segunda-feira, julho 26, 2010

Notas de desalento

Lamentavelmente, a Biblioteca Nacional de Portugal irá encerrar portas para obras. Um enorme transtorno para quem investiga, sem dúvida, mas também uma necessidade para preservar o acervo e melhorar as condições de preservação e prestação de serviço. Pena o anúncia fazer-se tão em cima da hora ou não se ter pensado em transitar parte dos arquivos para um local provisório (em articulação com a Torre do Tombo, por exemplo).

Serão cerca de 10 meses (embora saibamos que nisto de prazos, somos dados às costmeiras, e tão lusas, derrapagens).
Reza assim o artigo do DN Artes de 11 de Julho:

É preciso fechar a biblioteca?
Grande parte da Biblioteca Nacional estará fechada dez meses, a partir de Outubro. Críticas e explicações


São mais de 1200 toneladas de livros que terão de ser encaixotados em 15 mil caixas. A equipa da Biblioteca Nacional (BN) fez experiências cronometradas e chegou à conclusão de que a operação de retirar todos os livros da Torre de Depósitos iria demorar cerca de três meses, e outro tanto para os desempacotar e recolocar no lugar. A isto acresce o período das obras propriamente ditas: 20 dias úteis (um mês, na prática) para cada um dos andares da torre. Feitas as contas, e concertando todas as operações para que a intervenção "demore o mínimo de tempo possível", são dez os meses durante os quais será impossível consultar o fundo geral da BN.
 "Mas acham que não considerámos todas as hipóteses? Acham que se decide fechar uma Biblioteca Nacional durante tanto tempo de ânimo leve?" Maria Inês Cordeiro, subdirectora da BN, não esconde a estupefacção perante os artigos que vai lendo, na imprensa e na blogosfera, que criticam a decisão de, na sequência das obras de ampliação e remodelação da Torre de Depósitos, a BN encerrar os principais serviços de leitura a partir de Outubro.

Ainda esta semana, foi entregue uma petição na Assembleia da República com 3700 assinaturas na qual se propõe que a transferência de livros seja faseada e se afirma que este encerramente compromete a investigação em Portugal. "Não deixa de ser curioso que as pessoas que mais protestam são aquelas que não costumam usar os nossos serviços. Até agora, desde que o encerramento foi anunciado, há um mês, apenas tivemos duas reclamações escritas, às quais já respondi", diz a subdirectora, deixando nas entrelinhas críticas aos "agitadores" que falam sem conhecimento de causa.




Não se trata só (e já seria muito) da construção de uma nova ala, praticamente concluída, que representa mais um terço do espaço - mais 33 metros de comprimento - e que vai permitir ter mais espaço para arquivar livros, ter, finalmente, uma "casa forte" em condições para as peças mais raras e antigas e até uma nova sala de leitura. Trata-se também de renovar todos os equipamentos eléctricos, de segurança e de climatização da actual torre. "Tal como está, é um perigo", sublinha o arquitecto João Pardal Monteiro, responsável pela obra. Introduzir sistemas anti-incêndios e anti-roubo, renovar os elevadores, dar aos livros as condições que eles merecem. São intervenções profundas e que, de acordo com os especialistas, não poderiam ser feitas com os livros nas habituais prateleiras.


Durante o tempo da obra, as caixas com livros, pesadíssimas, não podem ser colocadas em qualquer lugar, "nem todos os pisos aguentam". E, por isso, um dos espaços a usar para depósito será a sala de leitura da BN. Mas há mais: "Não há um sítio suficientemente grande para onde os pudéssemos levar e disponibilizar, mas imaginando que local existia, alguém já pensou no tempo que demoraria a reabrir a biblioteca noutro espaço?" Para já não falar das questões de segurança.


"Acredito que tomámos a melhor opção", afirma a subdirectora da BN, que visitou as principais bibliotecas do mundo para poder dizer que, apesar das dificuldades, dos elevadores que se avariam, dos canos em mau estado, da constante manutenção necessária, a BN funciona "muito melhor do que muitas bibliotecas". Além disso, sublinha, a BN tem 6500 leitores activos, com o cartão em dia. No ano passado, a sala de leitura geral teve ocupação média de 100/120 pessoas que consultaram 1200 volumes por dia. "Claro que a BN é importante, mas a investigação em Portugal não pára se estiver fechada", garante Maria Inês Cordeiro. "Há excelentes bibliotecas públicas e universitárias. Demora mais tempo, mas quem quiser pode continuar a investigar."

(Maria João Caetano, in http://dn.sapo.pt/inicio/artes/interior.aspx?content_id=1615688&seccao=Livros)


Deixo aqui o artigo publicado no jornal O Público de 18 de Julho:

Biblioteca Nacional garante não ter alternativa ao encerramento

Mais de 3800 pessoas assinaram uma petição contra o encerramento da Biblioteca Nacional durante nove meses para obras. Dizem que "é insubstituível", que os trabalhos vão ficar parados e que há bolsas em risco.

É inaceitável, dizem os investigadores. É incontornável, respondem os responsáveis da Biblioteca Nacional de Portugal (BNP). Quando, no início de Junho, foi anunciado que a BNP iria encerrar durante nove meses e meio - de 15 de Novembro a 31 de Agosto de 2011 - para obras de remodelação, a comunidade de investigadores lançou o alarme: as investigações vão ficar paradas, há bolsas em risco, o aviso não foi feito com antecedência suficiente para permitir uma reorganização do trabalho. Uma petição contra o encerramento, na Internet, recolheu em pouco tempo 3800 assinaturas.
Os responsáveis da BNP argumentam que não havia outra forma de fazer este tipo de obras, absolutamente essenciais para evitar a degradação dos livros e que envolvem sistemas que percorrem todo o edifício onde os volumes estão depositados (ver texto nestas páginas), garantem que existem alternativas noutras bibliotecas do país, e asseguram que reduziram ao mínimo o tempo necessário para as obras.

"A BN é absolutamente insubstituível. Não há outra em Lisboa comparável. Não só tem fundos arquivísticos como tem tudo o que foi publicado em Portugal desde o século XIX até à actualidade", diz o historiador Nuno Monteiro, um dos subscritores da petição. "Em relação aos livros do Fundo Geral [a maior parte das colecções, excluindo os Reservados] há mais alternativas", contesta Maria Inês Cordeiro, subdirectora da BNP, dando como exempo, para o caso do livro antigo, as bibliotecas da Academia das Ciências, da Sociedade de Geografia, a Biblioteca Central da Marinha, a Biblioteca de Évora, a da Universidade de Coimbra ou a Biblioteca Municipal do Porto. Além disso, acrescenta, várias bibliotecas municipais pelo país têm todos os livros publicados desde que existe a obrigatoriedade de depósito legal.


"A minha primeira reacção é de indignação, quase de revolta", diz o sociólogo António Barreto, sublinhando, contudo, que lhe faltam alguns da-dos para avaliar se as obras podiam ter sido feitas de outra forma - faseada, por exemplo, como defendem muitos investigadores. O que António Barreto sabe é que noutros países - e cita os casos das Bodlien de Oxford, ou da Biblioteca Nacional de Paris - foi possível fazer obras praticamente sem interromper o funcionamento.


"Creio que aqui se poderia fazer de outra maneira", continua António Barreto. "O que é que os bolseiros vão fazer agora? Receber as bolsas para depois não poderem trabalhar?" O argumento de que poderão requisitar com antecedência alguns documentos que serão digitalizados não convence o sociólogo. "Uma investigação não se pode planear assim. Um livro leva a outros. Quando vou a uma biblioteca acabo sempre por ler três vezes mais coisas do que o que estava à espera." E conclui: "Não faz sentido que em 2010 se faça como no século XIX."


Nuno Monteiro lembra também que "há uma população universitária que tem prazos a cumprir, que com Bolonha foram enormemente encurtados, e avisar com três meses de antecedência que [a biblioteca] vai fechar por um ano é uma irresponsabilidade". O historiador, que refere também o caso dos investigadores estrangeiros (ver depoimentos nestas páginas), admite que se poderia "ir fechando andares, para as pessoas racionalizarem os seus tempos de consulta, ou manter serviços a funcionar noutros sítios, restringindo um pouco as entradas".

