sábado, outubro 28, 2017

Notas a uma entrevista furada (praxes académicas- SIC, 2017)




Este é mais um triste exemplo de como a desbragada procura por 5 minutos de fama televisiva leva pessoas inaptas, totalmente desprovidas de senso, a prestarem-se a um triste espetáculo, onde nada mais fazem do que dar tiros nos pés e, assim, mancharem a já muito debilitada imagem do estudante e suas tradições.

 
Desde logo a estudante que se apresenta travestida de traje. Travestida porque não se percebe todo aquele folclore carnavalesco de colheres (pintadas ainda por cima), de pins na lapela e com uma capa cravada de emblemas sem qualquer nexo (que mais parece uma ilustração de um livro do código da estrada).
O facto de se apresentar de gorro dentro de um estúdio de televisão evidencia, também, essa falta de noção e de boas regras de etiqueta e educação.

Não precisava a aluna de abrir a boca sequer, quando a imagem que apresentou já tinha dito tudo.
Nada mudou pelas bandas do ISCSP, desde que analisámos aqui o seu código de "praxe".


Quando abre a boca para falar do que é Praxe, com esses clichés gastos de integração e transmissão de valores (quais valores?) ................ apenas traduz sonoramente o que os olhos já tinha depreendido.

Mas o que é simplesmente escabroso, da parte dela, é o relativizar do conceito de humilhação, achando poder deturpar o seu significado, atirando postas como ser difícil falar de limites ou de abusos, ou mesmo o que é haver uma praxe abusiva.
Chega a ser ofensivo á inteligência humana que uma aluna universitária tenha esse tipo de argumentos e creia não ser possível haver consenso sobre o que é um acto de abuso ou humilhação.

 
O estudante que se apresenta naqueles preparos, está exactamente na mesma linha.

Falar alguém cuja indumentária é, ela própria, inequivocamente, um desrespeito à tradição académica e à cultura portuguesa, deixa logo antever que dali não se espera grande coisa. E quando, ainda por cima, temo-lo a usar braçadeira, tipo força policial ou uma qualquer polícia política de antanho ............... percebe-se desde logo o tipo de concepção de praxes que reina naquela instituição.


Achar que alunos de uma creche pintarem caloiros faz desse acto algo mais aceitável ou desresponsabiliza os praxistas é néscio. Pintar caloiros, não sendo uma coisa ostensivamente afrontosa é, por exemplo, tradição que nunca foi permitida em Coimbra, berço das tradições e da Praxe.

Referir "praxes solidárias" para passar uma imagem de gente porreira é falacioso. Praxe e solidariedade são coisas diferentes. Praxes solidárias não existem, não são Praxe. Mais uns a querer "tapar o sol com a peneira".
 
A questão da lama é de um supremo ridículo. Só porque o praxista não se importa de se sentar na lama isso justifica que os caloiros o façam ou seja menos inadequado?
Alguém no seu perfeito juízo sequer convida colegas a sentarem-se na lama?

Um estudante que reconhece que quando foi praxado sangrou do joelho (e nada disse, na altura, por medo), acha que isso é experiência positiva para futuro? É sequer normal que caloiros andem de joelhos, quanto mais daí resultar lesões?

E quando ele afirma que não é por ter uma matrícula a mais ou ser mais velho que os vai mandar ao chão, ao invés de dizer que não o faz e não permite tal (na qualidade de Dux), apenas reconhece que isso existe (se faz) e que serve para "mostrar uma experiência".

E justificar que condicionar as pessoas faz bem (como ele pretende que lhe fez bem a ele) é de uma parvoíce total.

Todos sabemos bem como funcionam as coisas por lá. E quem não sabe, ficou esclarecido com o discurso.

Lamentável que quem exerce o cargo de Dux, se desculpe das praxes abusivas afirmando que está ali não a defender as praxes,  mas a defender "a sua praxe", o que ele faz individualmente (nem sequer se refere ao que se passa na sua instituição, ele, como responsável de todas as praxes perpetradas por alunos do IADE).

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Obviamente que os outros dois convidados estiveram bem. Não era preciso muito, aliás, para isso suceder.

