quarta-feira, setembro 21, 2011

Notas a reter (Magnum do Porto Vs Tunas)

Porque importa desmistificar e explicar, tomo a liberdade de aqui reproduzir duas belíssimas intervenções feitas no PortugalTunas (clique AQUI para ver tudo), a propósito deste triste episódio protagonizado pelo Magnum do Porto.
Quem as profere foi, em seu tempo, Dux Facultatis do Porto, sendo igualmente um dos mais ilustres tunos da nossa praça.
Servem estes excertos para reforçar a certeza que as Tunas nada devem temer, que não devem satisfação ou obediência ao Dux e que têm toda a legitimidade para baterem o pé, quando a própria Praxe é ultrapassada ou pervertida, e as Tunas assim desconsideradas:


"Há três palavras que descrevem esta nova aberração:

RIDÍCULO - nem tudo o que se faz de traje cai imediatamente sob a alçada dos organismos de praxe. Se assim fosse, esses organismos poderiam proibir-me de, por exemplo, namorar com determinada rapariga pelo simples facto de tanto eu como ela estarmos matriculados na universidade. Que tem um bando de frustrados prepotentes que ver com quem eu me associo seja para que fim for? E se for para fazer serenatas? E se for para tocar música? E se for para fazer teatro? E se for para fazer amor? Não têm rigorosamente nada que ver com a minha vida privada, mesmo que as minhas actividades sejam públicas, ou publicamente assumidas. Desde que não esteja a participar numa actividade promovida por um desses organismos, não têm nada que legislar sobre mim ou sobre os grupos a que pertenço.

TRISTEZA - por constatar que há quem se submeta aos caprichos de pessoas cujo único mérito parece consistir em se raparem mutuamente e em circuito fechado, porque mais ninguém lhes liga bóia. Assim tivessem a coragem de denunciar as jogadas das queimas, a pouca-vergonha de quem se aproveita descaradamente dos estudantes, de quem se apoderou da manifestação mais visível da Praxe: a Queima das Fitas.

VERGONHA - de que haja gente que admita que outros lhes digam quem podem ou não convidar para suas casas. Mas era o que faltava que o meu vizinho de baixo me viesse proibir de receber quem eu quero em minha casa. Se alguma tuna retirou um convite que já tinha feito por causa desta anormalidade, essa tuna devia pintar a cara de preto. Como é possível??????????

Ridículo, tristeza e vergonha. Oxalá caiam em si e recuperem a dignidade.

Já deu para aprenderem alguma coisa? Espero que sim. Espero que esta abominação tenha ao menos o efeito positivo de fazer com que as pessoas aprendam à própria custa. Nada que não fosse previsível.

A bola está agora do lado das tunas: ou aparam o jogo, ou viram as costas e deixam os fulanos a bater bolas - ou a bater o que lhes apetecer... - contra a parede.

Abraço,

BOA MÚSICA e... HAJA AQUELA PARTE DA BIOLOGIA MASCULINA QUE É SINÓNIMO DE "CORAGEM" NA LINGUAGEM VERNÁCULA!"

O Conquistador, 20-09-2011
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"Vou analisar apenas um parágrafo da intervenção do RT. Escolhi este por conter uma gradação crescente de ingerência na vida interna das tunas a todos os títulos inadmissível. Revela, além disso, uma confrangedora ignorância que meteria dó, se não fosse perigosa.

A ingerência começa a um nível meramente superficial, pois pretende apenas que a Tuna X não convide a Tuna Y (declarada “anti-praxe”) para uma actividade:


«... impedir uma determinada tuna feminina de participar num certame de uma outra, ameaçando a anfitriã de que - caso não fosse retirado o convite em causa - "comeriam pela mesma tabela", ou seja, seria também ela declarada "anti-Praxe” (cito) como foi a convidada...»

a) se a actividade (festival) é promovida pelo Conselho de Veteranos, tem este todo o direito de interferir na organização. Porém, se a actividade é promovida pela Tuna, o Conselho de Veteranos não tem rigorosamente nenhuma palavra a dar sobre o assunto, tal como não dita regras nas actividades desportivas - ou de qualquer outra natureza artística, pedagógica, etc. - que os alunos da escola X entendam promover ou em que entendam participar.

b) que consequências práticas derivam de alguém ser declarado anti-praxe? Nenhumas, a não ser que seja "apanhado" a participar à força numa actividade directamente promovida ou ligada à praxe, podendo, nesse caso, sofrer sanções. Ora, não me cansarei de repetir que AS TUNAS NÃO NASCERAM DA PRAXE. Sendo assim, um Conselho de Veteranos tem tanta autoridade para declarar uma tuna anti-praxe como para declarar o Governo anti-praxe; ou a Reitoria anti-praxe; ou os empregados do bar e da cantina anti-praxe. Isto é NÃO TEM AUTORIDADE NENHUMA. É o equivalente a eu excomungar o Papa. Posso proibir determinado jogador de futebol de alinhar na selecção? Não. Posso formular essa proibição? Posso, contudo a mesma não tem qualquer validade. É o que acontece com um Conselho de Veteranos quando declara uma tuna anti-praxe. É uma declaração absolutamente inútil e por uma razão simples: não se pode declarar anti-praxe aquilo que não tem que ver com a praxe. Pode-se escrever um decreto com essas palavras; pode-se gritar do alto da Torre dos Clérigos com um megafone essa mesma proibição: não tem qualquer valor;

c) quem quer ser “dono” da praxe tem ao menos a obrigação de a conhecer. No Porto, como em Coimbra, existem as figuras da “protecção de Baco” e da "protecção de instrumento". Quer isto dizer que um académico que seja apanhado por uma trupe na rua a horas em que já devesse estar na cama, se transportar consigo um instrumento não pode ser incomodado, desde que prove que o sabe tocar. Pretendia esta medida proteger os caloiros que participassem nos grupos artísticos da universidade; como o caloiro não pode sair à noite, e os ensaios destes grupos eram em horário nocturno, o caloiro estaria proibido de participar nos ensaios. Ora esta medida é extensível a todos os académicos, pelo que uma Tuna está por sua natureza sob protecção de instrumento - de cordas, de percussão, de teclas ou vocal. Se não, está sob a protecção de Baco. Mesmo que um organismo de Praxe caia no ridículo de declarar uma tuna anti-praxe, coloca-se no duplo ridículo de não poder exercer sanções por os seus elementos estarem necessariamente sob uma das duas protecções... Isto é, mesmo que se arme uma “milícia” para castigar os refractários, essa milícia não pode fazer rigorosamente nada!


d) Suponhamos que uma das consequências de se ser declarado anti-praxe era a proibição do uso da capa e batina. Ora O TRAJE É DA ACADEMIA (ACADÉMICO), NÃO DA PRAXE. Qualquer aluno tem o direito de usar o traje a partir do momento em que se encontra matriculado, pelo que NÃO PODE SER PROIBIDO DE O USAR. Donde se segue que se eu for despedido o meu ex-patrão não pode continuar a dar-me ordens... Se a minha tuna for declarada anti-praxe, deixa, por esse mesmo motivo, de estar sob a alçada da Praxe - onde nunca nenhuma tuna esteve, é bom que se recorde.

Volto a fazer a pergunta: que consequências práticas advêm de alguém ser declarado anti-praxe? Nenhumas: não posso ser proibido de usar o traje académico nem posso ser praxado. Que pena...

A ingerência sobe agora de tom e de nível - e de ridículo:


«retirar a uma dada tuna do estatuto de "académica" com a conivência do próprio Dux da sua própria casa - que foi, qual acólito, apresentar queixa a "São Pedro"»

O Dux daquela casa - e não sei de qual se trata - não tem sequer autoridade sobre os seus. Não tendo força a nível interno, foi chamar a seita. Se a tuna é “académica”, é, tal como o traje, DA ACADEMIA, não da Praxe. Que autoridade têm estes “senhores” para dizer que a “Tuna Académica de X” perde o estatuto de académica? Nenhum. Não têm qualquer direito de o fazer. Repito: podem escrever decretos com palavras que indicam a perda desse estatuto e ir gritá-lo de megafone na mão do alto da Torre dos Clérigos - tal como eu posso andar com um badalo pelas ruas a gritar que, por meu decreto, o Primeiro Ministro perdeu o estatuto de português. O efeito é rigorosamente o mesmo: isto é, nenhum. Já não estão a querer inventar sobre a praxe: agora pretendem interferir no próprio significado das palavras da língua - património de todos os portugueses - e até no próprio meio universitário, decretando quem pode ou não ter o estatuto de “académico”. Mas esta gente tem consciência do que anda a fazer, ou pensa que somos todos parvos? Pelo visto, deve pensar que sim, que somo parvos. E têm razão, pois há quem vá nestas cantigas.