Os responsáveis da biblioteca dizem que as obras são essenciais
para evitar a degradação dos livros (Rui Gaudêncio (arquivo)
"Não é uma transferência"

Maria Inês Cordeiro considera que as críticas - e até as sugestões que tem recebido sobre sítios alternativos para colocar a biblioteca - partem de um desconhecimento da situação. "Estudámos todas as alternativas. Mas não era possível fazer de outra maneira." A obra implica que se esvazie toda a torre de depósito de livros - será preciso retirar 1200 toneladas de material bibliográfico (serão tiradas 20 toneladas por dia e cada piso será depois remodelado em 20 dias úteis), que tem que ser colocado (empacotado) em espaços alternativos que possam suportar o peso (400 quilos por metros quadrado). Para isso terá que se usar, entre outros locais, a própria Sala de Leitura Geral. "Isto não é uma transferência", sublinha a subdirectora da BNP. E essa é a diferença em relação a obras noutras bibliotecas que têm sido dadas como exemplo. Aqui os livros terão que voltar para o mesmo sítio porque o que existe é um depósito central único e não colecções distribuídas por diferentes espaços.


Quanto ao facto de o aviso ter sido feito com pouca antecedência justifica-o por uma necessidade de conciliação com a primeira fase da obra - a da construção de um acrescento da torre do depósito. "Tínhamos que saber exactamente quando estaria concluída para perceber quando é que esta segunda fase poderia começar, e não queria estar a fazer um anúncio com datas erradas."


Rui Tavares, historiador, eurodeputado e colunista do PÚBLICO, onde escreveu uma crónica criticando a BNP, defende também que "nenhum [aviso de] encerramento de uma biblioteca nacional se faz com poucos meses de antecedência, faz-se com anos", mas acha que a questão é mais profunda e que se devia aproveitar estas obras para repensar a função da biblioteca. "Devíamos ter uma biblioteca pública nacional, na Praça do Comércio ou outro lugar central. A câmara muncipal tem as Galveias, que é interessante mas antiquada. Nos tempos do liberalismo, a Biblioteca Nacional, que era nas Belas-Artes, era muito frequentada. Lisboa deixou de ter isso."


O que Rui Tavares defende é que a BNP se assuma como uma biblioteca para investigadores e que seja criada outra grande biblioteca pública - "sem a qual uma cidade não é uma capital" - que esteja aberta à noite, e onde as pessoas possam passar para ler um jornal, um livro de BD ou o que lhes apetecer. "A BNP negligenciou o público em geral, ninguém vai lá fazer leitura recreativa."


Maria Inês Cordeiro garante que a BNP está aberta a todos, que não tem de forma nenhuma dificultada a entrada (os procedimentos foram facilitados desde o início de 2008), e sublinha que, para minimizar o impacto negativo do encerramento, este ano a biblioteca não fará horário de Verão (Sala de Leitura Geral aberta até às 19h30 durante a semana e até às 17h30 aos sábados) e o Serviço de Referência continuará aberto, permitindo a leitura de microfilmes.


Obras para "tratar a saúde dos livros"


Estamos num dos estreitos e longuíssimos corredores da chamada "torre" da Biblioteca Nacional de Portugal (BNP) - o local onde estão guardados mais de três milhões de livros - e faz imenso calor. Este é o sítio onde os leitores nunca entram. À nossa frente vêem-se apenas corredores paralelos, ligados por prateleiras com livros do chão ao tecto. Resta muito pouco espaço para os novos volumes que não param de chegar à biblioteca, e essa é uma das razões que justificam as obras: é preciso mais espaço para guardar mais livros.


Maria Inês Cordeiro, subdirectora da BNP, segura num pequeno aparelho que mede a qualidade do ar e lê os números: neste momento estão 28 graus, quando, indica o sensor, 18 seria a temperatura indicada para garantir a preservação dos livros. O nível de humidade também é superior ao recomendado.


"Não se deveria nunca atingir estas temperaturas aqui dentro. As temperaturas mais baixas são essenciais para evitar que as bactérias e os fungos ataquem os livros", diz Inês Cordeiro, segurando um exemplar antigo para mostrar como a humidade se entranha no papel. "E depois há a poluição do exterior. O ar que entra aqui dentro não é limpo, não é tratado."E esta é a outra grande razão para as obras: é preciso substituir sistemas eléctricos, sistemas anti-intrusão, de tratamento de ar, refrigeração, de con- trolo de temperatura, de protecção contra incêndios, etc. Os que existem estão obsoletos (o edifício, do arquitecto Porfírio Pardal Monteiro, é dos anos 60), não respeitam as novas regras de segurança. Algumas componentes, como o sistema de limpeza do ar, simplesmente não funcionam há muitos anos. E o controlo de temperatura e humidade está praticamente sem funcionar também. "As obras tinham como prioridade tratar da saúde dos livros", sublinham a subdirectora e o arquitecto João Pardal Monteiro.


Há dez anos que o projecto de ampliação e renovação da BNP estava feito. Só não ia para a frente porque não havia dinheiro. Finalmente, em 2008, foi possível avançar - 9,6 milhões de euros de fundos do PIDDAC ficaram disponíveis para a obra.


A primeira fase (que começou no final de 2008, terminou agora e corresponde à parcela menor do investimento) foi a construção de um acrescento da torre, ou seja, o prolongamento em mais 33 metros destes longos corredores que temos à nossa frente (e que tinham já 99 metros por 15 de largura) em todos os dez pisos. Os depósitos da BNP cresceram assim 6300 metros quadrados. Esta obra não interferiu com o funcionamento da biblioteca porque se tratou de construir uma parte nova.


Terminada essa primeira fase, a BNP prepara-se agora para a segunda - a mais cara, a mais complexa e a que está a provocar polémica por obrigar ao encerramento dos serviços: a substituição das infra-estruturas e sistemas técnicos. Esta vai, segundo explicaram ao PÚBLICO o arquitecto e o engenheiro Correia Abrantes, responsáveis pela obra, implicar a instalação de cabos e condutas, que atravessam a torre de cima a baixo. É por isso que, dizem, a obra não pode ser faseada. Envolve a manipulação de sistemas que atravessam todo o edifício.


A primeira fase, a da ampliação - que está prestes a ser concluída - permitirá não só ter mais espaço de depósito de livros mas também uma nova sala de leitura, próxima da actual Sala de Leitura Geral, e uma casa-forte subterrânea, que até aqui não existia. Aí serão colocados as obras e documentos mais importantes que a BNP guarda - não todos os que actualmente se encontram nos Reservados, mas a parte mais preciosa e rara destes. Aqui dentro, os livros mais valiosos - e a BNP tem vários tesouros nacionais, peças como uma Bíblia hebraica do século XIII, manuscritos do padre António Vieira, cartas de Vasco da Gama e todo o espólio de Fernando Pessoa - estarão protegidos por grossas paredes de cimento e ferro, e o ar será não combustível. Até agora estavam numa zona à parte, com acesso muito reservado (um funcionário sozinho não podia lá entrar e eram necessários códigos de acesso), mas havia apenas um sistema de detecção de incêndio. "Vamos passar a poder fa- zer prevenção", diz a subdirectora. "Se se acender um fósforo dentro da casa-forte, não arde."

(Isabel Coutinho, Alexandra Prado Coelho, in http://www.publico.pt/Cultura/biblioteca-nacional-garante-nao-ter-alternativa-ao-encerramento_1447634?all=1)



segunda-feira, julho 19, 2010

Notas Brasileiras de Estudiantina Portuguesa

Conforme o texto que acompanha, no youtube, o video:

Irene Coelho Brasileira com Coração Português. Dedicou sua vida as canções de Portugal! Faleceu dia 07 de junho de 2008 em São Paulo- Brasil.



Irene Coelho canta Estudiantina Portuguesa.


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"Estudiantina Portuguesa" é um pasacalles (ou fado-marcha) da autoria do Maestro José Padilla fazendo parte da opereta espanhola "La Hechicera en Palacio ", protagonizada pela cantora argentina Celia Gámez no início da década de 50.

sexta-feira, junho 11, 2010

Notas de "Gritos". Arr(E) I(é) Qua(L) ?

Muito breve este apontamento.

Serve este mini-artigo para fazer, mais uma vez, o reparo à forma como é MAL entoado o chamado "Grito Académico".

