segunda-feira, outubro 20, 2014

Notas à Praxe (des)importada.

Um argumento muito recorrente nas novéis academias é: "Não temos de seguir à risca Coimbra, porque temos as nossas próprias baseadas na nossa história local".
 
Então reflitamos:
Coimbra serviu ou não de modelo, como Alma Mater, para as Tradições e a Praxe estudantis existentes?
Se serviu, em que medida se pode importar avulso?
Com que legitimidade?
Pede-se uma nota de 5 euros e mete-se lá mais um zero esperando que passe por uma nota de 50?
Quem querem enganar?
 
É a Tradição rodízio onde a pretexto de implementar tradições estudantis, se faz corte e costura seguindo modas em vez de, precisamente, seguir a Tradição?
Metem-se pinheiros no lugar de árvores de fruto e pretende-se que continua a ser um pomar?
Mas querem enganar quem?
 
Se as nóveis academias usam traje estudantil (capa e batina ou imitandoa mesma), usam e impõem insígnias como grelo e fitas, usam pasta, fazem Serenata Monumental, têm Cortejo da Queima, têm Latada e Baptismos de caloiros, Julgamentos, Apadrinhamentos, Missa de Benção das Pastas, Praxe e praxes, usam insígnias de praxe e pessoais, cartola e bengala nos finalistas, usam terminologia e hierarquia inspirada na Praxe coimbrã (caloiro,doutor, veterano, Dux....ou equiparado) ............ como negar que a sua legitimidade assenta precisamente nesse franshising?
Mas se é franshising, até ele tem regras.
O Mc Donald's de Odivelas pode usar o logo da Mercedes, vender cachorros e missangas e continuar a pretender ser o Mc Donald's, só porque vendem Happy Meal de cerveja?
 
 
Se não querem copiar, então não usem nem façam nada do que acima se menciona. Nem queima, nem insígnias, nem traje, nem coisa nenhuma. Façam outra coisa, mas nenhuma das acima mencionadas.
E não usem sequer o termo Praxe Académica, praxar, praxista ou Tradição Académica.
Não se é meio engenheiro, meio médico ou meio ateu.
 
 
Ah, falta essa coisa bizarra das "Tradições da terra".
Quando nos deparamos com tal justificativo/explicativo, redobra o ridículo onde mingua o senso.
Que tradições locais, autóctones, próprias e singulares existem em Viseu, Leiria, Faro, Covilhã, Viana ou Alguidares de Baixo que permitam deturpar a Tradição Académica Nacional e nela enxertar excentricidades folclóricas museológicas ou figuras históricas kitadas?
 
[Sim, tradição nacional, porque a Tradição e a Praxe são um património que embora tendo por berço Coimbra, se tornaram, desde finais do séc. XIX até aos anos 60 do séc. XX, cultura sem fronteiras distritais, concelheias ou de freguesia.]
 
Que tradições estudantis locais foram desenterradas para permitir e legitimar que, por cima da importação ,se proceda ao desmebramento e desvirtuamento da Tradição?
Em que é que se arrogam as nóveis academias para justificar tão significativas diferenças e desvios, a ponto de delapidarem a Tradição que importaram?
Pois. É que se inteligência houvesse para, pelo menos, procurar essas anteriores tradições académicas, iriam, pasme-se, encontrar uma riquíssima tradição académica com sede nos liceus.
E de onde veio essa tradição académica liceal?
De Coimbra, pois claro. Uma tradição que não passava por importar tudo, diga-se. Mas aquilo que se trazia "ad intra" era respeitado e honrado tal qual, merecendo o respeitoe carinho "ad extra".
Mas havia espaço a actividades próprias? Havia, mas sempre com base na observânciae respeito pela Tradição, começando no traje nacional (capa e batina), passando pelos ritos de recepção aos novos alunos e terminando nos bailes de gala, récitas e cortejos de fim de ano (para só citar alguns acasos).
Pois é. É que se querem falar de tradições estudantis locais, elas existem, e apontam exclusivamente para os liceus.
Mas alguém se lembrou de tal? Se se lembrou, cedo preferiu esquecer (para melhor inventar o seu umbigo), até porque para os alfaiates estilitas e modistas de ocasião, era incómoda essa tradição do uso do traje nacional no liceu local ,ao longo de décadas.
 
