terça-feira, outubro 18, 2011

Notas sobre a Origem e Evolução da Capa e Batina (Traje Académico/Estudantil Nacional)




Sobre o Traje Estudantil, deixo aqui alguns excertos (de um amplo conjunto de artigos que se debruçam sobre a origem e evolução do património vestimentário académico, docente e discente, em Portugal e na Europa), produzidos pelo consagrado especialista e historiador, o Professor António M. Nunes, publicados no seu blogue Virtual Memories (http://virtualandmemories.blogspot.com/).


NOTAS PRÉVIAS:


  • O traje escolar foi sempre marcado pela indumentária religiosa dos clérigos que, nos primeiros séculos da Universidade, tinham o exclusivo de cursar os Estudos Gerais;
  • Os clérigos, esses, vestem segundo a regra da sua ordem e, também, a sua hierarquia;
  • As cores mais usuais eram o castanho, o pardo ( que originará a figura do “pardillo” em Espanha) e, mais tardiamente, o preto, não por imposição, mas proibição de cores mais garridas.
  • A evolução do vestuário nota-se, paulatinamente, com a abertura da frequência universitária a outras classes, tornando-se mais permeável a modas (rendas, berloques, sedas, frisados, diversos tipos de chapéus/barretes, cações…..), embora  fortemente balizado por critérios de sobriedade e austeridade;
  • Nos Séc. XVII  a tónica eclesiástica do traje foi-se acentuando, sendo de realçar a utilização da "loba", espécie de batina ou sotaina eclesiástica sem mangas, guarnecida na frente com duas filas de botões desde o pescoço até abaixo do joelho, junto com calção , capa e barrete redondo ou de cantos (o gorro só em finais do séc. XVIII). 
  • Loba: Vestidura eclesiástica, clerical e honorífica, que chega até o chão, cortada de maneira que nela entram os braços; dela usam também os bedéis  (responsáveis pela disciplina)da Universidade.
  • Os que não eram eclesiásticos sentiam-se impelidos a não destoar, vestindo à maneira dos clérigos,  e também pela necessidade de identificar o foro académico e quem por ele estava abrangido. Os trajes assumem, pois, figura/função de uniforme, para distinguir so estudantes de outros mesteres e profissões.

Em inícios do séc. XVIII a loba vai dar lugar progressivamente à “abatina”, sendo também a partir dessa época que os trajes estudantis começam a convergir para uma mesma forma de traje académico - embora essa forma estivesse dependente de flutuações de moda.

Abatina: conjunto de capa e túnica (talar) dos abades seculares de França ou de Itália, com vestido de seda negra, capa curta, volta singela e cabeleira pequena. Mais curta e barata que a loba. O negro, esse, significando o desapego ao mundo material e os seus votos  eclesiásticos.

  A “abatina”  estudantil, modelo talar, (que os estudantes  passam a designar apenas por “batina”)   não seria tão comprida como a dos lentes (até aos calcanhares = ”talons”)  e seria até bem mais curta que a capa , pelo que o uso de calções, por exemplo,  mesmo quase não se vendo debaixo da “batina” (viam-se apenas as meias), se mantivesse.




Durante muito tempo o uso da capa e batina foi obrigatório para o estudante, tal como, aliás, para o lente, ainda que este usasse uma batina comprida até aos pés.
Entre 1718 e 1834, esta obrigatoriedade estendia-se a toda a cidade.
De 1834 até à implantação da República, em 1910, a capa e batina era apenas obrigatória dentro do perímetro da Universidade.



Sobre a questão da origem da cor e também do mito do "traje para igualizar", já  nos debruçámos anteriormente (ver AQUI).





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Passemos, pois, agora, o que nos diz o historiador, o Professor António Nunes:


O Traje Feminino e o Traje Académico

(…) Até à consagração da legislação abolicionista promulgada após o 5 de Outubro de 1910, em Portugal não há notícia do uso de qualquer uniforme por parte das alunas que frequentaram os liceus, a Universidade de Coimbra ou as Médico-Cirúrgicas de Lisboa e Porto. A opção crescentemente generalizada pela capa e batina de Coimbra, após a Conferência de Berlim, não parecia reunir ingredientes satisfatórios para uma extensão unissexo ao universo feminino.



A excessiva aproximação ao traje masculino burguês oitocentista retirara à capa e batina estudantil a sua feição talar, pormenor denunciado por José Ramalho Ortigão em 1888, o que na prática implicava duradoura impossibilidade de feminilização. Não sendo propriamente fácil, o processo de feminilização não era radicalmente impossível, se tivermos em consideração a adaptação de fardas militares a certos corpos femininos no decurso da Primeira Guerra Mundial.

A inércia coimbrã nesta matéria não encontrou melhor solução nas recém-instituídas universidades de Lisboa e Porto. Os anos que se sucederam à instauração da República não foram favoráveis aos trajes e cerimonial académicos, e quando as universidades de Lisboa e Porto se decidiram pela continuidade da toga das antigas Escolas Médico-Cirúrgicas, a questão não ficou inteiramente resolvida: os adeptos da toga tiveram de conviver com os defensores do abolicionismo e as facções que de forma mais ou menos persistente foram preferindo o hábito talar dos lentes de Coimbra; à semelhança de Coimbra, a discussão sobre a adopção de um traje institucional cingiu-se ao ponto de vista dos corpos docentes, não tendo havido por parte daqueles qualquer conscencialização quanto à necessidade de integrar os estudantes como elementos activos da instituição formadora. O facto de as universidades portuguesas fundadas em 1911 não terem optado pela realização de cerimónias de formatura para bacharéis e licenciados, legitimou atitudes de inércia quanto aos trajes discentes. Entregues a si próprios, em atitude de não diálogo com os senados das instituições em que se encontravam matriculados, os alunos/alunas optaram quase invariavelmente pela capa e batina de Coimbra, numa época em que a visão do estado e da sociedade pareciam apontar para princípios de perfectibilidade como o centralismo e a homogeneidade.

A obrigatoriedade de uso diário de uniforme estudantil na Universidade de Coimbra foi abolida por Decreto de 23.10.1910, situação de certa forma extensiva aos liceus onde o porte diário masculino fora autorizado por diplomas do Ministério do Reino. O diploma referido não declarava abolido o traje, apenas o tornava facultativo, tanto mais que no curto prazo a esmagadora maioria dos alunos da UC, da TAUC e do Orfeon Académico manifestaram vontade de continuar a envergar a capa e batina. Entre 1911-1912, na Universidade do Porto, Tuna e Orfeão foram pelo mesmo caminho. A maior parte dos liceus manteve a capa e batina que já era usada desde a segunda metade do século XIX, ou a ela aderiu. Seguindo na esteira dos movimentos em vias de expansão nas high schools britânicas, norte-americanas e japonesas, as alunas dos liceus de Lisboa e do Porto surpreenderam ao optarem pela invenção de um uniforme facultativo de tipo "high school".

Em Lisboa, alunos dos liceus tocaram a reunir por alturas de Setembro/Outubro de 1915, com o fito de discutir e aprovar que trajes envergar por alunos e alunas. Estas sessões terão sido participadas por alunos da Universidade de Lisboa que decidiram adoptar a capa e batina. Alunos mais radicais reclamaram mesmo obrigatoriedade de porte, mas na prática, o uso da capa e batina ficou confinado aos edifícios do Campo de Santana e a grupúsculos masculinos da Faculdade de Direito.



Na Universidade do Porto, em reunião inter-faculdades, realizada em finais de Fevereiro de 1916, decidiu-se implementar o uso generalizado da capa e batina a partir do dia 15 de Março de 1916. Faltam-nos dados sobre as matérias deliberadas nestas reuniões e perfil dos participantes, não sendo possível apurar se a decisão abrangeu alunos e alunas da UP, ou se marcaram presença alunos/alunos dos liceus. A "Gazeta de Coimbra", nas suas edições de 27.10.1915 e 4.03.1916 dá conta que em Lisboa já se viam "meninas" trajadas, certamente liceais. Aliás, a promulgação do Decreto nº 10.290, de 12.11.1924, que procedeu à nacionalização da capa e batina nos liceus e ensino superior, teve como antecedente imediato um conflito entre uma liceal e um reitor de um dos liceus de Lisboa por conta do uso ou não uso de traje.


O traje feminino, espontaneamente consagrado em Lisboa no segundo semestre de 1915 é um tailleur preto, à base de saia pela meia perna, casaco cintado, cortado pelo meio da coxa, e blusa branca. A gravata demoraria a impor-se. Este fato, de linhas trapezoidais, era o mesmo envergado pelos corpos de enfermeiras da marinha, nos EUA (em azul marinho, com capote e chapéu de abas), e em certos hospitais europeus pela mesma época (em cinzento), conforme determina o Decreto nº 4:136, de 24.04.1918, que o manda aplicar às enfermeiras militares portuguesas.

Ao referido conjunto se adicionou uma capa preta, e conforme atestam as fotografias supra uma barretina redonda. Este último elemento, resulta de uma transformação do barrete islâmico do magrebe, o "chéchia" ou "kufix", que também era usado desde 1859 em escolas militares britânicas de formação de cadetes ("pillbox hat"). Antes de ter feito a sua entrada triunfal nos liceus de Lisboa, Porto e Évora ("tacho"), em versão unissexo, o "pillbox" já era largamente usado em Portugal por militares e impedidos de oficial.(…).






Ia adiantado o século XX quando se acendeu a discussão sobre a necessidade de as alunas da Universidade de Coimbra tirarem benefícios práticos do uso de um traje de tipo uniforme. Não ter traje académico fazia parte da identidade das académicas da UC desde 1891, ano em que contemporaneamente se matriculou a primeira aluna. A não participação feminina na vida associativa, a ausência de organismos culturais mistos até 1938 e a omissão da cerimónia de formatura de bacharéis e licenciados desde 1910, foram justificando a inércia observada em Coimbra. A nível dos liceus locais, mesmo considerando o Liceu Feminino Infanta D. Maria, nada consta quanto a um hipotético uso de farda, se considerarmos que a muito usada bata não era propriamente um uniforme.
As alunas da UC tinham o privilégio do uso de pasta com fitas e capa preta sem uniforme, costume que na década de 1980 ainda era praticado por quintanistas que iam ao Baile de Gala das Faculdades. Nos finais da década de 1940 este estado de coisas começou a mudar quase imperceptivelmente. As universitárias de Coimbra estavam a par do uso do tailluer nos liceus e no Orfeon Universitário do Porto. O peso crescentemente atribuído desde meados da década de 40 às latadas de começo de ano escolar e às cerimónias de imposição de insígnias (grelos no 4º ano, fitas no 5º ano), começaram a suscitar em alunas da Faculdade de Letras vontade de adopção de um traje académico. Nos festejos de Novembro de 1949, a estudante de Germânicas Ilda Pedroso desfilou com um conjunto saia/batina/capa, acontecimento muito comentado no millieu, mas bem acolhido. Todas as informações consultadas testemunham a opção pela saia, numa época em que os códigos vigentes não poderiam aceitar na mulher o porte de calça comprida, e a batina masculina abaixo do joelho (frock coat), com lapelas de cetim.
Parecia encontrada a solução, numa instituição onde a cultura histórica não legitimava de ânimo leve nem o tailluer, nem uma distinção formal entre modelo masculino e modelo feminino. A breve trecho, a evolução seria bem outra. Em 1951 as alunas do Teatro dos Estudantes (TEUC) preparam uma digressão ao Brasil, tendo decidido levar um conjunto prático que substituísse os custos e os incómodos habitualmente havidos com os vestidos de gala. Ficou decidido levar nas bagagens o tailleur preto, traje que em diferentes padrões cromáticos era então usado no Ocidente por enfermeiras militares e hospedeiras de aeronáutica civil. Nas revistas de moda, as estrelas de cinema e do musical deixavam-se fotografar com este tipo de fato. Entre 12 de Agosto e finais de Outubro de 1951 o TEUC actuou no Brasil e visitou a Universidade de São Paulo, onde deixou uma réplica da "cabra". De 1951 a 1954 não se sabe com rigor que nível de adesão o tailleur terá conhecido em Coimbra, que lhe possa ter grangeado ser mais do que o fato que as alunas do TEUC levaram ao Brasil. Uma coisa é certa, se estivesse popularizado e se fosse querido das estudantes, não teria havido necessidade de o impor por decreto. (...) 