Recentemente, num Festival de Tunas, em Lisboa, pude assistir e ouvir, mais uma vez, e por repetidas tunas, ao "aRRiqua RRiqua RRi qua".
É de perguntar se as pessoas não aprendem, de uma vez por todas.

O meu colega do Aventuras, recentemente, reiterou este mesmo tipo de reparo, mas para a forma como se escreve Pasacalles (que é mais um "Passa ao Calhas"), sintomático de uma grave iliteracia que grassa no meio académico, e tunante em particular, no que concerne a aspectos que continuam a ser deturpados pela ignara falta de saber (e desejo de saber), onde se reproduz sem reflectir, e ter conhecimento, sobre o que é reproduzido.

Assim, repito: Não é "aRRiquà", mas ALIQUA.

Sobre o Grito (origens, história, curiosidades e fórmulas) dedicou este blogue um artigo de investigação:

Notas sobre O Grito Académico "F.R.A."

sábado, junho 05, 2010

Notas às Origens do Fado

Um livro que ronda os 70€, mas que vale, sem dúvida, a pena (como as demais obras de José Alberto Sardinha).
Transcrevo um artigo que fala sobre este novo livro e sobre a "revolução" que traz na tese da origem do Fado.



AS ORIGENS DO FADO - José Alberto Sardinha
O investigador José Alberto Sardinha defende a origem portuguesa do fado, e não brasileira, num livro a apresentado na segunda-feira, dia 17 de Maio, em Lisboa, no Tartro Trindade pelas 18,30 horas. "O fado nasceu em Portugal a partir de um substrato comum a todo o território nacional que é o romanceiro tradicional. É este canto narrativo que dá origem ao fado", defendeu o autor em declarações à Lusa. O livro "A Origem do Fado", agora editado, é o resultado de uma investigação de 22 anos. José Alberto Sardinha realçou que "antes de ser um género musical, o fado é um texto poético, um poema narrativo", e situa a sua origem no século XVI. "Ainda hoje os fadistas afirmam que o fado tem de contar uma história, e essa é a origem nacional do fado: contar uma história que emocionasse primeiro o fadista e, através deste, a audiência", sustentou. "Na verdade, a origem do fado está naquilo que nós chamamos pejorativamente o 'fado da desgraçadinha' ou o 'fado de faca e alguidar'. Esse é que é o fado primitivo, a origem do fado", argumentou. Para o investigador, as origens do fado "situar-se-ão no século XVI quando se dá a passagem do romanceiro histórico para o romanceiro novalesco, como já Carolina Michaëlis o tinha referenciado sem fundamentar", disse. A tese defendida por José Alberto Sardinha contraria a vigente de que o fado tem origem no lundum e numa dança brasileira, a umbigada. "Ninguém até agora explicou porque chamavam fado àquela dança, e umbigadas há em várias partes", referiu. Sardinha reconhece que a sua tese poderá "parecer estranha" e que é "audaciosa porque é inovadora", mas garante que "está devidamente fundamentada, é coerente, lógica e tem sequência. Tal como está demonstrado, tudo encaixa". "Eu comparo o fado que é uma tradição oral com a restante tradição oral portuguesa e não vou buscar origens a outras partes", acrescentou. Na obra, o autor referencia a evolução desde o século XVI até às "canções narrativas do século XVIII" e destas ao fado, como é citado no século XIX, quando surgiu a Severa e até o rei D. Carlos o tocava. As primeiras notícias conhecidas são do começo do século XIX e surgem do Brasil.



Em Portugal "há uma noticiazinha na década de 1830 e a partir de 1840, mas uma investigação mais aturada na Torre do Tombo dará textos anteriores às datas brasileiras", afirmou, confiante, o investigador. Para o autor, "a origem brasileira do fado está por documentar, assim como ninguém explica como se passa do fado dança para o fado canção". Por outro lado, acrescentando mais um argumento à tese nacional, Sardinha afirmou que a palavra fado significava, no contexto popular, o contar de uma história de vida e no sentido erudito é sinónimo de destino. "Quando se contava a vida da Isaurinha, por exemplo, o que a audiência pedia era, 'conta aí o fado - a história da vida - da Isaurinha", disse. O livro, amplamente ilustrado e integrando quatro CD, na apresentação no Teatro da Trindade, numa palestra musicada do autor, na qual os vários temas musicais serão exemplificado por Ana Guerra acompanhada à guitarra e à viola. José Alberto Sardinha, advogado, tem nove títulos publicados, todos na área da música popular, entre eles, "Tunas do Marão" (2008), "Portugal, raízes musicais" (1997), "Modas estremenhas" (1989) e "Recolhas musicais da tradição oral portuguesa" (1982).

Dois pequenos excertos, retirados desta obra que nos aponta o objectivdade da investigação levada a efeito, AS ORIGENS DO FADO, que é português, genuínamente português.

"...Assim, o Fado não é exclusivamente lisboeta ou coimbrão. Nem sequer se pode dizer que teve seu berço em Lisboa, ou em Coimbra. Nasceu por todo o país, onde quer que um grupo de ceguinhos ou outros músicos itinerantes, na esteira da tradição jogralesca, se juntavam para cantarem romances novelescos ou quaisquer histórias de vidas que chamavam a atençãodo povo frequentador das feiras, mercados e romarias. Essas produções podiam ser apenas poéticas, que esses intérpretes introduziam em melodias pré-existentes, ou podiam mesmo ser novas composições musicais da autoria desses músicos de rua, naturalmente dentro dos parâmetros que a tradição musical romancística lhes fornecia. Não obstante ser, pois, um fenómeno nacional – e isto desde a sua génese -, o certo é que foi de Lisboa e de Coimbra que saíram os primeiros “heróis do fado”. Em primeiro lugar, porque Lisboa possuía uma população mais numerosa e esmoler e, por outro lado, um maior número de tabernas, o que tudo atraía mais músicos ambulantes. Depois, porque foi em Lisboa que a fidalguia frequentadora das tabernas “descobriu” o Fado e o elevou aos salões e à fama. Uma vez caído em moda, aí se criaram retiros e restaurantes especialmente destinados à apresentação pública dos artistas do Fado."



"…O nome “Fado” surgiu a partir do facto de os poemas narrativos contarem histórias ou episódios das vidas das pessoas, geralmente de desenlace triste ou mesmo trágico: a morte dos jovens amantes por verem o seu amor contrariado; o assassínio por ciúme; o suicídio da donzela enganada, ou o seu retiro para o convento; o castigo da mulher adúltera, ou do seu amante; a triste vida do soldado; a vida de dor e pena dos ceguinhos; a vingança da mulher abandonada; a história da mãe que mata os filhos e acaba na prisão; enfim, as vidas, (...)"

Vitor Marceneiro, in http://lisboanoguiness.blogs.sapo.pt/210459.html, artigo de Sábado 15 de Maio,  citando a Agência Lusa.

segunda-feira, maio 03, 2010

Melodias Eborenses

Um video evocativo do 107º aniversário da Tuna do Liceu de Évora, a qual entoa o Hinodo 1º Dezembro, festividade que era, no passado, uma das que marcava o calendário das tunas estudantis, nomeadamente as de Liceu.

quinta-feira, abril 22, 2010

Notas sobre Pseudo-Sapientes II

Por uma questão, também, de respeito pela instituição referida no artigo anterior, a Universidade Fernando Pessoa do Porto, foi enviaod um mail ao Professor Doutor Rui Torres, docente coordenador da área de estudos onde se insere a cadeira que promoveu a criação dita wikipágina sobre Tradições Académicas, nomeadamente a respeitante à "Música Popular", que esmiuçámos, e cujo conteúdo criticámos, no artigo "Notas sobre Pseudo-Sapientes".
A resposta obtida, que nos parece oportuna e pertinente, foi a seguinte:



Caros autores de Notas & Melodias
Agradeço o vosso email com o reparo, embora lamente a disseminação de "duras críticas" feitas antes de me darem conhecimento dessa falta de rigor científico apontado. O artigo será removido, ou pelo menos reformulado, tendo em consideração aquilo que apontam. Seria importante compreender porém que se trata de uma ferramenta de aprendizagem, mais do que um site com intenções de se tornar referência de pesquisa na web.
Nesse sentido, e tendo em conta a vossa contestação, vou ponderar a possibilidade de tornar o acesso a esse mesmo site restrito, evitando desse modo a disseminação de conhecimento em progresso.
Com os meus melhores cumprimentos
Rui Torres




Obviamente que o N&M não julga que houvesse qualquer obrigação, de ordem alguma, em notificar fosse quem fosse, tanto mais que cabe aos envolvidos e a toda a estrutura de ensino zelar pela qualidade daquilo que é produzido e que, após publicação, se torna de domínio público e, por isso, passível de crítica. Além disso, na própria wikipágna são tecidos inúmeros reparos a vários artigos dessa rubrica das Tradições Académicas (no item "discussão"), tendo em conta que o mesmo tipo de erros estão patentes.


