quarta-feira, fevereiro 05, 2014

Praxe - semente de democracia, igualitarismo e meritocracia



Na maré de disparates que se têm dito no debate actual sobre a Praxe Académica, impõe-se uma reflexão mais ou menos séria sobre os princípios sobre os quais assenta a Praxe.

Importa fazer desde já uma ressalva. Na presente reflexão,  entraremos em linha de conta apenas com a noção de Praxe Académica tal como foi cristalizada pela vivência académica em Coimbra, tendo sido posteriormente transmitida ao Porto e, em certa medida, a Lisboa (até aos anos 1930), a partir da formação de institutos e escolas de ensino médio e superior nestas duas cidades.

É o que designaremos, para efeitos da presente reflexão, por "praxe de matriz coimbrã" ou simplesmente "Praxe".



No presente artigo, "Praxe" será sempre usada no sentido de "conjunto de normas que regulamentam as relações entre estudantes" - nunca "gozo ao caloiro" ou "sanção".

CRÍTICAS À PRAXE

A crítica à Praxe assenta essencialmente no seguinte:

  • a Praxe promove a desigualdade entre os estudantes;
  • a Praxe assenta numa hierarquia rígida que privilegia o número de matrículas (a burrice) em detrimento do mérito;
  • a Praxe promove a violência e a coacção.


Com muita pena, teremos de concordar que assim tem sido.

Para sermos isentos, temos de admitir que o discurso e a prática dos praxistas autorizam estas observações.


Lamentavelmente, a maioria dos críticos e um número demasiadamente grande de praxistas estão convencidos de que assim é, ignorando quer os contextos históricos e sociais, quer a evolução e os mecanismos de consolidação e cristalização de práticas quotidianas em tradições. Não só ignoram como desprezam olimpicamente qualquer reflexão sobre o passado.


Quando abordamos a Praxe, é importante fugir das definições de dicionários e pseudo-dicionários, e analisar não só o conteúdo dos códigos de Praxe, mas, e acima de tudo, os relatos de antigos estudantes (como o Palito Métrico, o In Illo Tempore ou O Livro do Doutor Assis).

É igualmente importante ter em conta a massa humana que nos tempos mais recuados frequentava a Universidade. É preciso ter ainda em conta o ordenamento jurídico nacional até pelo menos meados do século XIX.

Comecemos por este último ponto.

Até às grandes reformas jurídicas promovidas pelo Liberalismo vintista, com Mouzinho da Silveira à cabeça, ao longo do chamado Antigo Regime, havia leis diferenciadas, de acordo com o estatuto social (ou Estado) a que os cidadãos pertenciam. Eram os chamados "foros". Podemos afirmar, sem risco de estarmos muito errados, que havia uma lei para ricos e outra para pobres. Se nos nossos dias existe essa percepção, em tempos passados era uma realidade.

A população universitária era constituída essencialmente por aqueles que tivessem posses para pagar as propinas: filhos de nobres, filhos de mercadores ricos ou filhos de lavradores abastados, para além de membros das ordens religiosas e militares.

Encontravam-se, assim, reunidos num mesmo espaço jovens oriundos de diferentes Estados ou Ordens sociais: Clero, Nobreza e Povo, cada qual sujeito a (ou usufruindo de) foros especiais.

Na rígida hierarquia social vigente, os diferentes elementos teriam de tratar-se de acordo com fórmulas extremamente elaboradas - de "Vossa Senhoria" a "tu", de acordo com o "degrau social" em que se encontrassem.


Os regulamentos universitários encontraram formas de esbatimento destas diferenças. Uma delas foi a introdução de um uniforme académico, que acabou por ter uma dupla função: por um lado, distinguir os universitários face à população em geral, permitindo a identificação dos que usufruíam do Foro Académico; esta intenção teve um outro efeito: produzir uma igualdade a nível horizontal, entre os estudantes, uma vez que as diferenças de nascimento e condição não se faziam sentir por via da forma de vestir.


Para além dos regulamentos institucionais e paralelamente a estes, os estudantes desenvolveram eles mesmos formas de nivelamento entre si.


Ao chegar à universidade, o estudante era "Novato", não o filho do sr. Conde ou o sobrinho do pároco. No 2.º ano, era um pé-de-banco; no 3.º, um candeeiro - e por aí adiante.



