Tradição; Praxe e suas origens;. A Queima das Fitas (origens e evolução); Traje (origem, evolução....) e apêndices (emblemas, pins, relógios, rasgões, dobras, nº ímpar.....); Fitas e pasta da Praxe, "insígnias" de finalista (o que são e de onde vêm); Grito académico, FRA; Traçar da capa (equívocos); ......................
O insígne historiador António M. Nunes, porventura o maior especialista da actualidade em idumentária e insígnias académicas, bem como sobre tradições estudantis, acaba de publicar o seu mais recente trabalho:
O livro pode ser encomendado em formato normal (22€) ou comprado em versão E-book (10€) na editora Bubok.
Mais um trabalho que ´permitirá conhecer melhor as tradições e a evolução da praxiologia académica, nomeadamente a da sociedade estudantil conimbricense.
Poderia aqui discorrer sobre as origens da Pasta, mas não é isso que agora importa ao caso.
Importa, isso sim, e de forma expedita, ou seja sendo curto e grosso, alertar para aquilo que é uma Pasta da Praxe, que os finalistas usam com as fitas, e para aquilo que para alguns parece (ou até será), mas não passa de uma imitação introduzida por duvidosas lógicas comerciais, e que atentam à tradição.
Já em anterior artigo (clique AQUI) se falou sobre esse verdadeiro circo de fitas e de pseudo-pastas que inundam o mercado por força das novas praxes criadas não por estudantes, mas inventadas pelo comércio que vive das tradições estudantis, como também nos mereceu artigo (ver AQUI)
Aliás, os códigos (pelo menos os que têm algo de pés e cabeça) não contemplam sequer essas falsificações, esses estúpidos "faz de conta" de Pasta.
Pasta da Praxe é preta, em pele (ou imitação de pele), lisa e simples. Serve para transportar livros, sebentas, apontamentos.
A Pasta da Praxe não foi expressamente criada para transportar fitas.
Se a sua foi, não é Pasta da Praxe, nem é da Praxe.
Pasta da Praxe, como manda a Tradição, é assim (e só assim) e só permite 8 fitas (8 apenas):
As fitas são da cor da faculdade (área de estudos) que se frequenta. Mais recentemente (anos 90), vieram as "cores de curso" (outra parvoíce), e as fitas passaram a contemplar essa subdivisão (por isso temos pastas com fitas de mais de uma cor, pois temos cursos com 2, e por vezes 3, cores). As fitas, no total de 8, são "pregadas" pasta por meio de colchetes ou de velcro, sendo que por serem poucas, a escolha de quem as assina é usualmente muito criteriosa. Há sempre a possibilidade de permutas, caso uma das fitas fique por assinar, como disso pode ser exemplo a fita reservada a professores ou a irmãos que se não tenha (podendo nesse caso serem reservadas a colegas, amigos...). As fitas dos finalistas têm origem nas fitas que eram utilizavadas para abotoar a pasta dos estudantes, sendo inicialmente 6 (duas talas de cartão dobradas, fechando com o auxílio de 3 ordens de pequenas fitinhas de cada lado, que serviam para atar a mesma com nós e laçarotes.Mais tarde passaram a 8, dividindo-se em 4 pares, ocupando, assim, cada lado da pasta. A partir dos anos 70 do século XIX, começam a surgir as chamadas "Pastas de Luxo", começando as pastas a já apresentar fitas largas, caídas para fora, presas às telas.
As 8 fitas de finalista são simples, lisas, sem brasones, estampados, desenhos ou quejandos. Todo o seu espaço é para assinatura das pessoas e não devem ser ostentadas com iconografia, como se fossem emblemas da capa. As Fitas dos Fitados, apresentam-se com cerca de 7,5 cm
de largura e 40 cm
de comprimento. Simplicidade e sobriedade, sem espaço a show-off, por muito que isso possa irritar os mais vaidosos ou ainda certas indústrias, mais ou menos caseiras. A fazer negócio à conta das tradições, que estas sejam respeitadas.
O resto, o que vemos por aí (e que abaixo exemplificamos) são contrafacção, são anti-praxe, são a subordinação da Praxe à lógica comercial, e só usa quem se está realmente nas tintas para a tradição.
A Praxe não é um traço pessoal ou individual e, nestas coisas, há que saber distinguir o nosos umbigo daquilo que é a pertença e observância de uma cultura transversal, usualmente regrada em código.
Poderiam, alguns (apesar de nunca esse argumento ter sido apresentado - indiciando claramente que não era, nem é, essa, sequer, a intenção) alegar que as actuais pastinhas da treta são como que uma cópia das antigas Pasta de Luxo que vigoraram até inícios do séc. XX, como que uma reabilitação da mesmas, tendo em conta que estas eram, e passo a citar:
"... pastas de
acabamentos de veludo e monogramas de prata, que de tão estreitas para
nada serviam, mas que tinham umas fitas largas, imponentes e lustrosas
como as fitas largas de hoje. Eram oferecidas aos quartanistas pelos
padrinhos ou pelas noivas e, naturalmente, não serviam para transportar
nada, muito menos sebentas. Mas também não era preciso, porque diz a
tradição que depois do 4º ano nunca se chumbava."in Penedo d@ Saudade - As (verdadeiras) Origens da Queima - artigo de de 17 Maio 2010
Contudo as pastas de luxo eram isso mesmo: um luxo; pelo que de uso não generalizado, mesmo se bem presente.
Ainda assim, estamos a falar de algo que já há décadas que não faz parte da praxis e e que em momento algum foi sequer contemplado em qualquer código. Para além disso, caberia sempre a organismso de Praxe reintroduzir e definir as Pastas de Luxo e nunca a empresas ou lógicas comerciais (que não têm legitimidade para tal).
A única Pasta da Praxe consagrada é pois a que acima ilustramos em imagem e não outra. Só ela pode receber as ditas fitas que, repetimos, são 8 apenas.
Fixando um ponto de referência, podemos dizer que na
segunda metade do séc. XIX apenas os estudantes Quintanistas, usavam Pasta –
Pasta de Luxo.
Já utilizadas em 1850, estas eram de qualquer cor (mas
normalmente da faculdade), em tudo similares às pastas vendidas nas livrarias
da especialidade: duas talas de cartão dobradas, fechando com o auxílio de 3
ordens de pequenas fitinhas de cada lado, ou seja, cada Pasta tinha 6 pequenas
fitas que serviam para atar a mesma com nós e laçarotes.
Mais tarde, com a magnificência das Récitas dos
Quintanistas é que se definiram as famosas Pastas de Luxo nas Faculdades de
Direito e Teologia, já de Fitas Largas, caídas para fora, presas às telas
forradas de rico cetim bordado, veludos com embutidos de prata, ouro e mármore.