Também se discorda do argumento de que o objectivo da página fosse meramente para consumo interno, como ferramenta de aprendizagem, dado que, assim sendo, ela não deveria estar online e acessível ao público (mas ainda bem que estava, pois, assim, foi possível dar conta dos erros existentes e da falta de seriedade e qualidade do trabalho académico de alguns alunos e respectiva desatenção do docente dessa cadeira - que, de outro modo, teriam passado incólumes).
Mais: se a cadeira em questão promoveu uma trabalho que incidia sobre o formato (wikipágina como plataforma de comunicação), então por que razão se preencheu, depois, essa moldura, com "qualquer" conteúdo, sem verificação do mesmo?
Será que, em comunicação, vale mais o meio com que se comunica do que aquilo que se quer comunicar e veicular? A validade e veracidade da informação decorre do formato ou é-lhe secundária?


Pessoalmente, seja em pergaminho ou em formato holográfico, importa é o conteúdo, importa é que, neste caso, o que se lê resulte de investigação e estudo sério, que não seja mero adereço onde se priveligia o cenário.
Seja como for, louvamos e enaltecemos a pronta resposta dada, esperando que, quanto mais não seja, sirva este episódio para alertar as consciências sobre a necessidade de maior rigor e acompanhamento dos conteúdos dos trabalhos que os alunos realizam, e são publicados.


O artigo em causa foi retirado, embora subsistam muitíssimos outros, cujo conteúdo merec eo mesmo repúdio, pela mesmíssima falta de rigor dos mesmos: http://cmultimedia.ufp.pt/index.php/Tradi%C3%A7%C3%B5es_Acad%C3%A9micas#Traje
(sobre Praxe, latada, Pasta, capa, Fado Académico, etc.). Alguns destes artigos, pasme-se, apresentam, como fonte, informações colhidas de entrevistas feitas a funcionárias de uma loja comercial de artigos académicos (neste caso, a Toga). É motivo para dizer que, quando alguém quiser informações sérias sobre agropecuária, por exemplo, basta falar com o dono de uma mercearia; sobre literatura, com um dos funcionários da Bertrand ou, ainda, sobre medicina, com o securitas ou funcionário de secretaria de um qualquer hospital.


terça-feira, março 30, 2010

Notas de um Manifesto Tunante

Apareceu na Blogosfera um manifesto dirigido a todos os tunos desta praça, a todos quantos se revejam no seu conteúdo e no seu propósito.
Eu já o subscrevi.

http://manifestoantiimunodeficienciatunante.blogspot.com/

quinta-feira, fevereiro 18, 2010

IV Aniversário do Notas&Melodias


O Notas&Melodias cumpre hoje o seu 4º aniversário.

Mais de 60 mil visitas e mais de 500 posts, no sempre renovado intuito de partilhar conteúdos que possam, de alguma forma, serem úteis aos leitores.
Nos tempos mais recentes, tem decrescido o nº de intervenções e de artigos, dado que o autor destas linhas tem gasto quase todo o seu tempo livro na edição de autor que está em fase de ultimação. No intuito de também não cai rna tentação de veicular informações que compete à obra apresentar é que este blogue tem andado menos activo do que, até aqui, vinha sendo usual.
Seja como for, uns dias mais, outros menos, não deixará este blogue de ir mantendo o contacto.

Obrigado pela preferência.



sábado, fevereiro 13, 2010

Melodias Canavalescas

Evocativo desta época festiva (que o Notas&Melodias aproveitará para uma breve pausa), aqui ficam uns videos interessantes da Comparsa denominada "La Tuna del Loco" (1993), cujos temas têm letra de Francisco Villejas Mejias e música de Aurelio de Real.

A todos os foliões, bom Carnaval!







quinta-feira, novembro 12, 2009

Melodias Plagiadas (Esclarecimento)

Um "Fait divers" que não queríamos deixar de dar a conhecer, por tudo quanto de pedagógico possa ter para quem detém blogues e trabalha honestamente.

No passado dia 9 deste mês (Novembro), o blogue "pedroflaviano" apresentou um texto que versava sobre o nosso bem conhecido, e estimado, António Vicente.

Esse texto chegou-me ao conhecimento por interposto blogue, a saber o Toada Coimbrã que, no dia seguinte (dia 10), reproduz a notícia da publicação desse texto (transcrevendo-o).
Qual não é o espanto quando o Notas&Melodias se apercebe que esse mesmo texto é cópia, quase integral, de um artigo por si publicado em 2007, sem referência a qualquer fonte!!!!!

Ou seja: http://notasemelodias.blogspot.com/2007/10/panegrico-antnio-vicente.html


O plágio era (e é) evidente, sendo a foto utilizada pertença do acervo pessoal do Notas&Melodias (a qual está recortada em torno do Vicente, pois que a original tem-me, a mim, a seu lado).

Prontamente dei conta do sucedido ao blogue Toada Coimbrã (cujo redactor é, como saberão, meu amigo pessoal), através de um post e de contacto directo.
Fique, desde já, claro que não se imputa qualquer responsabilidade ao blogue da Toada ou seu redactor, nem fica qualquer azia, embora este pudesse ter, quiçá, reeditado o artigo, e antecedido a publicação do texto com uma nota a dar conta do plágio.

O mesmo sucedeu com o autor do plágio, o tal "Pedro Flaviano", também via post (que não publicou, está claro!) e via mail (de cujo conteúdo, mais abaixo, dou conta).

Isto para dizer que pior do que uma distracção ou uma falta de cuidado, houve manifesta má-fé e tolhimento intelectual do dito "Pedro Flaviano", que não apenas se recusou a reconhecer o seu ilícito, mas ainda insulta o autor do Notas&Melodias., em pueril atitude e sobranceria.
Contas feitas, o dito senhor acabou por retirar o texto plagiado (vá-se lá saber porquê!?!), achando, deste modo, que isso faria esquecer o sucedido ou o poria a salvo de, pelo menos, da denúncia pública do seu ilícito.

Ficam, aqui, as imagens dos mails trocados entre esse "senhor" e o Notas&Melodias, para que possam, deste modo, ajuizar sobre a idoneidade e carácter (ou ausência destes, neste caso) do autor do blogue "pedroflaviano", cuja prática do plágio não se restringiu a este caso, mas se encontra em diversos outros artigos "seus", prejudicando e desrespeitando o esforço intelectual, rigor e excelência de outros - porque assim é fácil encher blogues.





Contra factos não há argumentos.
É fácil vender uma imagem de honestidade à custa da exploração do trabalho alheio - esse sim feito com honestidade e seriedade, mas o azeite vem sempre à tona (e nessas alturas se vê quem é quem)!

Quid Juris?

terça-feira, outubro 06, 2009

Notas à Diva do Fado



Assinalam-se, hoje, 10 anos sobre o desaparecimento de Amália Rodrigues, a personificação do Fado e a maior das divas lusas.
Não conseguindo obter (para aqui colocar) a gravação do "Fado Amália", cantado à capela pelo Coro dos Antigos Orfeonistas da UC, aquando da transladação do seu corpo para o Panteão Nacional, fica uma versão mais modesta pelo Chorus CSD de Lisboa, em jeito de singela homenagem.


quinta-feira, setembro 10, 2009

Notas Extraídas I

Desta feita, o Notas&Melodias decide contemplar um artigo interessantíssimo, publicado hoje no consagrado blogue "As Minhas Aventuras na Tunolândia".
Um artigo de opinião que expressa uma reflexão que partilho e subscrevo integralmente e deverá, quanto a mim, merecer a atenção dos tunos e tunas da nossa praça, para devida introspecção:



A Aventura da Militância...

 
Numa altura em que o folclore iconográfico/político está no seu auge - para desespero do comum mortal ... - assalta-me uma questão á mente que, de certa forma, já aflorei ao de leve anteriormente em algumas "aventuras" mas que nunca teve direito a uma mais aprofundada, digamos, análise: a militância tunante. Mas afinal, que é isso da militância tunante?