Em face dos conhecimentos disponíveis ainda não é possível saber se as alunas da UP começaram a usar o tailleur preto em Março de 1916, ou se o movimento ficou confinado às liceais. Sabe-se, no entanto, que a feminilização do Orfeão Universitário desde ca. 1944-1945 esteve na origem da consagração do tailleur pelas orfeonistas portuenses. Na fotografia supra, do ano lectivo de 1946-1947, oriunda do espólio do Dr. Álvaro Andrade, é bem visível uma orfeonista com tailleur preto, conforme o figurino tubular da época, meias cor da pele, gravata e capa. Terá o tailleur debutado restritamente no Orfeão Universitário, com ulterior generalização na universidade?"

António M. Nunes, In Blogue Virtual Memories, artigo de 31 de Outubro de 2008


O Traje Nacional / Capa e Batina

(…) Na Coimbra de finais do século XIX, e anos que se lhe seguiram, a profunda masculinização operada no imaginário académico e no conjunto casaca/calça comprida/colete inviabilizaria por décadas o processo de feminilização. Dizendo-se um traje progressista no confronto discursivo entre cultura burguesa e herança aristocrático-clerical, o traje académico burguês revelou-se empedernidamente sexista, e nessa medida reccionário face à dinâmica de mudança. Não sendo detentor da riqueza artística das vestes talares nem da sua polivalência unissexo, os fatos burgueses apostam na demarcação territorial e simbólica dos sexos através da sobrevalorização de peças secundárias como a calça comprida (sexo M) e a saia (sexo F), mesmo quando em contextos militares e policiais tal distinção foi abandonada .

Como se verá mais adiante, os modelos de colete e de capa vulgar louvados pelos estudantes de Coimbra como grandes conquistas civilizacionais contra o “obscurantismo” eram aflorações retardadas e esteticamente inferiores a peças vestimentárias que as mulheres do povo conheciam e usavam desde o século XVI. O colete feminino, de bainha lisa ou recortes, a fechar com atilhos, era usado pelas camponesas em contextos de trabalho e solenidades. A versão de luxo podia comportar motivos bordados e tecidos de seda enramada. A capa de honras feminina das lavradreiras abastadas e meias-senhoras (bem com os capotes, mantéus e capoteiras), em lã fina, com golas e bordados ainda era usada um pouco por todo o Portugal nos casamentos, baptizados, funerais, missas, entradas régias e entradas episcopais no tempo em que as primeiras alunas chegaram à UC.

Ao abandonarem o hábito talar tradicional, substituindo-o por um traje burguês citadino, singelo em tecido e figurino, os estudantes de Coimbra proclamavam-se progressistas. Ponderando estas afirmações em 1888, um profundo especialista da cultura e dos trajes propulares, José Ramalho Ortigão, duvidou da pertinência do discurso. A partir do momento em que o traje académico se transformava num produto esteticamente inferior à maior parte das peças usadas pelos camponeses portugueses como traje domingueiro, para se nivelar com o chamado traje ou fato de trabalho, tornara-se difícil descortinar-lhe traços de progressismo.

Em Portugal, as Escolas Médico-Cirúrgicas de Lisboa, Porto, Funchal e Ponta Delgada, fundadas a partir de 1836 , começaram por não instituir qualquer traje talar ou militar para docentes e discentes. O mesmo rumo foi seguido desde 1837 pela Escola Politécnica de Lisboa e Academia Politécnica do Porto , onde o fácies paramilitar não foi bastante para trazer aos muros destas instituições, nos anos iniciais, o grande uniforme napoleónico. Não obstante, os docentes militares das politécnicas usavam as fardas respectivas.

Novas instituições portuguesas de ensino como o Curso Superior de Letras (1859) e o Instituto de Agronomia e Veterinária (1864) não se mostraram receptivas a insígnias, rituais académicos ou trajes para alunos e docentes. A casaca preta/calça comprida/colete/cartola/chapéu de coco, com o indispensável complemento de bengala de castão de prata, terão sido os elementos vestimentários laico-burgueses mais celebrados por este tipo de instituições que não se reviam no modelo talar conimbricense.

Nos alvores da década de 1850, concretamente em 1852, a Rainha D. Maria II foi recebida pelos lentes da Academia Politécnica do Porto em casaca preta, colete, calças compridas, sapatos e meias de seda ,a que não terá faltado a indispensável cartola [e bengala]. (…)



Confirmando o paradigma laico-burguês, docentes e discentes do Curso Superior de Letras e do Instituto de Agronomia e Veterinária entrariam no século XX de labita preta e cartola, costume de certa forma prolongado após a respectiva integração nas universidades fundadas em Lisboa após 1910 .

As escolas de ensino técnico-profissional de agricultura, lançadas pela legislação fontista de 16 de Dezembro de 1852, e reorganizadas por Emídio Navarro (Decreto de 2.12.1886), não terão definido traje docente.

Quanto à Escola Nacional de Agricultura, aberta em Coimbra no ano de 1887, não se conhece prescrição de traje profissional para o corpo docente. Os alunos começaram a usar no dia a dia um pequeno uniforme composto por boné de pala ou barretina com pompom, colete e gravata, camiseiro à “farmer” e calças compridas . Nos dias de gala optavam por um grande uniforme à lavrador, cujo figurino era o mesmo do chamado traje português masculino de equitação . O primeiro destes dois conjuntos gozava de acrescido prestígio junto das quintas britânicas oitocentistas de agricultura experimental, e foi desde cedo institucionalizado em Portugal como farda dos menores internados em casas de correcção instaladas em quintas agrícolas como Vila Fernando (1895), e posteriormente na Penitenciária de Lisboa (1913 e ss.) e na Colónia Penal de Sintra (1915 e ss.). O mesmo tipo de camiseiro seria adoptado desde ca. 1900 pelos “juízes” do Tribunal de las Aguas de Valência.

Foi com um pequeno uniforme deste tipo, à base de calça comprida, camiseiro de cotim, bota de montar e barretina à cadete com pompom, que a primeira fornada de formandos da Escola Nacional de Agricultura de Coimbra se fez fotografar em 1892. A pasta de ganga esverdeada, com fitas largas verdes e brancas surgiria alguns anos mais tarde .

Situação próxima da referida terá sido vivenciada pelos alunos e docentes das escolas industriais de ensino médio (Decreto de 30.12.1852), cuja rede regional atravessaria um processo de intensificação quando António Augusto Aguiar liderou a pasta das Obras Públicas . Aqui, a opção terá recaído na articulação de um conjunto prático civil (calça comprida/camisa) com um boné de pala e uma bata, conforme usança oficinal nas escolas francesas de artes e ofícios mecânicos. Ao longo da primeira metade do século XX, os alunos da Escola Industrial Brotero, de Coimbra, ficariam conhecidos pelo apodo “lagarto azul”, graças ao fato de ganga ou fato de macaco oficinal que não sendo uma farda acabava por funcionar como tal .

Estabelecimento de ensino médio era também o Instituto Industrial e Comercial de Lisboa, filho do Decreto de 25 de Janeiro de 1894, substituído após 1911 pelos Instituto Superior Técnico e pelo Instituto Superior de Comércio, para o qual não foi definido traje profissional. O mesmo acontecia com o Instituto Comercial do Porto, criado pelo Ministro João Franco em 1891 .

É tardiamente, em 1889, que os alunos do terceiro ano da Escola Médico-Cirúrgica do Porto, se lançam no uso da capa e batina, traje que possivelmente já seria envergado pelos escolares do Liceu do Porto . A formação da Tuna Académica do Porto, por 1890, com alunos do liceu, da Politécnica e da Médico-Cirúrgica, o nacionalismo fervilhante gerado pelo Ultimatum e requentado pelo 31 de Janeiro de 1891, e o debutar de festividades carnavalescas e de fim de ano (Enterro da Farpa, Festa da Pasta) , terão ajudado a sedimentar a capa e batina na cidade do Porto.

O etnólogo José Leite de Vasconcelos, antigo aluno da Médico-Cirúrgica do Porto, mostrar-se-ia hostil ao uso da capa e batina nas escolas politécnicas portuguesas e liceus . E com Vasconcelos estariam muitos dos liberais de oitocentos que assumiam como traço identitário o fato masculino burguês usado nas cidades ocidentais.

Em Lisboa, o ambiente propiciatório da constituição de tunas académicas e o empenhamento dos estudantes em causas públicas após o Ultimatum terão contribuído para a naturalização da capa e batina entre os liceais e politécnicos.

Seria a Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa a dar o passo em direcção ao grande e ao pequeno uniformes, mas restringindo-os ao corpo docente. O Decreto de 1 de Outubro de 1856 adoptava a título de pequeno uniforme de porte quotidiano uma toga preta talar, de um corpo, em grande parte resultante da fusão da beca judiciária portuguesa com a toga de advogado, lacinho branco, cintura de borlas pendentes, sapatos pretos de fivela e barrete cónico; e um grande uniforme napoleónico, à base de casaca militar azul escura, com bordados a ouro, gravata e colete brancos, calça comprida azul escura avivada a ouro, bicórnio emplumado e espadim .

Não existiam diferenças dignas de nota entre o grande uniforme descrito e o traje dos diplomatas ocidentais , ministros e conselheiros de estado (França, Portugal, Espanha, Itália), Real Academia das Ciências de Lisboa ou o “habit vert” do Institut de France. Um ano decorrido, o Decreto de 15 de Setembro de 1857 estendeu estes dois trajes profissionais à Escola Médico-Cirúrgica do Porto . Na viragem do século, o Decreto de 6 de Fevereiro de 1902 alargou o conjunto talar referenciado à Academia Politécnica do Porto, precisando que as rosetas peitorais da toga fossem nas cores das especialidades científicas ministradas naquele estabelecimento de ensino.