A Praxe e a Tradição sofrem de processos de continuidade e ruptura. O que não podem é romper com a própria Tradição, com o que é basilar, querendo artificialmente implementar algo de novo, mas vestindo e aparentando velho (para conferir "pedigree de inglês ver").
Tanto esforço por ficcionar e inventar que podia ser aproveitado para conhecer, questionar e ponderar.
 
Tradição e Praxe há só uma, precisamente aquela que foi transversal de norte a sul do país e ilhas, desde finais do séc. XIX até ao luto académico de 1969.

Não se percebe é como, depois, se ignorou isso (ou até se percebe), deixando que se instalasse uma verdadeira e medieva idade de trevas no que concerne estas matérias.

Podem existir pequenas cambiantes, pequenas adaptações, espaço para a identidade própria, sem que isso signifique sacrificar o próprio conceito de Tradição e vergá-lo à mediocridade de quem faz da ignorância o seu cartão de visita e pede que todos lhe passem procuração para livremente codificar palermices (que depois todos seguem em fundamentalista manada).
 
Não tem de ser "igualzinho" a Coimbra, têm é de ser Tradição Académica, aquilo que lhe confere precisamente esse statvs qvo, ou seja, o que é essência e cerne, algo que para ser Tradição transporta um conjunto de usos e costumes anteriores aos adornos, aos enfeites, ao embrulho.

segunda-feira, outubro 13, 2014

Notas ao Copy-PESTE praxístico

Copy-PESTE, exactamente assim, porque traduz perfeitamente o que sucedeu à Tradição e à Praxe e ao que hoje é doutrinado e codificado em praticamente todas as academias do país como sendo tal.

Repetem-se os erros, aliás copiam-se e adicionam-se outros tantos, e a tudo se chama Tradição e Praxe, sem contudo haver o mínimo de cuidado em verificar, confrontar fontes e, de facto, perceber o que se diz, conceptualiza,  pratica.

Depois, pior que tudo isso, é perseverar no erro, mesmo depois de saber que o é.

Deixo este texto que merece reflexão, porque  perfeita metáfora para o que, nestes últimos 25/30 anos (especialmente nos últimos 15/20) tem ocorrido:


"CÓPIA DA CÓPIA MULTIPLICA O ERRO!
 

Um jovem noviço chegou ao mosteiro e logo lhe deram a tarefa de ajudar os outros monges a transcrever os antigos cânones e regras da Igreja.

Ele se surpreendeu ao ver que os monges faziam o seu trabalho, copiando a partir de cópias e não dos manuscritos originais.


Foi falar com o velho Abade e comentou que se alguém cometesse um erro na primeira cópia, esse erro se propagaria em todas as cópias posteriores. O Abade respondeu -lhe que sempre tinham feito assim, que há séculos que copiavam da cópia anterior.... na verdade, desde o início da Igreja, para poupar os originais.

Mas admitiu que achava interessante a observação do noviço.

Na manhã seguinte, o Abade desceu até às profundezas do porão do mosteiro, onde eram conservados os manuscritos e pergaminhos originais, intactos e com a poeira de muitos séculos...

Passou-se a manhã, a tarde e a noite, e ninguém mais vira o Abade.
 
O último que o vira informou que ele estava indo em direção ao porão. Preocupados, o jovem noviço e mais alguns monges decidiram procurá-lo.

Nos labirintos do mais profundo e frio compartimento do porão, encontraram o velho Abade completamente descontrolado, tresloucado, olhos esbugalhados, espumando e com as vestes rasgadas, batendo com a cabeça já ensanguentada nos veneráveis muros do mosteiro.