Passo a explicar: entenda-se a militância tunante, aqui, como o exacerbar à ultima consequência a defesa in extremis da sua Tuna, da Tuna de cada um de nós, ou seja, aquela coisa tão tribal quanto romanticamente emocional. Não falo - por ora - da militância tunante pela causa comum, pela Res Tvnae, que essa conversa dará para muita reflexão e escrita, até porque causa maior.

 
Mas vamos ao mais comezinho: A militância tunante a que chamo baixa militância tunante, para ficar mais claro. A sua génese é remota e, por si só, serviria para explicar muito do que justifica, aparentemente, essa baixa militância tunante. No "boom" de idos dos anos 80, inícios de 90, essa militância tunante teve o seu auge precisamente porque a Tuna foi o "braço armado" do exacerbar de cada Casa de Altos Estudos, uma espécie de "brigadas negras" de "elite" de um nome, entroncando com o ressurgir das Tradições Académicas e da Praxe que até então estavam hibernadas. Nessa altura - e porque o contexto universitário, académico, praxista e até mesmo social da conjunctura de época o originaram e alimentaram - cada Tuna era uma espécie de Euskadi Ta Askatasuna - ou seja, ETA - de cada Universidade, Faculdade ou Instituto Superior, numa lógica perfeitamente bélica onde as armas eram bandolins e violas, as bombas eram prémios e a Calle Borroka era o Cortejo, mais coisa menos coisa. Ou seja, cada Tuno era simultâneamente Tuno e guerreiro da "sua" universidade, faculdade ou instituto, sendo que a Tuna era "usada" como forma previlegiada de militância exacerbada, onde o contacto com os restantes que não os seus eram pontuais ou justificáveis por força de circunstâncias especiais - apadrinhamentos, irmanamentos e pouco mais.

 
O isolamento a que se vetavam esses guerrilheiros tunantes originou uma fórmula que a prazo se veio a revelar altamente prejudicial ao todo, à Tuna em sentido lato. A fórmula em questão diz-nos que "eu faço bem, tu fazes bem. ele faz bem e nós fazemos todos....mal". Ou seja, na defesa militante exacerbada do que era nosso esquecemo-nos todos daquilo que era afinal de todos: a Tuna. Mea Culpa que nessa época era um miudo...

Hoje essa baixa militância tunante é cada vez mais absurda, desadequada aos tempos e contextos que correm e mais, mesmo no seio tunante, desprovida de qualquer lógica excepto uma: o orgulho. De se ser da Universidade X ou Faculdade Y ou Instituto H. Mas o orgulho em se pertencer a algo nada tem a ver com a baixa militância tunante de antes, olhando para o seu umbigo e polindo-o, elegendo os outros Tunos e Tunas como inimigos, do outro lado da barricada quando, afinal, se constataria depois que não há barricada alguma entre Tunos. O auto-polimento do ego tunante de então - e hoje pode-se dizer - foi altamente prejudicial ao todo do fenómeno a prazo, que ainda hoje deixa marcas e mostra a sua natureza, de quando em vez, em certos e determinados casos/situações felizmente cada vez mais pontuais.


Deriva de todo este contexto histórico também a forma como a Tuna em Portugal foi evoluíndo (!!??) por oposição ao fenómeno espanhol. A nossa heterogeneidade inter-tunas deriva também dessa baixa militância tunante, onde a procura da diferenciação a todo o custo - visual, estética, musical, etc - resulta precisamente na vontade exacerbada de representação guerreira do "seu" e não preocupada de todo com o que é de Todos. Poder-se-á afirmar que paradoxalmente foi precisamente o atrás dito que catapultou a qualidade das Tunas nacionais. Mas não me restam dúvidas que em Espanha a rivalidade inter-tunas é muito mais diminuta do que a que por cá se passa, o que não deixa de ser curioso tendo Espanha mais Tunas que nós.

Duas décadas depois poder-se-á dizer que está na altura de dar a vez à Alta Militância Tunante por até absurdo actualmente misturar-se orgulho com altivez. Casos há de Tunas nacionais que desmancham somente pela sua génese e formação o conceito de baixa militância tunante e curiosamente com sucesso o fazem. Não faz sentido algum que actualmente o Tuno misture conceitos quando tem hoje em dia todos os dados na mesa, perfeitamente delimitados e actuais, que indicam um caminho de maior aproximação inter-tunas, de troca de experiências, de tolerância, de abertura. Hoje em dia Tunas que se fecham em si mesmas estão na ante-câmera de um valente trambolhão existencial.


Há que dar primazia ao todo, ao conjunto do fenómeno, com abertura de espírito e menos espírito guerreiro - de que os festivais competitivos são catalizadores - potenciando intercâmbio, diálogo, se quiserem glastnost, ou seja, desanuviamento inter-tunas. Saí hoje a Tuna da idade do armário e vai a caminho da maioridade ou mesmo nela está. Resta a maturidade. E essa começa por todos nós, que deveremos procurar a Alta Militância Tunante para bem da Tuna portuguesa.
 
in http://asminhasaventurasnatunolandia.blogspot.com/2009/09/aventura-da-militancia.html

quarta-feira, julho 29, 2009

Notas sobre a Origem das Insígnias de Praxe.

Nestas coisas de estudos e pesquisas sobre o fenómeno tunante e as tradições académicas, acabamos, indubitavelmente, por nos cruzarmos com outros estudiosos, trocando impressões e, como é este o caso, pedindo informações e ajuda para esclarecer alguns pontos que, manifestamente, não conseguimos responder em todo o rigor.
 
António M. Nunes é um historiador, distinto investigador das tradições académicas, que detém um dos blogues mais ricos e documentados da blogosfera, a saber o Virtual Memories . António Nunes tem também alguns belíssimos textos no blogue do distinto Octávio Sérgio, Guitarras de Coimbra, com quem tem colaborado sempre que pode.

 Desta feita, é o Notas&Melodias que tem o privilégio de publicar um texto do António Nunes, dados e informações que o blogue solicitou ao insígne investigador, para responder às dúvidas que rodeiam a história das insígnias de praxe (toda a gente sabe quais são, como são e se usam, mas poucos, ou quase ninguém, saberiam a origem e contexto do seu aparecimento).

Deliciemo-nos com este momento de puro deleite intelectual. Estou seguro que muitos académicos e curiosos se sentirão gratos por finalmente se fazer alguma luz sobre o assunto.
 
Ao amigo António M. Nunes, desde já, o meu penhorado agradecimento pela colaboração.
 

"As Insígnias da Praxe Académica na Alma Mater Studiorum Conimbrigensis
 Dados sobre um percurso patrimonial obscuro

 
As chamadas “insígnias da praxe académica” ocupam um lugar de relevo na cultura estudantil universitária conimbricense e povoam diversos campos do imaginário simbólico e da identidade visual escolar.
No crepúsculo da primeira década do século XXI existem códigos de praxe em praticamente todos os estabelecimentos de ensino superior universitários e politécnicos, na maior dos casos decalcados na ossatura e conteúdo do Código da Praxe Académica de Coimbra de 1957. Os articulados dessas codificações consagram colheres, mocas e tesouras, sem que neles conste expressa menção ao fenómeno de imitação e apropriação da criação simbólica e patrimonial dos estudantes da Universidade de Coimbra (UC), ao invés do que recomendam a UNESCO e as leis de protecção do património material e imaterial.

 
Quem se der ao trabalho de consultar os cartazes da Queima das Fitas galardoados na década de 1990, os rostos das sucessivas edições novecentistas do Código da Praxe de 1957 e do Palito Métrico, os brasões de armas das repúblicas de estudantes, o emblema oficial do Conselho de Veteranos da Academia de Coimbra (CVAC), colecções fotográficas (postais ilustrados, interiores de quartos de estudantes), ou os notáveis programas em verso das festividades oitocentistas da Festa do Ponto/Queima das Fitas, será surpreendido com um manancial iconográfico de incomensurável riqueza artística, que testemunhando vivências e emoções continua por estudar.


