terça-feira, abril 08, 2014

Notas à origem da Cartola, Bengala, Laço e Roseta dos Finalistas Universitários






Estava em falta um artigo que explorasse a questão da origem daquilo que muitos designam, por brincadeira (mesmo se não é propriamente a terminologia adequada), como sendo “insígnias de finalista”.
Cartola, bengala, laço e roseta são adereços incorporados ao traje que servem para sinalizar o fim dos estudos, nada mais que isso. Não são expressões de Praxe ou de praxista, apenas e só do finalista, seja ele praxista ou não, pelo que a questão que alguns ignorantes levantam do "merecimento" não tem qualquer lógica, pois que o merecimento resulta do percurso e sucesso escolar do aluno enquanto estudante.
O que a Praxe define é que o finalista desfile trajado no cortejo (como aliás o deveriam fazer todos os alunos), usando cartola, laço, bengala e roseta e.....sem capa (o finalista). Esse  éo figurino que caracteriza  finalista no Cortejo (já na Missa de Benção das Pastas, apenas se apresenta trajado a rigor e com a sua pasta de 8 fitas).
Mas voltemos ao assunto.
A adopção deste tipo de adereços ocorre, mais uma vez, como tantas outras adopções, de forma natural e espontânea, com base em peças que eram usadas noutros contextos, embora familiares e, muitas vezes, já incorporadas no quotidiano dos estudantes.
Recordemos, antes de mais, que a laicização do uniforme académico, e as suas conhecidas variantes (como é o caso da Escola Agrícola de Coimbra), seguiam, de perto, os cânones da etiqueta vestimentária em moda na época (a que se somavam as normas de etiqueta. próprias a uniformes corporativos). 
Grupo de alunos (em cima) e professores(em baixo) do Instiuto de Agronomia e Veterinária de Lisboa,
 Ilustração Portugueza, II Ano, Nº 75,
de 10 de Abril de 1905, p.357 (Hemeroteca Municipal de Lisboa).

Com efeito, e a título de exemplo, confirmando o paradigma laico-burguês, docentes e discentes do curso superior de letras e do Instituto de Agronomia e Veterinária entrariam no século XX de labita preta e cartola, costume de certa forma prolongado após a respectiva integração nas universidades fundadas em Lisboa após 1910 (Nunes, 2013).

Nestas duas imagens (acima e abaixo) que retratam estudantes, podemos ver o uso generalizado
do chapéu de coco na toilette masculina dos que estão à futrica.

Sobre o incidente que leva à Greve Académica de 1907,
Ilustração Portugueza, III Volume, Nº 55, de 11 Março de 1907, p.294e 296
(Hemeroteca Municipal de Lisboa).


Dado que o uso de chapéu de coco e cartola eram associados a uma certa ideia de estatuto ou de toilette mais solene (pese embora o chapéu de coco ser usual na indumentária civil dos estudantes), é natural que, a determinada altura, se parodiasse tal, com o tais adereços a prefigurarem a ascensão, tida como certa, a um estatuto mais elevado.


Cartola e Bengala

A tradição da cartola iniciou-se em Coimbra, com o curso do V Ano Médico de 1931/32, de que faziam parte estudantes que se tornariam célebres na boémia e vida académica de Coimbra, como é o caso de Castelão de Almeida (fundador do periódico "Ponney") ou de Henrique Pereira da Mota (de cognome “Pantaleão”), ambos repúblicos da Real República Ribatejana.

Segundo Reis Torgal[1] a novidade não terá acontecido imediatamente no cortejo da Queima de 1932, mas, sim, no decorrer de um jantar de curso que teve lugar no mês seguinte à Queima em que todos se terão apresentado de chapéu de coco ou de chapéu alto, de bengala e fumando charuto, numa clara uma alusão à entrada futura numa vida profissional prestigiada.