Apavorado, o monge mais velho do scriptorium perguntou:

 - Mas, Abade, pelo amor de Deus, o que aconteceu?

 - IMBECIL! IMBECIL! IMBECIL o primeiro copista!!! Desgraçado, que arda no Inferno! CARIDADE!!!!! ... era CARIDADE!!!! Eram votos de "CARIDADE" que tínhamos que fazer... e não de "CASTIDADE"!!!...."


Não é difícil, pois, perceber por que razão as coisas chegaram ao estado em que estão, no que diz respeito à noção de Praxe e ao conceito de Tradição Académica, sendo os códigos de praxe um perfeito exemplo da falta de critério, de qualidade, de competência que reinam por mão de ignorantes praxeiros, instalados em tronos que, quais sanitas, debitam peste.

E o que mais surpreenderá é perceber como é que tantos estudantes, ditos do Ensino Superior, parecem passar aos organismos de praxe como que uma procuração para que outrém pense por eles, seguindo regrazinhas e invenções em total cegueira, em fila ordeira e submissa, e capazes de cometer os maiores disparates e atentados à Tradição, só porque se fiam mais no nº de matrículas do que em verificar da autenticidade das doutrinas e dogmas destilados por gente incompetente e ignorante, que reina pelo simples facto de ser veterano, membro do conselho da praxe ou da comissão lá do bairro.

Mérito académico no que concerne a Praxe e Tradição....... isso já não se exige a quem manda, infelizmente.


Nota: O texto chegou-me por via do José António Balau, figura de destaque da Praxe e Tradição Académicas da academia do Porto.

domingo, outubro 05, 2014

Notas de indignação para com o gozo ao caso do Meco

Lamentável e a merecer indignação.
 
Estes jovens deveriam ser severamente punidos - eles e quem assistiu ímpávido e sereno e/ou incntivou a fazerem aquilo.
 
Mais uma forma de denegrir a imagem do estudante perante a opinião pública e quem preza os valores do civismo e educação.
´de uma falta de sensibilidade e respeito que naturalmente revolta qualquer um com 2 dedos de testa.
 
Não se trata de humor negro, como alguns alegarão, em patética defesa.
Negro é o âmago desta gente.
 
Passou-se, pelos vistos, na ESTG em Leiria. Mas parece que também em Coimbra se cometeram excessos com a situação do Meco também a ser alvo de chacota e gozo.

Vergonhoso.



A ver, igualmente, o seguinte vídeo:

http://www.facebook.com/l.php?u=http%3A%2F%2Fportugalglorioso.blogspot.pt%2F2014%2F10%2Fluis-pedro-nunes-passa-se-e-arrasa.html&h=wAQG2i5Nc

Pondo de lado o excesso do comentador, a verdade é que a reacção generalizada vai na mesma linha: as pessoas estão fartas de casos de praxe, e não há maneira de se ver louz ao fundo do túnel; pelo menso enquanto os praxistas não perceberem que a culpa é apenas sua, pois são estes repetidos episódios praxísticos que alimentam toda esta celeuma.

Notas de repúdio à "Praxe"na ESTeSL

A imagem fala por si e já corre as redes sociais, despertando a esperada indignação de quantos véem esses preparos por parte de estudantes trajados, neste caso pertencentes à  Escola Superior de Tecnologia da Saúde de Lisboa (ESTeSL)
É por essas e por outras que a credibilidade da Praxe e imagem do estudante universitário estão como estão.
Lamentável quer pela falta de decoro e civismo (e verdadeira idiotice), quer pela total falta de senso ao não perceberem o impacto de tais posturas.

Custa a acreditar que seja gente a cursar o ensino superior.
É verdade que a inteligência não escolhe estratos sociais (e ainda bem), mas educação não depende nem das origens nem da bolsa.