A militarização imagética das academias científicas e dos politécnicos inscrevia-se num conjunto de representações liberais e descristianizadoras, reunindo amplos consensos entre as elites ocidentais que vociferando contra a hegemonia espiritual católica se reviam no perfil heróico e disciplinado do militar fardado.


(…)

No caso de Coimbra, o abolicionismo periodicamente reclamado, não se confinava a mera parusia niilista. Um horizonte imaginário de símbolos alternativos à batina, aos calções, ao colarinho raso e ao cerimonial tradicional piscava o olho à labita burguesa e às fardas militares. Quanto ao destino a conferir à capa, o romantismo estético pululante reservou-lhe lugar especial no imaginário masculino das vivências anónimas e do heroísmo individualizado. A gesta de capa e espada, muito enraizada na centúria de oitocentos, e depois apropriada pelo cinema de aventuras de Hollywood, não concebia um prestidigitador, um Drácula, um Fantasma da Ópera, um Zorro ou um Superman sem capote ou capa esvoaçante . Eça de Queirós, também ele, não concebeu Antero de Quental a discursar revoltas no adro da Sé Nova de Coimbra sem a romântica capa negra a descair pelo ombro . (…)


Concluído o périplo pelos estabelecimentos de ensino técnico-profissional fundados em Portugal entre 1836-1910, pode dizer-se que à data da Revolução Republicana de 5 de Outubro de 1910 o traje militar fora oficialmente adoptado nas médico-cirúrgicas e politécnicas de Lisboa e Porto (traje docente de gala), e em versão mais modesta no Real Colégio Militar (traje discente).

Mas não nos deixemos ludibriar perante este aparente fracasso do paradigma napoleónico naturalizado nos países ocidentais não abrangidos na esfera da cultura escolar anglo-saxónica. Relendo com atenção a literatura de época e visualizando as fotografias disponíveis, rapidamente se conclui que na UC, nas Médico-Cirúrgicas e nas Politécnicas de Lisboa e Porto, o traje militar masculino fora reconhecido aos alunos como equiparado a “traje académico” para efeitos de frequência de aulas, exames e cerimónias .


(…)

 Contrariando a hipótese pró-farda, os alunos das escolas comerciais e industriais viveriam um século XX com bata funcional e fato de macaco vestidos apenas em contextos oficinais. Nos liceus manteve-se até à década de 1960 a herança masculina da capa e batina herdada da UC.

Seriam ainda os liceus de Lisboa e Porto a inventar espontaneamente entre 1915-1916 o traje feminino, à base de tailleur saia-casaco e capa, o qual só muito tardiamente entrou nas universidades: na do Porto em 1946, pela mão das alunas sócias do Orfeão; na de Coimbra em 1951, devido à acção das sócias do Teatro dos Estudantes, seguindo-se generalização não pacífica decretada pelo Conselho de Veteranos em 1954 .

Após a criação das universidades de Lisboa e Porto, os alunos portuenses ligados à tuna e orfeão adoptaram desde 1911-1912 a capa e batina dos conimbricenses, seguindo-se uma adesão generalizada a partir de 15.03.1916. Em Lisboa, o uso da capa e batina ficaria duradouramente restringido aos liceus e a franjas de alunos da Faculdade de Direito então situada no Campo de Santana. Na vizinha Faculdade de Medicina, o uso de capa e batina seria bem menos expressivo do que o filme A canção de Lisboa (1933) parece deixar antever .(…)

 António M. Nunes, In Blogue Virtual Memories, Património vestimentário e insigniário conimbricense artigo de 28 Agosto de 2009.



NOTA: Sobre o papel dos estudantes da República da Ladeira do Seminário, em Coimbra, diz-nos A. Nunes que o “ que os “ladeiras” fizeram foi hiperbolizar o uso ostensivo de coletes de seda multicolores (brancos, vermelhos, cinzentos, em brocado ou seda enramada) que exibiam trazendo as carcelas das batinas desabotoadas. Pareciam noivos em dia de casamento. Não reformaram nada no traje.



O actual figurino da capa e batina de matriz conimbricense, variante masculina, tem a sua origem nas transformações implementadas pelos adeptos da Greve Académica de 1907, que logo se começaram a generalizar na Academia de Coimbra: sobrecasaca preta desabotoada, lapelas dobradas em V sobre o peito e forradas de cetim preto, capa enrolada no colarinho ou deitada no braço ou no ombro direito. Em 1910 os liceus e a Universidade do Porto adoptaram as propostas dos conimbricenses.



O actual modelo de traje feminino, embora tenha começado a usar-se em 1915 nos liceus de Lisboa, só ganhou a feição actual por 1945 quando passou a ser usado pelas estudantes membros do Orfeão Universitário do Porto.”

terça-feira, outubro 11, 2011

Notas de Manifesto Tunante

Em decorrência dos episódios lamentáveis que têm vindo a ser perpetrados na academia portuense, nasceu um manifesto que é especialmente dirigido ao Tunos e Praxistas de bem e de bom-senso.
Não deixe de o ler, e subscrever se nele se revir.


CLIQUE:

o N&M já o subscreveu e parabeniza os redactores do manifesto.

segunda-feira, outubro 10, 2011

Notas de Denúncia (Parte II)

Por uma questão de coerência, de acordo com os critérios editoriais deste blogue, e tal como assumido, aqui ficam, para já, as 3 tunas que inicialmente tinham aceite, e depois recusaram; ou simplesmente recusaram à partida participar no Festival de Tunas da Tuna Feminina da Univ. Portucalense do Porto (evocativo do seu 20º aniversário):

Tuna Feminina do ISEP
Levadas da Broca (FMD U. Porto)
Tesuna (ESTS Porto)

As razões avançadas para a recusa de participação prende-se com a pressão dos respectivos Magnos (em consequência do derimido pelo Dux e MCV do Porto) que "aconselharam" à sua não participação.
É esta a solidariedade e verticalidade de quem se diz tuno/tunante.
Lamentável, a todos os títulos que haja quem se venda dessa maneira e quem demonstre tão pouca idoneidade e seriedade.


Nota: As informações foram colhidas durante o VIII ENT em Bragança, junto dos elementos da Tuna Feminina da Portuclense e confirmadas, igualmente, por uma fonte local (estudante ligado à Praxe na FEUP).

Nota2: Foi alterado o texto, de modo a, de acordo com os factos, referir que houve quem logo recusasse o convite e quem o fizesse depois de já o ter aceite.
Não fica, contudo, claro que a recusa seja provadamente por outros factores que não so aludidos. Mediante o actual panorama, mesmo incorrendo na possibilidade de imprecisões, qualquer recusa, neste contexto, que não directa, ou indirectamente ligada a pressões praxísticas, deve deixar isso claro (nomeadamente através de uma declaração clara e inequívoca de solidariedade, onde se faça menção da não obediência a instituições de praxe nestas matérias). Nenhuma das tunas supra-citadas, até agora, pro exemplo, subscreveu o manifesto tunante, o que é significativo.

domingo, outubro 02, 2011

Notas de denúncia (Parte I)

É a "Parte I", pois, como foi anteriormente referido, sobre a questão do Magnum do Porto Vs Tunas, é bem provável que outras tunas cometam o mesmo acto de traição e negação da fraternidade tunante.


Sabendo-se que a Universidade Portucalense foi irradiada do MCV do Porto, e que esse mesmo organismo de amebas decretou anti-praxe quem convidasse ou aceitasse convites daquelas instituição, neste casos as tunas, era contudo de esperar uma atitude séria e honrada pro parte das Tunas portuenses.

A Tuna Feminina da Portucalense vai organizar, e muito bem, o seu X certame, convidando tunas para o efeito, calro está.

Ora bem, a 1ª tuna a recusar o convite para participar, e segundo consta, por observância do determinado pelo Magnum foi a Tuna Feminina do ISEP.

A ser verdade, é uma vergonha! Uma vergonha a confirmar-se tal!
Pessoalmente, e se tal for, de facto, a razão, deixou de ser uma Tuna com T grande, para, e a ser verdade, conforme AQUI denunciado (post do Corte Real e do Novessetum) , passou antes a ser uma Trupe do Magnum, traindo as suas congéneres e desrespeitando todas as Tunas deste país.

A confirmar-se tal, é razão para dizer que há gente sem carácter, infelizmente; gente que prova, assim, que de Tunos e Tunantes nada tem!

E mais: Suspeita-se que a Tuna Masculina do ISEP fará de igual modo, não convidando os seus afilhados (Tuna da Portucalense) para o seu FITISEP. Carece tal da devida confirmação, não passando ainda de rumores.
A ser verdade, seria uma dupla traição: por um lado ao colocar-se contra a comunidade tunante e, por outro, ao dar um tiro no pé, dando o dito pelo não dito: renegando o seu próprio apadrinhamento.


A confirmar-se, será mais uma tuna a perder, quanto a mim, toda a credibilidade, idoneidade e respeito.

Espero, sinceramente, que as notícias trazidas a lume no PortugalTunas não passem de boatos ou notícias falsas, e cá estaremos para denunciar ou limpar o nome dos envolvidos.


 

sexta-feira, setembro 30, 2011

N&M ilibado!

COMUNICADO

O Notas&Melodias foi ilibado das suspeições googlescas que o davam como sendo um site nocivo. Apenas a lamentar o incómodo causado aos muitos leitores que se viram, de certa forma, impedidos de aceder normalmente ao blogue, coisa que as próprias estatísticas do mesmo revelaram, com uma quebra de procura na ordem dos 65%.
Ficou provado que o Notas&Melodias não é foco de transmissão de doenças venéreas, malaware ou de códigos maliciosos, embora esse boato tenha levado a uma quebra em bolsa, rapidamente recuperada esta manhã, prevendo-se terminar a sessão com as suas acções a valorizarem, podendo as mesmas chegar aos 3 cêntimos por título negociado (num universo total de 10 acções).

O que parece ter ficado provado, segundo o observatório de actividades bloguistas, é que o conteúdo do Notas&Melodias provoca fortes azias em certos mercados e em muitos especuladores. Contudo, as agências de rating não se deixaram demover ou influenciar, mantendo o rating do blogue.

O Notas&Melodias agradece, penhoradamente, a todos os acionistas que não venderam a sua cota e acções, apostando no reforço de capital de confiança depositado neste espaço.

É razão para sublinhar este grande chavão "Fluctuat Nec Mergitur"

domingo, setembro 25, 2011

N&M sob ataque


Por mais informação que detenha sobre vários utilizadores, por esse mundo fora,que reportam problemas do género, parece demasiada coincidência que o Notas&Melodias passe a ser considerado, no Google, como contendo ameaças.

Este blogue não fornece qualquer conteúdo malicioso ou nocivo, contudo assim aparece, actualmente, repertoriado no motor de busca do Google.

O acesso continua a ser possível directamente pelo link, pelo que continuará a publicar os seus textos como sempre o tem feito.