 
A colher de pau, a moca e a tesoura, figuradas em leque semicircular, por influência das representações militares, aristocráticas e eclesiásticas, constituem a heráldica oficial do Conselho de Veteranos da Academia de Coimbra, do Conselho de Repúblicas, da República Baco (sobre a pipa de Baco), da República dos Kágados (junto a penico e cágado), da República dos Galifões (junto ao galo de Mercúrio), da República dos Fantasmas (junto a penico, torre da UC e fantasma), da extinta República Pagode Chinês (com pagode, mandarim, Palito Métrico e torre da UC), da extinta República dos Paxás (com torre da UC e paxá em tapete voador), da República do Prá-kys-Tão (sobre cenário com mastro, pendão, árvores e estudante em balouço), e República Palácio da Loucura (brasão com torre da UC, viola e guitarra, garrafa de Baco e elmo etílico).

 
A colher, a moca e a tesoura, conjugadas com a torre da Universidade serviram de logótipo ao cabeçalho do jornal académico O Ponney.

 Relativamente a antigos programas impressos da Festa do Ponto (ou das Latas, ou Queima das Fitas), podemos encontrar alusões escritas à presença de mocas, colheres e palmatórias em carros alegóricos de tracção animal nos seguintes documentos:

 - Programa da “Brilhante Ruidosa Função ao ar livre”, de 20 de Maio de 1880, refere “mocas”;
- Programa “Aos Juristas Irmãos da Confraria das Latadas”, de 27 de Maio de 1887, refere “guarda-costas com as mocas direitas bem postas”;
- “Aos Juristas”, de 26 de Maio de 1888: “Irão vinte alabardeiros/Seguidos d’outros tantos caceteiros; A moca, a thesoura, a palmatória/Monumentos supremos de glória”;
- “Programma das Latadas”, de 24 de Maio de 1891, dele constando “À frente formarão os caceteiros/Com mocas, adufes e pandeiros”;
- Programa “Aos Juristas”, de 26 de Maio de 1894: “Depois o Júlio da Rocha/Levando a maça na mão/Maçará a humanidade/Sem dela ter compaixão”;
- “Programma das Latadas”, de 27 de Maio de 1896: “É declarado incapaz, e recusa-se a emancipação, ficando sob a tutela da Palmatória e a curatela da Moca a todo o caloiro de direito (…)”;
- “Verdadeiro Programma das Latadas”, de 1 de Junho de 1898: “Aos lados formarão os guarda-costas/Com as mocas direitas e bem postas”;

“O Novo Programma das Latadas”, sem data, de 1 de Junho de 1899 (??), “Às mocas, caloiros, mil grupos formar”;
- Programa da “Latosíadas”, estrofe X, de 1901: “Vereis um trem ornamentado/Com colheres, com mokas e thesouras”.

 Quanto a postais ilustrados de finais do século XIX e início do século XX merecem referência:

 - um postal de 1899 relativo aos festejos estudantis do Centenário da Sebenta, com palmatórias, tesouras e mocas dispostas em moldura;
- uma edição de 1905 relativa ao estudante boémio e trupista Diogo Polónio, fotografado em estúdio com instrumento de sopro, colher, moca e tesoura (reprodução em AMN, A Alma Mater Conimbrigensis na fotografia antiga, 1990);
-u m postal desenhado por João Amaral para os festejos da Queima das Fitas e Enterro do Grau de Bacharel de 1905, intitulado “A dor da Moca”. A velha arma surge antropomorfizada, cabeça coberta por borla doutoral e rosto caricatural choroso, cena completada pelos dizeres “A velha moca assassina/De muito gato matreiro/Ao saber a estranha nova/Sente um pesar verdadeiro”;
- postal de João Amaral, alusivo à Queima das Fitas e Enterro do Grau de Bacharel de 1905, cujo título é “Preito d’um caloiro”, apresenta um caloiro tosquiado e choroso, ajoelhado à beira de um túmulo, com cabeleira postiça na mão e tesourão debaixo do braço (criações de João Amaral reproduzidas em Diamantino Calisto, Costumes académicos de antanho, 1950).

 
Ilustração da capa da partitura de Nicolau Rijo Micalef Pace, ao tempo, segundanista da Faculdade de Teologia.
Coimbra, Typ. Minerva Central, 1898



 Qual a origem e significado das insígnias dos praxistas e trupistas conimbricenses, artefactos confeccionados em madeira e metal, ora idolatrados pela sua profunda dimensão sacral e litúrgica, ora execrados desde o Iluminismo setecentista como símbolos da repressão, atavismo cultural e violência obscurantista?

 Retomaremos aqui, naquilo que for aproveitável, alguns estudos anteriormente publicados pelo signatário, como sejam “As insígnias maiores da praxe” (in DC, 13.05.1989), “Da tonsura praxística e outras sanções” (in DC, 9.01.1990), “Troças e investidas de novatos” (in DC, 15.08.1989), e “As praxes académicas de Coimbra. Uma interpelação histórico-antropológica” (in Cadernos do Noroeste, Volume 22, Braga, UM, 2004).

 

 


MOCA: não se sabe com rigor quando é que a moca de madeira foi adoptada pelos alunos da Universidade de Coimbra. A moca tem origem pré-histórica. Na sua qualidade de arma de caça, arma de defesa e bastão de mando, foi usada pelos grupos de caçadores recolectores, tendo passado mais tarde para as comunidades agro-pastoris do Neolítico. Em Portugal, sob diversas formas, sobreviveria nas comunidades populares tradicionais e na Academia de Coimbra até ao século XX.

Na sua origem, a moca era uma espécie de bastão troncónico, com cerca de um metro de extensão, mais estreito na base e a alargar na direcção da cabeça. Tinha a morfologia de uma maça, quase sempre sulcada de nódulos ou picos e servia sobretudo para caçar animais de grande e médio porte, chacinar adversários e esmagar ossos. As mais resistentes e duráveis eram cortadas ainda verdes e afeiçoadas em fogueiras, ganhando acrescida capacidade de resistência ao desgaste provocado pela água, fogo e amplitudes térmicas.

 É deste tipo a maça do herói grego Hércules, sucessivamente figurada em vasos cerâmicos e esculturas. Nos séculos XIX e XX a maça ou clava de Hércules chegou a ser erradamente representada em trabalhos escultóricos cujo tema era a Fortaleza, quando o símbolo desta alegoria é uma coluna arquitectónica.

Na Idade Média, as maças de tipo bastão originaram um novo tipo de arma usada em contextos militares e logo adaptada como símbolo dos poderes monárquico, académico, papal e episcopal, a maça de ferro com cabo cilindriforme e cabeçorra de picos robustos, usada para esmigalhar elmos, armaduras e ossos. Transformada em artefacto artístico, a maça militar rapidamente foi apropriada pelas universidades europeias e transformada nas maças que os bedéis carregavam na frente dos reitores para simbolizar a autonomia de cada Faculdade. Conhecem-se derivação desta apropriação nos parlamentos, câmaras municipais, casas eclesiásticas, irmandades e confrarias, catedrais e sinagogas. Da maça militar medieval terá nascido a moca, arma de madeira usada pelos camponeses que os senhores convocavam periodicamente para a guerra. Como é sabido, os camponeses arregimentados não tinham direito aos cavalos, armaduras e armas de metal dos senhores, adoptando quase sempre alfaias agrícolas (foices, gadanhas, machados, picaretas). As mocas, de diversa envergadura, podiam ter cabos longos, charolões repletos de nódulos ou mesmo picos de ferro cravejados. Volteadas no ar, provocavam ferimentos dolorosos e desvastadores.

 As mocas portuguesas mais conhecidas são as de Rio Maior, de cabo curto, charolão compacto e cravejado de pregaria. As de tipo conimbricense não obedecem a um tamanho padronizado. As mais apreciadas eram obtidas a partir de troncos nodosos e de raízes. Ao contrário da Moca de Rio Maior e das maças militares, a moca académica coimbrã não podia ter pregos, picos eriçados, cabeça redonda ou oval lisa.

