terça-feira, janeiro 07, 2014

Notas a Augusto Hilário nos 150 anos do seu nascimento.

Celebramos, este ano (2014) e este mês de Janeiro, 150 anos sobre o nascimento do maior vulto da Academia de Coimbra e o maior académico nacional, nascido em Viseu em 1864 e onde viria a falecer a 3 de Abril de 1896.

Passamos, agora, a transcrever o que consta do site http://paginas.fe.up.pt/~fado/por/augustohilario.html (muito provavelmente baseado em José Niza, Fado de Coimbra II (Da Colecção “Um Século de Fado”, Edição da Ediclube, Alfragide, 1999), obra que contém diversas imprecisões (algumas das quais AQUI enunciadas).

"Augusto Hilário da Costa Alves, nasceu em Viseu em Janeiro de 1864 na Rua Nova. A data do seu nascimento é ainda uma incógnita, porquanto o registo de baptismo refere que foi “exposto na roda desta dita cidade pelas cinco horas da manhã do dia sete do dito mês e ano”, sendo baptizaso a 15 do mesmo mês e ano pelo páraco da Sé, com o nome de Lázaro Augusto. Ao receber o crisma em 26 de Maio de 1877, muda o nome para Augusto Hilário.

As dúvidas que se poderiam levantar em relação à sua filiação ficam desfeitas em face da certidão de óbito que refere Augusto Hilário como filho legítimo de António Alves e de Ana de Jesus Mouta. Crê-se assim, que Hilário terá sido fruto de um enlace pré-matrimonial sendo por isso exposto na Roda e posteriormente reconhecido.

Frequentou o liceu de Viseu com o intuito de fazer os estudos preparatórios para a admissão à Faculdade de Filosofia, mas os anos foram passando sem que concluísse a disciplina de filosofia.
Matriculou-se em Coimbra, mas também aí os resultados não foram famosos e revela-se então um apaixonado pela boémia coimbrã, notabilizando-se como cantor de fado e executante de guitarra. Os seus fados correram o país de lés a lés, ficando imortalizado o Fado Hilário.

 Em 1889-90, foi examinado no liceu de Coimbra e tendo feito uma prova admirável foi aprovado com boa classificação. Matriculou-se então no 1º ano de Medicina, tendo assentado praça na Marinha Real para obviar à falta de recursos, recebendo um subsídio do Estado.

A sua actividade de fadista e trovador era conhecida pelo país inteiro, em particular na Academia Coimbrã onde era o “Rei da Alegria”. O seu esmerado trato e a sua cordialidade faziam dele o grande animador dos serões académicos. Nos seus fados, interpretou poemas de Guerra Junqueiro, António Nobre, Fausto Guedes Teixeira, para além dos que ele próprio criou.

Parte alta da sua vida de fadista foi a participação na festa de homenagem ao grande poeta João de Deus que se realizou em Lisboa no Teatro D. Maria II, a que se associou a Academia de Coimbra e onde participaram entre outros o Prof. Doutor Egas Moniz. No decorrer do espectáculo, após a sua intervenção e em plena apoteose do público presente, Hilário atirou para o meio da multidão a sua guitarra, da qual nunca mais nada se soube. O Ateneu Comercial de Lisboa a 2 de Junho de 1895, oferece-lhe aquela que foi a sua derradeira guitarra e que se encontra actualmente na posse do Museu Académico de Coimbra, por especial oferta da família.

Como poeta escreveu dezenas de quadras que se imortalizaram nos seus fados e das quais se destacam Fado Hilário (36 quadras); Novos fados do Hilário, recolha de um conjunto apreciável de quadras; Carteira de um Boémio, conjunto de versos manuscritos de que se ignora o seu paradeiro.
 A sua grande capacidade de improvisar fazia dele uma figura popular e sublime que entusiasmava quem o ouvia tendo actuado em Viseu, Coimbra, Lisboa, Espinho e Figueira da Foz, entre outros lugares.

Foi uma hora de luto nacional aquela que o ceifou à vida no dia 3 de Abril de 1896, pelas 21 horas, vitimado por uma “ictericia grave hypertermica”. Morreu na sua casa da Rua Nova, contando 32 anos. Frequentava então o 3º ano da Escola Médica da Universidade de Coimbra e era aspirante da Escola Naval.