As Pastas de couro ou cabedal, embora menos
vistosas, mas bemmais baratas,
generalizam-se na primeira década do séc. XX, introduzidas nomeadamente pelos
estudantes militares (e também em voga nos geógrafos, arqueólogos e outros
especialistas nos seus trabalhos de campo, contrastando com o luxo
ostensivo das pastas dos quintanistas e podendo ser usadas pelos demais
estudantes no seu quotidiano, então sim, para transportar sebentas (as de luxo
serviam apenas para a festividade de fim de curso).
O seu uso generalizado no Portodesde finais do séc. XIX, alargou-se a
Coimbra e a todo o país.
NÃO É DA PRAXE O QUE SE SEGUE:
A imagem acima ilustra uma outra "versão": que a cor das fitas é conforme quem as assina (uma cor para pais, outra para colegas, outra para professores....) numa concepção sem nexo, sem senso algum.
Quem quer respeitar a tradição segue a mesma e não a que é ditada pelas lojas ou pela "lógica da carneirada" em que se copia o vizinho (e de preferência se ultrapassa o mesmo) sem sequer se atender ao código, ao respeito que deve merecer a Praxe. Obviamente que os Conselhos de Praxe ou de Veteranos, as comissões e afins têm enorme culpa no cartório, mas a incompetência generalizada dos organismos de praxe não pode justificar o surto de ignorância colectiva que, repentinamente se verifica nos finalistas, nesta época do ano. O mesmo se aplica a certos fundamentalismos como o que diz que caloiros não podem traçar a capa sem ser antes o padrinho ou que só usam traje pela 1ª vez na serenata (ver AQUI), que é mais um mito alimentado pelo ignorância de uns ou má fé de outros.
Fica este reparo, uma vez mais, para quem o quiser levar em linha de conta.
Para os estudantes que, contudo, pretendam ter muitas outras fitas, pois que o façam e as guardem, evitando ostentar na sua pasta mais que as 8 que a Tradição contempla.
É claro e sabido que, por Lisboa, aquilo a que alguns têm a distinta lata de chamar Serenata Monumental, que abre os festejos da Semana Académica (vulgo Queima das Fitas) na capital é tudo menos Serenata, é tudo menos tradição, é tudo menos adequado, sendo que só se lamenta o facto de algumas tunas se prestarem a esse papel e ao circo que esse dito "evento".
Mas as coisas não têm de ser sempre cinzentas, nem Lisboa tem de ser um caso sempre perdido no que respeita a respeitar a Tradição e a Praxe.
Tanto assim é que, de há uns anos a esta parte, o IST tem liderado uma verdadeira renovação de mentalidades no desejo de bem fazer, no estrito respeito por aquilo que é tradição, de facto, desfazendo-se de tudo quando são acessórios circenses, práticas sem nexo ou conceitos sem fundamentação (mitos, invenções...).
Desta feita, o IST, através do organismo que tutela a sua praxis, mostra, mais uma vez, como se faz, e bem, uma Serenata Monumental (a 1ª, porventura, de facto, em Lisboa), provando que excelência e qualidade não estão forçosamente arredadas das práticas estudantis.
Parabéns ao MCP do IST, na pessoa do seu Dux-Veteranorum, e aos seus estudantes.
Este artigo já há muito que o devia a mim próprio e aos leitores do blogue.
Já por diversas vezes aqui se falou sobre a praxis de emblemas, pins... mas nunca tínhamos abordado uma
outra questão, porventura de pormaior importância: o papel das lojas e empresas
dedicadas à confecção e/ou venda de artigos académicos.
Floresceram nos anos 90, acompanhando o grande “boom” das tradições
académicas e das tunas e oferecendo, quais hipermercados, artigos a um preço
bem mais acessível – e a concorrência acabou por beneficiar o consumidor final
(ainda que, muitas vezes, à custa da qualidade, diga-se, em abono da verdade).
Antigamente, os trajes adquiriam-se em alfaiatarias ou modistas; depois, em
lojas de pronto-a-vestir comuns. Sapatos, esses, numa sapataria, obviamente, ao
contrário do que hoje se torna comum: as lojas também os fornecerem.
Hoje massificou-se o negócio, a que se colou uma parafernália de acessórios
tão inúteis quanto ridículos.
Nada a obstar, até aqui, excepto, precisamente, o que ainda agora acabámos
de dizer: a venda de artigos cuja utilidade e pertinência é nula.
Cada um tem de fazer pela vida, é certo; mas um negócio sério deveria ser
mais respeitador das tradições, evitando adulterar as mesmas a pretexto de
lógicas comerciais que transforam a seriedade e sobriedade num verdadeiro
carnaval. Não é bem um vender "cavalo por vaca", mas disponibilizar ambos por atacado.
Dir-nos-ão que os estudantes só compram o que querem e que ninguém os
obriga. Muito certo, mas não podemos ignorar (porque não somos papalvos) as bem
urdidas técnicas comerciais de venda, para além de algo que parece por demais
óbvio: parte-se do princípio de que uma loja que vende artigos académicos é
séria e respeita a Tradição, pelo que tudo o que ela coloca à venda é “da
Praxe”.
Ora é precisamente nesse ponto que se alicerçam os equívocos e com os organismos
de praxe a fazerem vista grossa ao assunto.
Os estudantes, esses, seja por questões de carteira, seja por ignorância,
compram o que lhes aparece à frente, sem grande critério, diga-se. E nos tempos que correm, então quanto mais der nas vistas melhor. O resultado está bom
de ver: às custas da tradição que se deturpa e, por isso, delapida, enchem-se
as caixas registadoras dos euros ganhos a venderem pseudo-pastas da praxe para
finalistas; fitas de finalista sem pés nem cabeça (estampadas, com desenhos…e às dezenas);
emblemas sem fundamento algum; “penduricalhos”, como as famosas “madeirinhas”,
que são mais um adorno vazio de sentido...tudo contribuindo para a Praxe se vá progressivamente tornando num
verdadeiro carnaval e feira de vaidades.
Têm as lojas culpa nesse corso carnavalesco?
Têm, claramente, ao colocarem no mercado artigos que os códigos (pelo menos os mais sérios) e a
Tradição não contemplam, lado a lado com o que é autêntico e tradicional; ao
venderem sem aconselhamento, sem procurarem, seriamente, respeitar a Tradição ou informar-se sobre a mesma (mesmo se sabemos que, algumas vezes, seguem código, eles próprios, pejados de artificialismos estapafúrdios).