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Já o caloiro ("Tarzan") que ali se apresentou com um pedaço de cartão ao pescoço, apenas contribuiu para afundar ainda mais o barco. A que propósito é preciso ter-se um n.º de emergência nas costas do cartaz?
Qualquer pessoa depreende naturalmente que se isso acontece é porque há a hipótese de algo correr mal. Essa é a mensagem que passa. Afinal, as praxes não são aquilo que ali tentam desajeitadamente pintar aqueles 2 estudantes.
Já o que o rapazito diz............é argumento ao nível de aluno do 2.º ciclo.

 
 
 
CONCLUSÃO

 
Mais uma vez, não vale a pena arranjarem-se desculpas de que a culpa é da comunicação social, de que quem conduz a entrevista não é isento, de que não se devia discutir estes assuntos neste ou naquele programa.

Parem com os choradinhos infantis, com as teorias persecutórias e as desculpas de mau pagador.

Estes assuntos devem ser discutidos e ainda bem que há oportunidades para tal.
São é oportunidades muito mal aproveitadas.

O que se espera de qualquer estudante universitário é que seja capaz de ter um discurso à altura das circunstâncias, seja em que programa ou situação for.

O que se espera de quem vá falar de praxes, de Praxe ou de motociclismo é que saiba do assunto, seja uma pessoa preparada e conhecedora, que saiba esgrimir o tema -  resultante de algo mais do que empirismos sazonais.  

Uma vez mais, foram apenas, e só, os praxistas ali presentes que deram cabo de tudo; que, para além de exporem as suas fracas competências nestas matérias (e em termos de oratória), contribuíram, com mais esta ocasião, para transmitir uma imagem paupérrima do estudante universitário, das suas tradições (quando não ridícula pelos exageros cénicos do/no traje).


Ajudaram, isso sim, a vincar ainda mais, na opinião pública, a falta de justificação para praxes, vincar ainda mais nos espectadores que, com chavões embrulhados de meias palavras e argumentos curtos, se está a esconder e disfarçar o que de facto ocorre.
 
Não é assim que se credibiliza e se recupera o respeito da opinião pública, em torno das questões das praxes.
A atitude de sacudir a água do capote, de atribuir aos outros o que de mal se faz ou simplesmente relativizar é apenas confirmação de um estado de negação (adornado de vitimização).

Mas quando as pessoas nem sequer sustêm os ímpetos, perante a possibilidade de ir à televisão, sem sequer procurar reflectir se têm aptidão e estaleca para assumir tal papel, sem sequer ponderarem que, afinal, pode até ser melhor não se exporem ........... claramente que não se pode esperar nada de bom.

É assim que se facilita a vida aos anti-praxes, que nem precisam de se mexer, tal é o fervor com que os praxistas se encarregam de destruir e ridicularizarem o que dizem defender.

 
NOTA: discussão em "Tradições Académicas&Praxe"
 

quinta-feira, outubro 26, 2017

Notas de Vídeo sobre o que é Praxe (2016)





Uma entrevista originalmente publicada em 2 vídeos, no youtube, em que uma aluna entrevistada, uma jovem aluna da FADEUP, pretende explicar em que consiste e se traduz a praxe - e escrevemos "praxe" com letra minúscula, porque, pelas palavras da entrevistada, a mesma não parece saber muito bem o que é Praxe e o que são praxes (gozo ao caloiro), e confunde-se completamente com o termo "praxar".
 

 
Visto o vídeo, retemos o seguinte:
 
 
"(- O que é a Praxe?)
Essa é a mítica pergunta que toda a gente faz e para a qual não há uma resposta que seja uma ciência exacta."
 
  • Não pode ser ciência exacta, para quem não estudou nada do assunto e faz do "ouvi dizer" a sua bibliografia. A definição de Praxe existe. O entendimento disso depende do grau de empenhamento colocado em perceber o assunto.
 
"A praxe é uma forma de estarmos na vida, por exemplo."
 
  • Infelizmente, há muita gente mal resolvida que faz da praxe uma "estranha forma de vida".
 
"Quase toda a gente define a praxe como uma forma de nos integrarmos na faculdade. Não é. Felizmente é uma consequência de algo muito maior, muito mais acima do que a integração."
 
  • Que algo muito maior? Que algo mais acima? A pobre entrevistadora parece não perceber (apesar de assentir que sim), e nós também não.
 