O seu funeral foi imponente, com uma aparatosa multidão que o quis acompanhar até à sua última morada no cemitério da cidade de Viseu onde ficou sepultado em jazigo de família [um erro, pois nunca existiu jazigo de família]. Em carta de condolências datada de 5 de Abril de 1896, remetida de Mangualde à sua mãe pelos seus colegas é feita a síntese do sentimento académico de então:

        “Está de lucto a mocidade portugueza!”

 Chorado por admiradoras, amigos e conhecidos, chorado por simples amantes do fado, Hilário marcou para sempre a academia conimbricense ao enraizar-lhe a alma que lhe faltava, o fado. A admiração provocada nos seus contemporâneos levou a que o seu nome fosse dado a um jornal que se fundou em Viseu pouco tempo após a sua morte. Em 12 de Junho de 1896, surge nas bancas o Hylário, com a figura do fadista ao centro da 1ª página e tendo a guitarra como ex-libris. Semanário “imparcial e livre de quaesquer agrupamentos partidários”, assim foi também o seu homónimo.

 Se nunca foi feita uma biografia do poeta-cantor, referências em jornais e revistas não faltam. Vejam-se, por exemplo, os artigos publicados logo após a sua morte, na revista O Occidente, de 1896, no jornal que teve o seu nome ou noutro semanário de Viseu, A Liberdade, que transcreve em vários números as notícias saídas em jornais de todo o país aquando da sua morte.

Em 1967, a família, por intermédio da Srª Dª Maria Alice Trindade de Figueiredo, entregou ao Museu Académico de Coimbra uma das guitarras que o seu tio-avô dedilhara em muitas ocasiões e que lhe tinha sido oferecida pelo Ateneu Comercial de Lisboa quando ali se deslocou a cantar.

 Em 30 de Junho de 1979, é a vez da Camara Municipal de Viseu promover uma grande homenagem ao poeta a que se associou toda a população da cidade e academia Coimbrã, tendo sido atribuído o seu nome a uma rua da cidade e descerrada uma lápide na casa onde nasceu.

Em 1 de Dezembro de 1987, a Associação Académica de Coimbra, recordou o grande Augusto Hilário, por ocasião do I Centenário da Academia, editando um desdobrável onde se podia ler um artigo escrito no Jornal dos Estudantes, de 1 de Maio de 1896, poucos dias, portanto, decorridos sobre a sua morte. É mais um testemunho da dor que a morte da fadista provocou no coração de todos os estudantes, futricas e tricanas de Coimbra."

É uma efeméride singular esta, de um icone nacional que foi transversal na sociedade portuguesa, alcançando o estatuto de mito, razãopela qual questionamos, aqui, a razão de também este grande símbolo não ter sido elegível para o Panteão Nacional, já que muito mais do que uma bandeira de Coimbra, mas do fado, dos estudantes e da cultura nacional, ainda hoje recordado, cantado, celebrado, querido por todos, passados todos estes anos.
Fomos, por isso, a Viseu, para vos trazer alguns artigos publicados na imprensa local (neste caso nos periódicos "A Liberdade" e "O Comércio de Viseu"), a que somámos mais um ou outro ("Occidente" e "Branco e Negro") que fomos desencantar na Hemeroteca de Lisboa, sobre o que dele se escreveu após o seu falecimento.
Mas fique certo o nosso prezado leitor que é apenas uma gota no oceano jornalístico de milhares de artigos publicados na altura por todos os jornais e revistas (durante meses a fio).



A Liberdade, 15 Agosto 1889, 19 Anno, nº 976, p.2
O artigo acima é um de vários, descobertos recentemente no âmbito da  investigação levada a cabo pelos autores de "QVID TVNAE? A Tuna Estudantil em Portugal", que atesta da fundação da Tuna/Estudantina de Viseu em 1889 (alguns anos antes do inicialmente pensado), pela mão de Augusto Hilário (sendo, a par com a Estudantina de Coimbra e Porto, âmbas datadas de 1888, das mais antigas tunas portuguesas documentadas).
A Liberdade, Anno XXVI, Nº 1494 de 21 Fevereiro de 1896, p.1
A Liberdade, Anno XXVI, Nº 1507 de 07 Abril de 1896 p.1
A Liberdade, Anno XXVI, Nº 1507 de 07 Abril de 1896 p2
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 Branco e Negro n.º 2, Lisboa, de 12 Abril de 1896, pp.12-13
 