Muitas das invenções, muitas “árvores de Natal ambulantes” que vemos, são
não apenas culpa, por omissão ou incompetência, dos organismos de praxe,
veteranos e praxistas, mas são-no também das lógicas comerciais ávidas, que não olham
a meios para atingir os seus fins.
Mais espantoso e digno de censura se torna quando algumas dessas casas
comerciais foram fundadas e são propriedade de antigos veteranos e pessoas que
desempenharam cargos de responsabilidade em Praxe.
Não têm que olhar à Tradição, pois as lojas não são organismos de Praxe,
responderão, e bem. Certo. Não são, de facto, e, desse ponto de vista, nada a
acrescentar. Mas perguntaríamos então, de onde provêm as pastas de finalistas e as fitas estampadas ou desenhadas (pois não consta que fossem iniciativa estudantil - legislada em código)? Se não são organismos de praxe, por que razão apareceram certos artigos (madeirinhas, certos emblemas, pastinhas de finalista e outras tretas......) que nunca foram contemplados autorizados ou criados no foro estudantil? Afinal quem dita a Praxe? Afinal onde mora a culpa de certas "invenções"? E depois querem fazer crer que é tudo "da Praxe"? Da "praxe" de quem?
Por isso importa falar de ética e seriedade no respeito por uma
Tradição de que se aproveitam comercialmente.
E no que toca a ética... não devemos estar muito longe da verdade se
dissermos que não há uma loja no país que não tenha telhados de vidro. Mas
quando são os próprios estudantes que atiram pedras aos próprios sapatos… até
“percebemos” que as lojas sacudam a água do capote, nesse capítulo, pois se os protagonistas
comem e calam… alguém tem de lhes dar de “comer”.
Seja como for, se os estudantes têm culpa no cartório pela sua falta de critério, as lojas e empresas que se dedicam a este tipo de comércio não saem de todo ilesas, ao terem inundado o mercado de acessórios que vendem, muitas vezes, com argumentos ou justificações erróneos.
As seguintes imagens são de algumas lojas que têm página na Net (muitas outras não têm), onde
podemos ver os tais artigos à venda, confirmando o que acima expusemos (imagens a que colocámos jocosamente o "selo" de "Not Approved", para que o leitor possa perceber que "nem tudo o que luz é ouro", como diz o chavão).
Respeitamos e compreendemos a lógica comercial e a eficácia do cross merchandising.
Entendemos, no
entanto, que estes estabelecimentos podem e devem ter, também, uma função
pedagógica, ajudando a separar o trigo do joio; o que é essencial, do que é
acessório; o que é Tradição do que o não é.
As
nossas portas estão, como sempre estiveram, abertas para ajudar e aconselhar,
dentro da modéstia dos nossos conhecimentos.
Um primeiro (de vários) artigo, que pretende fazer análise-reflexão sobre o que registamos por este nosso país fora no que
concerne a Códigos de Praxe - os quais precisavam de revisão, feita por quem tivesse por finalidade, separar o acessório do essencial, procurando, também, reaproximar alguns conceitos e noções aos modelos originais de que são sucedâneos.
Neste primeiro caso, escolhi um código que, de uma maneira geral, nem está mal
feito (embora esteja mal organizado, na sequência dos assuntos a meu ver), para evidenciar que mesmo um
código que parece estar bem desenhado, pode conter inúmeras falhas, imprecisões e muitos equívocos.
- Um código que define a Praxe como sendo, e passo a citar, "... todo
o tipo de atividades lúdico-recreativo praticadas individual ou coletivamente,
e orientadas por um ou mais praxantes [aqui temos um novo termo: “praxantes”]
de forma adequada ao enunciado neste código.".
Parece claro o equívoco de não
se saber distinguir devidamente Praxe de "praxes", chegando a entender as “praxes”
como jogos de escuteiros e afins, e até consegue complicar ainda
mais a coisa ao dividir esse conceito em 3 tipos de "Praxe": “básica”,
“superior” e “laudem”;
Damos uma ajuda:
- Um código que diz que um objector de praxe é o mesmo que um anti-praxe e
que, por isso, não pode ir à bênção de finalistas, usar traje e participar em qualquer
acto académico.
Mais ainda: um código que aceita que as pessoas não sejam "pela
Praxe" pedindo, ainda assim (e bem), que pelo menos a respeitem, contudo não demonstra, por sua vez, essa mesma atitude para com quem não quis ser humilhado nas praxes.
Se é pedido respeito, seja igualmente respeitada a diferença, ao
invés de se ostracizar uma pessoa que não quis ser praxada (porque muitas
supostas “praxes” estão longe de ser sequer aceitáveis), proibindo-a de exercer
a sua cidadania académica (pois que tem direito a ir aos actos académicos e a trajar, ao
contrário do que se apregoa);
- Um código que diz, e bem, que não é aceitável a "violência
gratuita", contudo deixando em aberto que outro tipo de violência
(justificada) o pode ser. Uma incoerência ridícula. - Um código que determina que quem abuse será punido
pelas suas instâncias, mas em lado algum determina o que não são praxes e o que
não é Praxe, não definindo a fronteira entre aquilo que é aceitável em Praxe e aquilo que é abuso e
crime - e deve ser denunciado desde logo às autoridades (PSP, GNR...).
Tanta coisa com a tal Carta de Princípios do Conselho Nacional para as
Tradições Académicas (se bem se recordam da pompa e circunstância mediática), mas, depois, na prática, nos códigos...... népia! Neste particular, mais uma vez parece ser o o adágio do "Olha ao que digo, mas não ao que eu faço!".
- Um código que pretende usar o latim (macarrónico) sem procurar fazé-lo secundum praxis,
pois consagra a frase "avemus praxis", quando o termo é
"Habemus" (avemus é derivado de quê, de "avé"?).
Num segundo exemplo, temos a expressão "IN NOMEM PRAXIS AVEMUS
PRAXIS", quando o termo a usar é "In NOMINE"!!!. Quando não se
sabe ou tem certeza, pergunta-se a quem sabe, digo eu;
- Um código que determina regras e nomes para quem nem sequer é da UBI ou
nem é estudante da mesma, como os graus de "Canen" (estudantes não
matriculados na UBI), "Pastores" (que apenas exercem funções na UBI –
e que devem ser os funcionários).