"A praxe é um conjunto de regras em que as pessoas que estão na praxe aceitam estar sob essas regras; aceitam viver, aceitam defender a praxe segundo aquelas regras."
 
  • Até começa bem, mas depois atira para o pé com o "defender a praxe". Lá está: não basta ouvir dizer umas coisas, porque no meio se perdem dados importantes.
        Muita confusão. Muita.
 
"Isso que vocês (no Brasil) chamam o trote, parece-me a mim aquilo que nós chamamos de gozo ao caloiro, que é diferente do praxar em si, é diferente da praxe. O gozo ao caloiro está inserido na praxe. Fazemo-lo, mas não é a praxe. Não estamos a praxar propriamente, quando fazemos o gozo ao caloiro."
 
  • A partir daqui perdeu-se o fio à meada. É a confusão total. Fácil perceber o quanto a formação importa. Para esta moça, há gozo ao caloiro (que não é praxe), há praxar e há praxe. Assustador!
 
"Quando nós traçamos a capa, estamos a praxar."
 
  • Já vivi muitos anos. Esta nunca tinha ouvido! Estou profundamente estupefacto!

 
"A praxe em si (...) é um conjunto de regras, de tradições, de história em que toda a gente aceita defender aquilo, reger-se sob aquilo."

 

  • Mais uma definição, mais uma argolada, mais confusão.


 

"Quando eu estou em praxe e quero ter a certeza de que a mensagem passa, eu digo:
- vais olhar para mim."

 
  • Ou seja, a moça, que até tem uma vaga ideia de que mandar caloiros olhar para o chão não tem fundamento, fica-se por dizer que, quando quer que um caloiro apanhe o que ela está a dizer, nesse momento, manda-o olhar para ela. E quando não é o caso, consente que ele fique a olhar para o chão? Não o diz.
  • No que concerne à reflexão sobre não haver um código de praxe, transversal em termos nacionais, não se sai muito mal, mas a argumentação é mal explorada.
 
 
     
"Para mim, pessoalmente, costumo dizer que a praxe é bom-senso, respeito e hierarquia."

 
  • O problema está logo no início: a Praxe não assenta numa visão ou interpretação pessoal. A definição de Praxe jamais pode assentar em "para mim a Praxe é".
 
"Antes de ser caloiro" há mais nomes (designações) que também existem"
 
  • Não sabia que na hierarquia da Praxe havia nomes de hierarquia atribuídos a quem ainda não é sequer aluno universitário. Salvo em Coimbra, no que se refere aos alunos de liceu (e que desapareceu da prática corrente desde 1970), nada há.
 
  • Quanto às denominações, em função de haver cursos com mais ou menos anos, é uma confusão de incoerências.
 
"O veterano é aquele que já terminou o curso, que já não veste o traje, simplesmente usa a capa"
 
  • Uma verdadeira aberração. Veterano, na Praxe, é quem tem mais matrículas do que as necessárias para terminar o curso.  É um estudante!!!! Quem já é formado não está na Praxe nem tem hierarquia de veterano. Veterano não usa só capa. Isso só o antigo estudante!!!!
  • No que toca aos números ímpares, a aluna da FADEUP tem uma posição correcta face aos factos, mas falha num ponto essencial: não sabe explicar por que razão acha que é mito. Está à espera que alguém lhe explique o fundamento de evitar números pares (e pode esperar sentada, pois não existem), quando ali se exigia que explicasse precisamente a falácia de tal.
 


 


CONCLUSÃO

 
Mais um vídeo que induz em erro, que passa mensagens e conceitos errados, apesar da entrevistada ser bem intencionada e se perceber que lhe chegou aos ouvidos algumas coisas correctas que aqui temos explicado ao longo de anos.


Mas lá está: não basta ouvir.

E quando é suposto (como nesta caso, numa entrevista - publicada urbi et orbi) explicarmos, é de bom tom estar preparado, estudar a lição, documentarmo-nos, evitando especialmente o "para mim" ou o "acho que".