Tal é-nos igualmente confirmado no relato constante no libreto dedicado à história da Queima das Fitas, editado em 1999 pelo Diário de Coimbra:

“Embora na integrasse a programação da “Queima das Fitas” de 1932, já que o acontecimento se verificou em Junho e não por alturas das festas, foi neste ano que nasceu a “praxe” do uso da cartola e da bengala que, de futuro, os finalistas da Universidade passaram a usar em todas as Queimas das Fitas. Os quintanistas de Medicina que ficaram conhecidos pelo nome de “Curso dos Cocos”, e ao qual pertencia o célebre “Pantaleão” (Dr. Henrique Pereira da Mota), fez a sua primeira “Reunião de Curso” logo no mês seguinte, tendo-se apresentado todos de chapéu de coco ou de chapéu alto, de bengala e fumando charuto. Esta praxe que se enraizou, significa a entrada na “vida activa”. Foi este “Curso do Pantaleão” que teve também a ideia da “Venda da Pasta”.[2]


O artigo que a seguir apresentamos, confere com a nossa pesquisa, complementando-a:


in revista Rua Larga, nº 30, de 01 de Agosto de 1959, pp.320-321


Rapidamente alastra tal “novidade” que, pela sua graça, simplicidade e simbolismo, se foi cristalizando:

 “Na segunda metadade da década de 1940 é apropriada e tradicionalizada pelos estudantes da Universidade do Porto. Como traje de fantasia que era, usavam-se pijamas, casacas, vestidos e outras peças de roupa não combinadas. A cartola era de estrutura manufacturada, em cartão forrado de papel de lustro na cor científica do curso. Lapelas de cetim, papillon e bengala eram também na cor do curso.
Por vezes aparecia uma flor na botoeira (que não era a roseta de seda que foi criada pelos estudantes da Universidade do Porto a partir das insígnias das comendas de Estado). A cartola conimbricense tinha aba plana, de tipo saturno, copa de ilharga alta e chegava a ser muito altarrona e forrada de preto caso o seu portador fosse veterano. O charuto vistoso, tradicionalmente ofertado por caloiro-afilhado, e a garrafa de espumante, compunham a toilete dandy do quintanista que se despedia lacrimogéneo.[3]

Porto - Queima das Fitas em 1949


Diz-nos, ainda, Alberto Sousa Lamy, reforçando o já avançado:

“O Curso do V Ano Médico de 1931-1932, o curso do Dr. Henrique Pereira Mota (Pantaleão), o curso dos cocos, foi introdutor do uso das cartolas nas festas da Queima das Fitas.
Pela praxe, os cartolados podem trazer apenas batinas, cujas bandas devem ser de cetim da cor da Faculdade a que pertecem e as abas arredondadas dobrando a pregando as duas extremidades inferiores, dando um aspecto de fraque.
Os quintanistas, que só usam as cartolas e bengalas na Queima das Fitas, seguem a pé no cortejo, dado que os carros são para os novos fitados.”[4]

Actualmente,

a cartola de fantasia usada em Coimbra desde 1979 é do tipo portuense, conforme modelo fabricado em série desde a década de 1950 , de ilharga baixa e forrada de cetim, ao arrepio do tipo conimbricense, artesanal, de ilharga alta e forrado de papel de lustro”[5]


Queima das Fitas, Coimbra,
Bilhete Postal, 1951
Como podemos ver, após a introdução dos já citados adereços carnavalescos, o traje adapta-se para servir já não apenas de uniforme estudantil, mas também de fantasia, com o figurino a ganhar contornos de snobismo jocoso, com o ligeiro dobrar das carcelas da batina e cozendo uma fita estreita da cor da faculdade ao longo da calça, de maneira a que a batina passasse a imitar um fraque.

Já o uso de bengala parece ultrapassar o mero uso figurativo do cortejo, chegando a ser usada como  para mimosear os caloiros, no acto da sua emancipação (como a vara que se usa para conduzir os animais), como refere Sofia Rosário, citando Sousa Ribeiro, a propósito das festas de 27 de Maio e das tradicionais latadas (que marcavam o fim das aulas: “Festa das Latas”) que:

“Os caloiros aparelhados a uma lata convenientemente ligada por um arame, compareceram no Largo da Feira ao princípio da tarde[6]. Levados para a porta férrea, eles partem numa carreira vertiginosa pela rua larga até ao Largo Miguel Bombarda. Durante esse trajecto, os doutores, munidos de bengalas, batem nas latas [se, ao bater na lata do caloiro, esta se despregasse, era o portador punido pelo finalista].”[7].