Sujeitos à mesma lei comum, os estudantes desenvolveram e vivenciaram, muito antes da lei civil, o princípio democrático da isonomia: a igualdade perante a lei.



Assim, em épocas de profundas desigualdades, os estudantes cultivaram e mantiveram uma tradição democrática e - no contexto do Antigo Regime - revolucionária.

Na "micro-sociedade" académica, todos eram iguais perante essa lei. O estudante era sujeito, por assim dizer, a um "banho" de democracia e igualdade pelo menos durante o tempo que frequentava Coimbra. Assim se compreende que a Praxe só tenha validade dentro dos limites da cidade (tal como previsto no Código da Praxe de Coimbra e no Projecto de Código da Praxe Académica do Porto de 1983): havia a consciência de que as regras aplicáveis no meio universitário eram diferentes das que se aplicavam fora.

É, portanto, falso que, na sua essência e origem, a Praxe seja anti-democrática e promova desigualdades. Muito pelo contrário. As práticas e costumes que estão na base daquilo a que actualmente se dá o nome de Praxe foram precursores na aplicação do princípio da isonomia, que, criado na democracia ateniense e enunciado pelos teóricos da Revolução Francesa, haveria de demorar mais de um século a entrar na ordem jurídica portuguesa. Repare-se, por exemplo, na atitude provocatória dos antigos estudantes ao darem o nome de "república" - em tempos de monarquia - às suas casa comuns.

É um facto que a Praxe impõe uma hierarquia rígida entre os estudantes: os do 2.º ano têm mais direitos que os do 1.º; os do 3.º mais direitos do que os do 2.º - e por aí adiante. Além disso, quem tem mais matrículas tem um grau mais alto na hierarquia.

Os detractores da Praxe dizem que esta hierarquização promove os que menos estudam - os "mais burros", portanto.

Têm, de certa forma, razão - e mais uma vez foram os praxistas quem lhes deu razão.





No entanto, estão redondamente enganados - eles e quem lhes deu razão.

Nas últimas décadas, assistiu-se à valorização do número de matrículas como critério absoluto e que se sobrepõe a qualquer outro na "mobilidade social" académica.

Na verdade, os "direitos" em Praxe vão-se conquistando à medida que se progride no curso, não com a simples acumulação de matrículas. Este critério só serve de factor de desempate e critério de precedência entre estudantes que se encontram no mesmo ano curricular.

Segundo a Praxe, só se atinge o grau de Veterano quando se usou o grelo. Isto significa que se passou de metade do curso. Por mais matrículas que tenha, um aluno a quem não tenha sido imposto o grelo não pode ser veterano. E mesmo que um aluno grelado seja veterano, não está acima de um aluno fitado que o não seja - por exemplo, num tribunal de Praxe.

O número de matrículas não é, por si só, um "mérito": acima disto está o progresso escolar do aluno.

É falso, por isso, que a Praxe promova a incompetência e a burrice.  A Praxe é, na sua essência, meritocrática.

O abuso de certas "habilidades" (como a dos veteranos por mérito académico) perverteu a lógica do sistema. De facto - e contra a própria história e tradição - a prática actual acaba por promover a incompetência, a repressão e a subordinação acriterial.

Os costumes que se vieram a condensar em "Praxe Académica", têm, por isso, fundamento em valores de democraticidade, igualitarismo e meritocracia.


Lamentavelmente, aquilo a que actualmente se assiste em muitos casos constitui uma inversão dos valores basilares: uma hierarquia imposta e mantida em nome de uma ignorância e prepotência gratuitas, ao arrepio da própria tradição que tantas vezes - e até com boas intenções - se pretende defender.

sábado, janeiro 25, 2014

Notas ao (bada)MECO praxismo nacional.


Caros leitores,

 

O N&M não podia, naturalmente, ficar em silêncio perante a tragédia do Meco, onde 6 jovens perderam a vida e um outro ficará irremediavelmente traumatizado, quer pelo ocorrido quer, porventura, por um enorme sentimento de culpa que, como Dux, naturalmente lhe cabe por inteiro.