A Liberdade, Anno XXVI, Nº 1509 de 14 Abril de 1896 p.1
A Liberdade, Anno XXVI, Nº 1509 de 14 Abril de 1896 p.2

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Occidente N.º 623, de 15 de Abril de 1896, pp.87-88
A Liberdade, Anno XXVI, Nº 1512 de 24 Abril de 1896
 A Liberdade, Anno XXVI, Nº 1513 de 28 Abril de 1896 p.1
Desenho publicado pelos CTT de Viseu,aquando do 125º aniversário do seu nascimento (1989)
A Liberdade, Anno XXVI, Nº 1515 de 05 de Maio de 1896 p.1
 A Liberdade, Anno XXVI, Nº 1516 de 08 de Maio de 1896 p.1
A Liberdade, Anno XXVI, Nº 1517 de 12 de Maio de 1896 p.1 
A Liberdade, Anno XXVI, Nº 1518 de 14 de Maio de 1896 p.1
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A Liberdade, Anno XXVI, Nº 1519 de 19 de Maio de 1896 p.1
A Liberdade, Anno XXVI, Nº 1521 de 26 de Maio de 1896 p.1
 A Liberdade, Anno XXVI, Nº 1522 de 29 de Maio de 1896 p.1

 A Liberdade, Anno XXVI, nº 1523 de 02 de Junho 1896
Selo comemorativo dos 100 anos da morte de A. Hilário, lançado pelos CTT em 1996, segundo desenho/litografia de Carlos Leitão.
 A Liberdade, Anno XXVI, nº 1524de  04 de Junho 1896
A Liberdade, Anno XXVI, Nº 1525 de 09 de Junho de 1896 p.1



 A Liberdade, Anno XXVI, Nº 1526 de 12 de Junho de 1896 p.1
A Liberdade, Anno XXVI, Nº 1527 de 16 de Junho de 1896 p.1
Augusto Hilário em retrato a óleo, por Almeida e Silva, em 1896.
 A Liberdade, Anno XXVI, Nº 1528 de 19 de Junho de 1896 p.1

A Liberdade, Anno XXVI, Nº 1529 de 23 de Junho de 1896 p.1 

O comércio de Viseu, 14 Agosto 1892, VII Anno, Nº 635

 O comércio de Viseu, 26 Agosto 1894, IX Anno, Nº 847
Selo em edição comemorativa dos CTT, pelo centenário da sua morte (1996) com base no desenho/litografia de Carlos Leitão.




Hylario, por Luiz d'Athayde, no semanário "O Fado".
in "Histórias do Fado" de Maria Guinot, Ruben de Carvalho e José Manuel Osório, sob o tema de "Um século de Fado", editado pela Ediclube em 1999, e distribuído pelo jornal "A Capital".

Citando A.M. Nunes, trata-se de uma "pequena brochura de João Inês Vaz e Júlio Cruz, "Augusto Hilário. A alma do fado coimbrão. Breves apontamentos", Viseu, Edição da Câmara Municipal de Viseu, Janeiro de 1989. A obra foi publicada na sequência da deliberação tomada pela Câmara de Viseu na sua reunião de 28/11/1988 com vista às comemorações do 125º aniversário de Augusto Hilário. Pode considerar-se um pequeno catálogo ilustrado, contendo fotografias, certidões e outros documentos."

Ao contrário de Coimbra, Viseu não deixou de lembrar a efeméride.


Termina este artigo com um vídeo de 1990, do famoso grupo Toada Coimbrã (onde ponderam diversos amigos, com especial menção ao João Paulo Sousa) que interpreta, em colaboração com o já desaparecido Paulo Saraiva, a mais famosa composição de Augusto Hilário (o "Fado Hilário"). Um deleite. Ora vejam:




sábado, dezembro 21, 2013

Notas à Praxe nos Liceus

A propósito dos debates que tiveram lugar no grupo Tradições Académicas&Praxe, aqui trazemos um excerto de uma intervenção que, estamos em crer, será suficientemente esclarecedora e que poderá desfazer quisquer equívocos sobre a Praxe e Tradição Académicas nos liceus.
 