Mas enquanto se divertem a apedrejar o Sol, estamos nós bem. Mas veja-se agora o terceiro grau da ingerência e do ridículo:


«deixando a tuna feminina dessa mesma casa de ser, por isso, afilhada da dita cuja tuna em questão»

Como? Já decretam sobre as relações entre as tunas? Já a estupidez e a falta da consciência dos próprios limites rompe uma relação baseada na amizade e na admiração? É suficiente para destruir laços de amizade e cooperação institucional e pessoal, forjadas por largos anos de convívio e consubstanciadas por uma cerimónia formal - o baptismo? Que é feito da protecção dos padrinhos? Que é feito da admiração e do carinho dos afilhados? Como é que se destrói a relação entre aqueles que se responsabilizam pela entrada de outros no mundo das tunas e os que procuraram nos padrinhos o aconselhamento e a orientação, concedendo-lhes a honra e a responsabilidade de apadrinharem, uns, e de serem apadrinhados, outros, porque os padrinhos vêem nos afilhados qualidades em que acreditam? Ou não passou afinal tudo de um pretexto para padrinhos e afilhados jantarem juntos?

Ridículo - de quem intimida.
Vergonha - de quem se deixa intimidar.
Tristeza - de ver tunas contra tunas, pior ainda quando são afilhados e padrinhos.

Isto só passará daqui se as tunas, todas as tunas, deixarem.

Abraço e

BOA MÚSICA!"
O Conquistador, 21-09-2011



Mesmo que, eventualmente, quisesse alguém evocar o projecto de código do Balau e Soromenho, cuja validade não existe, e alegar qualquer intenção dos legisladores, daria com uma porta fechada, pois em lado algum há uma só referência que seja a Tunas (que também não existe na praxis coimbrã, diga-se).
Não tem o MCV ou seu Dux autoridade para se atribuirem poderes especiais, sob pena de, qualquer dia, dizerem que podem mandar, sei lá, nos talhos da cidade.

terça-feira, setembro 20, 2011

Notas de Sublevação Tunante

Nem quero acreditar. Estou estarrecido.

Segundo as notícias mais recentes, o Magnum  do Porto decretou a expulsão da Portucalense do seu seio. Até aqui, nada a dizer, porque assunto de foro interno, da organização exclusivamente praxística da academia. Por isso, pacífico. Entendam-se!

Mas a heresia e estupidez, porque só vindo de gente estúpida e ignorante, foi  a intenção (não sei ainda se consumada) de proibir as Tunas da Portucalense de participarem em eventos/festivais tunantes , bem como proibir qualquer outra tuna portuense de convidar qualquer tuna de lá, ou de por elas serem convidadas.

Eu pergunto-me se quem assim age têm o seu perfeito juízo ou se é mesmo  presunçosa burrice.
Mas desde quando é que as Tunas devem subserviência ao Magno ou qualquer organismo de Praxe?
Mas anda tudo doido?
Mas o ridículo é ainda maior nesta rápida reflexão dedutiva:
Se a Portucalense deixou de fazer parte do Magno do Porto, como é que o Magno ainda acha poder mandar na Portucalense, e aind amais nas suas tunas (que é isso que aqui importa: Tunas) para lhe dizer o que pode fazer na sua própria casa?
Prepotência da ditatura da ignorância, diremos nós. Ele há gente que não se enxerga mesmo!

Que Tunas, dignas desse nome, permitirão tal intromissão e invasão do seu espaço?
Que Tunas do Porto permitirão essa invasão hostil, sem precedentes, do seu território e da sua própria honorabilidade e aceitarão essa imposição/ordem?
Uma Tuna digna desse nome vai agora passar a ser uma mera Trupe a mando do Magno, vai violar a fraternidade tunante, os laços de amizade existentes, vai vender-se só para "agradar" ao Magno do Porto?
E se as Tunas baterem o pé (como se espera) e mandarem o Magno dar uma volta ao bilhar grande?
O que vai fazer o Magnum? Vai rapar as tunas todas ou vingar-se não convidando as tunas para o certame da Queima?
Pensará o Magno que as Tunas portuenses vivem o seu quotidiano em função do Festival de Tunas da Queima do Porto e que são capazes de prostituir a sua identidade a troco de um convite para lá actuarem?

Estou para ver, e acreditem que este blogue não deixará de seguir as pisadas do seu blogue irmão, "As Minhas Aventuras na Tunolândia", que sobre isto já se pronunciou,  denunciando todas as Tunas que pegarão em armas contra outras Tunas a mando do Magno.

Em certos sítios, acreditem que, e a confirmar-se esse processo de intenção (e saliento: a confiirmar-se), nem uma Tuna participaria em qualquer actividade que o Magno organizasse ou estivesse envolvido, a começar pelos festejos de recepção ao caloiro e terminando no Festival de Tunas da Queima!
Era essa a atitude certa para mostrar de que têmpera são as Tunas e as gentes do Porto.



É um ataque e desrespeito total para com a Tuna, a Tuna que é anterior a qualquer código ou organismo de praxe, a Tuna que não tem de se prestar a essa presunçosa a arrogante atitude de gentalha que mostra não apenas falta de decoro e bom-senso, mas incompetência e saber nestas matérias.
Mais ainda: o promover ou querer despoletar uma guerra fraticida, colocando Tunas contra Tunas é de uma gravidade inenarrável, reduzindo as Tunas a meras peças de xadrez que o Magno, à sua vontade, vai movendo.

A coisa já aquece, também, pelos lados do PortugalTunas, cuja discussão podem seguir AQUI e AQUI e merecia um arregimentar das Tunas, uma sublevação nacional contra quem não sabe ser ou estar, faz da arrogância e prepotência o seu modo de agir, de quem julga poder exercer ditaduras extensivas às Tunas.

É uma vergonha. Enoja-e profundamente que tal tenha sequer sido opção, mesmo que, e quero acreditar que assim seja, os ditos do Magno do Porto arrepiem caminho.
Não sei se tudo isto é algum ajuste de contas antigo ou se, como também se indicia, uma nova política de expansionismo colonial, se relembrarmos o descaramento que foi a subida do Magno ao palco do último FITU, invadindo e apropriando-se  do tempo de antena, num espaço que é das Tunas, para auto-promoção.
Um episódio nada novo, se quisermos trazer à baila a forma como foi tratado o Grupo de Fados do OUP, ainda em 2007 (para quem não sabe, leia AQUI -artigos de 22 de Outubro e de 7 de Dezembro).

Se a Praxe não é uma democracia, era escusado termos agora um Magno do Porto a optar por prefigurar um regime ditatorial, arrogante e que se enche de ridículo com tal episódio.
Á Tuna o que é da Tuna e à Praxe o que a ela lhe pertence (que não a Tuna, certamente)!
Ninguém tem o direito de me dizer quem posso receber em minha casa, e muito menos ditar-me quem posso visitar. Quando fora de actividades da alçada do Magno, este não tem sequer de opinar.
Se aos seus membros lhes falta caloiros para exercerem o seu autoritarismo e brincar às praxes, pois que se praxem uns aos outros nas suas reuniões. Mas no tocante a Tunas, saibam ser e estar, respeitar e dar-se ao respeito, sob pena de, como agora sucede, se lhes perder qualquer respeito.

Sendo eu praxista convicto, e tendo com muito gosto e honra pertencido a um organismo do género (liderando-o, inclusive), mais envergonhado me sinto por ver com quanta veleidade e descaramento alguns usam as suas funções que, está bem de ver, não são, afinal, para o bem comum, mas para fins próprios, vendettas internas e desejo de domínio do mundo, a lembrar certas figuras do passado.
Mas só imporão os seus bigodes, se deixarmos.

Mostra este episódio o quão nocivo é o mito de que as Tunas são Praxe, bem como do perigo latente quando a Tuna (que, pela sua naturez,a é mais representativa que um qualquer organismo de Praxe -pois representa uma instituição e todos os seus alunos, enquanto os Magnos apenas os que aderem à Praxe) aceita o papel de mero núcleo, se deixa escravizar pela noção de que deve satisfação a quem não deve, de todo.

Mesmo que tudo isto não se consume (e que as tunas sejam "poupadas"), que tudo não tenha passado de um processo de intenção por parte do Magno, só o facto de ter sido considerado (porque onde há fumo há fogo - e por alguma razão isto veio a público), é já merecedor das mais veemente críticas e condenações.

Está na hora das Tunas assumirem quem são, de perceberem ser uma tradição centenária com caminho próprio e evitarem os estabelecer de relações cuja natureza as castra, rebaixa e reduz.
Está na hora de as Tunas se sublevarem contra todas as relações estabelecidas com a Praxe que a coloquem a jeito de ser assim tratada.
Nada garante que as boas relações que vão existindo, entre Tunas e Praxe, hoje, assim perdurem amanhã, com outros protagonistas. Facilmente o cenário muda, daí a necessidade do devido distanciamento e do evitar a promíscua e confusa teia de relações que, por vezes, se estabelece/estabeleceu.
Cooperação sim; subserviência e tutela da praxe não!

Mais uma vez, se prova o quão certo alguns estavam, quando defendiam um organismo Tunante que zelasse pela defesa da sua comunidade, e mais ainda quando defendiam (e defendem) a necessidade das Tunas se revestirem de personalidade jurídica própria (formarem-se legalmente como associações), vincando a sua autonomia (que não impede cooperações e estreita colaborações, mas salvaguarda a própria independência e tentativas de apropriação e anexação).

sábado, setembro 10, 2011

Notas ConCSiliares

O título é estranho, até da forma como é escrito, mas como fui recentemente contactado sobre isso, via mail, achei por bem aqui deixar umas notas.