Queima das Fitas do Porto,1958,
Acervo de João de Castelo Branco,
in blogue "Memoria recente e antiga".
Revista dos Antigos Alunos da UP, a propósito do
 Centenário da Universidade do Porto, 2011
(disponível AQUI)
O Laço

O Laço/papillon é um adereço do vestuário que traduz, na etiqueta, uma ideia de maior solenidade, usado em dias de gala ou eventos cerimoniosos, que podemos observar noas maestros durante um concerto, no uso de smoking, etc.,
O laço é, aliás, contemplado na indumentária académica (traje académico) como alternativa à própria gravata, usando-se de cor preta.
Durante o cortejo, embora também no baile de gala, é usual os finalistas trocarem a gravata preta do seu traje por um laço da cor da faculdade (da mesma cor que a cartola, bengala e roseta), não sendo incomum, forrar as lapelas com cetim da mesma cor.
O figurino que o conjunto cartola, bengala e laço pretende representar, como dissemos, é a da imagem projectada no futuro do alcançar de um determinado estatuto traduzido pela "toilette" cerimoniosa.
O laço usa-se quer nos rapazes quer nas raparigas. Caso não o usem, deve manter-se a gravata.
 
A Roseta
 
A roseta, usada pelos finalistas (rapazes e raparigas), e feita em seda/cetim, parece-nos ser a representação de uma medalha, uma condecoração " de brincadeira", criada, ao que tudo indica, na academia portuense, em substituição da inicial flor na botoeira.

Roseta por se inspirar, possivelmente, na "Imperial Ordem da Rosa" que é (era) uma ordem honorífica brasileira, criada em 1891 pelo imperador D. Pedro I, em desenho idealizado por Jean-Baptiste Debret, inspirado, segundo consta, nos motivos de rosas que ornavam o vestido da Rainha D. Amélia ao desembarcar no Rio de Janeiro.

A Medalha é (era) discernida tanto a militares como a civis, nacionais e/ou estrangeiros, por serviços prestados à nação.

Esta será a origem da roseta que, no imaginário académico, e dentro do espírito da Queima (como adereço carnavalesco), representará, jocosamente, como que uma "Medalha de Mérito Académico", distinguindo quem chegou ao fim do percurso estudantil e saiu vitorioso.
Colecção "Costumes Académicos", Coimbra,
Bilhete Postal, 1965

Imposição insígnias de Farmácia, no Porto, em 1966
(Arquivo da UP)


Curso de Medicina na Queima das Fitas do Porto em 1971
(Foto cedida ao Arquivo da UP por Mário Abílio Silva Bravo)



Muito rapidamente estes adereços festivos são adoptados nos liceus, onde também já existia a tradição de assinalar festivamente o fim do ano lectivo.




Liceu de Santarém, ca. 1957
Acervo de José Varzeano

Liceu de Santarém, ca. 1957
Acervo de José Varzeano

Mais recentemente, tal aparecerá também em outras geografias escolares, nomeadamente nas festividades dos pequenos finalistas dos infantários ou da primária, quer na adopção das cartolas em uso em Portugal, quer na versão anglo-saxónica que os muitos filmes americanos ajudaram a disseminar.
Só não se percebe como é que, pelos lados da Universidade do Minho, o tricórnio usado no quotidiano é carnavalizado nos finalistas que o usam às cores, como se fosse uma cartola. Claramente, alguém não percebeu patavina do sentido da cartola. E quando não se sabe, é usual a parvoíce meter-se a inventar.


Finalistas da Universidade de Oregon

Finlalistas de jardim de infância, com capas pelso ombros, cartola e bengala.

Questão contudo pertinente será saber até que ponto o “Cap Graduation” (capelo de formatura, de feição quadrangular), que deriva dos antigos barretes renascentistas que são bem nossos conhecidos na versão dos galeros/capelos eclesiásticos, não terá, de certo modo, influenciado a adopção da cartola como chapelaria iconográfica  do finalista, até por lhe ser bem anterior, como chapéu usado nas cerimónias académicas, fazendo parte da indumentária formal e protocolar do acto.
Fica a questão.






PRAXIS

O que a tradição contempla, secundum praxis é que:

- O finalista, rapaz ou rapariga, irá trajado, mas sem capa, usando cartola, bengala, laço/papillon e roseta da cor do curso, forrando, se também assim o desejar, as carcelas/lapelas do traje com cetim, também da cor do curso.
- O finalista pode, contudo, apresentar-se sem capa e batina, podendo na mesma usar cartola, bengala, laço e roseta.