 Não nos adiantamos antes, porque os indícios eram pouco claros, mas, com as revelações decorrentes da reportagem levada acabo pela jornalista Ana Leal, que passou ontem no Jornal das 8 da TVI, poucas dúvidas restam sobre o modus operandi e concepção distorcida da Praxe que reina na Universidade Lusófona de Lisboa e que reflecte (por excesso) o que vai acontecendo de norte a sul do país, sem nenhuma excepção, nas actividades de recepção aos caloiros: falta de civismo, de bom-senso e muita ignorância e invenção à mistura.

O que os documentos do COPA (Conselho Oficial da Praxe Académica) comprovam são práticas de teor criminal e inaceitável que só nos podem revoltar, sejamos defensores da Praxe ou não.
 Adiantaremos que são a prova cabal daquilo que é interpretar a Praxe nos limites mais opostos à mesma, num fundamentalismo estúpido, promovido por gente estúpida, desinformada e mal-formada (mas muito “bem” formatada).


 DURA PRAXIS ???

Claro que são muitas as vozes que se indignam, e com razão, de ambos os lados da barricada.

Do lado da opinião pública, é natural, e legítimo a condenação destas práticas, e de todas demais que ostentem o nome de Praxe, por tabela.
O que sucedeu no Meco, mas não só: o que vai sucedendo pelo país, com as praxes (seja elas entre doutores ou com caloiros), só tem confirmado o divórcio e repúdio que a sociedade nutre para com estes ritos que deixaram de ser o tradicional gozo ao caloiro, para se transformarem numa selva onde vale tudo, desde que isso seja tido como praxe (e que alguns codigozecos e organismos de praxe legitimam ou consentem).
Do lado dos praxistas, existe uma natural e corporativa indignação com aquilo a que apelidam de sensacionalismo mediático, argumentando, como de costume, com teorias da conspiração, interesses económicos em favor de shares, etc.
De todos os quadrantes praxísticos vemos a defesa da Praxe ser feita com base no falacioso e eufemístico argumento: “Isso não é Praxe; na nossa academia não é assim”.

E começam aqui, neste encurvar da realidade, o auto-fuzilamento dos pés dos praxistas.
Obviamente que o que sucedeu no Meco e o que a reportagem comprova das práticas internas do COPA não serão regra, antes uma excepção, em razão da gravidade extremismo, mas isso não esconde uma verdade absoluta e factual: reina nas praxes, de norte a sul do país e ilhas, a apologia do palavrão da falta de decoro e decência, o desrespeito e abuso, a coacção física e psicológica e práticas que vão desde a ridícula brincadeira copiada dos escuteiros ou jogos tradicionais, a jogos de cariz sexual ou ajavardamento do caloiro (sujando-o com todo o tipo de porcarias) - achando, na sua ignorância, que isso é Praxe (ou praxes).

O doutores na Praxe estão revoltados e receosos com generalizações, e por um lado têm razão, tal como as Tunas e outros organismos que usam traje académico, pois assistem a uma colheita de algo que foi semeado durante anos, e agora se arrisca a ser de uma fartura que pode revelar-se mortal (e para alguns tem-no sido, literalmente).
O problema, meus caros, é que os receios são fundados, precisamente porque se pode generalizar, precisamente porque no edifício o académico há sempre uma ou outra telha de vidro ou uma clarabóia de tamanho XXL.
Bastaria aludir a um exemplo crasso que ocorre em tantos lados: Afirmar e achar que quem não foi praxado não está na Praxe, não pode trajar, não pode usar insígnias …….
E isso, meus caros, é usualmente colocado aos caloiros de uma só forma: “ou és pela praxe ou és anti-praxe. Ou aceitas ser praxado ou ficas proibido de X, Y e H”.
Se isto não é coacção, não sei que será. Praxe não é, garanto...nem praxes.

Atrás disso vem o resto.

E não enjeitemos outra questão, também ela grave: o argumento que tantos disparam, de gatilho leve, de que “quem não vive a Praxe não compreende”.
Aqui puxaremos dos poucos galões que possamos ter para dizer que quem afirma isso não tem sequer noção da parvoíce que disse (e está bem de ver que, não ter noção das coisas, não é só no Meco).

O N&M considera-se suficientemente conhecedor e experiente para também afirmar em coro, a par com a opinião pública, que grande parte daquilo que vê nas praxes não compreende. Não compreende porque sabe o que é Praxe, e sabe que a larga maioria das actividades apelidadas de praxe, afinal, são coisa nenhuma.
E enquanto os estudantes tiverem a presunção que sabem o que é Praxe a coisa não muda.