Todos estamos, certamente, faliarizados com a terminologia que designa os organismos de Praxe: Conselho de Veteranos, Magno Conselho da Praxe........
Mas a dúvida que me foi colocada prende-se com o uso dessa nomenclatura em latim.

Afinal é Consilium (com S) ou Concilium (com C)?
Se atentarmos aos termos Conselho (grupo, reunião, recomendação) e  Concelho (referente a uma área geográfica adminsitrativa), logo se desfazem as dúvidas - ou deveriam desfazer: a usar-se é Conselho - Consilium (quer linguisticamente, quer no uso do latim macarrónico).

Mas, como bem me interpelaram, existem inúmeras citações em latim que ora usam uma ou outra grafia, instalando-se a dúvida, nomeadamente porque a larga maioria dos praxistas não sabe patavina de latim.

Para evitar grandes considerandos, fica esta sucinta explicação:

Consílio e concílio são palavras diferentes. A grafia, a origem e o significado o mostram.

Consílio provém do latim consiliu(m) que significa:
a) consulta, exame, deliberação, decreto;
b) determinação, resolução, expediente, projecto, desígnio, plano;
c) conselho: parecer, opinião, sentimento, voto;
d) conselho: assembleia consultiva ou deliberativa.

Em português significa conselho, reunião, assembleia.


Concílio provém do latim conciliu(m), que significa:
a) ajuntamento, ligação, união;
b) assembleia, reunião, sociedade, círculo (de pessoas), conselho (em sentido concreto), reunião de conselheiros, assembleia deliberativa;
c) concílio, assembleia de bispos.

Em português significa conjunto das pessoas da hierarquia eclesiástica, que têm voto em matéria de dogma, moral evangélica e disciplina, presidida pelo bispo, arcebispo, patriarca, papa ou seus legados.
Significa também as actas, cânones, decisões do consílio.
A grande diferença entre as duas palavras é a seguinte: concílio pertence à linguagem da Igreja Católica; consílio pertence à linguagem fora das actividades da Igreja Católica.
Como vemos, a significação de concílio provém da significação C) do latim consilium
Como a Praxe não é da esfera eclesiástica (e tao pouco faz sentido qualquer romântica ou histórica ligação ao tempo em que a Igreja detinha o poder sobre as Universidades), tanto que quando se organiza, de facto (com conselhos de veteranos, comissões, etc.), há já muito tempo que a separação entre Igreja e Estado se fez (o 1º Conselho de Veteranos é formalmente criado pelo código de 1957 - e de cujo Decretus consta o termo Consilium bem escrito - não se percebe por que razão, actualmente, o CV de Coimbra o escreve mal).
Embora perdurem termos e resquícios dos tempos eclesiais, convém separar as coisas.
Neste caso, o termo a ser utilizado em Praxe é Consilium, com S: Magnum Consilium Praxis ou Magnum Consilium Veteranorum (entre outras designações), seja no rigor linguístico, seja no uso do Latim Macarrónico ("aportuguesando" o termo Conselho).
Fica esta pequena nota.

Notas sobre a origem dos Pins, Alfinetes e Crachás, na Praxe



O saber actual.

Pode parecer caricato, mas é verdade: sobre a origem dos pins e alfinetes de lapela, no contexto da Praxe, do Traje Académico, não existe uma única fonte de informação na Net ou em qualquer Código de Praxe.
Pode parecer estranho, de facto, mas sobre um dos adereços mais populares no seio académico, não existe informação alguma acessível, que não a reprodução de normas e ditames sobre quais usar ou onde colocar.

Os estudantes, ontem, como hoje, não sabem, de facto, de onde provém essa tradição, pelo que, naturalmente, o que hoje vemos é, na esmagadora maioria dos casos uma contínua invenção ou cadeia de suposições.
Nuns casos há um claro exagero, noutros está-se mais perto do genuíno, embora em nenhum dos casos se saiba bem por que razão é este e não aquele, qual a razão de ser ali ou acolá.

Quando era estudante, também não sabia, é um facto, mas sempre tive curiosidade em saber por que razão se usava, quanto mais não fosse para estabelecer uma causa-efeito, saber se aquilo que se praticava era provindo de uma fonte fidedigna ou se era mero copy-paste de um artificialismo que ia mutando ao sabor de modas (ou gostos de quem mandava na praxe).
A resposta obtive-a bem mais tarde, infelizmente (embora valha mais tarde do que nunca, diz o povo).


Vamos então a factos, socorrendo-me da preciosa informação que me facultou o insigne António Nunes, historiador e especialista nesta área.

 Origem

Crachás, pins e alfinetes, no meio académico (e também fora dele), terão a sua origem no foro militar.
São os uniformes militares, enquadrados pelos respectivos regulamentos, os que admitem, desde pelo menos o séc. XVIII as placas e distintivos para barretinas, colarinhos, ombros e, até, botões metálicos.
Desde há muito que as universidades portuguesas ou escolas diversas (médico-cirúrgicas, politécnicas, belas artes, etc.,) acolhiam no seu seio estudantes militares, os quais não trajavam capa e batina, mas sim o seu uniforme militar, sobre o qual, então sim, usavam capa ou gibão. Existem vários clichés, do séc. XIX ou de inícios do XX que o comprovam inequivocamente.
Daí emana, por cópia e pelo fascínio que daí advinha, por parte de outros estudantes, a adopção de distintivos metálicos, para uso na lapela da casaca/batina, os crachás e alfinetes.
Desde logo, fica claro que esse costume não tem por base qualquer tradição local ou regional.

Estes adereços exprimem historicamente a pertença a um grupo, fraternidade ou, então, expressam o reconhecimento de feitos alcançados (condecorações), como é o caso, em França, por exemplo, em que os agraciados com a Légion d’Honneur (condecoração atribuída pelo presidente da república francesa, como, por cá, o nosso atribui a da Ordem de Cristo ou da Torre e Espada, - entre outras, por exemplo, no dia 10 e Junho) não usam diariamente essa condecoração (porque muito grande), colocando antes, na lapela, um pequeno pin alusivo.

Em Coimbra, e citando A. Nunes, “A únicas tradições que se conheciam eram as que autorizavam o porte de monograma (letras do nome próprio entrelaçadas em prata) na lágrima da guitarra, o que só acontece a partir de 1905, e na pasta de luxo com fitas de seda (distintivo do curso). A tradição autoriza ainda o uso de heráldica das Faculdades em lenços de bolso, botões de punho, fivelas de prata dos sapatos de gala, livros encadernados que se utilizam em determinadas cerimónias (autos, juramentos).
Por conseguinte a metalurgia de lapela foi uma apropriação/invenção divulgada por alunos que tinham sido militares ou gostavam das cerimónias paramilitares da Mocidade Portuguesa e da Legião Portuguesa. “

Alguns sectores de opinião, no seio académico-praxístico, pretendem diferenciar alfinetes dos pin’s, quando se trata, basicamente, do mesmo, com a diferença, apenas, na forma de os pregar (longo alfinete, para uns, alfinete curto, ou pico, com fecha, para outros). Na parte visível são ambos similares (ora maiores ora mais pequenos; mais simples ou trabalhados; com ou sem cores).

Mas note-se que, em larga medida, a prática do uso de alfinete ou pin na lapela era quase inexistente. A larga maioria dos estudantes não usava qualquer alfinete ou pin (e a atestá-lo estão centenas de clichés).
Portanto, mesmo que coloquemos a inspiração numa origem militar (dos alunos militares que cursavam a universidade), parece mais evidente que a moda que explode a partir da década de 1980 tem mais de inspiração das tunas espanholas (que usavam pins nas mangas dos seus trajes) do que outra coisa.
A questão dos exageros começou, desde logo, porque os estudantes portugueses não tinham uma informação essencial: o traje de tuna espanhol não era um traje académico, como sucedia com os trajes académicos que os estudantes portugueses usavam no contexto das suas tunas.
Numa espontaneidade vaidosa, começou-se a meter pins no traje académico como se ele fosse um traje exclusivo de tuna, omitindo que o traje académico obedecia a uma etiqueta de sobriedade nem sempre compatível com o desejo de imitar os "floridos" trajes dos tunos do país vizinho.

 Quantos e quais na lapela?

 Ora, secundum praxis, e respeitando a tradição genuína, que pins ou alfinetes se podem usar?
1º - Usa-se apenas 1, e só um!
2º - Deve colocar-se aquele que contenha a heráldica da instituição frequentada.

Assim, só os relativos ao logótipo da instituição (Universidade, Instituto) ou da Faculdade (conquanto a heráldica remeta para a Universidade – onde não se confunda, por exemplo, a Faculdade de Direito de Lisboa com a do Porto).
Com mais reticências, o de curso, mas só se este contiver no seu desenho a heráldica da instituição (ou seja ter nele o logótipo da Universidade ou Instituto).
Mesmo no caso das Tunas, se exige, pelo menos aos que são estudantes, que sigam esse preceito, porque antes de serem tunos, são estudantes. Já aos demais, é normal que substituam o da instituição onde se formaram pelo da Tuna a que pertencem (e só esse).
 Mais nenhum se permite, pois, na lapela.
O que se aconselha para o traje, para os estudantes, é mesmo o da Instituição.