Claramente, aqui, um excesso de zelo ao entrar numa ”jurisdição alheia” num querer ser mais papista que o Papa;
- Um código que chama "mestre a um aluno de 2 matrículas" (uma
expressão que, cuidado, não significa expressamente um grau de ensino), e que será
algo exagerado, e depois mistura nomenclatura do império romano (cuja inspiração
parece algo forçada, pois a Covilhã não reclama mais romanização ou figura
romana que qualquer outra cidade) com a da maçonaria (Grão-mestre...) o que não deixa de ser bastante confuso; ou que
chama veterano a um aluno apenas com 4 matrículas, tornando equívoca a própria
significação linguística, histórica e tradicional do termo. Nesse capítulo das designações hierárquicas, estamos perante um caldo sem nexo, onde se introduz na linguagem e tradição estudantis coisas que nunca com ela tiveram a ver (ler AQUI);
- Um código que proíbe os caloiros, mesmo que apenas durante uma primeira fase do seu "estágio", de permanecerem numa valência da
instituição (na qual nem sequer é permitida praxe), como é o caso do bar, por mais de
15 minutos. Só não se percebe como não se lembraram de fazer o mesmo para as casas
de banho ou não determinaram tempo máximo para permanecerem nas cantinas.
Não ocorreu aos "praxis maker" que alimentar-se é também uma
necessidade fisiológica para a qual cada um tem o seu ritmo?
- Um código que proíbe os caloiros de trajarem antes da Serenata, num
perpetuar e alimentar de um mito sem fundamento histórico
algum. O caloiro sempre trajou, porque o traje é uniforme estudantil (ver AQUI).
Um traje que é vedado a estudantes em função de normativos praxísticos é um traje que nunca pode ser considerado académico (ver AQUI).
- Um código que proíbe os antigos alunos da UBI de usarem traje académico, excepto em organismos reconhecidos pela AAUBI,
esquecendo-se que antigos alunos podem associar-se em organizações de antigos
alunos em que o traje possa ser a indumentária escolhida, sem precisarem, para tal, de reconhecimento de instância estudantis (quando eles próprios não são estudantes). Por outro lado, os
antigos alunos não estão abrangidos pelo código, daí que a haver esse tipo de
situação, ela está fora da alçada do código;
- Um código que chama "Melícias" às trupes, quando o termo a usar é
"MILÍCIAS" (com I)!! Também aqui, quem fez o código mostrou descuido nestes pequenos pormaiores;
- Um código que preconiza um traje próprio, mas carece de explicações inequívocas
sobre as modificações das peças que o compõem. Num ou noutro caso apenas uma
muito superficial explicação sobre a inspiração/proveniência. O que não há é
evidência entre a peça em que foi inspirado e a peça final do actual traje (por
exemplo com fotos, desenhos…).
Também não se conhece qualquer estudo publicado e público sobre o traje e que tenha servido,
por exemplo, para o justificar tal qual ele é. Uma falha, a meu ver, quando se
reclama historicidade etnográfica. Se vemos tantos lapsos no que concerne a
Tradições Académicas, claramente que colocamos fortes reservas e dúvidas sobre
certas “explicações” de teor etnográfico. Não nos quer parecer que tenham sido especialistas no assunto que, na altura, trataram deste processo. O traje merece todo o respeito, mas os pressupostos do mesmo é que levantam fortes reservas.
Por outro lado, não é próprio de um uniforme corporativo, de índole estudantil, a inclusão de peças de origem folclórica ou etnográfica. Por alguma razão não existe nem no folclore nem na etnografia a figura do estudante. Não perceber isso é não apenas desrespeitar a matriz identitária do folclore e etnografia como igualmente a matriz tradicional académica (ver AQUI).
- Um código que chamam de "insígnias" a emblemas evidencia falta de rigor e induz em algumas confusões (já visíveis nos denominados "objectos"de praxe).
Já agora, dizer que não é conceito original só se colocarem
emblemas de sítios onde se foi trajado. Ir em missão académica não implica
obrigatoriamente ir trajado. É o caso de uma equipa de desporto universitário,
por exemplo, ou de quem vai assistir a um congresso noutra cidade/país. Também
não faz sentido restringir os emblemas de cariz religioso de assentada (mesmo se também acho que não deve haver espaço a "beatices"), pois podem existir
organismos académicos de pendor religioso (Pastoral do Ensino Superior, por
exemplo). Aliás, veja-se o paradoxo: o código fala e reconhece a Bênção dos Finalistas, que tem uma
natureza religiosa, mas depois proíbe qualquer emblema de contexto religioso. Claro que, aqui,
deveria haver uma adenda numa explicação mais pormenorizada sobre esse “teor, contemplando,
por exemplo, e como excepção, o caso que eu acima referi. Sobre a origem e correcta colocação de emblemas, clique AQUI.
- Um código que determina que o relógio usado com traje tem de estar
oculto, não se percebe muito bem o sentido de tal recomendação. Sobre o uso de relógios, cliquem AQUI;
- Um código que, pasme-se, apelida de "objectos de praxe" aquilo que correctamente se deve designar por insígnias de Praxe (ver AQUI);
- Um código que coloca "rótulos" nos alunos, introduzindo "pins"
(que são mais umas pequenas "placas" que outra coisa) que identificam
a hierarquia, transformando o traje num uniforme militar e esquecendo a sobriedade
que o mesmo deve(ria), a meu ver, ter. Pena que não optassem por reabilitar, por exemplo, o uso
de fitas no braço, junto ao ombro, como era costume em finais do séc. XIX e
inícios do XX, em detrimento de “chapas de identificação”. Sobre pins, cliquem AQUI;
- Um código que determina o uso de traje nas Tunas é não perceber que Tunas e Praxe são coisas distintas e que a Tuna não se subordina à Praxe (vd. Manifesvum Tvnae);
São alguns aspectos, de muitos outros igualmente equivocados ou totalmente desadequados, deste código que mereciam revisão e reflexão, porque
alimentam, por vezes, equívocos, erros, mitos e invencionismos (pois quem conta um conto.......).
Tais lapsos, erros e invenções são correntes na larga maioria dos códigos
existentes (com maior incidência, até, nas instituições mais recentes) e só uma
reflexão séria, um procurar razões, precedentes….permite perceber se o
essencial da Tradição (existe uma matriz na qual toda a gente se inspirou e que ao servir de modelo, deve ser respeitada e preservada na sua essência e significação, mesmo quando adaptada) de modo a poder-se proceder aos ajustes necessários. Porque há, de facto, ajustes a fazer nos nossos códigos, sob pena de se abrir espaço, em muitas localidades, à total descaratcerização da cultura e tradição estudantis. Não se trata de cercear a liberdade da identidade própria, mas copiando modelos, não os adulterar ou inventar novas significâncias.
Pena que, em Portugal, quem veste o
papel de “praxis maker” ou de “legislador de código” (e quem, muitas vezes, ocupa organismos que regem a Praxe) careça, tantas vezes, desse cuidado em respeitar em conhecer melhor a matriz de que a larga maioria das "tradições" são sucedâneas, evitando que na sua adopção e/ou adaptação, troquem o essencial pelo acessório ou se afastem a tal ponto do precedente que se descaracteriza a causa e o próprio efeito.
Para a UBI, que aqui "emprestou" o primeiro exemplo, um abraço, especialmente às suas Tunas!
Nota: Espero que os que vierem a ler este artigo e lhe queiram responder, nomeadamente
os “UBIanos”, não vistam o papel de madonas ofendidas a quem não se pode fazer
reparo às suas práticas e "leis", mas que, discordando, digam exactamente em quê,
apresentem argumentação para tal e o façam com elevação.
Sempre me intrigou o "súbito" desaparecimento da capa e batina dos estabelecimentos de ensino secundário - os antigos liceus.
Mais estranheza causa quando a adopção do traje académico resultou, na maioria dos casos, da persistência e de esforços continuados por parte da comunidade estudantil junto das autoridades educativas - e que redundaram na publicação de um decreto que autorizava (não obrigava) os alunos dos liceus a envergar capa e batina.
"No entanto, a política também não foi estranha a alguma quebra no uso do traje. Estão neste caso momentos como a implantação da República, o Estado Novo e o pós 25 de abril.
A principal interferência no uso do traje académico, durante o Estado Novo, teve, sobretudo, a ver com o espírito da M. P. [Mocidade Portuguesa] que se traduz, por exemplo (...) na perseguição caricata ao uso da "capa e batina" (...) o que levou o deputado António Gromicho (que era também o Reitor do Liceu de Évora) a declarar na Assembleia Nacional:
com o aparecimento da M.P. e com a expansão desta organização, estabeleceu-se uma certa confusão e equívoco, pois formou-se o mito, na minha opinião erradíssimo, de queo uso da capa e batina é um obstáculo à actuação da M.P.Dizia-se, e creio que continua a dizer-se, que o trajo (sic) académico representa ideias e costumes contrários às doutrinas daquela organização. (Labor, N.º 157, abril de 1956, p. 478)"
e, na p. 65, referindo-se ao lento processo de "passagem" da Associação Académica para a Mocidade Portuguesa:
"Ostensiva ou subreticiamente, a M.P. opunha-se às tradições [democráticas]que tão orgulhosamente os académicos [do Liceu de Évora]respeitavam e preservavam."
Será que o caso do Liceu de Évora pode ser extrapolado para todos os liceus nacionais da época?
Estamos em crer que sim, muito embora não disponhamos de dados tangíveis que nos levem a dar uma inequívoca resposta afirmativa.
No entanto, e tendo em conta que o processo de adopção é semelhante em todos os liceus (também nas antigas "províncias ultramarinas"), não vemos razão pela qual o processo, "filosofia" e sobretudo o agente da extinção do traje possa ou deva ser diferente caso a caso. O Liceu de Évora nem era o único a usar capa e batina nem o único a possuir estruturas estudantis democráticas. Temos, assim, que a Mocidade Portuguesa procurou (e conseguiu) insinuar-se como estrutura organizativa centralizada (e centralizadora) das actividades recreativas juvenis.
Por outro lado, cai por terra a argumentação dos que vêem na capa e batina um símbolo do regime fascista do Estado Novo - uma vez que o próprio regime via no traje académico um "obstáculo" e a representação de "ideias e costumes contrários às [suas] doutrinas".
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ZACARIAS, Adília, e MENDES, Isilda M. Tuna Académica do Liceu de Évora (100 Anos de História e Tradições), [s.n.], Évora, 2012
As autoras escreveram de acordo com as normas do AO90, que respeitámos na transcrição dos excertos.
Todos saberão o que é. Todos dele terão
tirado proveito ou, então, criticado duramente esta institucionalização do
atraso, querendo dar roupas de virtude a algo que não deixa e ser um erro, um
mau hábito.
De uma maneira geral, temos ideia que tal
costume é intrinsecamente nosso e parte daquilo que nos caracteriza enquanto
cultura, naquele cliché rebatido de que o pessoal nos países mediterrânicos não
tem pressa nem “stressa” com os ritmos mais frenéticos de outros povos mais a
norte.
Por isso é que ao pretender saber da origem
dos “15 minutos da praxe”, que se dão de tolerância para quase tudo, também ia
com aquela firme certeza de ser este um traço muito nosso, bem português.
Fazia fé, e tal como eu muitos, que o “quarto
de hora académico” nascera na UC em tempos remotos, por uma qualquer razão mais
ou menos lógica (que nisto de tradições tanto há pertinência e pragmatismo como
perfeita patetice).
Após ter pedido ajuda e alguns
esclarecimentos a antigos estudantes de Coimbra, percebi pelas respostas que, provavelmente,
o mais que se conseguiria seria apresentar algumas teses e possibilidades.
Aliás, aqui faço minhas as palavras do Zé
Veloso, do blogue “Penedo d@ Saudade”, ao dizer que:
"Quando procuramos a razão de ser de uma dada tradição ou de uma dada
expressão cuja origem se perde no tempo é raro haver verdades absolutas. Há
apenas teorias, mais ou menos plausíveis.”[1]
É o que aqui partilho, após ter aprofundado
um pouco mais a pesquisa, tanto quanto me foi possível fazer tal, sem sair de
casa.
A 1ª teoria que encontrei foi a seguinte:
“A dispersão
dos Colégios pela cidade, assim como o facto de a maioria dos estudantes viver
em alojamentos arrendados aos moradores, deu origem a que o relógio da
Universidade estivesse meio quarto de hora atrasado, relativamente aos da
cidade, para dar o devido tempo de deslocação do estudante até às faculdades
na Alta. Ficticiamente, na Universidade, as aulas começavam a horas.” [2]
Esta primeira explicação, provém do próprio
site da UC, contudo, como pelos dados que mais adiante partilho, me pareça um
argumento altamente falível. Os estudantes tinham mais é que acordar a horas.
Não creio que a UC fosse assim tão permissiva que até se desse ao luxo de criar
um segundo toque de despertador, quando o qu enão faltava em Coimbra erma
igrejas a dar as horas (e recordemos que parte da vida das pessoas era regulada
pelos sinos, para se levantarem, rezarem, tomarem as refeições……).
Atentemos, agora, à 2ª tese:
“A velha torre da Cabra, hoje substituída pelos modernos
relógios impostos aos estudantes que vivem freneticamente o seu ritmo
académico, foi mandada construir em 1537. Mas não foi esta que chegou aos
nossos dias. A disponibilidade financeira e, talvez mais importante, a
excentricidade do nosso conhecido D. João V fizeram com que ela fosse aumentada
para os 33 metros de altura e assim os seus quatro sinos e quatro relógios
fossem vistos em toda a alta universitária (1733)
A sua
utilização era regalia de toda a cidade ainda assim o seu principal objectivo
era atingir os estudantes da Universidade que eram acordados, todas as manhas,
pelo toque de um sino de nome "cabrão", vá-se lá saber porque...