Liceu Nacional Bragança, no 1º Dezembro 1967, por Henrique Martins,
 in blogue, 5l-henrique.blogspot.pt


"Em termos de legitimidade e historicidade, os liceus partilham da mesmíssima tradição da Universidade.
Claro está que havia diferenças, que a própria idade e liberdade de movimentos de um universitário tinha e os mais novos não. Estar na Universidade também conferia outro estatuto, era (e é) um outro mundo, um outro patamar.
Seja como for, isso não significa que a Tradição Académica tenha regime de exclusividade na Universidade (vejam bem que até o traje feminino foi primeiro instituído nos liceus e não na Universidade, pasme-se!). Muitos usos e costumes, muito da praxis eram comuns, independentemente de, em grande parte dos casos, os liceus copiarem e mimetizarem essas práticas.
 
a) Capa e Batina e pasta no Liceu? SIM, com a mesma legitimidade da universidade. Perderam entretanto o seu uso, salvo na Tuna do Liceu de Évora e Liceu de Guimarães: http://notasemelodias.blogspot.pt/.../notas-ao-fim-da...
 
b) Tunas no Liceu? SIM, e serão até mais antigas (cá em Portugal) que na Universidade: http://notasemelodias.blogspot.pt/.../melodias-aos-100...
 
c) Latadas no Liceu? SIM, desde o séc. XIX, e marcavam igualmente o fim das aulas (muitas delas feitas à noite): http://notasemelodias.blogspot.pt/.../notas-enlatadas.html

d) Serenatas e Baladas de Despedida no Liceu? SIM, num costume que é até anterior à inclusão de Baladas e fados na Queima de Coimbra (em 1949): http://notasemelodias.blogspot.pt/.../notas-baladas-de...
 
e) Récitas no Liceu? SIM, desde o séc. XIX: http://notasemelodias.blogspot.pt/.../notas-as-recitas...
 
f) Baile de Finalistas/Chá Dançante no Liceu? SIM, como ainda hoje muitos estudantes dos anos 40, 50 e 60 se lembram: http://4.bp.blogspot.com/.../Baile+Finalista...
 
h) Orfeons académicos no liceu? SIM, temo-los em quase todos os liceus nacionais (um exemplo apenas: https://www.facebook.com/notasemelodias.wb?ref=tn_tnmn...)
 
g) Luto Académico nos liceus? SIM, como tantos exemplos nos são trazidos pela imprensa (aqui só um exemplo:
https://www.facebook.com/notasemelodias.wb?ref=tn_tnmn... )
 
i) Dux no liceu? SIM, em muitos liceus existia uma estrutura praxística (tenho testemunhos directos da sua existência no liceu da Guarda, ainda nos anos 60, por exemplo).
 
j) Praxe no liceu? SIM, desde que usa capa e batina, pois o uso do traje é uma primeira forma de etiqueta e protocolo que implica ritualização. Depois todos os demais exemplos já referidos, anteriormente demonstram existirem usos e costumes também nos liceus (e escolas superiores que não eram universidades), naquilo que era, indubitavelmente uma TRADIÇÃO ACADÉMICA, UMA PRAXE NACIONAL, para além de algumas singularidades como a celebração do 1º de Dezembro, a data festiva nacional por excelência nos Liceus portugueses (um mero exemplo, de centenas existentes: https://www.facebook.com/notasemelodias.wb?ref=tn_tnmn...)
 
k) As praxes no liceu? SIM, naturalmente, como não podia deixar de ser, dada a proximidade e ligação à Universidade (recordemos que o liceu de Coimbra esteve anos largos sob “tutela” da Universidade, por exemplo).

Eram comuns, como refere Eduardo Coelho, a "cachaçada aos "caloiros" à entrada, nos primeiros dias de aulas, "levar à pia" - basicamente, molhar o cabelo à força - e "Viva a República", que consistia em mandar ao ar os cadernos e livros, ficando tudo espalhado pelo recreio,; às vezes, a pasta/mochila ficava no telhado e era uma chatice recuperá-la, quando se conseguia".

Também existia a praxe de levar o cabaço (varão/macho apenas) ao poste (pegar no tipo, dois pelas pernas abrindo-as e amassar-lhe os ditos contra um poste - quase sempre o que colidia era o rabiosque porque o visado esquivava-se com movimento de anca adequado).
Como acima mencionado, uma variante do canelão universitário era o corredor dos cachaços (o puto passava entre 2 filas de alunos a levar cachaçadas no lombo), que ainda vemos, pro exemplo, em uso no contexto desportivo. Muitas destas práticas ainda estavam bem vivas nos anos 80 do séc. XX.
 