Se é trabalho de algum Hacker ou mero problema do Blogger/Google não sei, e prefiro não levantar suspeitas, para já.
Aguarda-se serenamente.

A medida de prevenção indicada foi retirar os links dos blogues/sites recomendados, pelo que regressará essa barra, quando for possível (pedidno desculpa pelo incómodo)

Aos leitores, desde já agradecer o seu apoio e fidelidade.

quinta-feira, setembro 22, 2011

Notas a reter (Parte II)

Vale, de facto,a pena ler o artigo que faz uma singular e requintada analogia para retratar as relações entre Praxe e Tunas, decorrente dos episódios que têm estado na ordem do dia.

É do mais puro deleite e uma forma engenhosa de aprender algo sobre a história do mito das relações entre Tunas e Praxe, estabelecidas nestes últimos 25 anos.

Parabéns ao meu amigo de As Minhas Aventuras na Tunolândia!

Apontem AQUI, caros leitores.

quarta-feira, setembro 21, 2011

Notas a reter (Magnum do Porto Vs Tunas)

Porque importa desmistificar e explicar, tomo a liberdade de aqui reproduzir duas belíssimas intervenções feitas no PortugalTunas (clique AQUI para ver tudo), a propósito deste triste episódio protagonizado pelo Magnum do Porto.
Quem as profere foi, em seu tempo, Dux Facultatis do Porto, sendo igualmente um dos mais ilustres tunos da nossa praça.
Servem estes excertos para reforçar a certeza que as Tunas nada devem temer, que não devem satisfação ou obediência ao Dux e que têm toda a legitimidade para baterem o pé, quando a própria Praxe é ultrapassada ou pervertida, e as Tunas assim desconsideradas:


"Há três palavras que descrevem esta nova aberração:

RIDÍCULO - nem tudo o que se faz de traje cai imediatamente sob a alçada dos organismos de praxe. Se assim fosse, esses organismos poderiam proibir-me de, por exemplo, namorar com determinada rapariga pelo simples facto de tanto eu como ela estarmos matriculados na universidade. Que tem um bando de frustrados prepotentes que ver com quem eu me associo seja para que fim for? E se for para fazer serenatas? E se for para tocar música? E se for para fazer teatro? E se for para fazer amor? Não têm rigorosamente nada que ver com a minha vida privada, mesmo que as minhas actividades sejam públicas, ou publicamente assumidas. Desde que não esteja a participar numa actividade promovida por um desses organismos, não têm nada que legislar sobre mim ou sobre os grupos a que pertenço.

TRISTEZA - por constatar que há quem se submeta aos caprichos de pessoas cujo único mérito parece consistir em se raparem mutuamente e em circuito fechado, porque mais ninguém lhes liga bóia. Assim tivessem a coragem de denunciar as jogadas das queimas, a pouca-vergonha de quem se aproveita descaradamente dos estudantes, de quem se apoderou da manifestação mais visível da Praxe: a Queima das Fitas.

VERGONHA - de que haja gente que admita que outros lhes digam quem podem ou não convidar para suas casas. Mas era o que faltava que o meu vizinho de baixo me viesse proibir de receber quem eu quero em minha casa. Se alguma tuna retirou um convite que já tinha feito por causa desta anormalidade, essa tuna devia pintar a cara de preto. Como é possível??????????

Ridículo, tristeza e vergonha. Oxalá caiam em si e recuperem a dignidade.

Já deu para aprenderem alguma coisa? Espero que sim. Espero que esta abominação tenha ao menos o efeito positivo de fazer com que as pessoas aprendam à própria custa. Nada que não fosse previsível.

A bola está agora do lado das tunas: ou aparam o jogo, ou viram as costas e deixam os fulanos a bater bolas - ou a bater o que lhes apetecer... - contra a parede.

Abraço,

BOA MÚSICA e... HAJA AQUELA PARTE DA BIOLOGIA MASCULINA QUE É SINÓNIMO DE "CORAGEM" NA LINGUAGEM VERNÁCULA!"

O Conquistador, 20-09-2011
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"Vou analisar apenas um parágrafo da intervenção do RT. Escolhi este por conter uma gradação crescente de ingerência na vida interna das tunas a todos os títulos inadmissível. Revela, além disso, uma confrangedora ignorância que meteria dó, se não fosse perigosa.

A ingerência começa a um nível meramente superficial, pois pretende apenas que a Tuna X não convide a Tuna Y (declarada “anti-praxe”) para uma actividade:


«... impedir uma determinada tuna feminina de participar num certame de uma outra, ameaçando a anfitriã de que - caso não fosse retirado o convite em causa - "comeriam pela mesma tabela", ou seja, seria também ela declarada "anti-Praxe” (cito) como foi a convidada...»

a) se a actividade (festival) é promovida pelo Conselho de Veteranos, tem este todo o direito de interferir na organização. Porém, se a actividade é promovida pela Tuna, o Conselho de Veteranos não tem rigorosamente nenhuma palavra a dar sobre o assunto, tal como não dita regras nas actividades desportivas - ou de qualquer outra natureza artística, pedagógica, etc. - que os alunos da escola X entendam promover ou em que entendam participar.

b) que consequências práticas derivam de alguém ser declarado anti-praxe? Nenhumas, a não ser que seja "apanhado" a participar à força numa actividade directamente promovida ou ligada à praxe, podendo, nesse caso, sofrer sanções. Ora, não me cansarei de repetir que AS TUNAS NÃO NASCERAM DA PRAXE. Sendo assim, um Conselho de Veteranos tem tanta autoridade para declarar uma tuna anti-praxe como para declarar o Governo anti-praxe; ou a Reitoria anti-praxe; ou os empregados do bar e da cantina anti-praxe. Isto é NÃO TEM AUTORIDADE NENHUMA. É o equivalente a eu excomungar o Papa. Posso proibir determinado jogador de futebol de alinhar na selecção? Não. Posso formular essa proibição? Posso, contudo a mesma não tem qualquer validade. É o que acontece com um Conselho de Veteranos quando declara uma tuna anti-praxe. É uma declaração absolutamente inútil e por uma razão simples: não se pode declarar anti-praxe aquilo que não tem que ver com a praxe. Pode-se escrever um decreto com essas palavras; pode-se gritar do alto da Torre dos Clérigos com um megafone essa mesma proibição: não tem qualquer valor;

c) quem quer ser “dono” da praxe tem ao menos a obrigação de a conhecer. No Porto, como em Coimbra, existem as figuras da “protecção de Baco” e da "protecção de instrumento". Quer isto dizer que um académico que seja apanhado por uma trupe na rua a horas em que já devesse estar na cama, se transportar consigo um instrumento não pode ser incomodado, desde que prove que o sabe tocar. Pretendia esta medida proteger os caloiros que participassem nos grupos artísticos da universidade; como o caloiro não pode sair à noite, e os ensaios destes grupos eram em horário nocturno, o caloiro estaria proibido de participar nos ensaios. Ora esta medida é extensível a todos os académicos, pelo que uma Tuna está por sua natureza sob protecção de instrumento - de cordas, de percussão, de teclas ou vocal. Se não, está sob a protecção de Baco. Mesmo que um organismo de Praxe caia no ridículo de declarar uma tuna anti-praxe, coloca-se no duplo ridículo de não poder exercer sanções por os seus elementos estarem necessariamente sob uma das duas protecções... Isto é, mesmo que se arme uma “milícia” para castigar os refractários, essa milícia não pode fazer rigorosamente nada!


d) Suponhamos que uma das consequências de se ser declarado anti-praxe era a proibição do uso da capa e batina. Ora O TRAJE É DA ACADEMIA (ACADÉMICO), NÃO DA PRAXE. Qualquer aluno tem o direito de usar o traje a partir do momento em que se encontra matriculado, pelo que NÃO PODE SER PROIBIDO DE O USAR. Donde se segue que se eu for despedido o meu ex-patrão não pode continuar a dar-me ordens... Se a minha tuna for declarada anti-praxe, deixa, por esse mesmo motivo, de estar sob a alçada da Praxe - onde nunca nenhuma tuna esteve, é bom que se recorde.

Volto a fazer a pergunta: que consequências práticas advêm de alguém ser declarado anti-praxe? Nenhumas: não posso ser proibido de usar o traje académico nem posso ser praxado. Que pena...

A ingerência sobe agora de tom e de nível - e de ridículo:


«retirar a uma dada tuna do estatuto de "académica" com a conivência do próprio Dux da sua própria casa - que foi, qual acólito, apresentar queixa a "São Pedro"»

O Dux daquela casa - e não sei de qual se trata - não tem sequer autoridade sobre os seus. Não tendo força a nível interno, foi chamar a seita. Se a tuna é “académica”, é, tal como o traje, DA ACADEMIA, não da Praxe. Que autoridade têm estes “senhores” para dizer que a “Tuna Académica de X” perde o estatuto de académica? Nenhum. Não têm qualquer direito de o fazer. Repito: podem escrever decretos com palavras que indicam a perda desse estatuto e ir gritá-lo de megafone na mão do alto da Torre dos Clérigos - tal como eu posso andar com um badalo pelas ruas a gritar que, por meu decreto, o Primeiro Ministro perdeu o estatuto de português. O efeito é rigorosamente o mesmo: isto é, nenhum. Já não estão a querer inventar sobre a praxe: agora pretendem interferir no próprio significado das palavras da língua - património de todos os portugueses - e até no próprio meio universitário, decretando quem pode ou não ter o estatuto de “académico”. Mas esta gente tem consciência do que anda a fazer, ou pensa que somos todos parvos? Pelo visto, deve pensar que sim, que somo parvos. E têm razão, pois há quem vá nestas cantigas.

Mas enquanto se divertem a apedrejar o Sol, estamos nós bem. Mas veja-se agora o terceiro grau da ingerência e do ridículo:


«deixando a tuna feminina dessa mesma casa de ser, por isso, afilhada da dita cuja tuna em questão»

Como? Já decretam sobre as relações entre as tunas? Já a estupidez e a falta da consciência dos próprios limites rompe uma relação baseada na amizade e na admiração? É suficiente para destruir laços de amizade e cooperação institucional e pessoal, forjadas por largos anos de convívio e consubstanciadas por uma cerimónia formal - o baptismo? Que é feito da protecção dos padrinhos? Que é feito da admiração e do carinho dos afilhados? Como é que se destrói a relação entre aqueles que se responsabilizam pela entrada de outros no mundo das tunas e os que procuraram nos padrinhos o aconselhamento e a orientação, concedendo-lhes a honra e a responsabilidade de apadrinharem, uns, e de serem apadrinhados, outros, porque os padrinhos vêem nos afilhados qualidades em que acreditam? Ou não passou afinal tudo de um pretexto para padrinhos e afilhados jantarem juntos?

Ridículo - de quem intimida.
Vergonha - de quem se deixa intimidar.
Tristeza - de ver tunas contra tunas, pior ainda quando são afilhados e padrinhos.

Isto só passará daqui se as tunas, todas as tunas, deixarem.