Se roupa cara não esconde educação barata, muito menos o traje académico esconde a mediocridade de quem o veste.




terça-feira, setembro 30, 2014

Notas às ditas "praxes solidárias"


Volta à ordem do dia esta nova moda dos actos solidários transformados em Praxe ou em praxes.

Ou seja, pela simples razão de serem arregimentados caloiros sob auspícios de uma comissão de praxe, qualquer acto passa a ser praxe.
E vai de roda que tudo o que se faz trajado é praxe, certo?
Errado!!

Um acto solidário não é Praxe, nem praxes. Nunca o foi, não é agora que passa a ser.
Uma coisa é a organização de tais iniciativas em substituição de praxes, mas é isso mesmo: em substituição, outra é chamar a isso de Praxe ou praxes.
Não é por um grupo de médicos fazer uma iniciativa solidária como tomar um banho que tal passa a ser um acto médico ou a isso se passa a chamar medicina. Também não apelidaríamos de solidariedade político-partidária se um grupo da juventude do partido X fizesse igual coisa.
Recordo, por exemplo, o caso das Tunas que, já no séc. XIX, participavam em inúmeros concertos de solidariedade, mas não consta na definição de Tuna a solidariedade. Muito menos as tunas andavam a escrever artigos para os jornais a dizerem que tinham sido solidárias. Iam e participavam. Se falassem delas, tanto melhor, caso contrário, ninguém ficava melindrado. Importava era o objectivo ser cumprido: ajudar sem esperar medalhas e louvores.
As iniciativas solidárias que se organizam são louváveis e merecem todo o nosso apoio e admiração. Isso não está sequer em causa.
Mas saiba-se distinguir as coisas.
 
Num outro patamar, questionaríamos, ainda assim, certas iniciativas ditas solidárias  que parecem mais uma operação de charme praxístico junto da opinião pública, como que a contrastar com praxes que são notícia pelas piores razões. Passamos do 80 para o 8 em que nem um nem outro são o que é suposto serem.
Não tarda e fazer voluntariado na Guiné é Praxe, só porque a malta foi de traje e õ conselho de veteranos deu uma ajuda na preparação! Tenhamos algum discernimento.
Não sei, aliás, que solidariedade genuína se publicita, quando os caloiros são, de certa forma, obrigados ou recrutados a participarem (os fins não podem, aqui, justificar os meios), precisamente porque é tal assumido como praxe. Nem isso é praxe nem solidariedade, de facto.

A solidariedade que não vem de dentro, que não é uma expressão pessoal, não passa de uma vaidade. Se ser solidário está agora na moda (e ainda bem), não se seja solidário por moda, mas por convicção; não por desafio ou para se vangloriar, antes como um desejo sincero de fazer o bem.
 
Depois, e ainda numa outra leitura, não deixo de me perguntar qual a validade moral de actos solidários que, ao fim e ao cabo, parecem mais visar a auto-promoção do que o verdadeiro altruísmo.
Quem verdadeiramente quer fazer o bem, de forma altruísta e gratuita, não se anda a gabar de tal, caso contrário não é solidariedade, de facto.
Isto remete-me, desde logo, para a bíblia e o capítulo VI de S. Mateus (e cujo conteúdo se adequa, independentemente da nossa crença religiosa ou falta dela):

 
“Guardai-vos de fazer vossas boas obras diante dos homens, para serdes vistos por eles. De contrário, não tereis recompensa junto de vosso Pai que está no céu.
Quando, pois, dás esmola, não toques a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem louvados pelos homens. Em verdade eu vos digo: já receberam sua recompensa.
Quando deres esmola, que tua mão esquerda não saiba o que fez a direita. Assim, a tua esmola se fará em segredo; e teu Pai, que vê o escondido, recompensar-te-á.


Gabar-se de ser solidário não é sê-lo, de facto, antes esperar uma recompensa pelo acto praticado – neste caso uma publicidade e exposição a dar lustro ao ego.
Como já o Pe. António Vieira dizia, “"Tanto são maiores finezas, quanto mais ocultas, porque fazer o benefício e esconder a mão, assim como é maior generosidade, assim é maior fineza."
 