 

sábado, setembro 16, 2017

Notas à "matemática praxeira"


Para evitar, volta e meia, estar a responder o mesmo a vários mails que são endereçados ao N&M a perguntar o mesmo, vamos aqui abordar a questão dessa coisa de andarem, alguns, a gastar energias com a contagem de peças de roupa do traje, ou se está afastado X distância da capa, com o intuito de determinar se um estudante está trajado ou se está em Praxe.
 
Vamos lá ver.
 
"Existe muita picuinhice quanto a esse assunto (por parte de quem, ridiculamente, se foca obsessivamente em contar peças de roupa ou a andar com uma fita métrica a medir distâncias entre a capa e o portador).
O traje identifica o estudante como tal. Salvo se for num café onde os "garçons" vestem calça preta e camisa branca e andam de bandeja e bloco de notas, um estudante, mesmo depois de tirar várias peças, continua facilmente identificável como tal (até porque não anda de bandeja e bloco de notas a perguntar às pessoas o que vão tomar), até porque duvido que o resto do traje esteja em casa.
Além disso, se é fora do ambiente académico ou de um momento formal, nem sequer importa à Praxe, nem ninguém em nada a ver com isso.
Não é, pois, uma questão de quantas peças se tiraram.
Se é num ambiente académico, só alguém muito tapadinho irá confundir o estudante em causa com um pedreiro."[1]
 
Porque falamos do uniforme estudantil, peguemos noutro uniforme, cuja etiqueta e regras de uso, e o próprio contexto, são bem mais apertados.
Um militar que saiu da caserna, para ir beber um copo, ou apanhar o autocarro para ir a casa, não está obrigado a vestir com o mesmo rigor que quando está numa parada ou em funções onde se exige estar a rigor uniformizado. Desabotoa o botão, tira o casaco, se estiver a incomodar; tira a boina e mete-a nas alças do ombro ....... e não deixou de ser soldado, não deixou de andar na tropa e muito menos deixou de estar sob alçada do regulamento militar.
 
É importante pensar simples, sem "complicómetros",  sem excesso de zelo praxístico, especialmente quando isso não tem sustento algum na tradição académica.
Dizem-se muitas coisas, escrevem-se muitas parvoíces em códigos de praxe (que nem dignos para papel higiénico são) e, pior ainda: seguem-se e assumem-se normas inventadas por zarolhos e seguidas dogmaticamente por cegos e amputados intelectuais.
Importa saber distinguir dois âmbitos: quando é imperativo estar trajado a rigor e quando tal não é obrigação.
Não estar sem o casaco ou sem a capa não significa não estar trajado. Nem sequer significa estar mal trajado, quando não é exigido trajar a rigor.
 
"Destrajado é estar sem traje. Não se está destrajado porque se tirou a batina ou a capa (ou mesmo o colete que é facultativo) ou porque o botão da camisa foi desabotoado e laçada a gravata. Não se está é trajado a rigor."[2]
 
O aluno que deixou a sua capa em cima das costas da cadeira, que tirou a batina porque estava calor ...........continua trajado, continua identificável enquanto aluno, continua sob alçada da Praxe, sendo que se considera que não está em condições de participar convenientemente em determinado acto onde seja próprio trajar a rigor. O facto de não estar trajado a rigor, secundum praxis, também o impede de certas prerrogativas (poder exercer gozo ao caloiro, por exemplo).
Estar mal trajado é, portanto, algo diferente de estar sem traje (destrajado). Não vamos é entrar em minudências milimétricas que, acima de tudo, entram na área de um pueril ridículo.
 
"Está-se mal trajado, quando é suposto, num evento formal, estar trajado a rigor e não se está.
O moço que está na esplanada, em colete, não está mal trajado.
A moça que colocou a capa nas costas da cadeira e foi à casa de banho não está mal trajada.
O moço que dobrou as mangas da camisa, porque está um calor infernal, não está mal trajado.
São apenas exemplos do uso do traje em momento informal. Num evento académico formal, nenhuma dessas situações, naturalmente, deve ocorrer, quando o protocolo manda que se esteja trajado secundum praxis."[3]
 
Um médico cirurgião precisa, obrigatoriamente, de usar determinada indumentária para poder operar, caso contrário não entra na sala de operações, mas não deixa de ser médico cirurgião por causa disso, nem de estar dentro do âmbito médico.
Não passa pela cabeça de ninguém que, na hora de pausa, tenha de continuar de máscara para tomar um café, e muito menos de luvas e bata operatória para almoçar. E não é por almoçar sem tudo isso que deixou de ser cirurgião ou de fazer parte do corpo médico, de poder entrar no hospital ou sequer possa assistir alguém que tenha um mal estar.
 