 E os outros?
 Os outros não têm lugar na lapela. Bem sei que me dirão que há N sítios onde isso se faz. Pois, mas faz mal. Não apenas delapida e desrespeita, como transforma a sobriedade do traje num verdadeiro circo.
Vou abster-me de adjectivar assertivamente essas práticas (que a vontade é chamar-lhes nomes feios), nas quais vemos algumas casas a promoverem uma fantochada pegada, onde parece que lá militam os antigos generais da era soviética.
 Com o advento do boom tunante, e por contágio dos “brasones” nas capas, com clara raiz no exemplo espanhol (mais um vez), em que os tunos do país vizinho colocam nas mangas da jaqueta os pins, passou a ser comum o uso no colete (para aqueles que, ao menos isso, quiseram manter a sobriedade da batina).
Nesse caso, a regra a seguir é a mesma que para os emblemas: apenas se coloca a “ferraria” relativa ao exercício académico (locais/instituições visitados em missão oficial académica ou grupos contactados).

Assim, pins da Coca-Cola, do Rock in Rio, da Luta contra a Sida, do Mickey, da Sagres, os que brilham e piscam e quejandos não são apropriados (mas próprios para meter noutras roupas que não o traje, seja ele qual for).

Mas se o colete apresenta mais espaço para “medalhas”, convém recordar que enchê-lo de pin’s tem, pelo menos, o problema de o tornar pesado (em alguns casos, e porque só os colocam apenas de um dos lados, esse lado até chega a descair um pouco de tanto quilate – como eu já vi).

Atente-se que a regra de ouro é que, ao fechar-se a batina, nenhum pin do colete fique visível.

De que lado?

Para terminar, fica a questão do lado onde usualmente se colocam.
Há quem defenda na lapela esquerda, outros na direita; uns no lado esquerdo do colete, outros no oposto.
Usualmente é o lado esquerdo o escolhido. No caso da lapela, também porque é onde se encontra o bolso (usado, nos fatos e smokings, para colocação de lenço, segundo a etiqueta).
Assim ficou convencionado. Dirão que é por ser o lado do coração, etc&tal, mas, isso, cada qual invente o que quiser (entre teorias místicas, pseudo-históricas e afins, há muito por onde arranjar “estórias”).
Eu não conheço, documentalmente, qualquer razão tácita e inequívoca para essa determinação.
Foi assim definido, ao que tudo indica, seguindo a etiqueta em uso no meio civil, que estipula, na maioria dos casos, a colocação do alfinete ou pin à esquerda, embora também se contemple o uso no lado direito.



Posto isto, e concluindo, é fácil, agora, perceber onde a tradição é preservada e onde se inventou, ou mesmo se adulterou.
Por falta de conhecimento, muito se inventou, claro está.
Não basta regrar e dizer que é assim ou assado, que se mete isto ou aquilo, ali ou acolá, só porque sim, sem sequer ter fundamentação.

Ficam estes dados à superior consideração dos praxistas.

sexta-feira, setembro 09, 2011





As estatísticas valem o que valem, mas o Notas&Melodias não pode deixar de agradecer a preferência e atenção que lhe é dada pelos internautas.
Assim sendo, bem-haja aos que continuam a visitar este blogue, bem como aos que a ele se associam como amigos do N&M (que ultrapassaram, entretanto, a fasquia da centena).
Não se anda nisto para alcançar shares e picos de audiência, mas sabe bem registar que o blogue continua a merecer a consideração de muitos leitores/participantes.

Muito obrigado a todos!




quinta-feira, setembro 01, 2011

Notas de par em (ím)par.

Bem sei que este assunto será, desde logo, observado pelos meus dilectos leitores mais avisados, como um "fait divers", um exercício sobre uma matéria que, em Praxe, nada tem de essencial e fulcral. Mas é porque a comunidade académica de hoje parece estar tão presa a periferias e picuinhices que achei ser necessário também abordar este "tema".

A questão prende-se com a importância dada ao N.º ímpar, no que respeita a assuntos de Praxe.
De onde vem essa fixação e todas as determinações dai resultantes, relativamente ao traje ou outros quejandos praxéticos?

Daquilo que foi possível pesquisar (mais do que fazer apelo à memória), nada se encontra, documentalmente, que explique o quando, como e porquê dessa convenção como sendo um uso antiquíssimo e ancestral. Aliás, recuando ao tempo anterior aos anos 90, nunca tal foi considerado praxis ou tradição, nunca!
Assim sendo, não é Tradição sequer, nem Praxe.

A explicação mais comum, que podemos encontrar em diversos sites, e que é a mais reproduzida, não passa, claramente, de um argumento "a posteriori", para justificar algo que, ao que tudo indica, é mais um fruto do "boom académico" dos anos 80 do século passado (a reabilitação das tradições académicas) ou pelo menos a formalização de uma convenção algo recente de uma errónea interpretação.


A explicação avançada, para a importância no N.º ímpar é um exercício de analepse e reabilitação da ligação clerical das universidades. Assim, explica-se a sua importância religiosa/mística/bíblica porque:

"São 3 as pessoas da SS. Trindade, 3 os mensageiros que se dirigem a Isaac (antigo testamento), 3 os apóstolos no monte Tabor durante a Transfiguração, 3 as hierarquias do juízo final: inferno, purgatório e paraíso, 7 ospecados capitais, ou 7 as vitudes teologais. 
Também porquea  Criação se fez em 7 dias  e o sábado é tido como o sétimo dia , relativo ao descanso após a Criação (segundo o Génesis) , pelo Pentecostes que sucede 7x7 dias depois da Páscoa, pelo facto de cada sétimo ano ser sabático ou, depois de 7x7 anos se seguir o Jubileu; tal como a bíblica recomendação de se perdoar 70x7, as 9 bem-aventuranças...........)."

Estranhamente, e principalmente se pensarmos no traje (capa e batina), que é um corte com o hábito talar, por força dos anti-clericais, dos laicos republicanos (de que bem conhecemos os ódios à Igreja, nomeadamente às ordens religiosas, sobretudo aos Jesuítas)  que, a partir de finais do séc. XIX impõe um modelo burguês - de que provém o actual figurino da capa e batina, parece-me incoerente que tão atiçados anti-clericais impusessem no protocolo da Praxe (e do traje) convenções com base em simbologias judaico-cristãs.

Pelo que se pode observar em diversos clichés, desde o séc. XIX, o colete, por exemplo, tanto apresenta 4, como 5 ou 6 botões, tal como a casaca (que manteve o nome de "batina" por força do uso - apesar de, certamente, muito contrariar os anti-clericais) que tanto tem 3, como 4, 5 ou mais botões.

Recordemos que o actual figurino do traje resulta da produção em série de trajes (pelas unidades fabris), deixando de ser segundo cada alfaiate ou modista (uns faziam assim outros mais assado), para ser segundo um modelo de fábrica onde se produziam em série.

Mas se alguns defendem com unhas e dentes, embora com muita cegueira intelectual, que na Praxe é só N.º ímpar, porque é, supostamente, inspirado na simbologia numérica do cristianismo ou misticismo numérico bíblico, que dizer, então, dos 4 os evangelistas, de serem 12 os apóstolos, 14 mandamentos da Stª Igreja, 10 os Mandamentos, 12 as tribos de Israel, 4 os cavaleiros do Apocalipse, 40 os anos do povo israelita no deserto (após saída do Egipto), 40 os dias de Cristo no deserto, como o são os dias da Quaresma ou os 50 dias da época pascal (até ao Pentecostes)...........?
Lá está: dir-me-ão que se somarmos aos nºs pares o n.º três, obtemos um nº ímpar.......parece-me tão óbvio quanto insignificativo, e que tem bem cara de ser mais um procurar, precisamente, o que se quer encontrar.
 
Conforme se quiser, encontraremos as explicações mais "lógicas" noutras áreas que não a mística ou religiosa, seja na geometria, na própria matemática ou noutra área qualquer, para tanto defender o par como o ímpar. Sejam as rebuscadas explicações do sujeito como alguém ímpar e único, o tempo de praxe que é singular, etc&tal, tudo é muito giro, mas ditos e contos de embalar não, por favor!

Não sejamos ímpares de inteligência!