Se fazemos o bem à espera de reconhecimento, não estamos a dar gratuitamente, antes a operacionalizar uma “troca comercial”: dou isto, mas espero algo em troca, ou seja, em última instância, e a pretexto de ajudar outrem, visamos ajudar-nos em causa própria. Ora, e parafraseando George Washington, não devemos ser como os pavões que estão sempre preocupados com as penas.
 
Quando vejo pessoas a fazerem questão de mostrar que são muito solidárias, não posso deixar de ver nisso hipocrisia, um acto interesseiro disfarçado de altruísmo.
Aliás, sobre isso, aconselhava veementemente a lerem as palavras de Helena Sacadura Cabral[1]:
 
"Fui educada em duas normas básicas: o trabalho deve ser pago e a solidariedade não se apregoa. Infelizmente parece que a tendência actual não é esta.
Todos nos pedem para que colaboremos gratuitamente em organizações que levam dinheiro pelo seu trabalho. No princípio da minha vida profissional era muito ingénua, aceitava e depois descobria que alguém tinha "recebido" por me ter conseguido levar aqui ou acolá. E, claro, os convites choviam.
Até que compreendi. A partir do momento em que fui confrontada com esse comportamento, tomei uma decisão que não mais abandonei. Trabalho "pro bono" em tudo o que seja estritamente solidário. O resto, ou é pago ao meu preço, ou não vou.
De nenhum deles faço alarde. Nem do que dou, nem do que me pagam. Mas em qualquer dos casos exijo reciprocidade. Ou seja, quando não cobro, peço declaração de que nada recebi. Quando cobro, passo o recibo verde respectivo. Assim evito dúvidas se terei ou não sido remunerada.
Vem este intróito a propósito dos banhos de água gelada em prol da esclerose lateral amiotrófica, para os quais alguém tentou aliciar-me. Apoiar uma causa, trabalhar por ela, contribuir materialmente, tudo me parece defensável. E pratico, sem alarde.
Fazer disso um movimento colectivo, no qual cada um se presta ao ridículo público e alardeia a sua contribuição, já não é a minha praia, como agora se diz. Além de tudo, tenho sérias dúvidas de que tal comportamento seja o mais dignificante para a instituição em causa.(…).”
 
Acho lindamente que as comissões de praxe tenham, genuinamente, o desejo de serem solidárias, e organizem iniciativas nesse sentido (especialmente para ajudar colegas com dificuldades – poismuitas vezes se apoiam pessoas que desconhecemos, tendo mais perto de si quem precisa), mas devem propor isso como tal, e não anunciarem a coisa como sendo praxe. Muito menos apresentarem tal como de participação obrigatória aos caloiros, porque se os caloiros participam, devem fazê-lo na base de um convite, de uma proposta a que se adere livre e espontaneamente, e nunca como se fosse praxe – até para que o que eles façam seja efectivamente dar, e não fazer que dão.
E digo tal porque, nas redes sociais, já temos uns quantos a reclamar por que razão as televisões não dão cobertura a essas actividades em vez de preferirem noticiar casos de abusos nas praxes.
Lá está: quando tal reclamação se faz ouvir, apenas reforça o sentimento de que, para muitos, as ditas “praxes solidárias” visam mais o mediatismo do que em fazer o bem de forma desinteressada; visam mais a publicidade do acto do que na gratuidade do mesmo.
 