A DEFESA DA PRAXE


Têm razão os muitos estudantes que afirmam que o que se passou na Lusófona não é Praxe. Têm toda a razão. Mas também o não são grande parte das suas práticas, independentemente de não causarem feridos ou mortes (antes ferindo e manchando a imagem que dão à opinião pública). Como acima dito, ninguém tenha a presunção de afirmar que "na sua casa é que é", só porque não há casos similares aos da Lusófona. Não há, porventura, com tal gravidade, mas heresias praxísticas.....são aos pontapés, contribuindo de igual forma para o actual estado de coisas.

O "inimigo" a "abater", caros praxistas, não é a opinião pública e muito menos os jornalistas ou cronistas. O inimigo está nos organismos de praxe, nas praxes, no vosso círculo, nas vossas instituições. O inimigo chama-se ignorância, invenção e falta de bom senso e civismo.

Se a opinião pública não sabe o que é Praxe e julga apenas por aquilo que vê nas notícias, nas fotos, nos vídeos do youtube, no que vê na rua…………………… ajuíza, contudo, com base em factos reais e não em ficção, na lenha que lhe fornecemos (e com que agora, muitos, exigem auto de fé).

Se a opinião pública e os jornalistas caem logo em cima de qualquer problema ligado a praxes, generalizando e extremando posições, fá-lo com base na imagem e no produto Praxe que lhes foi “vendido” e publicitado pelos próprios praxistas, pelos próprios estudantes, ao longo de anos e anos (traduzido em práticas e abusos reais).

Não se faz a defesa da Praxe argumentando que todos os incidentes que ocorrem são excepções, porque não o são: são apenas o corolário de práticas já de si envenenadas e condenáveis que deram para o torto (muitas outras, em muitas outras academias, não tiveram desfechos tão graves, mas não deixam de ser práticas altamente reprováveis).

A defesa da Praxe e a reabilitação da imagem do estudante e das Tradições Académicas faz-se com os estudantes a indignarem-se e condenarem essas mesmas práticas distorcidas e abjectas que inundam as recepções ao caloiro em toda a geografia portuguesa, e indignando-se com as pessoas que protagonizam esses actos.
É isso que a opinião pública espera: ver que os estudantes estão dispostos a fazer algo mais do que escamotearem, desculparem-se ou sacudirem a água do capote dizendo que "isso são os outros" ou apenas "uns quantos". As pessoas esperam ver nos estudantes uma mudança e desejo, posto em prática, de rever posições, concepções e atitudes, passando a pente fino tudo o que tem sido o cardápio de pseudo praxes.

 A defesa da Praxe passa por um movimento de contestação interna e de um corporativismo que, desta vez, faça saltar a lei da rolha (rolha do "isto só é para quem lá está"), porque quem não deve não teme, não esconde nem faz as coisas às escondidas. Praxes correctas não temem o escrutíneo seja de quem for, não se escondem como se fossem rituais maçónicos ou sociedades secretas.

A haver caça às bruxas, não é preciso “entrupar” as academias para fazer a defesa da honra com chavões enganosos de que na sua casa não é assim ou que isto ou aquilo não é Praxe. As bruxas não estão numa floresta literária ou cinematográfica dos contos dos irmãos Grimm, nem na suposta falta de conhecimento da parte da opinião pública sobre Praxe. As bruxas vivem e reinam nas academias, alimentadas pela passividade e consentimento de todos, de todos os que por falta de informação e espírito crítico não questionam as práticas, os códigos e os seus organismos de praxe, não procuram saber e fundamentar o que fazem, repetindo sem critério e depois fazendo o papel de madonas ofendidas, quando se lhes diz que estão errados.