Abraço e

BOA MÚSICA!"
O Conquistador, 21-09-2011



Mesmo que, eventualmente, quisesse alguém evocar o projecto de código do Balau e Soromenho, cuja validade não existe, e alegar qualquer intenção dos legisladores, daria com uma porta fechada, pois em lado algum há uma só referência que seja a Tunas (que também não existe na praxis coimbrã, diga-se).
Não tem o MCV ou seu Dux autoridade para se atribuirem poderes especiais, sob pena de, qualquer dia, dizerem que podem mandar, sei lá, nos talhos da cidade.

terça-feira, setembro 20, 2011

Notas de Sublevação Tunante

Nem quero acreditar. Estou estarrecido.

Segundo as notícias mais recentes, o Magnum  do Porto decretou a expulsão da Portucalense do seu seio. Até aqui, nada a dizer, porque assunto de foro interno, da organização exclusivamente praxística da academia. Por isso, pacífico. Entendam-se!

Mas a heresia e estupidez, porque só vindo de gente estúpida e ignorante, foi  a intenção (não sei ainda se consumada) de proibir as Tunas da Portucalense de participarem em eventos/festivais tunantes , bem como proibir qualquer outra tuna portuense de convidar qualquer tuna de lá, ou de por elas serem convidadas.

Eu pergunto-me se quem assim age têm o seu perfeito juízo ou se é mesmo  presunçosa burrice.
Mas desde quando é que as Tunas devem subserviência ao Magno ou qualquer organismo de Praxe?
Mas anda tudo doido?
Mas o ridículo é ainda maior nesta rápida reflexão dedutiva:
Se a Portucalense deixou de fazer parte do Magno do Porto, como é que o Magno ainda acha poder mandar na Portucalense, e aind amais nas suas tunas (que é isso que aqui importa: Tunas) para lhe dizer o que pode fazer na sua própria casa?
Prepotência da ditatura da ignorância, diremos nós. Ele há gente que não se enxerga mesmo!

Que Tunas, dignas desse nome, permitirão tal intromissão e invasão do seu espaço?
Que Tunas do Porto permitirão essa invasão hostil, sem precedentes, do seu território e da sua própria honorabilidade e aceitarão essa imposição/ordem?
Uma Tuna digna desse nome vai agora passar a ser uma mera Trupe a mando do Magno, vai violar a fraternidade tunante, os laços de amizade existentes, vai vender-se só para "agradar" ao Magno do Porto?
E se as Tunas baterem o pé (como se espera) e mandarem o Magno dar uma volta ao bilhar grande?
O que vai fazer o Magnum? Vai rapar as tunas todas ou vingar-se não convidando as tunas para o certame da Queima?
Pensará o Magno que as Tunas portuenses vivem o seu quotidiano em função do Festival de Tunas da Queima do Porto e que são capazes de prostituir a sua identidade a troco de um convite para lá actuarem?

Estou para ver, e acreditem que este blogue não deixará de seguir as pisadas do seu blogue irmão, "As Minhas Aventuras na Tunolândia", que sobre isto já se pronunciou,  denunciando todas as Tunas que pegarão em armas contra outras Tunas a mando do Magno.

Em certos sítios, acreditem que, e a confirmar-se esse processo de intenção (e saliento: a confiirmar-se), nem uma Tuna participaria em qualquer actividade que o Magno organizasse ou estivesse envolvido, a começar pelos festejos de recepção ao caloiro e terminando no Festival de Tunas da Queima!
Era essa a atitude certa para mostrar de que têmpera são as Tunas e as gentes do Porto.



É um ataque e desrespeito total para com a Tuna, a Tuna que é anterior a qualquer código ou organismo de praxe, a Tuna que não tem de se prestar a essa presunçosa a arrogante atitude de gentalha que mostra não apenas falta de decoro e bom-senso, mas incompetência e saber nestas matérias.
Mais ainda: o promover ou querer despoletar uma guerra fraticida, colocando Tunas contra Tunas é de uma gravidade inenarrável, reduzindo as Tunas a meras peças de xadrez que o Magno, à sua vontade, vai movendo.

A coisa já aquece, também, pelos lados do PortugalTunas, cuja discussão podem seguir AQUI e AQUI e merecia um arregimentar das Tunas, uma sublevação nacional contra quem não sabe ser ou estar, faz da arrogância e prepotência o seu modo de agir, de quem julga poder exercer ditaduras extensivas às Tunas.

É uma vergonha. Enoja-e profundamente que tal tenha sequer sido opção, mesmo que, e quero acreditar que assim seja, os ditos do Magno do Porto arrepiem caminho.
Não sei se tudo isto é algum ajuste de contas antigo ou se, como também se indicia, uma nova política de expansionismo colonial, se relembrarmos o descaramento que foi a subida do Magno ao palco do último FITU, invadindo e apropriando-se  do tempo de antena, num espaço que é das Tunas, para auto-promoção.
Um episódio nada novo, se quisermos trazer à baila a forma como foi tratado o Grupo de Fados do OUP, ainda em 2007 (para quem não sabe, leia AQUI -artigos de 22 de Outubro e de 7 de Dezembro).

Se a Praxe não é uma democracia, era escusado termos agora um Magno do Porto a optar por prefigurar um regime ditatorial, arrogante e que se enche de ridículo com tal episódio.
Á Tuna o que é da Tuna e à Praxe o que a ela lhe pertence (que não a Tuna, certamente)!
Ninguém tem o direito de me dizer quem posso receber em minha casa, e muito menos ditar-me quem posso visitar. Quando fora de actividades da alçada do Magno, este não tem sequer de opinar.
Se aos seus membros lhes falta caloiros para exercerem o seu autoritarismo e brincar às praxes, pois que se praxem uns aos outros nas suas reuniões. Mas no tocante a Tunas, saibam ser e estar, respeitar e dar-se ao respeito, sob pena de, como agora sucede, se lhes perder qualquer respeito.

Sendo eu praxista convicto, e tendo com muito gosto e honra pertencido a um organismo do género (liderando-o, inclusive), mais envergonhado me sinto por ver com quanta veleidade e descaramento alguns usam as suas funções que, está bem de ver, não são, afinal, para o bem comum, mas para fins próprios, vendettas internas e desejo de domínio do mundo, a lembrar certas figuras do passado.
Mas só imporão os seus bigodes, se deixarmos.

Mostra este episódio o quão nocivo é o mito de que as Tunas são Praxe, bem como do perigo latente quando a Tuna (que, pela sua naturez,a é mais representativa que um qualquer organismo de Praxe -pois representa uma instituição e todos os seus alunos, enquanto os Magnos apenas os que aderem à Praxe) aceita o papel de mero núcleo, se deixa escravizar pela noção de que deve satisfação a quem não deve, de todo.

Mesmo que tudo isto não se consume (e que as tunas sejam "poupadas"), que tudo não tenha passado de um processo de intenção por parte do Magno, só o facto de ter sido considerado (porque onde há fumo há fogo - e por alguma razão isto veio a público), é já merecedor das mais veemente críticas e condenações.

Está na hora das Tunas assumirem quem são, de perceberem ser uma tradição centenária com caminho próprio e evitarem os estabelecer de relações cuja natureza as castra, rebaixa e reduz.
Está na hora de as Tunas se sublevarem contra todas as relações estabelecidas com a Praxe que a coloquem a jeito de ser assim tratada.
Nada garante que as boas relações que vão existindo, entre Tunas e Praxe, hoje, assim perdurem amanhã, com outros protagonistas. Facilmente o cenário muda, daí a necessidade do devido distanciamento e do evitar a promíscua e confusa teia de relações que, por vezes, se estabelece/estabeleceu.
Cooperação sim; subserviência e tutela da praxe não!

Mais uma vez, se prova o quão certo alguns estavam, quando defendiam um organismo Tunante que zelasse pela defesa da sua comunidade, e mais ainda quando defendiam (e defendem) a necessidade das Tunas se revestirem de personalidade jurídica própria (formarem-se legalmente como associações), vincando a sua autonomia (que não impede cooperações e estreita colaborações, mas salvaguarda a própria independência e tentativas de apropriação e anexação).

sábado, setembro 10, 2011

Notas ConCSiliares

O título é estranho, até da forma como é escrito, mas como fui recentemente contactado sobre isso, via mail, achei por bem aqui deixar umas notas.

Todos estamos, certamente, faliarizados com a terminologia que designa os organismos de Praxe: Conselho de Veteranos, Magno Conselho da Praxe........
Mas a dúvida que me foi colocada prende-se com o uso dessa nomenclatura em latim.

Afinal é Consilium (com S) ou Concilium (com C)?
Se atentarmos aos termos Conselho (grupo, reunião, recomendação) e  Concelho (referente a uma área geográfica adminsitrativa), logo se desfazem as dúvidas - ou deveriam desfazer: a usar-se é Conselho - Consilium (quer linguisticamente, quer no uso do latim macarrónico).

Mas, como bem me interpelaram, existem inúmeras citações em latim que ora usam uma ou outra grafia, instalando-se a dúvida, nomeadamente porque a larga maioria dos praxistas não sabe patavina de latim.

Para evitar grandes considerandos, fica esta sucinta explicação:

Consílio e concílio são palavras diferentes. A grafia, a origem e o significado o mostram.

Consílio provém do latim consiliu(m) que significa:
a) consulta, exame, deliberação, decreto;
b) determinação, resolução, expediente, projecto, desígnio, plano;
c) conselho: parecer, opinião, sentimento, voto;
d) conselho: assembleia consultiva ou deliberativa.

Em português significa conselho, reunião, assembleia.


Concílio provém do latim conciliu(m), que significa:
a) ajuntamento, ligação, união;
b) assembleia, reunião, sociedade, círculo (de pessoas), conselho (em sentido concreto), reunião de conselheiros, assembleia deliberativa;
c) concílio, assembleia de bispos.

Em português significa conjunto das pessoas da hierarquia eclesiástica, que têm voto em matéria de dogma, moral evangélica e disciplina, presidida pelo bispo, arcebispo, patriarca, papa ou seus legados.
Significa também as actas, cânones, decisões do consílio.
A grande diferença entre as duas palavras é a seguinte: concílio pertence à linguagem da Igreja Católica; consílio pertence à linguagem fora das actividades da Igreja Católica.
Como vemos, a significação de concílio provém da significação C) do latim consilium
Como a Praxe não é da esfera eclesiástica (e tao pouco faz sentido qualquer romântica ou histórica ligação ao tempo em que a Igreja detinha o poder sobre as Universidades), tanto que quando se organiza, de facto (com conselhos de veteranos, comissões, etc.), há já muito tempo que a separação entre Igreja e Estado se fez (o 1º Conselho de Veteranos é formalmente criado pelo código de 1957 - e de cujo Decretus consta o termo Consilium bem escrito - não se percebe por que razão, actualmente, o CV de Coimbra o escreve mal).
Embora perdurem termos e resquícios dos tempos eclesiais, convém separar as coisas.
Neste caso, o termo a ser utilizado em Praxe é Consilium, com S: Magnum Consilium Praxis ou Magnum Consilium Veteranorum (entre outras designações), seja no rigor linguístico, seja no uso do Latim Macarrónico ("aportuguesando" o termo Conselho).
Fica esta pequena nota.