"As descrições do traje académico - refiro-me à capa e batina - que li até hoje limitam-se a elencar as peças que dele fazem parte.
Nunca, em nenhuma, li que são para andar vestidas. Em bom rigor, nós é que depreendemos que sim.
 
Também nunca li que fossem para andar apertadas, pelo que, em bom rigor, posso andar de batina aberta, colete e camisa abertos, gravata enrolada ao pescoço, no pulso, à cintura, braguilha aberta ou até mesmo com as meias por fora dos sapatos ou com estes pendurados nas orelhas.
Mais uma vez, nós é que depreendemos que cada coisa deverá ser usada como normalmente devem ser usadas peças de roupa semelhantes.
Esta visão radical - que não defendo, de todo - leva-nos para já a uma primeira conclusão: o traje académico é constituído por peças de roupa. E é como tal que devem ser usadas.
Independentemente de qualquer outro considerando, são as normas gerais de vestuário que prevalecem - normas de bom-senso, etiqueta e "moral" social.
O que se pode fazer com umas, pode-se fazer com as outras.
Um fato é constituído por calças e casaco do mesmo tecido e com o mesmo padrão. Usa-se camisa de colarinhos e gravata (normalmente - e para simplificar).
Vou trabalhar. Tiro o casaco para me ser confortável. Chego ao local de trabalho, saio do carro, pego no casaco dobrando-o sobre o braço porque está calor. Como não costumo usar fato no trabalho, os meus colegas começam na tanga: Ó Eduardo, vais à madrinha? Então hoje vieste de fatinho e tudo?
Como? Então eu levo o casaco dobrado sobre o braço e as pessoas dizem que eu vou de fato? Por que dirão uma coisa dessas?...
O fato não é só fato quando está completamente vestido, pois não? O mesmo acontece com o traje.
 
Se estou no adro à espera de que o casamento comece e estou com o casaco seguro ao ombro por um dedo e atirado para as costas, ninguém repara. Entro na Igreja, visto o casaco e assisto à cerimónia de casaco abotoado quando me levanto e desabotoado quando me sento. É o que manda a etiqueta.
O mesmo se aplica ao traje. Nas aulas, numa sessão solene, num exame, num funeral, numa serenata, num cortejo... a solenidade pede-me o mesmo que a um fato normalóide. No café, em casa a estudar, a passear pela rua, a coisa é mais descontraída.
 
Não estamos bem trajados ou mal trajados em absoluto. Estamos bem ou mal trajados para cada situação específica.
 
Se bastasse ter todas as peças do traje vestidas para se estar bem trajado, então se eu fosse para a serenata de capa pelo ombro estaria bem trajado. Mas não: estaria mal trajado... para a serenata. Se fosse de capa traçada para um funeral, estaria mal trajado... para um funeral. O mesmo se fosse para uma aula ou falasse com um professor de capa pelos ombros sem dobras.
 
Ora, e como se vê, "a ocasião faz a trajação" como diz o velho ditado que acabei de inventar."[4]
 
Alguns aspectos a ter em conta, ligados, de certa forma, à noção de trajar secundum praxis.
 
 
TRAJE LIMPO, PINS, COLHERES......
 
Mal trajado estará, por exemplo, quem anda com dezenas de pins na lapela, desde logo pelo aspecto carnavalesco que o seu traje, assim, dá. E, neste caso, seja em contexto formal ou informal, está inadequadamente trajado.
Sobre o uso devido de pins, é ler AQUI.
 
Mal trajado estará, por exemplo, quem usa colher de café na gravata (ver AQUI) ou pendericalhos em madeira e afins (que as lojas de artigos académicos impuseram nas barbas da inércia e incompetência das academias). Nesse caso específico, está mal trajado seja em que ocasião for.
 