A defesa da Praxe (e falo disso, porque há quem veja nestes actos solidários uma forma de limpar a imagem ou se demarcar das más práticas praxísticas) não passa por operações benévolas a mascarar ou desviar as atenções. O maior bem que se pode fazer na defesa da Praxe é acabar com os abusos e exageros que ocorrem nas mesmas, e não fazer uma iniciativa (em si louvável e merecedora de elogios) que, depois de realizada, deixa tudo como está no que concerne às más práticas.
Não que a colocação de vídeos seja mau, até porque, de certa forma, ajudará a chegar a mais gente e consciencializar as pessoas para os problemas de que o mundo padece, mas como apelo, e não como narcisita exibição de virtudes só para inglês ver. As novas tecnologias usam uma linguagem mais actual, mais próxima da sociedade tecnológica em que vivemos, mas não podemos é cair no erro de trocar a ordem das coisas e perder-se o motivo em detrimento da forma, em que se lançam desafios que depois valem por si, em que o colocar o “like” e o aceitar o “challenge” se sobrepõe, efectivamente, à intenção inicial e fundamental ou serve para anunciar “urbi et orbi” que se é um tipo muito generoso.
Aliás, deixo o seguinte para reflexão:
 
 “…Não estou a contestar os vídeos. Eles são uma excelente ideia de se transmitir uma mensagem forte e de se pedir ajuda. Com tantos gritos de ajuda espalhados pelo mundo inteiro, as pessoas só nos vão ouvir se gritarmos de uma forma diferente. E foi o que esta associação fez. O problema é que em muito sítio já se perdeu o verdadeiro significado, a mensagem que era para ser transmitida.
Muita gente fica sentada em casa e sente-se bastante solidária com o mundo porque põe uns "likes" em imagens que aparecem de cães abandonados ou de pessoas que vivem em condições deploráveis: «Coloca um like e estarás a doar com 1 euro.»... Ainda não percebi bem como estas coisas funcionam, aliás, duvido muito que funcionem. Gostava de saber quantas destas pessoas já deram uma moeda ou uma refeição ao sem abrigo que vive debaixo do prédio delas, se alguma vez se dignaram a dar os bons dias.[2]
 
Dito isto, obviamente que nos alegra e satisfaz mais ver este tipo de iniciativa do que assistirmos a certas brincadeiras e exageros. Quanto a essa questão, não restam dúvidas. Mas uma vez mais, é algo a fazer-se em substituição de praxes e não como programa de Praxe ou algo que lhe é inerente.
 
Uma vigília de oração, sei lá, em favor de um preso político por exemplo, organizada por um organismo de praxe, não faz nem da vigília nem da oração assunto de praxe; como aliás uma Missa de Finalistas não é Praxe, mas um acto religioso, inserido numa Tradição Académica (ver artigo sobre a Bênção dasPastas).
 
Venham muitas iniciativas solidárias, que tão precisas são, mas feitas como tal, e com verdadeira generosidade, e não tendo por fim a publicitação no youtube e redes sociais, para conferir à praxe uma imagem de “coisa fixe” e, pior ainda, passar a ideia de que na Praxe cabe tudo só porque se diz que cabe.

Que é óptimo ver nas notícias que os alunos universitários são abnegados e se preocupam com o bem comum, sem dúvida que sim.
Que é óptimo que os alunos promovam iniciativas que visem ajudar quem precisa, pois sem dúvida que sim e aplaudimos de pé.
Mas que tudo isso seja verdadeiramente dádiva, porque a dádiva, a solidariedade, a compaixão por quem sofre não precisa de rótulos, muito menos o da praxe.
Precisa, sim, é de gente que dá, sem ostentar bandeiras, sem megafones e sem esperar fazê-lo para as câmaras...... para que seja realmente gratuito e generoso.


Solidariedade não se mede em shares ou likes.
 
 
 
 


[1] In blogue “Fio de Prumo”, http://hsacaduracabral.blogspot.pt/2014/09/a-solidariedade-e-banhos-gelados.html [em linha], consultado a 30 de Setembro de 2014.
[2] In blogue “Indigo”, http://peacheswhish.blogspot.pt/2014/08/falsa-solidariedade.html [em linha], consultado a 30 de Setembro de 2014.

quinta-feira, setembro 25, 2014

Notas à Bênção das Pastas (Origens e história)

Nota prévia: este artigo vem substituir dois outros dedicados à Bênção das Pastas de Lisboa e Porto, os quais ficam, agora, incorporados neste novo texto.