 Curiosamente, nas comunidades tradicionais portuguesas, a moca não foi a arma mais utilizada pelos camponeses. Foi antes o pau ferrado, bordão ou varapau, que os camponeses exibiam invariavelmente em feiras, romarias e deambulações entre aldeias. Alguns paus ferrados tinha ponteira de metal ou aguilhão, servindo simultaneamente para picar o gado bovino e cavalar. O pau era usado em rixas masculinas individuais, combates entre aldeias, jogos rituais e condução do gado. Exibido com garbo, conferia respeitabilidade ao camponês, na medida em que imitava a vara do mando usada pelos mordomos de confrarias, vereadores municipais, juízes de direito e oficiais da Universidade de Coimbra. O pau ferrado foi muito usado pelos estudantes de Coimbra até finais do século XIX, em caminhadas ao Buçaco, Condeixa e Figueira da Foz, brigas entre estudantes e futricas, charivari alegórico de fim de ano e combates rituais no Largo da Feira. Porém, não chegaria a ser convertido em símbolo de práticas praxísticas.

Tudo indica que o uso da moca de tipo académico remonta às origens da universidade. Para a intensificação do uso terão contribuído as continuadas medidas proibitivas emanadas do poder régio e reitoral que puniam severamente o porte de espadas, punhais e armas de fogo em contextos extra-militares.
Na cultura popular e escolar a moca está directamente associada à virilidade. A sua anatomia fálica remete para o pénis erecto e diversos vocábulos populares expressam em vernáculo a ideia de coito, como “mocar” e “dar uma mocada”. Em sentido algo contrário, assinala-se a expressão “estar com uma grande moca”, isto é sonolento ou entorpecido, analogia que remete para o desequilíbrio entre a cabeça e o cabo da moca. Outros termos regionais contíguos são “porra”, “porrada”, “porro”, “porrete”, “porretada” e “cacete”, alguns deles com sentido fálico explícito tanto na cultura oral portuguesa como na brasileira.

 Usada indistintamente por alunos de todos os anos dos cursos, a moca chegou à entrada do século XX como arma pessoal de defesa, arma de caça e bastão de poder dos veteranos. A moca era considerada artefacto sagrado. Era habitualmente guardada pelos académicos nos seus quartos de dormir, dependurada nas paredes e arrumada debaixo dos catres. Em situações de arruamento era escondida sob a capa ou em bolsos fundos da batina. Podia transportar-se suspensa do pulso, uma vez que o cabo era perfurado e comportava correia de couro ou cordão.

 Eis alguns contextos vivenciais académicos que proporcionavam visibilidade à moca:

 
-c açadas clandestinas a capoeiras existentes na cidade de Coimbra;

- batidas às ruas do Bairro Latino para caçadas a gatos que depois eram estufados pelos grupos “gaticidas”;

- participação em caçadas nos campos dos arredores da cidade;

- cortejos alegóricos das festividades de encerramento do ano escolar, conhecidas por Caçoada do Ponto, Festa do Ponto, Festa das Latas, Latadas e Queima das Fitas, onde mocas de grande porte eram exibidas a pé e em burro por estudantes que parodiavam archeiros e guardas de honra, ou mesmo em carros alegóricos engalanados para o efeito;
- rituais punitivos ligados à iniciação de caloiros tanto na Universidade como no Liceu de Coimbra, onde os alunos novos ou novatos eram identificados com terminologia zoófila como bichos, bestas, carneiros, touros e tourinhos;
- símbolo antitrupista. Neste caso peculiar, a moca é vista como um troféu de guerra, apreendido em refregas nocturnas entre trupistas e antitrupistas.

 
A partir da década de 1890 vários foram os liceus que importaram a moca usada na Universidade de Coimbra. No Minho, os alunos dos Liceus de Braga, Guimarães e Viana do Castelo chamavam-lhe “a macaca” e praticavam um ritual de iniciação de caloiros chamado “beijar a macaca” (António Nóvoa e Ana Santa-Clara, Liceus de Portugal, 2003, pp. 136 e 765). Este ritual era uma paródia ao compasso pascal que corria as casas e levava a beijar a cruz, dando os alunos mais velhos a moca a beijar aos caloiros. Na cultura académica coimbrã, o único objecto que podia substituir a moca era um fósforo.

 
O bastão do poder é um símbolo transcultural e trans-territorial, assinalado na Índia, na China, na cultura agrária portuguesa, nas monarquias mediterrâneas e nas civilizações da Suméria, Egipto e Grécia clássica, quase sempre na sua forma de báculo ou vara alta. Considerando o quanto a cultura académica coimbrã está povoada de sinais da mitologia greco-romana, o bastão acorre ainda na qualidade de símbolo da Faculdade de Medicina (bastão de Esculápio, com serpente), da Faculdade de Economia (caduceu ou bastão de Mercúrio com duas serpentes), e Faculdade de Desporto (Júpiter com a vara encimada por águia, em louvor de quem se faziam os jogos Olímpicos). Insígnia tutorial, o bastão ocorre como símbolo da autoridade e prestígio do mestre no acto de iniciação do discípulo. Nas universidades espanholas, os reitores usam desde 1850 a cana ou bastão. O bastão de prata é também a insígnia do Mestre-de-Cerimónias da Universidade de Coimbra.

 Partir o bastão ou a vara em linguagem cerimonial significava ratificar a morte de uma autoridade ou dignitário. Era o que faziam os vereadores portugueses nas exéquias solenes por morte do rei (quebra dos escudos) e o grão-mestre francês quando os monarcas faleciam.

 
 
 
TESOURA: a tonsura de caloiros é praticada na Universidade de Coimbra desde praticamente as origens. Não caberia à Universidade de Coimbra a invenção desta prática punitiva, que já se encontrava instituída pelo Direito canónico e pelo direito criminal peninsular. De acordo com o Direito canónico eram obrigatoriamente tosquiados os clérigos que tomavam ordens sacras e também os membros do clero regular ou monástico. Em vários forais municipais portugueses achava-se consagrada a pena de tonsura dos traidores e mulheres adúlteras. Os falsos traidores podiam ser publicamente tosquiados e achincalhados, pena que os franceses aplicaram em 1945 às mulheres acusadas de colaboracionismo com os ocupantes nazis.

Uma das aplicações de sanções à mulher adúltera consistia na tosquia dos cabelos, seguida do desfile escarranchada em burro, com o rosto voltado para o rabo do jumento e sujeição a escárnio público. Sujeito a idêntica pena podia ser também o sedutor ou amante, se apanhado em flagrante.

Uma estrofe do Cancioneiro de Rezende alude a esta prática enraizada: Por fazer coisa enovada/Ireis o revés da sela/Ó rabo mui bem pegada/Escarranchada, faça quem quiser burrela. Nos trava-línguas infantis portugueses, o corte de cabelo mal alinhavado pelo barbeiro era assim representado: Quem te tosquiou/Que orelhas te deixou/Por detrás e por diante/Como o burro do Vicente?!

 A tesoura usada pelos adeptos da tonsura só muito tarde, após a Revolução Republicana de 5.10.1910, é que começou a apresentar pontas redondas, graças ao triunfo de medidas securitárias. Durante séculos, o que os tosquiadores usavam eram os tesourões da tosquia do gado lanígero, ou na falta delas as tesouras dos alfaiates que eram de tamanho avantajado e pontas bicudas. Como as tesouras da tosquia não tinham as hastes fixas a um eixo, até finais do século XIX a literatura académica e os processos disciplinares fazem eco de ferimentos e golpes no couro cabeludo dos tonsurados.

Os ferimentos provocados no couro cabeludo dos sancionados em trupes e graus não resultavam apenas da falta de perícia provocada por situações de embriaguez. As sevícias eram agravadas por certos tipos de rapanço autorizados (em particular os ad libitum ou plenos, os secundum praxis, em que cada executor dava um golpe a menos que o presidente, e os de desenho artístico “à Santo Antoninho”, com letras e falos erectos).

 Considerada acto bárbaro e arcaico, a tonsura foi abolida no rescaldo da Crise Académica de 1969 e retomada nos finais da década de 1970, sempre como ritual masculino. Em Maio/Junho de 1969 a pena de rapanço seria praticada por membros dos piquetes grevistas em alunas que furavam a greve e tentavam fazer exames. A partir de 1987 surgiram em Coimbra trupes femininas que praticaram tonsura simbólica.

 Em situações raras, a pena de rapanço foi aplicada pelos académicos de Coimbra a figuras externas que se considerou terem ofendido gravemente a Academia.

 Fortemente criticada desde o Iluminismo, a tonsura seria adoptada no século XIX como um mecanismo ligado aos ideais da higienização, ordem, disciplina e regeneração. Assim aconteceria em relação aos mancebos incorporados nos quartéis militares, aos mendigos internados em asilos, aos menores institucionalizados nas casas de detenção e correcção, aos presos nas cadeias penitenciárias e aos doentes mentais entregues aos hospícios psiquiátricos, instituições onde os internados eram alvo de rituais de despojamento e morte simbólica.