A defesa da Praxe, por isso, não se faz com pseudo-campanhas facebookianas a pedir para as pessoas meterem imagens de praxes no perfil -  e incitando-as a dizerem bem das praxes, nem com a criação de páginas em defesa da Praxe (onde se misturam e diluem discursos muitas vezes paradoxais) - que acabam por fazer precisamente o que os delatores das praxes querem: dividir para reinar, impedindo que os estudantes parem para reflectir e falar a uma só voz e com um só discurso coerente (pensando e ponderando, antes de se precipitarem).
Não se faz com petições vazias de conteúdo e que apenas exprimem uma mal amanhada forma de protesto, sem nenhuma proposta, nenhum fio condutor, numa linha de acção que não seja bater o pé, fazer barulho e exprimir um amuo de quem só tem para dizer "a Praxe é fixe, eu só tenho coisas boas a lembrar e dizer dela".
Do mesmo modo que não se faz, igualmente, atirando-se a votar em sondagens como quem transfere o seu academismo e responsabilidade para uma gráfico que não justifica nem legitima posição alguma.

E quando leio, em alguns sites, a sugestão de um debate com a participação de representantes dos conselhos/comissões de praxe, ou de uma tal Comissão Nacional das Tradições Académicas…………acreditem que tremo que nem varas verdes, sabendo que entregar a defesa da Praxe a esses organismos é cometer suicídio, pois  virão com o mesmo argumentário saloio de que não conseguem supervisionar tudo e todos, que são casos excepcionais, que assinaram uma carta de princípios, que punem os infractores ou que “aquilo” não é Praxe. Virão com a desculpa que os seus códigos já proibem abusos, esquecendo-se que o papel nada vale se não passar à prática.
Na prática…….. continua tudo na mesma, grosso modo.
Alguém os viu a promover a formação e informação?
É, acaso, o debate das questões, a base da sua acção integradora? São esses organismos fonte de conhecimento, excelência e rigor no tocante ao conhecimento sobre Tradição Académica e sobre lisura de procedimentos?
Pois.........................

Para enterrar a praxe não é precisa a opinião pública ou supostos jornalistas/cronistas mal intencionados……….
Para enterrar a praxe temos tido, ao longo destes anos e anos, coveiros com fartura, formados nas praxes, e muitas vezes ostentando cargos praxísticos, coveiros de “capa e batina” que fazem das suas colheres orgulhosas pás.
Há que reconhecer que a tragédia do Meco apenas se tornou a gota de água para um acumular de situações diversas que, em menor ou maior grau, se inscrevem na lista de causas para o actual estado a que se chegou.

É preciso dizer basta e começar a fazer uma limpeza, uma renovação, desde logo de mentalidades.

De nada vale apregoar que a Praxe tem aspectos fantásticos ou que determinados filmes são parciais e só mostram o lado “negro” das coisas. Enquanto existir um lado negro, de nada vale tentar tapá-lo ou menoriza-lo com campanhas de contra-informação e limpeza da imagem.
Enquanto os problemas não forem resolvidos internamente, enquanto o edifício académico continuar a sofrer de degradação e falta de manutenção, nenhum taipal ou grafiti artístico irá disfarçar os buracos, as estruturas danificadas que ameaçam fazer ruir a construção.

Se os praxistas e organismos de Praxe querem fazer algo, de facto, em favor da Tradição Académica, comecem por aceitar e reconhecer as suas falhas e procurem eliminar as más práticas, desde logo fazendo uma revisão dos códigos e apostando na sua própria formação, com base em informação credível, ao invés de inventarem tra(d)ições, interpretarem sem saberem ou acharem que o assunto não diz respeito a ninguém.

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O que se passou no Meco não deve ser esquecido, antes servir de pretexto para mudanças profundas. Que nada fique como dantes, sob pena de se estar a auto-desferir o golpe definitivo na Praxe.

Todos aqui saem a perder, desde logo as famílias cujo sofrimento não pode ser maior (mais ainda depois de começarem a realizar oque de facto se passava na Lusófona).
O N&M endereça condolências aos familiares, solidarizando-se com a sua dor, pois a perda é irreparável, independentemente da inexplicável insconsciência daqueles miúdos.

Todos saem a perder, porque também a imagem da Praxe (e porventura de outras organizações) foi fortemente abalada. Mas já precisava desse abanão, porque se chegou a um ponto de ruptura necessário há muito. A história da Praxe é feita de continuidades e de rupturas.
O tempo é de ruptura (é tempo de a promover), para reencontrar a continuidade antes perdida, regressando ao que é genuino, digno e enriquecedor da cultura e imagem estudantis, àquilo que se coaduna com valores que uma sociedade de bem, democrática e respeitador deve valorizar.