A Benção das Pastas é, de há largos anos a esta parte, um dos momentos altos dos festejos das Queimas das Fitas (também denominadas de Semana Académica) um pouco por todo o país.
Trata-se de uma cerimónia religiosa inicialmente promovida e destinada a finalistas católicos a quem, com o passar do tempo, a simbologia e prestígio do acto, se foram associando os demais estudantes finalistas, fossem, ou não, crentes.
Tem-se a ideia errada de ser a Benção das Pastas uma cerimónia praxística ou costume da Praxe, quando não o é, nem nunca foi sequer.
A verdade é que a solenidade desse evento cedo cativou os estudantes, mormente a sua maior ou menor afinidade com o catolicismo, a sua maior ou menor fé, a sua relação mais ou menos próxima com a Igreja.
 A Bênção das Pastas gira em torno da Eucaristia de Acção de Graças, pelo sucesso escolar alcançado, e de súplica esperançosa num futuro profissional risonho.
Mas não foi esse lado mais religioso que despertou o interesse de muitos dos estudantes que elevaram este acto a costume e tradição académica, mas, sim, o rito de consagração, em primeiro lugar, e, depois, a bênção, propriamente dita, dentro da pompa e solenidade que, nos festejos da Queima, não existia, de facto, para assinalar o fim dos estudos – algo que nem a entrega de diplomas conseguia oferecer.
Foi, por isso, com naturalidade, que uma cada vez maior adesão se foi registando, tendo, como resposta, por parte da Igreja e associações de finalistas católicos (entidades promotoras e organizadoras), uma abertura “ecuménica” que possibilitou, com o passar dos anos, que fosse o momento especialmente acarinhado pela academia e transformado num dos pontos altos (e o de maior solenidade) dos festejos e tradições académicas.
Com efeito, a Benção das Pastas, continuando a ser uma cerimónia religiosa católica, abre-se paulatinamente a toda a academia, a todos finalistas (crentes convictos, ocasionais ou mesmo não crentes) onde os menos dados à religiosidade sentem, contudo, ser importante participar pelo simbolismo que tal acto adquirira, já, no seio da academia.
 
COIMBRA
 
O primeiro registo de tal cerimónia remonta ao ano de 1930, em Coimbra, como disso nos dá conta Alberto Lamy:
 
“Na capela da Universidade efectuavam-se a Consagração dos Quintanistas ao Sagrado Coração de Jesus (pela 1ª vez, na Sé Velha, a 25 de Maio de 1930, em cerimónia promovida pelos estudantes do CADC) e a Bênção das Pastas.
Havia missa celebrada pelo Bispo-Conde, com presença do reitor e de muitos professores.
Ante o Santíssimo exposto, um dos quintanistas, em nome dos colegas presentes, lia a fórmula de consagração.
Os quintanistas apresentavam as pastas ao Bispo-Conde que dava a bênção geral, começando depois a desfilar perante ele, ajoelhando-se a seus pés. Logo que o quintanista recebia a bênção, deixava o seu nome no Livro de Ouro das consagrações que estava no centro da Capela e se guardava no CADC.
Finalmente, o Bispo-Conde dava a Bênção do Santíssimo.
Terminadas as cerimónias, os quintanistas, com as individualidades presentes, tiravam a fotografia da praxe na escadaria central da Via Latina.
“A Bênção das Pastas é, para o estudante católico, a cerimónia mais solene do seu curso académico. Na hora da partida, depois de váriso anos de trabalho a preparar o dia de amanhã, os finalistas abeiram-se do altar, numa manifestação viril e espontânea de fé, para consagrar a Deus a sua vida e receber dele uma bênção especial para a Pasta em cujas fitas se escrevem os nomes mais queridos[1]”. [2]

 

O N&M, fiel ao seu propósito, procurou algo que documentalmente reforçasse o que o insigne investigador acima mencionava na sua obra, tendo descoberto o seguinte artigo, precisamente a dar conta da 1ª Bênção das Pastas em Coimbra (porventura a 1ª em Portugal).
 