Ora se em Praxe é o N.º ímpar que reina e que domina, em alguns sítios, penso que encontramos nisso falíveis casos que contrariam essa ideia e disposição.
O facto é que tanto encontramos Nºs pares e ímpares, tanto mais de uns do que de outros conforme assim o quisermos ou der jeito.
Se os botões de um colete são em n.º ímpar, acabam por formar um par com as respectivas casas. Os buracos dos atacadores são em número par, tal como usamos um par de sapatos, um par de calças ou meias. E contudo, as fábricas de calçado não fazem sapatos tendo em conta isso. os estudantes compram o que as fábricas propõem e não são as fábricas a fazer sapatos sob indicação regulamentar da Praxe.
Veja-se, também que o mítico termo "Dura Praxis Sed Praxis" é composto por 4 palavras, embora com 19 letras e 7 sílabas, tal como os termos "Praxe" ou "Praxis" ora são com letras em n.º ímpar ou par, mas ambas par no n.º de sílabas.
As fitas da Pasta da Praxe, por outro lado, são 8, a qual é composta, por sua vez, por 2 abas.
Do mesmo modo, os logótipos de Praxe mais correntes utilizam 4 insígnias: Colher, Tesoura (um par de tesouras), moca e penico. Mas temos, igualmente, para o n.º ímpar, as "insígnias" de finalista que são 3«4: cartola, bengala, laço e roseta. É o grelo 1, mas termina em 2 pontas; é "Dux" ímpar, mas "veterano" e "doutor" são par (nº de letras e de sílabas).
Conforme o que queremos ver/defender, ambos os nºs aparecem.
 
Não me parece que haja qualquer fundamento em ligar tal a misticismos ou religiosidades por conveniência, sobretudo porque, claramente, essa explicação aparece depois para tentar legitimar algo que foi "inventado" por alguns, há largos anos atrás.

Em algumas casas, determinou-se ser assim, convencionou-se ser o N.º ímpar aquele que se sobrepunha, mas não entremos em exageros e ficção, nomeadamente numa matéria que não é, de todo, essencial ou essência da Praxe.
Os fundamentalistas praxistas que parem para pensar um pouco sobre o ridículo de querer tornar esta questão em cerne e fulcro da Praxe (juntamente com outras questões - que são tantas - deste género).
Em Coimbra, a título de exemplo, isso não é Praxe nem da Praxe. Aliás, falando em Tradição Académica Nacional, essa coisa dos números ímpares não tem fundamento algum: nunca foi, nem é Tradição ou Praxe.

Pedir discernimento e alguma inteligência não é pedir muito, ou é?

Existe a convenção do n.º ímpar em algumas situações, nomeadamente quanto à composição de organismos colegiais, com o intuito de evitar situações de empate nas decisões tomadas, embora possamos acudir com o facto de  pro alguma razão existir a figura do voto de qualidade.
Convenciona-se um n.º que tanto pode ser par ou ímpar, sem precisarmos de o justificar seja onde for. Se são 3 bengaladas na cartola, ou se são 4 tesouradas; se são 2 flexões ou se são 21, isso nada tem de místico, significativo ou se assume como dogma.

Ainda assim, quando nos deparamos, por exemplo, com a publicaçao de coisas do tipo " Latada, dia 20+1 de Outubro de 2008+1" (em que o "+1" é para não terminar é n.º par) isso não merece qualquer respeito, porque a estupidez não se respeita nem é Praxe.
O mesmo sucede com a estupidez de colocar as horas nesse mesmo preparo: 21:59 para não serem 22h00 ou 00.01 para não ser meia noite.
Nada tem de Praxe, nem nunca teve. É preciosismo bacôco e parvo e quem acredita, e defende isso, exemplo de pequenez intelectual.

segunda-feira, agosto 29, 2011

Notas sobre os Emblemas/Escudos nas Capas

Não é de hoje que a questão dos emblemas (que também se chamam "escudos"), que os estudantes colocam nas suas capas, tem sucitado vários debates, muitas dúvidas e muitas mais patetices.
Basta passar os olhos nos muitos fóruns sobre Praxe e Tradição Académica, para se verificar aquilo que é, hoje, uma enorme profusão de confusões, invenções e mitos, todos eles geradores de interpretações ad hoc e de uma "terra de ninguém" onde reina uma certa anarquia e a
crescente moda do "na minha capa meto o que bem me apetece", sob a desculpa esfarrapada do "a capa é minha" ou daqueles ridículos argumentos que alguns usam de que colocaram este ou aquele emblema porque tem um determinado significado (mesmo que nada tenham a ver com a praxis), como é o caso daqueles emblemas abonecados do "Tio", da "Avó" (onde se esquece/desconhece, que a capa não é montra de homenagens - e que a capa só tem essa função  - homenagem/agraciamento -  quando deitada no chão, e em condições bem definidas) ou aqueles simpáticos escudos que dizem, por exemplo "Sou de Engenharia", para só citar alguns.

Isto, caros leitores, para não falar, depois, nos denominados "emblemas obrigatórios", outra patetice, pois uma coisa é indicar os que são permitidos, outra é obrigar a colocar este ou aquele, quando se pretende meter emblema na capa. Coitado do pobre que só pretende ter 3 ou 4 emblemas na capa e se vê, de repente, na obrigação de meter mais 4, 5 ou 6 que os que desejava, só porque o código manda (e quem esfrega, naturalmente, as mãos de contente são as lojas que comercializam os emblemas).

SITUAÇÃO/PROBLEMA

Reveste-se, assim, tantas vezes de verdadeiro autismo, arrogante teimosia, e outras tantas de argumentação patéticos, o pensar-se que sendo a capa de cada um isso lhe confere o direito de fazer o que bem lhe dá na real gana ou a presunção que por estar em código significa estar correcto.
Mostra esse exercício não apenas ignorância, mas uma jactância  repleta de incoerência.
 
Para umas coisas segue-se a Praxe e o código à risca, para outras segue-se o umbigo, a própria vontade, a interpretação pessoal.....as conveniências.
Resume essa atitude que muitos estudantes não são, de facto, praxistas, querendo 2 pesos e 2 medidas: o genérico e o pessoal, defendendo a praxe com unhas e dentes, excepto quando isso melindra o seu espaço e comodismo, quando impede o pedestal da montra, da vaidade, do querer diferença e regime de excepção.
Outras vezes, defende-se a letra da lei que resulta não de uma base assente em tradição, mas do desvirtuar das coisas, normalmente por desconhecimento.

OS CÓDIGOS
Muitos dos actuais códigos legislam sobre a colocação dos emblemas, mas demonstram que os
seus autores desconheciam (ou fizeram vista grossa)  a real origem desse costume, abrindo portas à invenção e à profusão de um verdadeiro desfile de carnaval. Uma vez mais, o desconhecimento levou à interpretação sem critério e, consequentemente, à ficção, ao mito........ao erro.
Um dos grandes erros, pois, dos códigos, foi quererem legislar ao centímetro, burocratizando, complicando, tornando miudinho o que sempre se quis, e foi, simples e pragmático, que sempre foi prático e directo.
 
A Praxe em Portugal, esta mais recente, invencionada e baralhada nestes últimos anos, tornou-se mais papista que o Papa e pormenorizou exaustivamente sobre coisas e matérias sem real interesse, que não eram, nem são, essência - traduzindo-se tal em quantidades de artigos e mais artigos que tem tanto de inútil e pesado, quanto, muitas vezes, de ridículo (e de errado), em detrimento de questões bem mais importantes. Por outro lado, legislam sem explicar coisa nenhuma, o que é outra coisa que não se entende.

Veja-se, por exemplo, que, em certos casos, os códigos obrigam à colocação de certos emblemas, depois misturando os que são próprios da vida académica com disparates como o emblema da terra da mãe e o emblema da terra do pai.
Justificação para tal? Nenhuma que não seja a invenção de quem decidiu que era assim, porque sim, porque lhe pareceu. Explicação preto no branco do porquê e origem dos emblemas e adequação das práticas e regras à Tradição?  Nenhuma, claro está.

Obviamente que quando se desconhece, mais facilmente se inventa e, na cópia da cópia, no "acrescentar pontos ao conto", se vai delapidando, desvirtuando o paradigma e o que é genuino na Tradição.

COMPRA/OFERTA
 
Outro mito, resultante desse desconhecimento é, em diversos casos, a ideia propalada de que os emblemas não se compram, mas são recebidos por oferta, ou seja que os estudantes só podem colocar na capa os que lhes forem oferecidos (comprados por outrém), coisa que, além de errada, se reveste de algum ridículo.
Com efeito, não há, segundo a Tradição, qualquer determinação que limite a forma como os emblemas se adquirem, tanto podendo ser comprados ou ofertados.
Muito menos a questão de terem de se colocar em nº ímpar (regra que aplicada a botões e afins, se quis estender a tudo, sem muitos sequer perceberem que simbologia/superstição encerra).
Que o valor do nº ímpar tenha a sua razão (que aqui não importa discutir, mas sobre o qual pode o leitor AQUI procurar o artigo respectivo), pois assim seja, mas que se queira meter a questão dos emblemas, parece-me artificialismo, quando nunca isso foi determinação do uso, do costume, da praxis original.


A ORIGEM, A PRAXIS
 
O uso de emblema na capa  remonta, grosso modo, aos anos 30/40, mas restringia-se quase só ao monograma da Briosa (datado de 1929) que os jogadores usavam no equipamento. Sendo eles quase todos alunos da UC, passaram a cosê-lo também nas suas capas.
Rapidamente os adeptos e simpatizantes fizeram igual.
Na década de 1940 ,os orfeonistas também o começam a coser na capa o emblema do Orfeão, por dentro da capa. Nos anos 50 aparecem o Coro Misto e o Coral das Letras, que replicam as práticas anotadas para os anos 30 e 40.