Podermos ter algo a ganhar, quando as pessoas perceberem que há que redescobrir o que é Praxe (e o que mais temos é ignorância nesse capítulo), e procurarem adequar as suas “tradições” à Tradição, de facto (e, para isso, é preciso investigar e pesquisar).

terça-feira, janeiro 07, 2014

Notas a Augusto Hilário nos 150 anos do seu nascimento.

Celebramos, este ano (2014) e este mês de Janeiro, 150 anos sobre o nascimento do maior vulto da Academia de Coimbra e o maior académico nacional, nascido em Viseu em 1864 e onde viria a falecer a 3 de Abril de 1896.

Passamos, agora, a transcrever o que consta do site http://paginas.fe.up.pt/~fado/por/augustohilario.html (muito provavelmente baseado em José Niza, Fado de Coimbra II (Da Colecção “Um Século de Fado”, Edição da Ediclube, Alfragide, 1999), obra que contém diversas imprecisões (algumas das quais AQUI enunciadas).

"Augusto Hilário da Costa Alves, nasceu em Viseu em Janeiro de 1864 na Rua Nova. A data do seu nascimento é ainda uma incógnita, porquanto o registo de baptismo refere que foi “exposto na roda desta dita cidade pelas cinco horas da manhã do dia sete do dito mês e ano”, sendo baptizaso a 15 do mesmo mês e ano pelo páraco da Sé, com o nome de Lázaro Augusto. Ao receber o crisma em 26 de Maio de 1877, muda o nome para Augusto Hilário.

As dúvidas que se poderiam levantar em relação à sua filiação ficam desfeitas em face da certidão de óbito que refere Augusto Hilário como filho legítimo de António Alves e de Ana de Jesus Mouta. Crê-se assim, que Hilário terá sido fruto de um enlace pré-matrimonial sendo por isso exposto na Roda e posteriormente reconhecido.

Frequentou o liceu de Viseu com o intuito de fazer os estudos preparatórios para a admissão à Faculdade de Filosofia, mas os anos foram passando sem que concluísse a disciplina de filosofia.
Matriculou-se em Coimbra, mas também aí os resultados não foram famosos e revela-se então um apaixonado pela boémia coimbrã, notabilizando-se como cantor de fado e executante de guitarra. Os seus fados correram o país de lés a lés, ficando imortalizado o Fado Hilário.

 Em 1889-90, foi examinado no liceu de Coimbra e tendo feito uma prova admirável foi aprovado com boa classificação. Matriculou-se então no 1º ano de Medicina, tendo assentado praça na Marinha Real para obviar à falta de recursos, recebendo um subsídio do Estado.

A sua actividade de fadista e trovador era conhecida pelo país inteiro, em particular na Academia Coimbrã onde era o “Rei da Alegria”. O seu esmerado trato e a sua cordialidade faziam dele o grande animador dos serões académicos. Nos seus fados, interpretou poemas de Guerra Junqueiro, António Nobre, Fausto Guedes Teixeira, para além dos que ele próprio criou.

Parte alta da sua vida de fadista foi a participação na festa de homenagem ao grande poeta João de Deus que se realizou em Lisboa no Teatro D. Maria II, a que se associou a Academia de Coimbra e onde participaram entre outros o Prof. Doutor Egas Moniz. No decorrer do espectáculo, após a sua intervenção e em plena apoteose do público presente, Hilário atirou para o meio da multidão a sua guitarra, da qual nunca mais nada se soube. O Ateneu Comercial de Lisboa a 2 de Junho de 1895, oferece-lhe aquela que foi a sua derradeira guitarra e que se encontra actualmente na posse do Museu Académico de Coimbra, por especial oferta da família.

Como poeta escreveu dezenas de quadras que se imortalizaram nos seus fados e das quais se destacam Fado Hilário (36 quadras); Novos fados do Hilário, recolha de um conjunto apreciável de quadras; Carteira de um Boémio, conjunto de versos manuscritos de que se ignora o seu paradeiro.
 A sua grande capacidade de improvisar fazia dele uma figura popular e sublime que entusiasmava quem o ouvia tendo actuado em Viseu, Coimbra, Lisboa, Espinho e Figueira da Foz, entre outros lugares.