[1] TORGAL, Reis – Boémia da Saudade, Coimbra, Edição do Autor, 2003
[2] Queima das Fitas, os 100 anos do Centenário da Sebenta, 1899-1999. Edição do Diário de Coimbra, 1999, p. 103.
[3] Frederic P. Marjay - Coimbra. A cidade universitária e a sua região. Lisboa: Bertrand Editora, 1959, p. 39
[4] LAMY, Alberto Sousa – A Academia de Coimbra, 1537-1990. Lisboa, Rei dos Livros, 2ª Edição, 1990, p. 676.
[5] NUNES, António Manuel – Entidade(s) e moda, Percursos contemporâneos da capa e batina e das insígnias dos conimbricenses. Bubok, 2013, p.122
[6] Recordemos que a emancipação dos caloiros ocorria após a tourada e outros mimos a que eram sujeitos no Largo da Feira.
[7] ROSÁRIO, Sofia – Coimbra, O Tempo da História. Coimbra, Dept.º gráfico da AAC, 1989. P.82

sábado, março 15, 2014

Notas ao Apadrinhamento do Caloiro (das origens à actualidade)


Muitas são as perguntas que, volta e meia, são colocadas na tentativa de perceber de onde vem a tradição do apadrinhamento na Praxe.

 Vamos tentar fazer alguma luz sobre o assunto.

O Apadrinhamento é uma prática já bem antiga que consistia, grosso modo, no recomendar do novato e algum estudante mais velho, lá da terra, para que este último tomasse conta, orientasse e protegesse o “miúdo” de todas as partidas, usuras e vícios.

Como os estudantes se organizavam em residências (cuja administração era por eles assegurada), era nesse meio fechado e altamente hierarquizado que tudo se jogava.

Na hidalga Espanha, onde temos os registos mais antigos dessa prática, as ditas residências eram conhecidas por “colégios” e, para além do novato ter deveres (faxinas várias), gozava igualmente de direitos, pois os veteranos, por imposição das leis universitárias, tinham de garantir determinadas condições aos alunos mais novos, sendo uma delas o apoio ao estudo[1].

Façamos a viagem ao interior da história, por mão do “QVID TVNAE? A Tuna Estudantil em Portugal”, que claramente nos explica tal fenómeno

 “Havia uma modalidade bastante difundida até meados do séc. xvi: a pupilaje. E entram em cena os famosos bachilleres de pupilos, que tanta tinta têm feito correr, desde os tempos da literatura picaresca aos bits e bytes (e muitos «bitaites»...) da cibernética.
Os bachilleres eram estudantes que, possuindo o grau de bacharel (bachiller), alojavam em suas casas outros alunos menos adiantados nos estudos. Regra geral, o bachiller era aspirante ao grau de doutor ou ao ensino na universidade. A possibilidade de receberem hóspedes, que lhes era oferecida pelas autoridades académicas, constituía uma fonte de rendimentos para o prosseguimento de estudos. Num paralelo com o «Processo de Bolonha», diríamos que haviam concluído a licenciatura e pagavam, assim, o mestrado. Além disso, como a nomeação para uma cátedra se fazia por votação, os pupilos representavam mais uns votos na eleição.
Contudo, esta benesse impunha um conjunto de obrigações: orientar o estudo, organizar a vida em comunidade, vigiar o bom comportamento e incutir bons costumes nos pupilos, fornecer alimentação devidamente regulamentada pelos estatutos da universidade, fazer cumprir as horas de recolher, etc. O pupilero (aquele que alojava os pupilos) foi sobejamente retratado de forma satírica na novela picaresca (Guzmán de Alfarache, La Vida del Buscón) como um avarento que gastava o menos possível das mesadas que os pais dos pupilos lhes enviavam, servindo a pior comida e a mais barata em quantidades irrisórias, equipando os quartos com mobília de péssima qualidade – enfim, transformando a pupilaje num negócio sórdido e rentável.
Os estatutos universitários determinavam ainda que cada bachiller recebesse apenas alunos do mesmo curso ou de cursos afins, para assim estimular o estudo por via das afinidades electivas e intelectuais dos seus pupilos.”[2]



Fica um retrato das origens.
Em Portugal, as residências governadas por universitários (sucedâneas das existentes sob tutela de ordens religiosas – os colégios[3]) ficarão conhecidas, no séc. XIX, por Repúblicas[4].

As repúblicas que surgem em Portugal resultam da necessidade dos estudantes arranjarem uma nova forma de alojamento, após a extinção dos colégios universitários de Coimbra (que criou uma enorme falta de locais para albergar tanto estudante), quando, em 1834, é abolido o Foro Académico. São posteriores, pois, à revolução vintista e consequência da implementação do decreto de Joaquim António de Aguiar, em 28 de Maio de 1834, que extingue congregações, mosteiros, conventos, hospícios, etc.