Notas sobre a origem dos Pins, Alfinetes e Crachás, na Praxe



O saber actual.

Pode parecer caricato, mas é verdade: sobre a origem dos pins e alfinetes de lapela, no contexto da Praxe, do Traje Académico, não existe uma única fonte de informação na Net ou em qualquer Código de Praxe.
Pode parecer estranho, de facto, mas sobre um dos adereços mais populares no seio académico, não existe informação alguma acessível, que não a reprodução de normas e ditames sobre quais usar ou onde colocar.

Os estudantes, ontem, como hoje, não sabem, de facto, de onde provém essa tradição, pelo que, naturalmente, o que hoje vemos é, na esmagadora maioria dos casos uma contínua invenção ou cadeia de suposições.
Nuns casos há um claro exagero, noutros está-se mais perto do genuíno, embora em nenhum dos casos se saiba bem por que razão é este e não aquele, qual a razão de ser ali ou acolá.

Quando era estudante, também não sabia, é um facto, mas sempre tive curiosidade em saber por que razão se usava, quanto mais não fosse para estabelecer uma causa-efeito, saber se aquilo que se praticava era provindo de uma fonte fidedigna ou se era mero copy-paste de um artificialismo que ia mutando ao sabor de modas (ou gostos de quem mandava na praxe).
A resposta obtive-a bem mais tarde, infelizmente (embora valha mais tarde do que nunca, diz o povo).


Vamos então a factos, socorrendo-me da preciosa informação que me facultou o insigne António Nunes, historiador e especialista nesta área.

 Origem

Crachás, pins e alfinetes, no meio académico (e também fora dele), terão a sua origem no foro militar.
São os uniformes militares, enquadrados pelos respectivos regulamentos, os que admitem, desde pelo menos o séc. XVIII as placas e distintivos para barretinas, colarinhos, ombros e, até, botões metálicos.
Desde há muito que as universidades portuguesas ou escolas diversas (médico-cirúrgicas, politécnicas, belas artes, etc.,) acolhiam no seu seio estudantes militares, os quais não trajavam capa e batina, mas sim o seu uniforme militar, sobre o qual, então sim, usavam capa ou gibão. Existem vários clichés, do séc. XIX ou de inícios do XX que o comprovam inequivocamente.
Daí emana, por cópia e pelo fascínio que daí advinha, por parte de outros estudantes, a adopção de distintivos metálicos, para uso na lapela da casaca/batina, os crachás e alfinetes.
Desde logo, fica claro que esse costume não tem por base qualquer tradição local ou regional.

Estes adereços exprimem historicamente a pertença a um grupo, fraternidade ou, então, expressam o reconhecimento de feitos alcançados (condecorações), como é o caso, em França, por exemplo, em que os agraciados com a Légion d’Honneur (condecoração atribuída pelo presidente da república francesa, como, por cá, o nosso atribui a da Ordem de Cristo ou da Torre e Espada, - entre outras, por exemplo, no dia 10 e Junho) não usam diariamente essa condecoração (porque muito grande), colocando antes, na lapela, um pequeno pin alusivo.

Em Coimbra, e citando A. Nunes, “A únicas tradições que se conheciam eram as que autorizavam o porte de monograma (letras do nome próprio entrelaçadas em prata) na lágrima da guitarra, o que só acontece a partir de 1905, e na pasta de luxo com fitas de seda (distintivo do curso). A tradição autoriza ainda o uso de heráldica das Faculdades em lenços de bolso, botões de punho, fivelas de prata dos sapatos de gala, livros encadernados que se utilizam em determinadas cerimónias (autos, juramentos).
Por conseguinte a metalurgia de lapela foi uma apropriação/invenção divulgada por alunos que tinham sido militares ou gostavam das cerimónias paramilitares da Mocidade Portuguesa e da Legião Portuguesa. “

Alguns sectores de opinião, no seio académico-praxístico, pretendem diferenciar alfinetes dos pin’s, quando se trata, basicamente, do mesmo, com a diferença, apenas, na forma de os pregar (longo alfinete, para uns, alfinete curto, ou pico, com fecha, para outros). Na parte visível são ambos similares (ora maiores ora mais pequenos; mais simples ou trabalhados; com ou sem cores).

Mas note-se que, em larga medida, a prática do uso de alfinete ou pin na lapela era quase inexistente. A larga maioria dos estudantes não usava qualquer alfinete ou pin (e a atestá-lo estão centenas de clichés).
Portanto, mesmo que coloquemos a inspiração numa origem militar (dos alunos militares que cursavam a universidade), parece mais evidente que a moda que explode a partir da década de 1980 tem mais de inspiração das tunas espanholas (que usavam pins nas mangas dos seus trajes) do que outra coisa.
A questão dos exageros começou, desde logo, porque os estudantes portugueses não tinham uma informação essencial: o traje de tuna espanhol não era um traje académico, como sucedia com os trajes académicos que os estudantes portugueses usavam no contexto das suas tunas.
Numa espontaneidade vaidosa, começou-se a meter pins no traje académico como se ele fosse um traje exclusivo de tuna, omitindo que o traje académico obedecia a uma etiqueta de sobriedade nem sempre compatível com o desejo de imitar os "floridos" trajes dos tunos do país vizinho.

 Quantos e quais na lapela?

 Ora, secundum praxis, e respeitando a tradição genuína, que pins ou alfinetes se podem usar?
1º - Usa-se apenas 1, e só um!
2º - Deve colocar-se aquele que contenha a heráldica da instituição frequentada.

Assim, só os relativos ao logótipo da instituição (Universidade, Instituto) ou da Faculdade (conquanto a heráldica remeta para a Universidade – onde não se confunda, por exemplo, a Faculdade de Direito de Lisboa com a do Porto).
Com mais reticências, o de curso, mas só se este contiver no seu desenho a heráldica da instituição (ou seja ter nele o logótipo da Universidade ou Instituto).
Mesmo no caso das Tunas, se exige, pelo menos aos que são estudantes, que sigam esse preceito, porque antes de serem tunos, são estudantes. Já aos demais, é normal que substituam o da instituição onde se formaram pelo da Tuna a que pertencem (e só esse).
 Mais nenhum se permite, pois, na lapela.
O que se aconselha para o traje, para os estudantes, é mesmo o da Instituição.

 E os outros?
 Os outros não têm lugar na lapela. Bem sei que me dirão que há N sítios onde isso se faz. Pois, mas faz mal. Não apenas delapida e desrespeita, como transforma a sobriedade do traje num verdadeiro circo.
Vou abster-me de adjectivar assertivamente essas práticas (que a vontade é chamar-lhes nomes feios), nas quais vemos algumas casas a promoverem uma fantochada pegada, onde parece que lá militam os antigos generais da era soviética.
 Com o advento do boom tunante, e por contágio dos “brasones” nas capas, com clara raiz no exemplo espanhol (mais um vez), em que os tunos do país vizinho colocam nas mangas da jaqueta os pins, passou a ser comum o uso no colete (para aqueles que, ao menos isso, quiseram manter a sobriedade da batina).
Nesse caso, a regra a seguir é a mesma que para os emblemas: apenas se coloca a “ferraria” relativa ao exercício académico (locais/instituições visitados em missão oficial académica ou grupos contactados).

Assim, pins da Coca-Cola, do Rock in Rio, da Luta contra a Sida, do Mickey, da Sagres, os que brilham e piscam e quejandos não são apropriados (mas próprios para meter noutras roupas que não o traje, seja ele qual for).

Mas se o colete apresenta mais espaço para “medalhas”, convém recordar que enchê-lo de pin’s tem, pelo menos, o problema de o tornar pesado (em alguns casos, e porque só os colocam apenas de um dos lados, esse lado até chega a descair um pouco de tanto quilate – como eu já vi).

Atente-se que a regra de ouro é que, ao fechar-se a batina, nenhum pin do colete fique visível.

De que lado?

Para terminar, fica a questão do lado onde usualmente se colocam.
Há quem defenda na lapela esquerda, outros na direita; uns no lado esquerdo do colete, outros no oposto.
Usualmente é o lado esquerdo o escolhido. No caso da lapela, também porque é onde se encontra o bolso (usado, nos fatos e smokings, para colocação de lenço, segundo a etiqueta).
Assim ficou convencionado. Dirão que é por ser o lado do coração, etc&tal, mas, isso, cada qual invente o que quiser (entre teorias místicas, pseudo-históricas e afins, há muito por onde arranjar “estórias”).
Eu não conheço, documentalmente, qualquer razão tácita e inequívoca para essa determinação.
Foi assim definido, ao que tudo indica, seguindo a etiqueta em uso no meio civil, que estipula, na maioria dos casos, a colocação do alfinete ou pin à esquerda, embora também se contemple o uso no lado direito.



Posto isto, e concluindo, é fácil, agora, perceber onde a tradição é preservada e onde se inventou, ou mesmo se adulterou.
Por falta de conhecimento, muito se inventou, claro está.
Não basta regrar e dizer que é assim ou assado, que se mete isto ou aquilo, ali ou acolá, só porque sim, sem sequer ter fundamentação.

Ficam estes dados à superior consideração dos praxistas.

sexta-feira, setembro 09, 2011





As estatísticas valem o que valem, mas o Notas&Melodias não pode deixar de agradecer a preferência e atenção que lhe é dada pelos internautas.
Assim sendo, bem-haja aos que continuam a visitar este blogue, bem como aos que a ele se associam como amigos do N&M (que ultrapassaram, entretanto, a fasquia da centena).
Não se anda nisto para alcançar shares e picos de audiência, mas sabe bem registar que o blogue continua a merecer a consideração de muitos leitores/participantes.

Muito obrigado a todos!




quinta-feira, setembro 01, 2011

Notas de par em (ím)par.

Bem sei que este assunto será, desde logo, observado pelos meus dilectos leitores mais avisados, como um "fait divers", um exercício sobre uma matéria que, em Praxe, nada tem de essencial e fulcral. Mas é porque a comunidade académica de hoje parece estar tão presa a periferias e picuinhices que achei ser necessário também abordar este "tema".

A questão prende-se com a importância dada ao N.º ímpar, no que respeita a assuntos de Praxe.
De onde vem essa fixação e todas as determinações dai resultantes, relativamente ao traje ou outros quejandos praxéticos?

Daquilo que foi possível pesquisar (mais do que fazer apelo à memória), nada se encontra, documentalmente, que explique o quando, como e porquê dessa convenção como sendo um uso antiquíssimo e ancestral. Aliás, recuando ao tempo anterior aos anos 90, nunca tal foi considerado praxis ou tradição, nunca!
Assim sendo, não é Tradição sequer, nem Praxe.