Foi uma hora de luto nacional aquela que o ceifou à vida no dia 3 de Abril de 1896, pelas 21 horas, vitimado por uma “ictericia grave hypertermica”. Morreu na sua casa da Rua Nova, contando 32 anos. Frequentava então o 3º ano da Escola Médica da Universidade de Coimbra e era aspirante da Escola Naval.

O seu funeral foi imponente, com uma aparatosa multidão que o quis acompanhar até à sua última morada no cemitério da cidade de Viseu onde ficou sepultado em jazigo de família [um erro, pois nunca existiu jazigo de família]. Em carta de condolências datada de 5 de Abril de 1896, remetida de Mangualde à sua mãe pelos seus colegas é feita a síntese do sentimento académico de então:

        “Está de lucto a mocidade portugueza!”

 Chorado por admiradoras, amigos e conhecidos, chorado por simples amantes do fado, Hilário marcou para sempre a academia conimbricense ao enraizar-lhe a alma que lhe faltava, o fado. A admiração provocada nos seus contemporâneos levou a que o seu nome fosse dado a um jornal que se fundou em Viseu pouco tempo após a sua morte. Em 12 de Junho de 1896, surge nas bancas o Hylário, com a figura do fadista ao centro da 1ª página e tendo a guitarra como ex-libris. Semanário “imparcial e livre de quaesquer agrupamentos partidários”, assim foi também o seu homónimo.

 Se nunca foi feita uma biografia do poeta-cantor, referências em jornais e revistas não faltam. Vejam-se, por exemplo, os artigos publicados logo após a sua morte, na revista O Occidente, de 1896, no jornal que teve o seu nome ou noutro semanário de Viseu, A Liberdade, que transcreve em vários números as notícias saídas em jornais de todo o país aquando da sua morte.

Em 1967, a família, por intermédio da Srª Dª Maria Alice Trindade de Figueiredo, entregou ao Museu Académico de Coimbra uma das guitarras que o seu tio-avô dedilhara em muitas ocasiões e que lhe tinha sido oferecida pelo Ateneu Comercial de Lisboa quando ali se deslocou a cantar.

 Em 30 de Junho de 1979, é a vez da Camara Municipal de Viseu promover uma grande homenagem ao poeta a que se associou toda a população da cidade e academia Coimbrã, tendo sido atribuído o seu nome a uma rua da cidade e descerrada uma lápide na casa onde nasceu.

Em 1 de Dezembro de 1987, a Associação Académica de Coimbra, recordou o grande Augusto Hilário, por ocasião do I Centenário da Academia, editando um desdobrável onde se podia ler um artigo escrito no Jornal dos Estudantes, de 1 de Maio de 1896, poucos dias, portanto, decorridos sobre a sua morte. É mais um testemunho da dor que a morte da fadista provocou no coração de todos os estudantes, futricas e tricanas de Coimbra."

É uma efeméride singular esta, de um icone nacional que foi transversal na sociedade portuguesa, alcançando o estatuto de mito, razãopela qual questionamos, aqui, a razão de também este grande símbolo não ter sido elegível para o Panteão Nacional, já que muito mais do que uma bandeira de Coimbra, mas do fado, dos estudantes e da cultura nacional, ainda hoje recordado, cantado, celebrado, querido por todos, passados todos estes anos.
Fomos, por isso, a Viseu, para vos trazer alguns artigos publicados na imprensa local (neste caso nos periódicos "A Liberdade" e "O Comércio de Viseu"), a que somámos mais um ou outro ("Occidente" e "Branco e Negro") que fomos desencantar na Hemeroteca de Lisboa, sobre o que dele se escreveu após o seu falecimento.
Mas fique certo o nosso prezado leitor que é apenas uma gota no oceano jornalístico de milhares de artigos publicados na altura por todos os jornais e revistas (durante meses a fio).