 
 
 
 

 PALMATÓRIA: a palmatória foi o mais importante instrumento punitivo usado pelos veteranos da Universidade de Coimbra até à Revolução de 1910. Intimamente associada às imagens disciplinares do ensino da gramática e primeiras letras pelos mestres, a chibata e a palmatória em formato de espátula ocorrem na iconografia medieval como símbolos de um dos saberes das Artes Liberais, a Grammatica.

O ensino à base da memorização, disciplina e obediência à autoridade do mestre ficou longamente associada aos colégios da Companhia de Jesus, onde se usava a palmatória, abolidos pelo Marquês de Pombal em 1759.

 
Este instrumento disciplinar esteve em uso em Portugal nas escolas de instrução primária, colégios e seminários católicos até meados do século XX. Conhecida na gíria escolar por “Santa Luzia” e “Menina dos Cinco Olhos”, a palmatória apresentava cabo curto trabalhado em torno de marceneiro e pá circular com cinco perfurações. Era chamada “Santa Luzia”, uma vez que a sua forma lembrava a bandeja onde Santa Luzia exibia ante os crentes os olhos que lhe haviam sido arrancados no martírio.

Até 1910 a palmatória é abundantemente referida na literatura coimbrã e aqui e ali nos processos disciplinares da Polícia Académica como o instrumento mais utilizado na aplicação de palmatoadas, boladas ou “bolas” nas palmas das mãos. Palmatórias havia que tinham uma face coberta de couro e outra esculpida. Os furos funcionavam como ventosas e formavam bolhas e hematomas nos sítios onde a pá fustigava a pele.

 
Nos museus ligados à instrução primária portuguesa existem exemplares de palmatórias. No Museu Académico de Coimbra encontra-se uma que pertenceu ao estudante Antero de Quental e que lhe valeu em 1859 oito dias de prisão, pois que sendo o mesmo Antero aluno do primeiro ano de Direito andou na noite de 20.04.1959 com outros colegas dando praxe a um aluno liceu, para mais embuçados nas capas e munidos de tesouras, palmatórias e cacetes (Ana Maria Almeida Martins, Antero de Quental, 1986, pp.70-72).

 Apodada de símbolo do imobilismo científico e do atavismo pedagógico, a palmatória viria a ser abandonada pelos estudantes após a Revolução do 5 de Outubro de 1910 e substituída pela colher de pau.

 



 

COLHER DE PAU: as mais apreciadas pelos estudantes da Universidade de Coimbra são as de fabrico caseiro, manufacturadas pelos artesãos de Lorvão e Arganil. As de Arganil com o seu cabo cónico e a sua concha redonda toscamente desbastada estão entre as mais procuradas. Existem de todos os tamanhos, desde a colherzinha ornamental, à de tamanho médio e ao gigantesco colherão que se usava para mexer os caldeirões dos bodos e ranchos.

Símbolo gastronómico por excelência, apesar das desconfianças exprimidas pelos agentes sanitários da União Europeia, a colher de pau continua a ter lugar garantido nas comunidades estudantis e nas confrarias gastronómicas.

 A colher de pau é desde a Idade Média o símbolo das actividades gastronómicas, dos mendigos que de terra em terra esmolavam e dos estudantes universitários sopistas (Léon Moulin, A vida quotidiana dos estudantes na Idade Média, 1994, pp. 41-44 e 142-146; Jacques Le Goff, Os intelectuais na Idade Média, 1990, pp. 42-44). Na cultura ibérica católica esteve instituída até aos séculos XIX-XX a prática de ir às sopas aos conventos, abadias e bodos festivos anuais. Alguns dos bodos mais aclamados tinham lugar em Maio, durante os festejos do Divino Espírito Santo, cujo programa oferecia aos irmãos, mordomos e passantes fortuitos pão, vinhos e carnes guisadas. Nos conventos portugueses e espanhóis estava enraizada a tradição da oferta de sopa a mendigos e estudantes. A distribuição de sopa aos presos foi mantida em Portugal até à década de 1860 respectivamente pela Misericórdia de Lisboa e Misericórdia do Porto, a primeira obrigada a dar caldo aos presos do Limoeiro e do Aljube, e a segunda aos reclusos da Cadeia da Relação. Um derivado tardio desta tradição, que ainda se avistou em algumas cidades portuguesas durante a Segunda Guerra Mundial foi a “sopa dos pobres”.

 
Para se ir aos bodos e às sopas conventuais era necessário andar munido de malga e colher de pau, ou ter engenho e manha conforme ilustra o célebre conto popular da sopa de pedra.

Na Idade Média as profissões e oficinas estavam organizadas por ruas e convenientemente identificadas com emblemas postos às portas (tesoura do alfaiate, serra do carpinteiro). Certos grupos sociais ou religiosos estavam constrangidos a exibir em local bem visível da indumentária símbolos discriminatórios como a lua dos mouros, a estrela de David dos judeus ou o cornicho dos maridos enganados. O símbolo dos mendigos ambulantes, monges em missionação ou viagem entre mosteiros e estudantes era a colher de pau. Esta tanto podia ser exibida na aba do chapéu, como no peito do vestuário e nos cestos e alforges. Assim a desenhou Jerónimo Bosh na obra “Viajante” ou “Caminho da Vida”, trabalho datável de 1500-1502.

Os sopistas espanhóis e os goliardos ou bargantes portugueses não raro andavam à lebre, ou seja pediam esmola em comes e bebes, calcorreando distâncias entre as Escolas Maiores e os conventos e entre povoações. Tanger instrumentos, cantar anfiguris, parodiar sermões, fazer malabarismos, cantar em verso facécias, cuspir fogo e exibir animais amestrados eram sucesso garantido. Havia quem vendesse pseudo relíquias a incautos, como falanges de Cristo, picos da coroa de espinhos, farpas da cruz e unguentos miraculosos. Os tunantes espanhóis exibiam os seus dotes musicais, vocais, oratórios e sedutores através do traje e das cantorias. Na aba do sombreiro ou chambergo exibiam a colher de pau e o garfo sobrepostos, costume que no século XIX passou para o bicórnio napoleónico.

 O costume ibérico da colher de pau era partilhado pelos estudantes de Coimbra. Em diversos tamanhos e formatos, a colher sobreviveu a todos os movimentos abolicionistas. Com fitas multicolores no cabo, carantonhas, emblemas pintados e legendas latinas na concha, até 1910 a colher desempenhou basicamente duas funções:

- símbolo dos estudantes tunantes que a partir de meados de cada mês, por míngua da mesada paterna, andavam à lebre, isto é mendigavam sopas e dormida a troco de momices, cantigas, versalhada e venda de rifas;
- bastão ou ceptro dos veteranos que nas paredes dos quatros de dormir e nos cortejos festivos alegóricos exibiam enormes colherões, ora empunhados na mão direita ora alçados ao ombro, na qualidade de bastões de mando e alabardas de gala.

Às duas funções enunciadas se veio juntar uma terceira, por sinal menos honrosa. Com o abandono da palmatória em 1910, os estudantes praxistas precisavam de um instrumento punitivo. Em substituição da palmatória adoptaram a colher de pau, doravante associada às “unhadas”. Se a palmatória era criticada, a colher não veio dignificar a situação, com a concha côncava a bater no rebordo das unhas dos sancionados. Como substituto deste instrumento, a praxe coimbrã admite o sapato. Em suma, ele houve tempos de palmatoada e bolada, de colherada e unhada e sapatada."

 
António M. Nunes




terça-feira, junho 30, 2009

Notas de Ouro aos Antigos Orfeonistas de Coimbra

Tomei a liberdade de reproduzir um post do ilustre Octávio Sérgio, no seu seu Guitarra de Coimbra III, dada a importância do artigo em causa (pelo menos para os académicos, apreciadores de música coral).
O artigo, extraído do Diário de Coimbra de ontem, com foto de Gonçalo Manuel Martins,
noticia o Coro dos Antigos Orfeonistas na sua inolvidável passagem pela Grécia, onde arecadou a Medalha de Ouro num Concurso Internacional de Coros.

Parabéns!