"República" em razão do governo da residência ser semelhante aos governos dos estados republicanos. Amílcar Castro define-as como “casas onde vivem estudantes por conta própria”[5], dado que era constituída por estudantes e uma ou duas criadas (para lavar a roupa, cozinhar...), devendo prestar contas no fim do mês ao senhorio, controlar as despesas e dívidas dos moradores e a alternância na chefia da residência (às vezes semanal, mensal ou, então, anual).

 Mas voltemos ao fio da história.

Em Portugal, as relações de usura e exploração de novatos por parte dos veteranos era prática também comum à da vizinha Espanha (e outros países com urbes universitárias).

Recorremos, mais uma vez, à obra acima referida, a qual designa o conjunto literário que versa sobre esses costumes e vivências de antanho por “Picaresca Portuguesa”:

 “A mais antiga fonte documental oriunda do meio académico e respeitante à forma de vida dos estudantes é uma colectânea de textos publicados por estudantes de Coimbra, entre 1746 e 1790, e que dá pelo nome genérico de Palito Métrico. Nela se encontra vividamente retratada em primeiríssima‑mão a vida da classe estudantil: as investidas aos caloiros, as artimanhas engendradas pelos mais velhos (e velhacos) para viverem à custa dos outros, os expedientes para suprir a falta de mesadas, os costumes, as modas, a exploração comercial e os logros infligidos aos estudantes pelos habitantes da cidade, a fome, o frio...
Todos os textos pretendem fornecer utilíssimos conselhos aos novatos para que não caiam nos logros dos veteranos, chegando os seus autores ao descaramento de afirmar que um dos logros é justamente a publicação de livros que previnem contra os logros!...
(…)

Ao folhearmos as deliciosas páginas deste «Apontoado de versos macarrónicos latino‑portugueses, que alguns poetas de bom humor destilaram do alambique da cachimónia para desterro da melancolia», vamos compondo um retrato da vida académica não muito diferente daquele que os congéneres espanhóis foram deixando. São as mesmas partidas feitas aos novatos, são os mesmos expedientes de sobrevivência, os mesmos conflitos com as autoridades.
(…)
Num outro texto da autoria de um tal António Castanha Neto Rua, um suposto recém‑licenciado por Coimbra encontra‑se de visita ao pároco de uma remota aldeia. Sabendo que um sobrinho do bom velho padre pretende frequentar a Universidade, oferece‑se o bacharel para aconselhar o mancebo sobre como poupar dinheiro, evitando despesas desnecessárias e burlas de amas, lavadeiras, criados e veteranos – queixas comuns aos dois lados da fronteira.”[6]

O apadrinhamento de hoje sofreu evoluções, nem sempre no sentido correcto, muitas vezes visto como uma forma de relacionamento, ou posse, de um indivíduo como objecto para praxe pessoal.

 O que sabemos é que ele tem por base a convivência em comunidade: as Repúblicas, onde se criavam afinidades (fosse com alguém da mesma terra, fosse por viverem debaixo do mesmo tecto). Recordemos que muitas emancipações (cartas de alforria)[7], ocorriam no seio das Repúblicas:

 “- Tu, e esticou o dedo na direcção de outro, pega nesta espingarda (era uma vassoura velha), põe-na ao ombro e vai fazer guarda, à porta da República. E não te esqueças:- sempre que passar uma gaja boa, grita “às armas”, para nós irmos admirar a bela Dulcineia.
O caloiro destacado, para fazer a guarda, desceu as escadas e foi postar-se à porta, de vassoura ao ombro. De vez em quando fazia ronda, como na tropa, andando de um lado para o outro, mas sempre em frente da República.
De repente, ouvimo-lo gritar:
- Às armas!
Todos corremos para as janelas. E lá ia, na verdade, a passar uma beldade de se lhe tirar o chapéu. (…)
Nesse momento, saía a D. Maria [criada da República], para ir às compras ao mercado.
Consciente da sua responsabilidade, a sentinela apressou-se a apresentar-lhe armas, no mais puro estilo marcial, o que lhe valeu um louvor de todos os presentes. Voltámos para dentro, mas, um ou dois minutos depois, voltou a gritar:
- Às armas!
Todos corremos de novo para as janelas, mas, desta feita, era uma pobre velha, alquebrada ao peso dos anos, que, muito custosamente, subia a calçada.
- Às armas, gritou outra vez o caloiro.
E porque, nesse momento, ela fosse a passar na sua frente, apresentou novamente armas.
- Ah” sua animália, você não vê bem, pro causa do cabresto ou perdeu os óculos?
No entanto, acharam que o caloiro se tinha portado por forma a merecer um segundo louvor e que a piada era, na verdade, de registar, o que lhe valeu ser imediatamente desmobilizado, para se sentar à mesa, com os “doutores”, a tomar o pequeno almoço.[8]

Também pululam invencionismos sem nexo, com doutores a exigirem que os caloiros peçam apadrinhamento por escrito ou outras formas descabidas, em detrimento do pedido pessoal e simples à pessoa. Um “altar” de ridículo no qual se colocam certos praxistas que redobram de presunção, na falta de algum pingo de senso, e humildade.