A Liberdade, 15 Agosto 1889, 19 Anno, nº 976, p.2
O artigo acima é um de vários, descobertos recentemente no âmbito da  investigação levada a cabo pelos autores de "QVID TVNAE? A Tuna Estudantil em Portugal", que atesta da fundação da Tuna/Estudantina de Viseu em 1889 (alguns anos antes do inicialmente pensado), pela mão de Augusto Hilário (sendo, a par com a Estudantina de Coimbra e Porto, âmbas datadas de 1888, das mais antigas tunas portuguesas documentadas).
A Liberdade, Anno XXVI, Nº 1494 de 21 Fevereiro de 1896, p.1
A Liberdade, Anno XXVI, Nº 1507 de 07 Abril de 1896 p.1
A Liberdade, Anno XXVI, Nº 1507 de 07 Abril de 1896 p2
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 Branco e Negro n.º 2, Lisboa, de 12 Abril de 1896, pp.12-13
 
A Liberdade, Anno XXVI, Nº 1509 de 14 Abril de 1896 p.1
A Liberdade, Anno XXVI, Nº 1509 de 14 Abril de 1896 p.2

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Occidente N.º 623, de 15 de Abril de 1896, pp.87-88
A Liberdade, Anno XXVI, Nº 1512 de 24 Abril de 1896
 A Liberdade, Anno XXVI, Nº 1513 de 28 Abril de 1896 p.1
Desenho publicado pelos CTT de Viseu,aquando do 125º aniversário do seu nascimento (1989)
A Liberdade, Anno XXVI, Nº 1515 de 05 de Maio de 1896 p.1
 A Liberdade, Anno XXVI, Nº 1516 de 08 de Maio de 1896 p.1
A Liberdade, Anno XXVI, Nº 1517 de 12 de Maio de 1896 p.1 
A Liberdade, Anno XXVI, Nº 1518 de 14 de Maio de 1896 p.1
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A Liberdade, Anno XXVI, Nº 1519 de 19 de Maio de 1896 p.1
A Liberdade, Anno XXVI, Nº 1521 de 26 de Maio de 1896 p.1
 A Liberdade, Anno XXVI, Nº 1522 de 29 de Maio de 1896 p.1

 A Liberdade, Anno XXVI, nº 1523 de 02 de Junho 1896
Selo comemorativo dos 100 anos da morte de A. Hilário, lançado pelos CTT em 1996, segundo desenho/litografia de Carlos Leitão.
 A Liberdade, Anno XXVI, nº 1524de  04 de Junho 1896
A Liberdade, Anno XXVI, Nº 1525 de 09 de Junho de 1896 p.1



 A Liberdade, Anno XXVI, Nº 1526 de 12 de Junho de 1896 p.1
A Liberdade, Anno XXVI, Nº 1527 de 16 de Junho de 1896 p.1
Augusto Hilário em retrato a óleo, por Almeida e Silva, em 1896.
 A Liberdade, Anno XXVI, Nº 1528 de 19 de Junho de 1896 p.1

A Liberdade, Anno XXVI, Nº 1529 de 23 de Junho de 1896 p.1 

O comércio de Viseu, 14 Agosto 1892, VII Anno, Nº 635

 O comércio de Viseu, 26 Agosto 1894, IX Anno, Nº 847
Selo em edição comemorativa dos CTT, pelo centenário da sua morte (1996) com base no desenho/litografia de Carlos Leitão.




Hylario, por Luiz d'Athayde, no semanário "O Fado".
in "Histórias do Fado" de Maria Guinot, Ruben de Carvalho e José Manuel Osório, sob o tema de "Um século de Fado", editado pela Ediclube em 1999, e distribuído pelo jornal "A Capital".

Citando A.M. Nunes, trata-se de uma "pequena brochura de João Inês Vaz e Júlio Cruz, "Augusto Hilário. A alma do fado coimbrão. Breves apontamentos", Viseu, Edição da Câmara Municipal de Viseu, Janeiro de 1989. A obra foi publicada na sequência da deliberação tomada pela Câmara de Viseu na sua reunião de 28/11/1988 com vista às comemorações do 125º aniversário de Augusto Hilário. Pode considerar-se um pequeno catálogo ilustrado, contendo fotografias, certidões e outros documentos."

Ao contrário de Coimbra, Viseu não deixou de lembrar a efeméride.


Termina este artigo com um vídeo de 1990, do famoso grupo Toada Coimbrã (onde ponderam diversos amigos, com especial menção ao João Paulo Sousa) que interpreta, em colaboração com o já desaparecido Paulo Saraiva, a mais famosa composição de Augusto Hilário (o "Fado Hilário"). Um deleite. Ora vejam: