15 minutos é já uma instituição).

 Assim, é natural encontrar nos horários afixados o seguinte exemplo:

 Aula de Literatura do séc. XIX
Professor Doktor Schultheiss
Edifício 11, Sala 1
Sexta  das 11h às 13h c.t.

Desengane-se quem pensa, pois, que esse quarto de hora é culturalmente indicativo de preguiça ou próprio de povos menos…… competitivos, pois ficaria o leitor admirado em saber que na Alemanha da Sra. Merkel o quarto de hora estende-se para além do âmbito estudantil e já há décadas se estendeu a todos os domínios da vida quotidiana. No país que manda na economia e finanças da Europa, e que se gaba da sua eficácia e produtividade, é sempre possível argumentar com o ¼ de hora da praxe para justificar uma qualquer atraso.

Em França, por exemplo, chega a fazer parte da “etiqueta”, tomando, pro vezes, a designação não oficial de “quart d’heure de politesse”. Outras designações que toma são “quart d’heure marseillais”, “quart d’heure parisien”, praticado quer pelo comum dos mortais que mesmo por titulares de cargos públicos.
De tal maneira está enraizado, já, esse atraso que um artigo do “New-York-Times” sobre o "savoir-vivre à francesa”, publicado em 2007, dizia que “Em França, quando há um encontro marcado, parte-se do princípio que todos chegarão atrasados”.

O mesmo referia o jornal suíço “Le Temps”[8], em 2010, afirmando que os suíços tinham a  “condenável mania de nunca estarem a horas”.

 
Não deixa de ser, de certa maneira, paradoxal que um país conhecido pela sua relojoaria, nele se pratique, de forma tão generalizada, o atraso; um atraso já tão institucionalizado que já tem honras de dicionário:

 “Quarto de hora (dito) académico = "atraso" (praticamente tolerado) de um quarto de hora antes de qualquer hora de aula universitária.” [9]

 
Em França, também o dicionário da Academia Francesa, a mais prestigiada academia do mundo, contempla o ¼ de hora académico, designando-o como “Quart d’heure de grâce” (ser agraciado, gozar a graça de um quarto de hora):

 "Heure de Grâce, quart d'heure de grâce -  Délais accordé au delá du temps fixé pour faire quelque chose, pour terminer une affaire."[10]

É precisamente em França que encontrámos uma referência que indica que o quarto de hora académico é ainda a mais antigo do que julgávamos (até agora era 1568, em Coimbra). Com efeito, como podemos ler no excerto abaixo, ele proviria do atraso admissível às reuniões das comissões municipais na idade média, tempo esse que seria medido por uma ampulheta regulada para 15 minutos:

"Historiquement, le quart d'heure académique provient de la durée de retard admissible aux réunions des commissions municipales au Moyen Âge, mesurée par un sablier réglé sur quinze minutes [11]

 
Uma coisa sabemos : o ¼ e hora académico é da Praxe. Um costume que, afinal, não é traço exclusivo de países atrasados cultural e socialmente, como tanto gostam de apregoar certos anti-praxe no que concerne a Portugal e às suas tradições académicas (eles que se esquecem, por exemplo, que muitas universidades do norte da Europa também tiveram cadeia para os alunos até inícios da 1ª guerra Mundial).

Os 15 minutos da Praxe, pese embora serem um mau hábito, são um hábito por demais enraizado e que está aí para contrariar a regra da pontualidade britânica ou dos países mais a norte, tidos como exemplo de civismo, etiqueta e cumprimento draconiano de horários.

Certamente que fazer do atraso uma regra de etiqueta (ou a sobrepor-se á etiqueta e boas práticas) é algo sem sentido, mas nem sempre se cristalizam em tradição os bons exemplos e as boas práticas.

De nada vale querer mudar as coisas à força, o testemunho seguinte no lo confirma:

“As universidades não estão, de resto e em matéria de tempo, melhores do que os bancos. Por exemplo, a Universidade de Coimbra (e não está sozinha neste particular) tem um ancestral quarto de hora de atraso académico. Quando se anuncia que uma aula ou um seminário é às 3 horas, quer-se dizer que é às 3 horas e 15 minutos. Cometeu este autor um dia o inaudito atrevimento de tentar uma pequena revolução temporal, anunciando um seminário para as 15 horas 15 minutos, EM PONTO, com maiúsculas e tudo. Mantinha-se o respeito pelos hábitos mais primordiais, mas ensaiava-se obter um mínimo de rigor, procurando a concordância entre o horário no papel e a hora marcada nos relógios quando a função começava. Tarefa votada desde logo ao insucesso! A audiência compareceu, ou melhor começou a aparecer, às 15 horas 30 minutos, porque o quarto de hora académico é uma conquista académica irreversível da qual nenhum académico jamais abdicará por sua livre vontade. [12]

São “pecados velhos” que já o nosso bem conhecido Pe. António Vieira denunciava em 1650:

«Uma das cousas de que se devem acusar e fazer grande escrúpulo os ministros, é dos pecados do tempo. Porque fizeram no mês que vem o que se havia de fazer no passado; porque fizeram amanhã o que se havia de fazer hoje; porque fizeram depois, o que se havia de fazer agora; porque fizeram logo, o que se havia de fazer já. Tão delicadas como isto hão-de ser as consciências dos que governam, em matérias de momento. O ministro que não faz grande escrúpulo de momentos não anda em bom estado: a fazenda pode-se restituir; a fama, ainda que mal, também se restitui, o tempo não tem restituição alguma»[13]

 
Termina o artigo como começou: sem certezas.
Algumas teses que por vaí pululam não apresentam solidez nos seus argumentos e explicações, caindo pela base ao primeiro abanão.
Outra(s) parece(m) mais plausível(is). Ao  leitor cabe tirar as suas próprias conclusões.

P.S. Um agradecimento penhorado aos membros da Tertúlia Penedo d@ Saudade no Facebook.

 


[3] Diogo Pereira in “O Quarto De Hora Académico”, artigo de 19 Julho 2012 [em linha]
[4] BRITO A. da Rocha - Finanças quinhentista do Município Coimbrão-Coimbra 1943, pag.25
[7] Não devemos esquecer que a hora mundial é definida por um relógio alimentado por uma pilha atómica.
[8] Artigo intitulado : "Le quart d'heure vaudois en voie d'extinction".
[9] LEBOUC, Georges - Dictionnaire de Belgicismes. Editions Racines.Bruxelles, 2006, p. 82.
[10] Dictionnaire de L'Académie Française, 6ème Édition, Tome 1er. Imprimerie et Librairies de Firdin Didot Frères (Imprimeurs de l'Institut de France).Paris, 1835, p.889
[11] Régulation temporelle et territoires urbains - habiter l'espace et le temps d'une ville, sob a direcção de de René Kahn, L'Harmattan (2007), p. 57. G. Dohrn-van Rossum, P. Braunstein, O. Mannoni: L'histoire de l'heure, Maison des Sciences de l'Homme (1997), p. 254.
[12] Carlos Fiolhais, O tempo português, 13/10/1999 [em linha] http://nautilus.fis.uc.pt/personal/cfiolhais/extra/artigos/artletras131099.htm
[13] Citado em « Ser estudante é ser pontual » [em linha] http://www.ua.pt/provedordoestudante/PageText.aspx?id=14615