Antigo Liceu Diogo Cão, Angola - Visita do Governador Geral, Rebocho Vaz, 1969
 
Alunos do Colégio Lafonense, Oliveira de Frades (Viseu), 1935-36
GOUVEIA, Luis Alberto C. Fernandes e GOUVEIA, António Castanheira F. - 75º Aniversário dos Bombeiros Voluntários de Oliveira de Frades - Pontos nos is, 2004, pp.97,99
 
 
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A enorme diferença é que, desde os anos 70, que os liceus abandonaram a capa e batina (sobre isso leia o nosso respectivo artigo, clicando AQUI), com pontuais excepções ainda em Évora e Guimarães e algumas reabilitações como o caso do Colégio de Lamego, e desapareceram quaisquer práticas, usos e costumes, salvo o baile de finalistas (que, de há uns 20/30 anos a esta parte, já nem sequer é baile, de facto, com as pessoas vestidas de gala, dançando valsas, tangos, etc. ao som de grupos de baile ou pequenas orquestras).
Assim, as actuais gerações estranham ouvir falar em Praxe, traje e praxes no liceu.
Pena que muitos achem que o traje é uniforme exclusivo de universitários, quando historicamente isso é falácia:
http://portoacademico.blogspot.pt/2010/03/o-decreto-10290-de-12111924-sobre-capa.html
 
 
(...)

Notem, meus caros, que o próprio termo “caloiro” e “bicho” são oriundos dos liceus e não da Universidade (onde se usava o termo “novato”). Bicho era o aluno do liceu que não tinha nenhum exame feito de preparatórios. Mais tarde será a designação para qualquer aluno de liceu. Caloiro era o aluno de liceu já com exame de preparatórios.
Mais tarde, os liceus adoptarão a designação “Cabaço” para designar os alunos que ingressavam pela primeira vez no liceu. Como é fácil perceber, a hierarquia praxística também existia e não era apenas algo intrínseco ao ensino superior."



 
Comemorações do 1 de Dezembro em 1947, In Liceu Velho, Liceu Novo, Cadernos do Museu do Som e da Imagem, nº 12. Vila Real 2012
 
Estudantes Liceu da Guarda, ca. 1960, Acervo de Tiago Almeida
 
 
Comissão das Festas Nicolinas (Guimarães) em 1992. Acervo de Paulo Saraiva Gonçalves
 

Alunas do antigo Liceu Latino Coelho
(actualmente Escola Secundária Latino Coelho) de Lamego.
 
 

 
É pois legítimo que os liceus reivindiquem e reabilitem a Tradição Académica (que também lhes pertence ), tal como o fizeram os universitários há 30 anos atrás.

São estes os factos.
Só fica na ignorância o burro, que é aquele que não quer saber ou teima na sua ignorância, depois de provado o seu equívoco.

quinta-feira, dezembro 12, 2013

Notas a Trajes Não-Académicos


Em idos da década de 1990, inicia-se um fenómeno, tão inusitado  quanto pandémico, de criação de trajes estudantis que visavam, na óptica dos seus promotores/inventores, conferir identidade e diferenciação face ao paradigma do Traje Nacional, conhecido na gíria por “capa e batina”.

O objectivo era emancipação face a Coimbra, e afirmação do novel burgo universitário/politécnico (quase sempre sem olhar a meios) ou sem ponderação, recorrendo-se a uma panóplia de invencionismos diversos (quase sempre pegando na Tradição e desmembrando-a para, sobre ela, enxertar novas práticas: como por um limoeiro a dar bananas - justificando que a cor do fruto é a mesma -  e pretender que são toranjas), traduzidos no cúmulo de pretender apelidar de Tradição a algo recente (um paradoxo de todo o tamanho).
A criação de novos trajes foi uma dessas expressões.
Sabemos das diversas falácias que esses panos, contudo, encerram:
 - Criados porque se dizia que a “capa e batina era de Coimbra, quando tal é falso (traje de Coimbra só no folclore).
- Criados para, supostamente, identificar a instituição e localidade (cidade/vila), quando, histórica e tradicionalmente, nunca os traje estudantis visaram tal, mas apenas identificar a condição estudantil (pois são uniformes identificativos do estatuto de estudante, apenas e só);
- Criados recorrendo à colagem/inspiração/fusão de peças do folclore ou etnografia local/regional, quando o traje estudantil existia precisamente para distinguir o estudante dos demais mesteres e classes (a figura do estudante nem sequer figura em qualquer tradição etnográfica ou folclórica), sendo por isso um contra-senso e fazer do traje precisamente o contrário daquilo para que sempre existiu.
Pior, ainda, quando alguns delinquentes intelectuais decidiram, há uns anos, mesclar o traje nacional com peças do vestuário escocês (na escócia não existe uniforme estudantil sequer), desrespeitando quer a etnografia anglo-saxónica quer, principalmente, a nossa cultura e tradição.
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Bem, mas o que hoje aqui motiva este artigo é questionar muitos desses supostos trajes quanto à legitimidade de se considerarem como “trajes académicos”.
Vamos lá então:
 Um traje académico/estudantil é, convém não esquecer, um uniforme.
Como uniforme, ele tem a exclusiva função de identificar a condição daquele que o enverga.
Assim, qualquer traje académico, neste contexto estudantil, existe para dizer que aquele e/ou aquela são estudantes.
 É essa a sua função primária e exclusiva.
 Depois, se o traje, pela sua configuração, ou por algum símbolo adicional, identifica igualmente a instituição e cidade da frequência dos estudos, isso é já outro patamar que aqui não é relevante sequer. Mas bastaria a analogia aos uniformes militares em que os soldados vestem por igual,s ó se distinguindo a sua especialidade pela insígnia na boina e no peito/braço.
 Assim sendo, como podem alguns auto-proclamados “trajes académicos” terem a distinta lata de pretenderem reconhecimento, quando o seu uso é vedado, por exemplo, a caloiros?
 Não são os caloiros estudantes da instituição em causa? Temos Apartheid praxístico?
 Como podem pretender que determinado fato seja “traje académico”, quando o código da praxe o enquadra como indumentária não permitida a quem não foi praxado (vulgo “anti-praxe”)?
 Quem se recusa a ser praxado deixa de ser estudante da instituição? Desde quando?
Como pode um traje ser apresentado como o traje dos estudante da instituição X, se existe um regime de apartheid praxístico que diz que nem todos os estudantes podem trajar; não por não serem estudantes, mas porque não partilham da mesma opção praxística de uma suposta doutrina obrigatória (ridículo, até, quando muitos dos respectivos códigos até dizem que só adere à praxe quem quer)?
Até onde nos foi possível apurar, sabemos que nenhum traje é proibido em função das convicções políticas, religiosas, cor da pele, estrato social, etc.
Então por que diabo temos uns anormais, auto-intitulados de "praxistas", que criam um regime de segregação em função de algo que nada tem a ver com ser estudante da instituição?
 Quem elaborou, em 1º lugar, e quem continua a defender esses códigoszecos tem real noção das enormes e ridículas contradições de tudo isto?
 
 Não, caros leitores, muitos dos supostos trajes que por aí andam a fazer de conta que são trajes académicos são, na verdade, equipamento praxístico, a par de outros equipamentos para a prática de actividades diversas.
Burra Praxis Sed Praxis, diríamos nós, uma vez mais, nestes casos, onde ser curto de vistas parece atributo sine qua non para se ser praxista.



Nota: Também existem casos de instituições onde se diz que a"capa e batina" não pode ser usada por caloiros ou por quem não foi praxado (por quem é anti-praxe), coisa que, obviamente, releva de uma total ignorância e perverte a tradição, pelo que ilegal tal disposição.

Sobre o Traje Académico Português, leia AQUI.

domingo, outubro 20, 2013

A Praxe - De Caloiro a Doutor * Das praxes à Praxe


Iniciativa organizada pela Comissão de Praxe da FML, ocorrerá na próxima Quinta-feira, 24 de Outubro, a partir das 16h, no Anfiteatro 58, do Edifício Egas Moniz, na Faculdade de Medicina de Lisboa.

Para esta iniciativa, foram convidados os vários organismos e responsáveis da Praxe das várias instituições da UL (Universidade de Lisboa) e da Academia Lisboeta, sendo que a mesma é naturalmente aberta a todos os estudantes da capital com 2 ou mais matrículas.

Evento no FB:
https://www.facebook.com/#!/events/374441492689759/