O Baptismo

 O apadrinhamento tem a sua formalização no “baptismo” (nas festividades da Latada/semana do Caloiro), acto em que o doutor se compromete a orientar e ajudar o novo aluno na sua integração na vida universitária (que não propriamente nas praxes). O caloiro, por sua vez, compromete-se a respeitar e acatar os conselhos daquele que escolheu livremente (a escolha é exclusiva do caloiro), sem que isso implique aceitar formalmente quaisquer abusos ou práticas que atentem à sua integridade.

O baptismo marca, igualmente, o reconhecimento simbólico e jocoso do caloiro como "inter pares", ou seja como académico, como colega, cessando, com o baptismo, a fase de recepção ao caloiro e as praxes ao mesmo.
Apadrinhamento de um Caloiro (à direita).
Pintura de Varela dos Reis, feita na
República dos Paxás, anos 50.
O caloiro não ganha nenhuma designação nova (não existem graus hierarquicos dentro da noção de caloiro: aluno que frequenta o Ensino Superior pela 1ª vez), antes o reconhecimento académico dos colegas mais velhos e a formalização do seu caminho de integração, com a entrada, na sua vida, do seu padrinho ou da sua madrinha.

Praxis do Baptismo

Sendo o “baptismo” um acto solene, copiado ou inspirado das práticas religiosas, implicaria que os doutores estivessem de capa descaída pelos ombros, ao invés de traçada, do mesmo modo que se deveria usar da colher ou, quando muito, o penico, evitando exageros na quantidade de água (daí serem descabidos os duches a que alguns sujeitam os caloiros ou os banhos em lagos, no mar e afins).
O acto solene do baptismo (inicialmente à beira rio, Mondego, mas também em fontenários) será normalmente conduzido por quem tem o ministério da Praxe (indicado para liderar a cerimónia) para aquele acto (o Dux ou outro responsável), cabendo ao padrinho/madrinha, ficar ao lado (e não, como se faz em alguns sítios, baptizar o próprio afilhado - embora neles possa ser delegado, em razão do número elevado de caloiros).

É derramado um pouco e água sobre a cabeça do caloiro, com recurso à colher de pau ou, eventualmente, a um penico, proferindo uma fórmula em latim macarrónico, que poderá andar à volta de algo como "In nomine solenissimae praxis, caloirum (nome) baptizatum est".


Quem pode ser padrinho ou madrinha?


Em rigor, qualquer estudante com possibilidade de também proteger (exercer protecções), ou seja com pelo menos 3 matrículas. Nada na tradição impede que possa ser alguém com menos matrículas, embora seja mais comum a escolha de um estudante já mais avançado nos estudos, em razão da sua maior experiência.



Quantos afilhados se pode ter?

Na prática, e com senso, diremos que não mais de 1a 2 por ano (o que dará cerca de 5 a 10 afilhados apadrinhados no fim do curso (o que já é muito).
Isto porque, como acima deixámos claro, o apadrinhamento é, da parte de quem apadrinha, uma responsabilidade; o dever de acompanhar e orientar, ou seja estar presente e atento.
Seguindo a antiga tradição dos estudantes que recebiam a incumbência de zelar por ouros mais novos, conforme acima mencionámos, citando a obra "Qvid Tvnae", cada aluno que apadrinha deve ter em conta que acompanhar um colega mais novo implica uma dedicação que não se compadece com legiões de afilhados como quem mete dezenas de pins e emblemas "para inglês ver".
Ser padrinho não é uma afirmação de popularidade, mas um serviço que se deve prestar em verdadeira solidariedade académica.
Tal não se consegue apadrinhando às carradas, só para parecer um tipo fixe e popular.
Lá diz o ditado que "quem toca muitos burros, algum deixa para trás". Ser padrinho não é colecionar afilhados.