Será essencialmente com a influência das Tunas espanholas (por contágio da “moda mochilera” e dos inter-rails, nos anos 60-70 e seguintes) que, a partir dos anos 80 do séc. XX (boom das tunas e das tradições académicas em Portugal), se generaliza o uso de emblemas nas capas.

Com efeito, era costume os jovens viajantes colocaram nas malas ou mesmo nas caixas de instrumentos (e até nos próprios), autocolantes com os emblemas das cidades/instituições visitadas (e/ou países).
É esta a origem dos emblemas no contexto da recuperação das tradições académicas, operado a partir dos anos 80 do séc. XX; um costume rapidamente aculturado pelos estudantes portugueses, com especial incidência nos tunos.
 
Os tunos compravam nas lojas de "souvenirs" os emblemas locais (cidade, país) e, muitas vezes, também, os recebiam das tunas congéneres ou instituições visitadas os respectivos escudos/emblemas (ou também os compravam na loja associativa, na reprografia ou secretaria caso existisse).
Uma vez mais, se verificou, e verifica, a contínua troca de usos e costumes que, entre Tunas e Praxe se foi operando, sendo, neste caso, a Praxe a (re)inspirar-se na tradição das Tunas (neste caso das do país vizinho).


Sobre esta questão dos emblemas, recupero, ainda, o avançado pelo historiador António M. Nunes, o maior especialista em questõesde trajes e etiqueta académica que temos em Portugal, e que colabora muitas vezes com o N&M:

"A UC tem heráldica e cores institucionais consagradas nos vários estatutos. A par da heráldica oficial (faculdades, cursos, cadeiras), os estudantes de Coimbra inventaram no século XX inúmeros selos e emblemas para a sua associação de estudantes, grupos corais, tunas, etc. Estes últimos são em geral bicolores (apenas admitem preto e branco) e podem estampar-se em crachás e pines. O motivo mais comum em todos eles é a Torre da Universidade. O mais antigo é o da Académica, Equipa de Futebol, desenhado por 1929 (se não me falha a memória), que das camisolas dos atletas passou poucos anos depois para a bandeira e papel timbrado da AAC.

 O emblema da Académica/Equipa de Futebol começou a ser usado primeiramente nas camisolas. Como a maior parte dos futebolistas da Académica estudavam na UC, estes começaram a usar o emblema futebolístico no canto interior direito e ao fundo da capa. Na segunda metade da década de 1930 criaram-se em Coimbra várias claques de apoio à Académica e estes grupos de adeptos também começaram a coser na capa, por dentro, o emblema da Académica, sempre em tecido estampado preto e branco.

 Na década de 1940 afirma-se o emblema do Orfeon e os orfeonistas também o começam a coser na capa, por dentro. Nos anos 50 aparecem o Coro Misto e o Coral das Letras, que replicam as práticas anotadas para os anos 30 e 40.

 Após 1974, com a fundação da Estudantina aí por 1984 tudo muda. Os emblemas passam a ser multicolores e abrangem um universo ilimitado de representações: escudo de Portugal, clube de futebol, município, curso, cidade visitada em digressão...

 Cheguei a Coimbra em 1985 e por essa altura havia uma "guerra" de palavras entre os praxistas que condenavam o uso abusivo de emblemas e os que defendiam a liberdade de uso de emblemas. A matéria chegou a ser regulada pelo Conselho de Veteranos, mas a corrida aos emblemas continuou.

 A par dos emblemas que acabo de referir há ainda os distintivos oficiais que decorrem dos estatutos e da cultura greco-latina. A Reitoria tem selo próprio e cor oficial (verde). Cada Faculdade tem cor própria e distintivo. O distintivo de uma Faculdade é sempre um deus ou uma deusa greco-romano, com determinados atributos. Dentro de cada Faculdade, cursos há que têm representação autónoma como Música, Geometria ou Astronomia.
A partir das insígnias da alegoria masculina ou feminina a tradição autoriza criar distintivos que a UC representou em pinturas de tectos, paredes, e os alunos podem usar em crachás, pines, alfinetes e emblemas. Por exemplo, num crachá alusivo à Faculdade de Direito, não se figura a deusa Justitia, mas apenas a espada e a balança no interior de uma moldura oval ou circular de folhas de louro. Esta matéria não tem sido alvo de estudos e a própria UC não tem publicado um manual ou regulamento de haráldica, símbolos e alegorias.
Os códigos de praxe também não regulam a matéria. Na prática o que acontece é que os cursos inventam pseudo distintivos kitsch que não obedecem às normas heraldísticas. Há muitos exemplos. Posso citar emblemas com uma língua humana a sair de um medalhão circular, que supostamente quereria significar um curso de línguas e literatura. Ou uma serpente enrolada numa palmeira, que supostamente representaria Farmácia, quando na verdade representa uma farmácia de venda de remédios. Ou o escudo/euro que supostamente representaria Economia.

Em suma, 50% dos distintivos de curso, mesmo os que existem na UC, são puras invenções kitsch sem fundamento heraldístico nem suporte na cultura greco-romana."


NA CAPA

A Tradição manda, pois, que o estudante, que assim o deseje, e sem haver nº mínimo ou obrigatório, nem ordem de colocação, coloque na sua capa (seja à sua conta ou também por oferta):
 
- os emblemas/escudos da cidade/país de origem;
- cidade/país onde se cursa (União Europeia, também);
- instituição e/ou faculdade frequentada;
- curso em que se está/esteve (pois há quem mude de curso);
- instituições a que se pertença, no estrito âmbito académico (nada de colocar o da associação cultural lá da terra só porque se foi, ou é, vogal da direcção ou mero sócio);
- emblemas das cidades/países e instituições/grupos visitados/contactados em representação oficial académica (visita da de estudo, Erasmus, digressões da Tuna ou de outro grupo ou associação de índole académica).


Relembramos, uma vez mais, que não existe nenhuma obrigatoriedade em pôr todos estes emblemas, seguir uma determinada ordem (por norma, é cronológica apenas) ou pôr um nº X mínimo. O que dita a Tradição é que seja este o âmbito da colocação, seja este o princípio basilar. Quem só quiser colocar 1 emblema põe apenas um; quem quiser colocar 3, põe 3 e quem quiser colocar 50 (acontece muito com os tunos) mete 50. Deve é a colocação obedecer ao princípio acima enumerado, dentro do estrito âmbito académico e tradicional.

Também, se verifica, em muitos casos, o uso do emblema do clube do coração, embora seja, concedamos, um despropósito (pois nada tem a ver com a vida académica - tal como o não são as questões de preferência religiosa ou política).
Contudo, há que diferenciar, por exemplo, a ligação existente, formal, entre academia e desporto (extra-académico), quando, por exemplo, o clube local está fortemente ligado aos estudantes, como é o caso da Briosa em Coimbra (que é organismo pertencente à AAC).
Exceptuaremos, a título de exemplo, o caso dos alunos que joguem numa equipa desportiva da Associação Académica e que, naturalmente, podem colocar esse emblema, caso exista.

Todos os demais emblemas, que não representem formalmente a actividade académica do estudante (no associativismo/organismos académicos oficiais ou em âmbito pedagógico - as referidas visitas de estudo ou intercâmbios científicos/culturais) são circo, carnaval, invenção. Assim, emblemas da terra dos pais e outros tantos não têm âmbito ou precedente académico que justifique constarem numa capa estudantil (ou outra peça do traje, chame-se ela como chamar).
O mesmo dizer dos emblemas que dizem "Praxe" ou com bonecos alusivos à praxe, ou os que identificam o "Finalista" (a identificação do finalista faz-se através das insígnias pessoais e não com um rótulo na capa), salvo o monograma do organismo de Praxe a que se pertence ou está ligado.

Em suma,

Sejam eles 3 ou 30, comprados ou oferecidos, importa é que eles traduzam o real exercício da cidadania académica e não carnavalescas desculpas para enfeitar a capa (que ela não é árvore de Natal ou a parede lá do quarto de um qualquer imberbe teenager).

Quem quiser respeitar a Tradição, observará a mesma. Quem preferir outros caminhos, mesmo que consignados em código, fá-lo-á, ciente de que está a seguir invenções.
Não é por um erro estar consagrado num código, disfarçado, assim, de lei, que tal o legitima ou o torna numa virtude (e muito menos numa tradição).
E é pena que os legisladores, os praxis-makers, nunca se tenham dado ao trabalho de pesquisar a origem dos emblemas, para adequarem devidamente as regras de uso.

Mas lá está: quando nem os líderes sabem de Praxe e Tradição, o exemplo a seguir pelos demais é quase sempre o que sabemos.

quarta-feira, agosto 03, 2011

Notas Burlescas (Burra Praxis Sed Praxis)


Uma pequena sucessão de episódios imaginários, de pequenas sátiras, reproduzindo, apesar de tudo, situações similares que ocorrem na vida real, no dia-a-dia da praxe, e em muitos fóruns dedicados/sobre tradições académicas.

Como o leitor perceberá, ridiculariza-se, aqui, o saber assente no “ouvi dizer”, no “acho que”, a verdadeira ignorância e iliteracia que reina no meio académico acerca da sua própria vivência, história e significado.