"Mal trajado", entre aspas, está quem se apresenta num evento formal com o seu traje sujo, mal cuidado, sem aprumo.
Ter o traje limpo é prerrogativa demasiado esquecida nos códigos, quando é das normas mais importantes ligadas historicamente ao traje académico (e a qualquer uniforme corporativo).
Quando ainda lemos, em tantos códigos, ou pessoas a dizer isso à boca cheia, que a capa não se lava, estamos quem precisa de limpeza intelectual (sobre isso, ler AQUI).
 
USO DA CAPA
 
Estar mal trajado pode passar, desde logo, pelo uso incorrecto da capa.
São dezenas e dezenas os códigos que temos por aí a dizer barbaridades, quanto ao uso da capa.
Como acima foi possível ler, quando citámos o Eduardo Coelho, usar a capa pelo ombro durante uma monumental Serenata é trajar mal, porque, nessa ocasião, ela deve usar-se traçada.
Traçar a capa num momento solene (funeral, por exemplo) é trajar mal.
Ou seja, existem formas apropriadas, no que ao uso da capa diz respeito, que, não sendo observadas, colocam o indivíduo no grupo de pessoas que não estão a trajar apropriadamente, não estão a seguir a etiqueta/protocolo estipulado para esta ou aquela ocasião.
Sobre o uso correcto da capa, cliquem AQUI.
 
 
DISTÂNCIA DA CAPA
 
Muito implicam com essa questão, sem se perceber sequer porquê. Chegam ao supremo disparate de legislar isso em códigos (os tais que, queimados, eram um favor que faziam).
Nada há na tradição académica que imponha que um aluno não pode estar afastado da sua capa mais que X distância. Repetimos: nada!
 
"Cada qual é livre de deixar a sua capa onde bem quiser e à distância que lhe der na gana. Não sendo em momentos em que é preciso trajar a rigor, ninguém tem nada a ver com isso.
Mas lá está: arrisca-se a que alguém lha leve (mesmo se devem ser pontuais os roubos de capa). Mas isso é problema de quem assim opta e que depois terá de comprar outra."[5]
 
Claro está que, num momento formal, ela é imprescindível, porque parte do uniforme, tal como a gravata ou os sapatos.

Muitos códigos impõe a distância mínima da capa, esquecendo que isso entra, por exemplo, em conflito com 2 momentos incontornáveis da Tradição Académica: o estudante finalista desfila trajado sem capa e pode participar do Baile de Gala, dançando sem capa. Cai, logo aí, por terra, essa coisa das distâncias.
Papismos é que não, quando, ainda por cima, nada há que sustente imposição de distâncias mínimas. Réguas, metros e fitas métricas não são, que se saiba, insígnias de Praxe. O único objecto que, quando muito, tem historicidade para medições é o palito (e não é para esta parvoíce sequer).
Quem legislou e inventou isso das distâncias mínimas devia ser rapado, deixando-lhe cabelo a distância mínima.
 
N.º DE PEÇAS E N.º ÍMPAR
 
Começa a enfadar essa obsessão pelos números ímpares.
Uma obsessão cuja estupidez tem o seu clímax naqueles que escrevem datas onde evitam o número par (tipo escreverem 2014 sob a forma ridícula de 2013+1). Deixem lá os números ímpares, porque isso de Praxe nada tem (ver AQUI).
Não creio ser necessário discorrer mais sobre essa coisa de mínimo ímpar de peças do traje.
 
 
COLETE E MANGAS DE CAMISA
 
Porque também relacionado, dizer brevemente o seguinte: o colete é uma peça de roupa facultativa. Nenhum estudante é obrigado a usá-lo.
 
As mangas da camisa são para estar desdobradas, em momentos formais. Anda por aí (no Porto[6], nomeadamente) a moda de andar sempre com as mangas da camisa dobradas numa interpretação equivocada e sem nexo de que não se podem ver brancos.
Trajar correctamente, num momento formal, implica ter a camisa abotoada nos punhos. E podem os punhos ver-se.
 