Pedidos de apadrinhamento

Uma das coisas mais ridículas que temos assistido em algumas "casas" é o facto de ser exigido aos caloiros que o pedido de apadrinhamento se faça através de carta, de um documento escrito ou outra qualquer forma criativa.
Depois variam os tipos, de acordo com a tonteria dos veteranos. Ora é numa língua quem nem eles dominam, ora exigindo que a carta seja escrita de baixo para cima e da direita para a esquerda, ora assim ora assado.

Como forma de gozar o caloiro, em tom de brincadeira, tudo bem. É como mandar o caloiro ir à farmácia buscar pregos.
Mas levar isso a sério, ou seja como procedimento "administrativo" obrigatório, apenas evidencia a estupidez de quem se faz difícil e exige esse tipo de coisa sem nexo.
O pedido faz-se pessoalmente, cara a cara, perante o qual só duas respostas são possíveis: "sim" ou "não".

Não é preciso, porque nem é Praxe (nem de gente equilibrada), andar a inventar "démarches" e papeladas para algo tão simples como responder a uma pergunta/pedido.
Quem deve sentir-se honrado é o padrinho ou a madrinha, em ser escolhido(a) para orientar alguém cuja escolha demonstra reconhecimento pelas qualidades humanas e académicas.
O caloiro, ao escolher alguém, está implicitamente e reconhecer e honrar uma pessoa que vê como exemplo e como capaz de ajudar a ser melhor.
Não se percebe, pois, que os doutores se coloquem num pedestal de presunção bacôca a colocarem obstáculos e provas para que o caloiro se rebaixe q.b. para conseguir algo que se quer simples e sem folclores.
Doutor que se arma em difícil para aceitar um pedido de apadrinhamento está desde logo a falhar como doutor, desde logo por não perceber o apadrinhamento nem respeitar o caloiro na sua escolha livre e sincera. Em certos casos, obrigar alguém a fazer pedidos originais (e de facto reconhecemos a criatividade de muitos deles) chega a ser falta de educação para com quem faz o pedido.

Resumindo: não é Praxe exigir a um caloiro que apresente o seu pedido desta ou daquela maneira. Também não é lícito induzir os caloiros, sugerir-lhes, dar-lhes a entender que os pedidos se fazem mediante apresentação de algo criativo, deixando-lhes a ideia que é da praxe fazer-se desse modo.


 
Protecções

No que toca a protecções, as mesmas são tradicionalmente para com as trupes, pois a partir do baptismo cessam os ritos de recepção e as praxes.
Por vezes sucede que antes do baptismo o caloiro já tenha padrinho (ainda não oficializado, apenas um apadrinhamento "de facto", tal como as uniões). Nada muda com isso.
O padrinho ou madrinha, querendo proteger pode fazê-lo,
 conquanto a protecção se faça segundo a Tradição[9], sabendo-se que as mesmas seguem uma hierarquia de quem pode proteger, como e em que condições isso ocorre.

A ter em conta:


Temos vindo a observar que, em alguns locais, se municiam conceitos algo estranhos, como os de "família de Praxe", estabelecendo, por via dos apadrinhamentos, como que uma relação de parentesco, usando-se designações como "avó" ou "avô" para designar, por exemplo, o padrinho do padrinho (ou madrinha da madrinha).
Tal é totalmente descabido e pernicioso. De Praxe nada tem, e seria importante travar quanto antes essa moda, porque é precisamente assim, a partir de coisas que parecem inofensivas, que se deturpa a Tradição. E como em tantos casos conhecidos, só se está a alimentar que, de futuro, tal venha também a ser propalado como sendo Praxe (e pior ainda, poder vir a integrar alguns códigos).
Evitem-se esse papismos e verdadeiros non-sense.
O Padrinho ou madrinha não é um laço de parentesco, pelo que não se percebe que se queira estabelecer tal relação na Praxe, quando dela isso nunca fez parte.
Haja discernimento, mesmo para com aquilo que parece inofensivo.

Ficam estes dados que, esperamos, possam esclarecer e ajudar.