"doutores" destes, infelizmente, há muitos (como os “chapéus” do Vasco Santana), assim como demasiado poucos caloiros verdadeiramente interessados em saber e perceber, ao invés de meros reprodutores acéfalos.



Na Recepção ao caloiro

(Caloiro) - Sr. doutor, para que servem estas actividades que mais parecem jogos tradicionais ou os que eu fazia nos escuteiros e grupo de jovens da minha paróquia?
(doutor) - Isto, meu burro, é praxe! Serve para te integrares.
(caloiro) - Então e dizer palavrões, gritar e andar de quatro, andar a rebolar pelo chão e esfregar-me nos colegas também é praxe?
(doutor) - Claro, meu anormal! No final vais ter saudades e ver que conseguiste arranjar muitos amigos!
(caloiro) - Ora isso é um pouco tontice, porque até agora safei-me bem a arranjar amigos e amigas, e nunca fui praxado, e ao mais andei num liceu com perto de 3 mil alunos.
(doutor) - Caloiro é estúpido. Isto não é o liceu. Aqui é assim e não é para meninos da mamã ou gajos que têma mania que sabem tudo! Tu, meu anormal, estás na minha lista negra. No tribunal de praxe vais pagá-las!

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(Caloiro) – Sr. doutor, por que andam com tesouras e colheres?
(doutor) – Porque são insígnias da praxe.
(caloiro) – E porque são da praxe (essas, e não outras)?
(doutor) – Porque é tradição, sempre foi assim. A tesoura para cortar cabelo e a colher para dar nas unhas.
(caloiro) – O meu primo disse-me que também há a moca.
(doutor) – Sim, mas isso já não se usa.
(caloiro) – Ah, mas pode dizer-me a origem desses símbolos?
(doutor) – Não são símbolos, caloiro burro, são insígnias. Se queres saber, lê o código.
(caloiro) – Mas, lá não diz!
(doutor) – Se não diz, é porque não é para saber!
(caloiro) – Então o Senhor doutor não sabe!?
(doutor) – Já de 4 e a encher! Um tribunalzinho é o que vais ter por te armares em chico-esperto e vires com esse nariz empinado.
(caloiro) – Desculpe, não era intenção. Já agora, que é isso de tribunal e de onde vem essa coisa de fazerem tribunais?
(doutor) – Acho que te vais declarar anti-praxe, antes do dia acabar! Está a encher! Olha-me esta ameba: queria saber o que sei. Era o que faltava: ficar a saber tanto como eu.


Na Latada

 (Caloiro) – Sr. doutor, por que vamos todos assim com latas?
(doutor) – Porque é tradição, é a apresentação dos caloiros à cidade.
(caloiro) – Ah, que giro! E desde quando se faz aqui? De onde vem a tradição da latada e do baptismo?
(doutor) – Já se faz há muitos anos, é uma tradição muito antiga que nasceu em Coimbra.
(caloiro) – E pode explicar-me essa origem? É que o código não diz.
(doutor) – Com que então armado em curioso; o espertinho a querer saber mais que os outros? Vê lá se levas com a moca na tola! Toca a andar e a cantar, a abana-me essas latas! Queres saber? Vai à Wikipédia!


Na Serenata da Queima

 (Caloiro) – Sr. doutor, tenho aqui uma dúvida: qual a origem da Serenata Monumental (que abre a Queima)?
(doutor) – Eh pá, isso tem muitos, muitos anos. É uma tradição que veio de Coimbra.
(caloiro) – Pois, mas como assim?
(doutor) – É uma questão de pesquisares.
(caloiro) – Mas acho uma coisa estranha: sempre tive a ideia que serenata era cantar à janela de uma donzela, cantar o amor, tentar conquistar a nossa amada, só que estes tipos cantam fados e baladas que falam do adeus à faculdade e outras coisas do género.
(doutor) – É, mas isso são serenatas diferentes.
(caloiro) – Como assim?
(doutor) – Umas são para conquistar e outras para a despedida.
(caloiro) – Mas chama serenata a ambas. De onde vem essa tradição de serem diferentes?  Procurei no código, mas nada!
(doutor) – Shuuuut, na Serenata não se fala! E não aplaudas, que não se bate palmas na serenata.
(caloiro) – Não se pode bater palmas? Então, porquê? (a malta não pode aplaudir, mas fala alto e fuma, bebe e faz barulho....)
(doutor) – Ira, cala-te e sente este momento, ou ainda te traço a capa de maneira a esganar-te! Olha, vou mas é ali à barraca beber um fininho que isso é que é fado!



Na Queima

 (caloiro) – Ó senhor doutor, diga-me uma coisa: agora que estou todo aperaltado, gostava de saber de onde vem o traje que usamos e que chamam capa e batina, porque este casaco não tem nada de batina, que batina é a que usavam os padres antigamente, não era?
(doutor) – O traje vem de há muitos séculos, de quando eram os padres a mandar na praxe.
(caloiro) – Ah…… (?!?), pois…… mas olhe lá: por que razão é assim?
(doutor) – Simples: o traje é igual para todos porque assim não há ricos e pobres.
(caloiro) – E por que razão é de cor preta? E qual o significado da nossa capa?
(caloiro) – É para não se sujar tanto; e a capa, também preta, era para, noutros tempos, fugir à polícia universitária ou então andar escondidos em trupes, na noite, à caça dos caloiros.
(caloiro) – É que eu fiz como disse e fui pesquisar, mas encontrei também explicações que dizem que não é nada assim, que o traje não foi para tornar todos iguais, que a capa e batina veio substituir o traje clerical (e por isso não é continuação dele) e que o traje foi criado como uniforme; que o preto tem a ver com os votos do clero e que a capa até esteve para ser abolida; e é usada como mera peça de resguardo……
(doutor) – Olha-me este gajo! Mal acabado de trajar já pensa que sabe alguma coisa. Ó meu granda cromo, a praxe não se aprende nos livros, mas no dia-a-dia. O que precisas de aprender ouves da boca dos teus superiores, o resto não interessa.
(Caloiro) – Mas, eu farto-me de colocar perguntas e só me respondem que é assim ou assado, porque sim ou porque sopas, sempre com explicações que não esclarecem(só sabem dizer que é antigo e vem de Coimbra). Além disso, para que serve o código se não explica o porquê das coisas?
(doutor) – Ó meu amigo, estás-te a habilitar a uma sanção de unhas. Aqui não importa perceberes. Deves ver como fazemos e depois fazes o mesmo. O código é para dizer o que podes e não podes fazer, quando, onde e como.
(caloiro) – E quando é que sabemos que fazemos bem ou mal; quando há coisas que não sabemos, sequer, por que as fazemos (e o código não explica)?
(doutor) - É uma questão de bom senso. Com mais um ano em cima e ficas a perceber, que agora estás muito verde nestas andanças.
(caloiro) - Estou a ver: É  o obscurantismo medieval: quanto mais burro e obediente melhor, que saber alguma coisa pode perigar a ignorância revestida de sapiência!
(doutor) - Heim?
(caloiro) - Nada, nada!


Na noite de Tunas

 (caloiro) – Isto das tunas é muito fixe!
(doutor/tuno) – Gostas?
(caloiro) – Adoro.
(doutor/tuno) – É uma das mais antigas tradições da praxe; e tem praí uns 600 anos!
(caloiro) – Hum? Li algures que isso era invenção e que as tunas tinham nascido no séc. XIX.
(doutor/tuno) – Tás enganado, pá. As tunas vêm dos goliardos e dos sopistas; e há quem diga, até, que vieram da Tunísia, inspiradas por um Califa que era um boémio.
(caloiro) – E quem disse, e em que obra, para eu consultar?
(doutor/tuno) – Mas importa, isso, alguma coisa? Estou-te eu a dizer, e foi assim que me disseram; e todos sabem que é assim.
(caloiro) – E nunca procurou saber se era mesmo assim? Não se podem ter enganado?
(doutor/tuno) - Já ando nisto de tunas há uns anos, por isso percebo da coisa, tas a ver?
(caloiro) – Também falo e escrevo português desde que nasci e isso não quer dizer que perceba de linguística ou de gramática (apesar da minha mãe ser prof. de português), que tenha um curso de literatura (eu que até sou de engenharia).
(doutor/tuno) – Ó meu, vê se atinas e te deixas de manias. És algum marrão que encontra todas as respostas nos livros? Achas que é lá que vais encontrar resposta a tudo?
(caloiro) - A tudo não, mas também estou a ver que a mera prática não chega, e que praticar o que não se percebe é algo…….
(doutor/tuno) – Está a encher, bicho d’um raio! Olha-me o puto a desafiar-me e por em causa o meu saber! Era o que mais faltava. Vou chamar o teu padrinho que ele vai-tas cantar!