Ainda assim o sino mais importante e que torna conhecido o monumento é mesmo A
Cabra.
É sabido que Coimbra
sempre esteve na vanguarda das lutas estudantis. A sua tradição assim o impõe
e, à época, era inevitável uma vez que a Universidade de Coimbra era única no
país. E também nestas lutas esteve envolvida a torre e os badalos dos sinos que
chegaram a ser roubados para que o "cabrão" não tocasse e, por
conseguinte não houvesse obrigatoriedade de cumprir os horários académicos
também eles diferentes do resto do país e mesmo da própria cidade de Coimbra.
Actualmente os relógios da Universidade de Coimbra estão de acordo com o fuso
horário nacional, mas, naquele tempo pode dizer-se que Portugal tinha 3 horas
diferentes: (1) a do continente e arquipélago da Madeira, (2) a do arquipélago
dos Açores e a da (3) Alta Universitária de Coimbra. Assim era, os relógios da velha torre eram atrasados quinze minutos para
que o chamar dos estudantes para as aulas não fosse confundido com o chamar dos
fiés para as missas.
A História "d'A Cabra", do cabrão e dos
restantes sinos sem nome não se aprende numa subida ao topo da cidade, mas vale
mesmo apena disfrutar de uma vista panorâmica que engloba toda a cidade do
Mondego e essa, só se consegue no topo da velha Torre d'A Cabra, hoje de cara
lavada e aberta ao público.”[3]
Esta segunda explicação é ainda mais falível
que a anterior. Não parece de todo credível que os estudantes de Coimbra se
levantassem com o toque do sino e, por erro, fossem à missa, ao invés de irem às
aulas. Um segundo toque em nada beneficiava fosse quem fosse. Além disso,
trata-se do ¼ de hora dado para o início das aulas e não do toque para
despertar os alunos da cama ¼ de hora depois do resto da população acordar.
O que não deixa de ser caricato é o facto de vermos
este tipo de tese propalada em reportagens televisivas por quem está a falar em nome da UC e que ao minuto 2:30 diz o seguinte:
«Rezam as crónicas e os estatutos que
este 1/4 de hora (académico) já existe desde 1591 para não confundir o toque
dos estudantes com as chamadas para a missa».
Deve ter a senhora, Chefe do Protocolo da UC ter sido induzida em erro por alguma leitura menos crítica da documentação que estudou. À mistura de factos históricos com ficção damos o nome de lenda.
Os dados em causa, como lembra Sónia Filipe (Vd. FB "Penedo d@ Saudade - TERTÚLIA") parecem apontar para o facto do "décalage" de 15 minutos entre hora civil e hora académica servir para evitar confusões, mas em tempo algum por causa do horário de missas:
“O cargo de relojoeiro é criado
estatutariamente em 1653. Para além de indicarem as funções expressas deste
funcionário acrescenta-se a dado passo “que andara sempre atraz do relógio da
cidade, meio quarto de hora”, de
forma a nunca ser confundido com a regulação do tempo do resto da cidade
(quarto de hora académico). O segundo, um artigo sobre as Horas da
Universidade, publicado numa coletânea de artigos sobre a UC.” Nota: citação acima segundo "Universidade(s), História, Memória, Perspectivas. Actas. 5vols. Congresso História da Universidade, 7º Centenário, Coimbra, 1991" O artigo que referia anteriormente é o seguinte: ARAÚJO, Ana Cristina Bartolomeu (1991), "As horas e os dias da Universidade", vol.3, pp. 365-382.
Como acima dito, esta tese carece de lógica.
Não parece existir uma razão plausível para
andar o relógio da torre atrasado em relação ao resto da cidade, além de que no
séc. XVII e até ao XX, Coimbra não era assim tão grande nem há notícia de se
passar o dia a ouvir sinos a toda a hora e minuto.
Existem toques bem
definidos para a liturgia (eque eu próprio toquei quando jovem, na minha vila de origem):
a) baptismos, com o toque chamado de
"repenicado/repique" que se dá no fim; b) os "sinais", aquando
da morte de alguém, que se repetem nos funerais, e a que se chama
"dobrar" (porque o sino gira completamente sobre o eixo) e que
implica 2 sinos em simultâneo; c) a chamada para a missa, dada uma hora antes
da mesma e cujo o toque se chama "badalar" (porque é um toque
simples).
Ainda existem em muitos lugares os toques das
"trindades" (ou também apelidados de "ave-marias"), que se
davam 3 vezes ao dia: de manhã, pelas 5 horas; ao meio dia e ao cair da noite
(17/18 horas no inverno ou pelas 21/22 horas no verão). Esses toques eram 3,
espaçados, seguindo-se, a cada um, uma "Avé, Maria", depois um toque
dobrado e mais 3 toques espaçados).
Também não me parece que
se possa confundir com "Matinas" (pelas 3h00 da manhã, embora inicialmente à meia noite) ou "Laudes", que ocorriam ao nascer do sol (inicialmente pelas 3 da manhã), por ser demasiado cedo (os estudantes oriundos do clero levantar-se-iam para rezar, depois comer e só depois irem às aulas) ou com "Vésperas" ao fim do dia (porque o toque académico era para chamar e não para encerrar as aulas). As demais "horas canónicas", eram assinaladas de forma discreta e nunca a ponto de causar confusão. Nem mesmo as denominadas "primas" pelas 6h00, usualmente assinaladas com issa pública me parecem ser confundíveis, pois não estou em crer que a essa hora começassem quaisquer aulas (haveria, até, espaço para os próprios estdantes irem à missa). Muito menos as "terças", pelas 9h00, que podiam ser assinaladas com missa solene, por ser uma hora demasiado tardia (a essa hora os estudantes já estariam em aulas (ou a iniciar as mesmas).
Os toques seriam dados com antecedência, mas a que ponto confundíveis com o toque para as aulas?
E a que horas começavam essa aulas?
Certamente, nisso estou seguro, não seria o
toque confundível com o inconfundível toque picado ("picado 3 vezes")
usado para situações de incêndio. Os estudantes conheciam bem o toque do seu
sino, e o facto de ter o cognome de "Cabra" (nome do sino mais famoso, colocado
no séc. XVIII) diz tudo. O "Cabrão" é o outro sino, mais recente
datado do séc. XIX, normalmente reservado a actos de doutoramento e eventos
festivos). Mas antes deste existia (e existe) um outro, o mais antigo (e
maior), designado de "Balão", que é de 1561, posto na antiga torre (sobre a qual surgiu a actual, bem mais alta), porque a torre, essa, foi erigida entre
1728 e 1733.
Que tipo de toque era dado pelo sino que chamava os estudantes e professores para as aulas? E a que horas?
Perguntas que ficam no ar, até uma apuramento mais aprofundado da questão (pois certezas não há em definitivo). Continuo convicto que esta tese traz demasiados inconvenientes práticos, além de que, como abaixo veremos, o "1/4 de hora académico" não é um fenómeno endémico (só nosso), sendo possível que tenah sido importado e que tenha, por cá, sofrido a respectiva aculturação e corruptela.
Mais 2 teses se perfilam, referidas pelo amigo
Zé Veloso, de que cito a intervenção
que teve, sobre o assunto, no FB da sua Tertúlia:
“Porém, o meu amigo Ricardo
Figueiredo acaba de me informar que encontrou a referência abaixo transcrita,
que parece confirmar a primeira versão:
(…)
Despesas, Orçamento de
1568:
10- A António Fernandes, Relogieiro da SEE-$500(1)
17- A Tomé Fernandes, que tange o sino de corer 4$500
(1) Dava-lhe o Bispo mais $500 e o
cabido outro tanto. O relógio da Sé era o relógio oficial da cidade; por ele
todos se governavam. O da Universidade estava atrasado um tanto, para
permitir que professores e alunos chegassem a tempo, costume que vem a dar o
quarto de hora de tolerância.[4]
Finalmente, Gonçalo Reis Torgal, que baseia a sua referência ao toque da cabra durante 1/4 de hora na transcrição de uma frase do livro de Diamantino Calisto - "Costumes Académicos de Antanho" - avança uma terceira teoria. Diz ele que
a cabra tocava os seus balidos durante ¼ de hora e, daí, a razão de ser do 1/4
de hora académico. Aqui o ¼ de hora bate certo mas não tem a ver com atraso
algum, pelo que me parece uma explicação algo duvidosa, pese embora o muito
saber do autor de "Coimbra - Boémia da Saudade" sobre as tradições
académicas de Coimbra.”[5]
A explicação dada pela referência contida no
livro de A. Rocha Brito, parece muito plausível (como adiante veremos), sendo,
até agora, a mais antiga referência portuguesa de que dispomos sobre o atraso
de ¼ de hora tolerado a alunos e professores.
Já o argumento avançado pelo Reis Torgal
merece as minhas fortes reservas, secundando o Zé Veloso nas dele, pois não
consta que o toque do sino durasse 15 minutos. Nem nas grandes festas
religiosas sucedia tal, nos sinos da Sé ou igrejas, quanto mais neste caso.
Além disso, sujeitava-se a UC a ver-se invadida de conimbricenses, de baldes de
água na mão, a perguntar onde era o fogo! O que ocorreu foi um erro de leitura/interpretação, como disso dá nota o Zé Veloso, pois "Diamantino Calisto frequentou a UC no final do séc. XIX e a frase que vem na pág 27 do seu livro de memórias é a seguinte: «Tocava (a cabra), com pequenos intervalos, durante um quarto de hora». Sobre esse toque, recorda o Zé Veloso que, e citando um amigo comum, que "num post do Guitarra de Coimbra": A. M. Nunes refere os dois toques da cabra, o matutino e o vespertino, da seguinte forma: «É tangido vespertinamente, entre as 18:00 e as 18:30h, anunciando as aulas do dia seguinte, e matutinamente, das 7.30 às 8.00h, a lembrar o começo das aulas».
E nada mais encontrei, sobre o nosso “quarto de hora académico” português.
Contudo, alertado pelo João Caramalho
Domingues, do blogue “Porto Académico”, para o facto de haver referências
estrangeiras, em alguns cliques cliques dei de caras, entre outros, com o seguinte excerto,
que me escuso traduzir, pois de fácil compreensão:
“The quarter system dates back to the days when the
ringing of the church bell was the general method of time keeping. When
the bell rung full hour, students had 15 minutes to get to the lecture. Thus
a lecture with a defined start time of 10:00 would start at 10:15.
Academic quarter exists to a varying extent in many
universities, especially where the campus is spread out over a larger area,
necessitating the need for fifteen minutes for the students to walk from one
building to another between classes.”[6]
Pelos vistos,
lá fora, atribui-se este hábito (que, como vemos, não existe só por cá) à
necessidade de contemporizar o facto de os alunos precisarem de mais tempo para
transitarem entre aulas, quando estas ocorriam em campus cujos edifícios ficam distantes
uns dos outros.
Uma explicação
que vem reforçar o que ainda há pouco vimos citado da obra de A. Rocha Brito.
Sabemos que o
¼ de hora académico é, usualmente assinalado acrescentando-se a abreviaura "c.t."
(cum tempore, que significa, em
latim, “com tempo”) que se coloca imediatamente a seguir à hora designada; por
exemplo "16:00 c.t.".
Quando, no
entanto, se pretende que a aula, reunião ou evento começe a horas certas
utiliza-se a expressão "s.t." (sine
tempore, que significa, em latim, “sem tempo”, ou seja que não dada
tolerância e tempo).
Em países
anglófonos, por exemplo, onde também existe o “quarto de hora académico”,
utiliza-se também, a expressão "sharp" (que significa que são horas
precisas/certas), precisamente para deixar claro que é para começar à hora indicada.
Exemplificando: "6:00 pm sharp".
Os franceses,
por sua vez, utilizam a expressão “pile” (de pilha, numa alusão à exactidão dos
relógios a pilhas[7], em
contraposição aos antigos que eram de corda), colocada a seguir à hora
indicada, para deixar claro que é “em ponto”.
Como o leitor
já começa a perceber, isto do ¼ de hora de atraso, não é só por cá. Na Alemanha,
esse quarto de hora académico é apelidado de “akademisches Viertel" (existindo, inclusive, uma publicação estudantil com essa designação), e
essa tolerância é praticada também na Áustria, Escandinávia e Suíça (onde é
apelidado de “Le quart d'heure vaudois”),
entre outros. Também por lá as aulas nas universidades não se iniciam
exactamente à hora indicada, mas 15 minutinhos depois, precisamente para darem
tempo aos docentes e discentes de se deslocarem de umas salas para as outras, as
quais nem sempre se encontram no mesmo edifício (essa é a desculpa, porque o facto
é que o atraso de 15 minutos é já uma instituição).
Assim, é natural encontrar nos horários afixados o seguinte
exemplo:
Aula de Literatura do séc.
XIX
Professor Doktor Schultheiss
Edifício 11, Sala 1
Sextadas 11h às 13h c.t.