A explicação mais comum, que podemos encontrar em diversos sites, e que é a mais reproduzida, não passa, claramente, de um argumento "a posteriori", para justificar algo que, ao que tudo indica, é mais um fruto do "boom académico" dos anos 80 do século passado (a reabilitação das tradições académicas) ou pelo menos a formalização de uma convenção algo recente de uma errónea interpretação.


A explicação avançada, para a importância no N.º ímpar é um exercício de analepse e reabilitação da ligação clerical das universidades. Assim, explica-se a sua importância religiosa/mística/bíblica porque:

"São 3 as pessoas da SS. Trindade, 3 os mensageiros que se dirigem a Isaac (antigo testamento), 3 os apóstolos no monte Tabor durante a Transfiguração, 3 as hierarquias do juízo final: inferno, purgatório e paraíso, 7 ospecados capitais, ou 7 as vitudes teologais. 
Também porquea  Criação se fez em 7 dias  e o sábado é tido como o sétimo dia , relativo ao descanso após a Criação (segundo o Génesis) , pelo Pentecostes que sucede 7x7 dias depois da Páscoa, pelo facto de cada sétimo ano ser sabático ou, depois de 7x7 anos se seguir o Jubileu; tal como a bíblica recomendação de se perdoar 70x7, as 9 bem-aventuranças...........)."

Estranhamente, e principalmente se pensarmos no traje (capa e batina), que é um corte com o hábito talar, por força dos anti-clericais, dos laicos republicanos (de que bem conhecemos os ódios à Igreja, nomeadamente às ordens religiosas, sobretudo aos Jesuítas)  que, a partir de finais do séc. XIX impõe um modelo burguês - de que provém o actual figurino da capa e batina, parece-me incoerente que tão atiçados anti-clericais impusessem no protocolo da Praxe (e do traje) convenções com base em simbologias judaico-cristãs.

Pelo que se pode observar em diversos clichés, desde o séc. XIX, o colete, por exemplo, tanto apresenta 4, como 5 ou 6 botões, tal como a casaca (que manteve o nome de "batina" por força do uso - apesar de, certamente, muito contrariar os anti-clericais) que tanto tem 3, como 4, 5 ou mais botões.

Recordemos que o actual figurino do traje resulta da produção em série de trajes (pelas unidades fabris), deixando de ser segundo cada alfaiate ou modista (uns faziam assim outros mais assado), para ser segundo um modelo de fábrica onde se produziam em série.

Mas se alguns defendem com unhas e dentes, embora com muita cegueira intelectual, que na Praxe é só N.º ímpar, porque é, supostamente, inspirado na simbologia numérica do cristianismo ou misticismo numérico bíblico, que dizer, então, dos 4 os evangelistas, de serem 12 os apóstolos, 14 mandamentos da Stª Igreja, 10 os Mandamentos, 12 as tribos de Israel, 4 os cavaleiros do Apocalipse, 40 os anos do povo israelita no deserto (após saída do Egipto), 40 os dias de Cristo no deserto, como o são os dias da Quaresma ou os 50 dias da época pascal (até ao Pentecostes)...........?
Lá está: dir-me-ão que se somarmos aos nºs pares o n.º três, obtemos um nº ímpar.......parece-me tão óbvio quanto insignificativo, e que tem bem cara de ser mais um procurar, precisamente, o que se quer encontrar.
 
Conforme se quiser, encontraremos as explicações mais "lógicas" noutras áreas que não a mística ou religiosa, seja na geometria, na própria matemática ou noutra área qualquer, para tanto defender o par como o ímpar. Sejam as rebuscadas explicações do sujeito como alguém ímpar e único, o tempo de praxe que é singular, etc&tal, tudo é muito giro, mas ditos e contos de embalar não, por favor!

Não sejamos ímpares de inteligência!

Ora se em Praxe é o N.º ímpar que reina e que domina, em alguns sítios, penso que encontramos nisso falíveis casos que contrariam essa ideia e disposição.
O facto é que tanto encontramos Nºs pares e ímpares, tanto mais de uns do que de outros conforme assim o quisermos ou der jeito.
Se os botões de um colete são em n.º ímpar, acabam por formar um par com as respectivas casas. Os buracos dos atacadores são em número par, tal como usamos um par de sapatos, um par de calças ou meias. E contudo, as fábricas de calçado não fazem sapatos tendo em conta isso. os estudantes compram o que as fábricas propõem e não são as fábricas a fazer sapatos sob indicação regulamentar da Praxe.
Veja-se, também que o mítico termo "Dura Praxis Sed Praxis" é composto por 4 palavras, embora com 19 letras e 7 sílabas, tal como os termos "Praxe" ou "Praxis" ora são com letras em n.º ímpar ou par, mas ambas par no n.º de sílabas.
As fitas da Pasta da Praxe, por outro lado, são 8, a qual é composta, por sua vez, por 2 abas.
Do mesmo modo, os logótipos de Praxe mais correntes utilizam 4 insígnias: Colher, Tesoura (um par de tesouras), moca e penico. Mas temos, igualmente, para o n.º ímpar, as "insígnias" de finalista que são 3«4: cartola, bengala, laço e roseta. É o grelo 1, mas termina em 2 pontas; é "Dux" ímpar, mas "veterano" e "doutor" são par (nº de letras e de sílabas).
Conforme o que queremos ver/defender, ambos os nºs aparecem.
 
Não me parece que haja qualquer fundamento em ligar tal a misticismos ou religiosidades por conveniência, sobretudo porque, claramente, essa explicação aparece depois para tentar legitimar algo que foi "inventado" por alguns, há largos anos atrás.

Em algumas casas, determinou-se ser assim, convencionou-se ser o N.º ímpar aquele que se sobrepunha, mas não entremos em exageros e ficção, nomeadamente numa matéria que não é, de todo, essencial ou essência da Praxe.
Os fundamentalistas praxistas que parem para pensar um pouco sobre o ridículo de querer tornar esta questão em cerne e fulcro da Praxe (juntamente com outras questões - que são tantas - deste género).
Em Coimbra, a título de exemplo, isso não é Praxe nem da Praxe. Aliás, falando em Tradição Académica Nacional, essa coisa dos números ímpares não tem fundamento algum: nunca foi, nem é Tradição ou Praxe.

Pedir discernimento e alguma inteligência não é pedir muito, ou é?

Existe a convenção do n.º ímpar em algumas situações, nomeadamente quanto à composição de organismos colegiais, com o intuito de evitar situações de empate nas decisões tomadas, embora possamos acudir com o facto de  pro alguma razão existir a figura do voto de qualidade.
Convenciona-se um n.º que tanto pode ser par ou ímpar, sem precisarmos de o justificar seja onde for. Se são 3 bengaladas na cartola, ou se são 4 tesouradas; se são 2 flexões ou se são 21, isso nada tem de místico, significativo ou se assume como dogma.

Ainda assim, quando nos deparamos, por exemplo, com a publicaçao de coisas do tipo " Latada, dia 20+1 de Outubro de 2008+1" (em que o "+1" é para não terminar é n.º par) isso não merece qualquer respeito, porque a estupidez não se respeita nem é Praxe.
O mesmo sucede com a estupidez de colocar as horas nesse mesmo preparo: 21:59 para não serem 22h00 ou 00.01 para não ser meia noite.
Nada tem de Praxe, nem nunca teve. É preciosismo bacôco e parvo e quem acredita, e defende isso, exemplo de pequenez intelectual.

segunda-feira, agosto 29, 2011

Notas sobre os Emblemas/Escudos nas Capas

Não é de hoje que a questão dos emblemas (que também se chamam "escudos"), que os estudantes colocam nas suas capas, tem sucitado vários debates, muitas dúvidas e muitas mais patetices.
Basta passar os olhos nos muitos fóruns sobre Praxe e Tradição Académica, para se verificar aquilo que é, hoje, uma enorme profusão de confusões, invenções e mitos, todos eles geradores de interpretações ad hoc e de uma "terra de ninguém" onde reina uma certa anarquia e a
crescente moda do "na minha capa meto o que bem me apetece", sob a desculpa esfarrapada do "a capa é minha" ou daqueles ridículos argumentos que alguns usam de que colocaram este ou aquele emblema porque tem um determinado significado (mesmo que nada tenham a ver com a praxis), como é o caso daqueles emblemas abonecados do "Tio", da "Avó" (onde se esquece/desconhece, que a capa não é montra de homenagens - e que a capa só tem essa função  - homenagem/agraciamento -  quando deitada no chão, e em condições bem definidas) ou aqueles simpáticos escudos que dizem, por exemplo "Sou de Engenharia", para só citar alguns.

Isto, caros leitores, para não falar, depois, nos denominados "emblemas obrigatórios", outra patetice, pois uma coisa é indicar os que são permitidos, outra é obrigar a colocar este ou aquele, quando se pretende meter emblema na capa. Coitado do pobre que só pretende ter 3 ou 4 emblemas na capa e se vê, de repente, na obrigação de meter mais 4, 5 ou 6 que os que desejava, só porque o código manda (e quem esfrega, naturalmente, as mãos de contente são as lojas que comercializam os emblemas).

SITUAÇÃO/PROBLEMA

Reveste-se, assim, tantas vezes de verdadeiro autismo, arrogante teimosia, e outras tantas de argumentação patéticos, o pensar-se que sendo a capa de cada um isso lhe confere o direito de fazer o que bem lhe dá na real gana ou a presunção que por estar em código significa estar correcto.
Mostra esse exercício não apenas ignorância, mas uma jactância  repleta de incoerência.
 
Para umas coisas segue-se a Praxe e o código à risca, para outras segue-se o umbigo, a própria vontade, a interpretação pessoal.....as conveniências.
Resume essa atitude que muitos estudantes não são, de facto, praxistas, querendo 2 pesos e 2 medidas: o genérico e o pessoal, defendendo a praxe com unhas e dentes, excepto quando isso melindra o seu espaço e comodismo, quando impede o pedestal da montra, da vaidade, do querer diferença e regime de excepção.
Outras vezes, defende-se a letra da lei que resulta não de uma base assente em tradição, mas do desvirtuar das coisas, normalmente por desconhecimento.

OS CÓDIGOS
Muitos dos actuais códigos legislam sobre a colocação dos emblemas, mas demonstram que os
seus autores desconheciam (ou fizeram vista grossa)  a real origem desse costume, abrindo portas à invenção e à profusão de um verdadeiro desfile de carnaval. Uma vez mais, o desconhecimento levou à interpretação sem critério e, consequentemente, à ficção, ao mito........ao erro.
Um dos grandes erros, pois, dos códigos, foi quererem legislar ao centímetro, burocratizando, complicando, tornando miudinho o que sempre se quis, e foi, simples e pragmático, que sempre foi prático e directo.
 
A Praxe em Portugal, esta mais recente, invencionada e baralhada nestes últimos anos, tornou-se mais papista que o Papa e pormenorizou exaustivamente sobre coisas e matérias sem real interesse, que não eram, nem são, essência - traduzindo-se tal em quantidades de artigos e mais artigos que tem tanto de inútil e pesado, quanto, muitas vezes, de ridículo (e de errado), em detrimento de questões bem mais importantes. Por outro lado, legislam sem explicar coisa nenhuma, o que é outra coisa que não se entende.