[1] Um estudo que, em alguns casos, ganha tal qualidade e reconhecimento que alguns colégios serão integrados na própria Universidade, como foi o caso do Colégio Fonseca, em Santigado de Compostela, ou mesmo do colégio da Sorbonne – que dará o seu nome à actual Universidade de Paris. Em Coimbra, isso sucederá com o Colégio Pontifício de S. Pedro, por exemplo.
[2] COELHO, Eduardo; SILVA, Jean-Pierre; SOUSA, João Paulo e TAVARES, Ricardo – QVIDTVNAE? A Tuna Estudantil em Portugal. -  Euedito, Porto, 2011, pp.49-50
[3] Em Coimbra, no séc. XVI, foram fundados 2 colégios: uma para os nobres, o de S. Miguel; e outro para os estudantes “honrados pobres”, conhecido como o “de Todos os Santos”
[4] RIBEIRO, Artur – Repúblicas de Coimbra, Edição do Diário de Coimbra. Coimbra,
[5] CASTRO, Amílcar Ferreira de – A Gíria dos Estudantes de Coimbra – Coimbra: Fac. De Letras, 1947 (suplemento de Biblos), pp.99-100.
[6] Op. Cit, pp. 57-58
[7] A emancipação, por via oral ou registo documental (carta de alforria) determinava que o caloiro ficava isento de quaisquer futuras praxes, pois tinha, em razão da sua graça, de algum feito ou comportamento tido como meritório, sido isento, gozando de total imunidade praxística, embora continuando caloiro.
[8] ABRUNHOSA, Octávio – Coimbra…ontem. Memórias de um estudante (1945-1951). Almedina, Coimbra, 2001, pp. 13-14
[9] No Código de Praxe de Coimbra, de 1957, tais condições estão consagradas no Título XI, artigos 144ª 149.

quinta-feira, março 06, 2014

Notas aos primórdios do Traje Académico Feminino

Mais uma incursão ao blogue do António Manuel Nunes, Virtual Memories,  cujo artigo aqui reproduzimos integralmente, sem mais delongas, apenas sublinhando a destacando os dados que merecem toda a atenção:


"Estudantes do Liceu de Évora com Florbela Espanca (1917)






Grupo de estudantes finalistas do Liceu de Évora, dois alunos de capa e batina, um aluno com farda militar, três alunas com no novo traje académico de capa e tailleur preto criado em 1914-1915.
Esta fotografia vem publicada por Rui Guedes, Fotobiografia [de] Florbela Espanca. Lisboa: Dom Quixote, 1999, p. 107, com identificação dos seguintes elementos: (esquerda para a direita) Francisco da Cunha Marques, Alice Mendes de Morais Sarmento, Florbela Espanca, Lídia Amélia Nogueira, José Rodrigues Candeias, Joaquim da Cruz Margalho. Florbela evocou o seu tempo de estudante no poema "Colegas do passado/Em vossas capas belas/Agoniza o luar das minhas ilusões (...)".

 A fotografia foi tirada em 1917 e deve ser uma das raras que mostra o traje académico feminino na sua formulação primitiva: casaquinho feminino de três quartos, cintado, saia de funil pela meia perna, sapatos pretos, blusa branca, ausência de gravata.

Esta fotografia não vem referenciada por Adília Zacarias e Isilda Mendes, Tuna académica do Liceu de Évora. 100 anos. História e tradições. 2012, nas páginas dedicadas ao traje académico (32-39). Na página 36, escreve-se "Não temos, até à década de [19]30, fotografias em que estejam alunas do Liceu trajadas".
O que a fotografia supra vem demonstrar é que o traje feminino rapidamente se divulgou a partir dos liceus de Lisboa e do Porto aos restantes liceus (1914 e ss.), traduzindo a força de um movimento espontâneo que passou completamente ao lado dos ministros da Instrução Pública e dos reitores dos liceus. Quando o Ministério da Instrução/Educação decide regulamentar o traje estudantil, versão feminina, fá-lo tardiamente, em 1924, e em artigos péssimos que revelam completo desconhecimento da função, importância, características e morfologia dos trajes corporativos.

 Não vemos coberturas de cabeça nesta imagem, mas sabemos que o acessório mais usado nestes anos nos liceus de Lisboa e de Évora foi o tachinho ou barretina de pano preto, igual ao dos alunos do Colégio Militar, que tanto foi usado por alunos como por alunas.

Por último, saliente-se que o processo de criação deste traje liceal (em meados da década de 1940 passará a universitário graças ao Orfeão da UP, quando o seu uso já estava generalizado na maior parte dos liceus portugueses) está perfeitamente inserido no contexto ocidental da época, coincidindo com as fardas desenhadas expressamente para as mulheres que exerceram tarefas colaborativas nas forças militares dos USA, Canadá, Grã-Bretanha e França durante a Grande Guerra (carteiro, enfermeira, condutora de ambulância, Cruz-Vermelha)."