Na imposição de insígnias

 (Caloiro) - Sr. doutor eu já li o código, sei como se processa, mas tenho uma pergunta: de onde vem esta tradição de queimar o grelo, de por o grelo na pasta, de soltar as fitas, etc.? Além do mais por que se chama queima das fitas se elas não são, afinal queimadas?
(doutor) – Nós fazemos isso, aqui, já há muito tempo, mas a origem é da praxe de Coimbra.
(caloiro) – OK (é sempre a mesma resposta), mas qual o significado desses momentos, qual a sua história para que ainda hoje se repitam?
(doutor) – O que sei é que é para assinalar a passagem de uns anos para outros, basta leres o código e vês que nuns anos impõem-se uns nos demais outros, que simbolizam que vamos avançando na praxe.
(caloiro) – Não era bem isso…
(doutor) – Cala-te e olha; a ver se aprendes! Já te disse que é olhando que aprendes e percebes!



 Termina-se com a seguinte citação:

"Há tantos burros mandando em homens de inteligência,
que ás vezes fico pensando, se a burrice não será uma ciência."

                                                 '' António Aleixo'

ou, adpatando:

"Há tantos burros mandando em caloiros
que às vezes fico pensando, se a burrice não será praxe"

segunda-feira, janeiro 03, 2011

O N&M informa que a sua actividade está temporariamente suspensa, gozando um retiro retemperador.

Esperamos, brevemente, regressar à actividade normal.

Desde já pedimos desculpa aos leitores, por esta ausência.

sábado, janeiro 01, 2011


A todos os leitores e amigos os votos de um
próspero, cheio de saúde e feliz
Ano Novo
de

sexta-feira, novembro 19, 2010

Notas de Repúdio

Não sei que diga, não sei que comente. Ainda estou em estado de choque..

Não é apenas pelo uso da língua inglesa (que nada tem a ver com Tunas), em temas que nada se coadunam com o mester tunante, mas é a abjecta facilidade e falta de decoro nna mensagem subjacente das letras cantadas que enxovalham tudo quanto é civismo e boa educação.

Uma Tuna não pode achar ser pau para toda a colher e que em Tuna vale tudo. Há limites, e começam desde logo pelo bom-senso e por saber ser e estar dentro de uma comunidade que tem balizas.
Desrespeitar assim a cultura e a imagem da Tuna Portuguesa é lamentável.

Lastimável, a todos os títulos, que a cultura tunante seja assim desvirtuada, espezinhada e que a sua imagem seja tão levianamente ignorada.
Não é por falta de qualidade musical, mas a falta de tudo o resto.

Haja dignidade, a qual não passa por subliminares referências obscenas e por reduzir a Tuna a esses preparos, ao show-off medíocre, à libertinagem verbal escatológica, independentemente do público e evento em causa.




Mas o facto é que o video não mostra uma Tuna. Não pode, porque Tuna não é aquilo, definitivamente. Qualquer semelhança  é pura ficção.
Geograficamente, é um deserto de tuna.

PS - No video em causa, na actuação em causa (exclusivamente o que aqui é analisado), não posso cognominar Tuna a quem assim não soube ser ou estar. Não se confunda tal com ajuizar sobre se é ou não uma Tuna, apenas de deixar claro que naquele momento que o video retrata, não o foi.

domingo, outubro 17, 2010

Notas e impressões

Impossibilitado que fiquei, à última da hora, de rumar ao Porto e assistir ao FITU, fui assistir ao XV TAFUL, evocativo do 15º aniversário da Tuna de Farmácia.
Revi alguns amigos, num ambiente morno e com uma casa cheia q.b. (encher a Aula Magna não deixa de ser tarefa difícil à hora em que joga o Benfica, hehehehe).
Aproveito para não apenas dar os parabéns à TAFUL, mas também saudar o facto de, no guião do certame, se referirem os componentes do Júri. Um bom exemplo de transparência que, infelizmente, a larga maioria dos certame omite.

Não assisti ao certame até ao fim, em boa verdade, mas do que vi e ouvi, achei, na generalidade, medíocre a qualidade do que foi apresentado ao público pelas tunas a concurso.

Mas se escrevo estas linhas, é mais para salientar alguns aspectos que continuam a verificar-se generalizadamente de norte a sul do país.

Uma vez mais, não existe qualquer noção entre o que é um estandarte de tuna e o respeito que o mesmo merece.
Uma vez mais se fazem malabarismos com bandeiras disto e daquilo que depois vão pró chão.
Uma vez mais, se dá lugar à misturas de panos, uns da cidade, outros da universidade, outros da tuna, outros ainda de coisa nenhuma: uma mistura que apenas visa o circo e o malabarismo enão coloca, de facto, o estandarte ou bandeira da Tuna em exclusividade no lugar que deve ter.

Outro aspecto que também voltei a notar, e de aqui falo pela 1ª vez, prende-se com a disposição em palco:

Por que razão os "bandeiras" e pandeiretas ficam quase sempre nas pontas do meio-círculo, da disposição em palco?
Será que os responsáveis não se dão conta que, no que toca ao aproveitamento vocal, é malta que canta "pró boneco"?
Por que razão eles não estão colocados no enfiamento dos micros, mesmo que na 2ª fila? Se só aparecem à frente pontualmente, certamente que no restante tempo deveriam ser aproveitados vocalmente, estando alinhados dentro do grupo e do alcance dos mircros e não fora (até porque esteticamente é aspecto que falha).

Não pude deixar de constatar, também, e uma vez mais, a moda das lapelas das batinas e/ou casacas repletas de pins (depreende-se, em alguns casos, ser uma lapela, porque de facto, ela nem sequer se vê de tantas medalhas de guerra).
Continua a moda dos generalíssimos da ex-URSS, numa proporção de pins igual à estupidez desses preparos. Um espelho em casa e 2 dedos de testa é o que precisariam alguns/algumas, ao fazer tão patética figura de árvore natalícia.

São estes os considerandos que o assistir a mais um certame me sucitou.
Não foram todas as tunas/tunos assim, mas foram demais.

domingo, outubro 10, 2010

Melodias aos 25 anos da EUC

Já lá vai um quarto de século que Coimbra viu nascer a sua Estudantina Universitária.
Este passado sábado, dia 9 de Outubro, assinalou-se essa efeméride sobre o acto pioneiro que marcou, há 25 anos, o início do denominado "boom" tunante.
Esta data mereceu nota no telejornal da TVI, com direito a uma breve reportagem e intervenção de alguns dos seus actuais elementos (pena que não tivesse sido registado o testemunho de um dos fundadores).

Embora não seja a tuna estudantil mais antiga do país (A UTAD é de 1983, e já existiam as centenárias TUP, TAUC e Tuna do Liceu de Évora), não subsiste qualquer dúvida que à EUC cabe o ónus do novo fulgor que contagiará rapidamente todo o país. Após a fase embrionária do "boom", o fenómeno explodiu definitivamente nos anos 90, muito por força, e fundamentalmente, do seu 1º trabalho discográfico (primeiro em vinil e depois em CD), "Estudantina Passa".

Foram os temas da estudantina cantados por toda a parte, presentes que estevam na esmagadora maioria dos repertórios das tunas que, entretanto, viriam também a formar-se. Se cancioneiro tunante houvesse em Portugal, certamente que os temas do António Vicente (figura incontornável sem a qual a EUC não teria sido a mesma) ocupariam o topo da lista.

25 anos de história, que é também a história recente da tuna estudantil do nosso país.
Muito gratos podemos, pois, estar, aos fundadores e primeiras gerações da EUC que semearam, sem saber, os frutos que hoje ainda se vão colhendo.

Parabéns à instituição EUC e sentida homenagem aos pioneiros a quem cabe todo o mérito da efeméride.

sexta-feira, setembro 24, 2010

Fasquia das Notas - 100 Mil acessos


Há 1 ano, em Outubro, registávamos com natural agrado, que tínhamos sido visitados por 50.000 cibernautas, dobrando em menos de um ano a anterior marca dos 25 mil.
Desta feita, também no mesmo espaço de tempo, duplicou-se o nº registado anteriormente (quadriplicando o de há 2 anos), atingindo esta sempre considerável marca.
O Notas&Melodias registou, pois, um aumento substancial de acessos este ano, o que não deixa de ser motivo de regojizo e satisfação pela preferência dos leitores e muitos amigos, começando pelos fiéis seguidores, inscritos no blogue, e que, à data, são um total de 82.

100.000 acessos são sempre 100 mil acessos - coisa sem grande relevo para certos blogues e sites (uma gota no oceano, diga-se), mas pouco comum em blogs dedicados ao fenómeno Tuna e afins.
Para os que, no passado, puseram em causa a validade dos números, cá estão eles. Para os demais, desde já o nosso bem-haja sincero.
Não nos batemos por isso. Outros blogues existem sobre o fenómeno Tuna com superior mérito, mas deixem-nos, ao menos por hoje, o direito a uma certa vaidade, como que um [esperamos]  merecido reconhecimento pelo tempo dedicado a este hobby.

Obrigado aos apoiantes, amigos e todos os que visitam este espaço, e aos que o enriquecem com os seus comentários. Obrigado também aos que também colaboram pontualmente nos artigos publicados.

Esperamos poder continuar a merecer a preferência e confiança ditados pelos números. Poupamos os leitores ao elenco de quadros estatísticos sobre a proveniência dos visitantes, idade, sexo, etc,.
Dizer, contudo, que o artigo mais lido nos últimos 2 anos foi o Notas sobre praxes e Praxe.

Obrigado a todos!