Desengane-se
quem pensa, pois, que esse quarto de hora é culturalmente indicativo de
preguiça ou próprio de povos menos…… competitivos, pois ficaria o leitor
admirado em saber que na Alemanha da Sra. Merkel o quarto de hora estende-se
para além do âmbito estudantil e já há décadas se estendeu a todos os domínios
da vida quotidiana. No país que manda na economia e finanças da Europa, e que
se gaba da sua eficácia e produtividade, é sempre possível argumentar com o ¼ de
hora da praxe para justificar uma qualquer atraso.
Em França,
por exemplo, chega a fazer parte da “etiqueta”, tomando, pro vezes, a
designação não oficial de “quart d’heure
de politesse”. Outras designações que toma são “quart d’heure marseillais”, “quart
d’heure parisien”, praticado quer pelo comum dos mortais que mesmo por titulares
de cargos públicos.
De tal
maneira está enraizado, já, esse atraso que um artigo do “New-York-Times” sobre o "savoir-vivre à francesa”, publicado
em 2007, dizia que “Em França, quando há
um encontro marcado, parte-se do princípio que todos chegarão atrasados”.
O mesmo
referia o jornal suíço “Le Temps”[8],
em 2010, afirmando que os suíços tinham a “condenável mania de
nunca estarem a horas”.
Não
deixa de ser, de certa maneira, paradoxal que um país conhecido pela sua relojoaria,
nele se pratique, de forma tão generalizada, o atraso; um atraso já tão
institucionalizado que já tem honras de dicionário:
“Quarto de hora (dito) académico = "atraso"
(praticamente tolerado) de um quarto de hora antes de qualquer hora de aula
universitária.” [9]
Em França,
também o dicionário da Academia Francesa, a mais prestigiada academia do mundo,
contempla o ¼ de hora académico, designando-o como “Quart d’heure de grâce” (ser agraciado, gozar a graça de um quarto
de hora):
"Heure de Grâce, quart d'heure de grâce - Délais accordé au delá du temps fixé pour
faire quelque chose, pour terminer une affaire."[10]
É
precisamente em França que encontrámos uma referência que indica que o quarto
de hora académico é ainda a mais antigo do que julgávamos (até agora era 1568,
em Coimbra). Com efeito, como podemos ler no excerto abaixo, ele proviria do
atraso admissível às reuniões das comissões municipais na idade média, tempo
esse que seria medido por uma ampulheta regulada para 15 minutos:
"Historiquement, le quart d'heure académique provient
de la durée de retard admissible aux réunions des commissions municipales au Moyen
Âge, mesurée par un sablier réglé sur quinze minutes” [11]
Uma coisa
sabemos : o ¼ e hora académico é da Praxe. Um costume que, afinal, não é
traço exclusivo de países atrasados cultural e socialmente, como tanto gostam
de apregoar certos anti-praxe no que concerne a Portugal e às suas tradições
académicas (eles que se esquecem, por exemplo, que muitas universidades do norte da Europa também tiveram cadeia para os alunos até inícios da 1ª guerra Mundial).
Os 15 minutos
da Praxe, pese embora serem um mau hábito, são um hábito por demais enraizado e
que está aí para contrariar a regra da pontualidade britânica ou dos países
mais a norte, tidos como exemplo de civismo, etiqueta e cumprimento draconiano
de horários.
Certamente
que fazer do atraso uma regra de etiqueta (ou a sobrepor-se á etiqueta e boas
práticas) é algo sem sentido, mas nem sempre se cristalizam em tradição os bons
exemplos e as boas práticas.
De nada vale
querer mudar as coisas à força, o testemunho seguinte no lo confirma:
“As universidades não estão, de resto e em matéria de
tempo, melhores do que os bancos. Por exemplo, a Universidade de Coimbra (e não
está sozinha neste particular) tem um ancestral quarto de hora de atraso
académico. Quando se anuncia que uma aula ou um seminário é às 3 horas, quer-se
dizer que é às 3 horas e 15 minutos. Cometeu este autor um dia o inaudito
atrevimento de tentar uma pequena revolução temporal, anunciando um seminário
para as 15 horas 15 minutos, EM PONTO, com maiúsculas e tudo. Mantinha-se o
respeito pelos hábitos mais primordiais, mas ensaiava-se obter um mínimo de
rigor, procurando a concordância entre o horário no papel e a hora marcada nos
relógios quando a função começava. Tarefa votada desde logo ao insucesso! A
audiência compareceu, ou melhor começou a aparecer, às 15 horas 30 minutos, porque
o quarto de hora académico é uma conquista académica irreversível da qual
nenhum académico jamais abdicará por sua livre vontade. [12]
São “pecados velhos” que já o
nosso bem conhecido Pe. António Vieira denunciava em 1650:
«Uma das cousas de que se devem acusar e fazer grande escrúpulo os
ministros, é dos pecados do tempo. Porque fizeram no mês que vem o que se havia
de fazer no passado; porque fizeram amanhã o que se havia de fazer hoje; porque
fizeram depois, o que se havia de fazer agora; porque fizeram logo, o que se
havia de fazer já. Tão delicadas como isto hão-de ser as consciências dos que
governam, em matérias de momento. O ministro que não faz grande escrúpulo de
momentos não anda em bom estado: a fazenda pode-se restituir; a fama, ainda que mal, também
se restitui, o tempo não tem restituição alguma»[13]
Termina
o artigo como começou: sem certezas.
Algumas
teses que por vaí pululam não apresentam solidez nos seus argumentos e
explicações, caindo pela base ao primeiro abanão.
Outra(s)
parece(m) mais plausível(is). Aoleitor cabe
tirar as suas próprias conclusões.
P.S. Um agradecimento penhorado aos membros da Tertúlia Penedo d@ Saudade no Facebook.
[7]
Não devemos esquecer que a hora mundial é definida por um relógio alimentado
por uma pilha atómica.
[8]Artigo intitulado : "Le quart d'heure vaudois en
voie d'extinction".
[9]LEBOUC, Georges - Dictionnaire de Belgicismes. Editions
Racines.Bruxelles, 2006, p. 82.
[10]Dictionnaire de L'Académie Française, 6ème Édition, Tome 1er.
Imprimerie et Librairies de Firdin Didot Frères (Imprimeurs de l'Institut de
France).Paris, 1835, p.889
[11]Régulation temporelle et territoires urbains - habiter
l'espace et le temps d'une ville, sob a direcção de de René Kahn,
L'Harmattan (2007), p. 57. G. Dohrn-van Rossum, P. Braunstein, O. Mannoni: L'histoire
de l'heure, Maison des Sciences de l'Homme (1997), p. 254.