Veja-se, por exemplo, que, em certos casos, os códigos obrigam à colocação de certos emblemas, depois misturando os que são próprios da vida académica com disparates como o emblema da terra da mãe e o emblema da terra do pai.
Justificação para tal? Nenhuma que não seja a invenção de quem decidiu que era assim, porque sim, porque lhe pareceu. Explicação preto no branco do porquê e origem dos emblemas e adequação das práticas e regras à Tradição?  Nenhuma, claro está.

Obviamente que quando se desconhece, mais facilmente se inventa e, na cópia da cópia, no "acrescentar pontos ao conto", se vai delapidando, desvirtuando o paradigma e o que é genuino na Tradição.

COMPRA/OFERTA
 
Outro mito, resultante desse desconhecimento é, em diversos casos, a ideia propalada de que os emblemas não se compram, mas são recebidos por oferta, ou seja que os estudantes só podem colocar na capa os que lhes forem oferecidos (comprados por outrém), coisa que, além de errada, se reveste de algum ridículo.
Com efeito, não há, segundo a Tradição, qualquer determinação que limite a forma como os emblemas se adquirem, tanto podendo ser comprados ou ofertados.
Muito menos a questão de terem de se colocar em nº ímpar (regra que aplicada a botões e afins, se quis estender a tudo, sem muitos sequer perceberem que simbologia/superstição encerra).
Que o valor do nº ímpar tenha a sua razão (que aqui não importa discutir, mas sobre o qual pode o leitor AQUI procurar o artigo respectivo), pois assim seja, mas que se queira meter a questão dos emblemas, parece-me artificialismo, quando nunca isso foi determinação do uso, do costume, da praxis original.


A ORIGEM, A PRAXIS
 
O uso de emblema na capa  remonta, grosso modo, aos anos 30/40, mas restringia-se quase só ao monograma da Briosa (datado de 1929) que os jogadores usavam no equipamento. Sendo eles quase todos alunos da UC, passaram a cosê-lo também nas suas capas.
Rapidamente os adeptos e simpatizantes fizeram igual.
Na década de 1940 ,os orfeonistas também o começam a coser na capa o emblema do Orfeão, por dentro da capa. Nos anos 50 aparecem o Coro Misto e o Coral das Letras, que replicam as práticas anotadas para os anos 30 e 40.

Será essencialmente com a influência das Tunas espanholas (por contágio da “moda mochilera” e dos inter-rails, nos anos 60-70 e seguintes) que, a partir dos anos 80 do séc. XX (boom das tunas e das tradições académicas em Portugal), se generaliza o uso de emblemas nas capas.

Com efeito, era costume os jovens viajantes colocaram nas malas ou mesmo nas caixas de instrumentos (e até nos próprios), autocolantes com os emblemas das cidades/instituições visitadas (e/ou países).
É esta a origem dos emblemas no contexto da recuperação das tradições académicas, operado a partir dos anos 80 do séc. XX; um costume rapidamente aculturado pelos estudantes portugueses, com especial incidência nos tunos.
 
Os tunos compravam nas lojas de "souvenirs" os emblemas locais (cidade, país) e, muitas vezes, também, os recebiam das tunas congéneres ou instituições visitadas os respectivos escudos/emblemas (ou também os compravam na loja associativa, na reprografia ou secretaria caso existisse).
Uma vez mais, se verificou, e verifica, a contínua troca de usos e costumes que, entre Tunas e Praxe se foi operando, sendo, neste caso, a Praxe a (re)inspirar-se na tradição das Tunas (neste caso das do país vizinho).


Sobre esta questão dos emblemas, recupero, ainda, o avançado pelo historiador António M. Nunes, o maior especialista em questõesde trajes e etiqueta académica que temos em Portugal, e que colabora muitas vezes com o N&M:

"A UC tem heráldica e cores institucionais consagradas nos vários estatutos. A par da heráldica oficial (faculdades, cursos, cadeiras), os estudantes de Coimbra inventaram no século XX inúmeros selos e emblemas para a sua associação de estudantes, grupos corais, tunas, etc. Estes últimos são em geral bicolores (apenas admitem preto e branco) e podem estampar-se em crachás e pines. O motivo mais comum em todos eles é a Torre da Universidade. O mais antigo é o da Académica, Equipa de Futebol, desenhado por 1929 (se não me falha a memória), que das camisolas dos atletas passou poucos anos depois para a bandeira e papel timbrado da AAC.

 O emblema da Académica/Equipa de Futebol começou a ser usado primeiramente nas camisolas. Como a maior parte dos futebolistas da Académica estudavam na UC, estes começaram a usar o emblema futebolístico no canto interior direito e ao fundo da capa. Na segunda metade da década de 1930 criaram-se em Coimbra várias claques de apoio à Académica e estes grupos de adeptos também começaram a coser na capa, por dentro, o emblema da Académica, sempre em tecido estampado preto e branco.

 Na década de 1940 afirma-se o emblema do Orfeon e os orfeonistas também o começam a coser na capa, por dentro. Nos anos 50 aparecem o Coro Misto e o Coral das Letras, que replicam as práticas anotadas para os anos 30 e 40.

 Após 1974, com a fundação da Estudantina aí por 1984 tudo muda. Os emblemas passam a ser multicolores e abrangem um universo ilimitado de representações: escudo de Portugal, clube de futebol, município, curso, cidade visitada em digressão...

 Cheguei a Coimbra em 1985 e por essa altura havia uma "guerra" de palavras entre os praxistas que condenavam o uso abusivo de emblemas e os que defendiam a liberdade de uso de emblemas. A matéria chegou a ser regulada pelo Conselho de Veteranos, mas a corrida aos emblemas continuou.

 A par dos emblemas que acabo de referir há ainda os distintivos oficiais que decorrem dos estatutos e da cultura greco-latina. A Reitoria tem selo próprio e cor oficial (verde). Cada Faculdade tem cor própria e distintivo. O distintivo de uma Faculdade é sempre um deus ou uma deusa greco-romano, com determinados atributos. Dentro de cada Faculdade, cursos há que têm representação autónoma como Música, Geometria ou Astronomia.
A partir das insígnias da alegoria masculina ou feminina a tradição autoriza criar distintivos que a UC representou em pinturas de tectos, paredes, e os alunos podem usar em crachás, pines, alfinetes e emblemas. Por exemplo, num crachá alusivo à Faculdade de Direito, não se figura a deusa Justitia, mas apenas a espada e a balança no interior de uma moldura oval ou circular de folhas de louro. Esta matéria não tem sido alvo de estudos e a própria UC não tem publicado um manual ou regulamento de haráldica, símbolos e alegorias.
Os códigos de praxe também não regulam a matéria. Na prática o que acontece é que os cursos inventam pseudo distintivos kitsch que não obedecem às normas heraldísticas. Há muitos exemplos. Posso citar emblemas com uma língua humana a sair de um medalhão circular, que supostamente quereria significar um curso de línguas e literatura. Ou uma serpente enrolada numa palmeira, que supostamente representaria Farmácia, quando na verdade representa uma farmácia de venda de remédios. Ou o escudo/euro que supostamente representaria Economia.

Em suma, 50% dos distintivos de curso, mesmo os que existem na UC, são puras invenções kitsch sem fundamento heraldístico nem suporte na cultura greco-romana."


NA CAPA

A Tradição manda, pois, que o estudante, que assim o deseje, e sem haver nº mínimo ou obrigatório, nem ordem de colocação, coloque na sua capa (seja à sua conta ou também por oferta):
 
- os emblemas/escudos da cidade/país de origem;
- cidade/país onde se cursa (União Europeia, também);
- instituição e/ou faculdade frequentada;
- curso em que se está/esteve (pois há quem mude de curso);
- instituições a que se pertença, no estrito âmbito académico (nada de colocar o da associação cultural lá da terra só porque se foi, ou é, vogal da direcção ou mero sócio);
- emblemas das cidades/países e instituições/grupos visitados/contactados em representação oficial académica (visita da de estudo, Erasmus, digressões da Tuna ou de outro grupo ou associação de índole académica).


Relembramos, uma vez mais, que não existe nenhuma obrigatoriedade em pôr todos estes emblemas, seguir uma determinada ordem (por norma, é cronológica apenas) ou pôr um nº X mínimo. O que dita a Tradição é que seja este o âmbito da colocação, seja este o princípio basilar. Quem só quiser colocar 1 emblema põe apenas um; quem quiser colocar 3, põe 3 e quem quiser colocar 50 (acontece muito com os tunos) mete 50. Deve é a colocação obedecer ao princípio acima enumerado, dentro do estrito âmbito académico e tradicional.

Também, se verifica, em muitos casos, o uso do emblema do clube do coração, embora seja, concedamos, um despropósito (pois nada tem a ver com a vida académica - tal como o não são as questões de preferência religiosa ou política).
Contudo, há que diferenciar, por exemplo, a ligação existente, formal, entre academia e desporto (extra-académico), quando, por exemplo, o clube local está fortemente ligado aos estudantes, como é o caso da Briosa em Coimbra (que é organismo pertencente à AAC).
Exceptuaremos, a título de exemplo, o caso dos alunos que joguem numa equipa desportiva da Associação Académica e que, naturalmente, podem colocar esse emblema, caso exista.

Todos os demais emblemas, que não representem formalmente a actividade académica do estudante (no associativismo/organismos académicos oficiais ou em âmbito pedagógico - as referidas visitas de estudo ou intercâmbios científicos/culturais) são circo, carnaval, invenção. Assim, emblemas da terra dos pais e outros tantos não têm âmbito ou precedente académico que justifique constarem numa capa estudantil (ou outra peça do traje, chame-se ela como chamar).
O mesmo dizer dos emblemas que dizem "Praxe" ou com bonecos alusivos à praxe, ou os que identificam o "Finalista" (a identificação do finalista faz-se através das insígnias pessoais e não com um rótulo na capa), salvo o monograma do organismo de Praxe a que se pertence ou está ligado.

Em suma,

Sejam eles 3 ou 30, comprados ou oferecidos, importa é que eles traduzam o real exercício da cidadania académica e não carnavalescas desculpas para enfeitar a capa (que ela não é árvore de Natal ou a parede lá do quarto de um qualquer imberbe teenager).

Quem quiser respeitar a Tradição, observará a mesma. Quem preferir outros caminhos, mesmo que consignados em código, fá-lo-á, ciente de que está a seguir invenções.
Não é por um erro estar consagrado num código, disfarçado, assim, de lei, que tal o legitima ou o torna numa virtude (e muito menos numa tradição).
E é pena que os legisladores, os praxis-makers, nunca se tenham dado ao trabalho de pesquisar a origem dos emblemas, para adequarem devidamente as regras de uso.

Mas lá está: quando nem os líderes sabem de Praxe e Tradição, o exemplo a seguir pelos demais é quase sempre o que sabemos.