BOTÕES APERTADOS
 
De nada vale evocar normas de etiqueta que, segundo modas, vão dizendo que não se aperta o último botão do colete ou do casaco, ou que só se perta este ou aquele.
Dos botões do colete (o último nomeadamente), já vamos falar deles.
Em  momento formal, e porque o traje é um uniforme (e não um mero fato que se leva para uma reunião importante, casório ou quejandos), os botões existentes são para estar apertados.
Mas, neste caso específico, convém evitar ortodoxias. Uma batina totalmente apertada exige-se numa cerimónia fúnebre. Num outro momento, pode apenas exigir-se que a casaca esteja fechada, sem que isso signifique estar toda abotoada.
O que não pode suceder é impor, nomeadamente por razões sem nexo (em memória disto ou daquilo), que se deixa obrigatoriamente desabotoado este ou aquele botão.
 
 
ÓCULOS DE SOL e CHAPÉUS
 
Já nas décadas de 50 e 60 se viam estudantes trajados de óculos de sol. Nada há, na tradição académica, que o impeça.
O que a etiqueta e as boas maneiras, mandam é que se use de forma pertinente. Estamos na rua e está sol, nada que impeça o seu uso.
A escolha de um par que não destoe do uniforme académico parece-me escusado aqui sublinhar.
Estar mal trajado é, por exemplo, dentro de um edifício, andar com os óculos postos (e, em alguns casos, sobre a cabeça).
Falar com uma entidade, de óculos postos, também se considera pouco educado, mas isso já entra na etiqueta social genérica. E usar óculos de sol quando não há sol que o justifique é, acima de tudo, palermice e comportamento de quem não tem noção.
Não está sol nenhum e a pessoa usa por mania, não está a trajar secundum praxis.
 
O mesmo se aplica àqueles trajes de que faz parte um chapéu. Usar dentro de um edifício é inadequado e falta de educação (e, em Praxe, civismo e educação são, também, regras fundamentais). O propósito do chapéu é proteger a cabeça das intempéries ou do sol. E isso é válido tanto para o contexto académico como para outro qualquer.

 

 

CONCLUINDO

 
Não podemos entrar nesse enviesamento intelectual de andar a contar números de peças de roupa para determinar se alguém está, ou não, trajado.
Devemos, isso sim, saber determinar se, para cada ocasião, a pessoa está trajada conforme é suposto.
Um estudante sem esta ou aquela peça, enquanto for possível identificá-lo como tal (e aqui o contexto diz muito também) por aquilo que veste, está enquadrado e identificável como estudante.
Não é, portanto, uma questão de peças que faltam que colocam o estudante fora do âmbito da Praxe. O que a Praxe determina é que para a cosião X ou o evento Y é preciso trajar daquela forma definida. Se o estudante não está conforme, secundum praxis, em determinado momento formal (cuja etiqueta e protocolo definem como deve apresentar-se trajado) considera-se que não está a cumprir, impossibilitado de participar devida e condignamente.
E, em certos casos, e precisamente porque está sob alçada da Praxe, pode, em certos casos, incorrer em sanção de unhas, por exemplo.
Fora desses momentos formais, ande, pois, o estudante à vontade, com a gravata laça, o botão desapertado, a batina e capa nas costas da cadeira, as mangas arregaçada...........que ninguém tem nada a ver com isso, conquanto não seja motivo de dolo para a corporação académica.
 
Importa terminar, ainda assim, com o seguinte: esteja trajado a rigor ou em momento informal, o facto de usar traje académico obriga-o ao respeito e cuidado que deve ter para com o facto de aquele uniforme representar o foro académico. É a imagem do estudante que está sempre em causa, pelo que deve assistir ao uso do traje o devido civismo, brio e respeito pela sua circunstância, pela cultura de que faz parte (e trajado representa genericamente), para além da sua própria imagem como pessoa e cidadão.
U exercício sadio da cidadania académica passa por saber ser e estar, de modo a dignificar e valorizar, sempre, a cultura estudantil, a instituição em que se insere e o próprio património histórico que constitui o traje académico[7].

 



[1] J.Pierre Silva, in Tradições Académicas & Praxe (Facebook), 02 de Novembro de 2016.
[2] idem.
[3] idem.
[4] Eduardo Coelho, in Tradições Académicas & Praxe (Facebook), 02 de Novembro de 2016.
[5] J.Pierre Silva, in Tradições Académicas & Praxe (Facebook), 02 de Novembro de 2016.
[6] Pelos lados da FDUP, por exemplo.
[7] Especialmente o Traje Nacional, parte do conjunto patrimonial reconhecido pela UNESCO.