(Gazeta de Coimbra, Ano 19º, Nº 2496,  de 27 Maio 1930, p.2)
 
Igualmente interessante é perceber que, nos primórdios desse acto solene, existia claramente uma separação entre esta cerimónia e demais festejos da Queima, sendo a participação restrita a estudantes católicos, a maioria deles ligados e inscritos nas várias associações do género (algumas delas com uma intervenção social e associativa, peso e prestígio, ao nível da associações académicas).
 Disso podemos dar conta, através do que nos relata António José Sares:

“Festa dos Quintanistas
Os quintanistas católicos celebraram a sua festa de consagração ao S.C. de Jesus, fotografando-se em seguida.
Os quintanistas não católicos também se fotografaram em grupo”.[3]

 

Ao que tudo indica, a abertura à comunidade em geral fica definitivamente reforçada a partir dos anos 60, em razão dos ventos de mudança que sopram do Concílio Vaticano II[4], passando a  Bênção das Pastas  a ser aceite e considerada como uma cerimónia integrante da tradição estudantil, a par com as demais, a qual, por exemplo no Porto, já era comumente aceite como acto que iniciava a própria Queima, como o atestam os títulos de O Comércio do Porto de 1953 e 1955 respectivamente:
"Com a benção das pastas e um sarau para proclamação dos vencedores dos «Jogos Florais» começaram ontem as festas da «Queima das Fitas» dos estudantes universitários do Porto " (1953-05-04)
 "Com a benção das pastas e um sarau artístico para distribuição dos prémios dos «Jogos Florais», iniciaram-se ontem as festas da «Queima das Fitas» dos estudantes universitários desta cidade" (1955-05-09)

 O amigo Zé Veloso adenda ainda o seguinte, comprovando que a inserção da Missa nos festejos da Queima é bastante recente e que passaram mais de 3 décadas até se cristalizar como Tradição Académica em Coimbra:

"Acrescento às considerações do autor do artigo que, no tempo de Gonçalo dos Reis Torgal - 1959 - a cerimónia ainda estava, de facto, fora das festas da Queima. Nesse ano, diz ele que a Benção foi a 4 de Maio e o programa da Queima começou uns 10 dias depois."


 
Benção das Pastas em Coimbra (Sé Nova) na actualidade.
 
 
 
 

LISBOA

 

No que concerne a Lisboa, António Nunes (2013) diz-nos que a 1ª ocorrência de uma Missa de Finalistas teve lugar em Lisboa, em 1926 - o que significaria que a tradição da Bênção das Patas teria origem na capital,  mas não conseguimos, até agora, uma foto de tal ou quaisquer documentos que o comprovem.

Bênção das Pastas dos Quintanistas da FDL,
Diário de Notícias de 3 de Março de 1931

 
Parece-nos, pois, que o cliché acima apresentamos será o primeiro documento fotográfico sobre a Benção das Pastas na capital, a qual se realizou em 1931 (na Igreja dos Mártires), para os "quintanistas de direito"-

A seguir, outro cliché para a bênção dos "finalistas de Direito e Medicina", no ano de 1933, precisamente o mesmo ano em que existe a 1ª referência a esta cerimónia no Porto.
 


(Ilustração, 8º Ano, Nº 6 (174), de 16 Março 1933, p.10 - Hemeroteca Municipal de Lisboa)
 

Segue-se um segundo cliché, datado de 1934, com os quintanistas de Direito.

 


(Ilustração, 9º Ano, Nº 198 , de 16 Março de 1934, p.33 - Hemeroteca Municipal de Lisboa)
 

Na foto de 1936, que abaixo apresentamos (esta, tirada no interior da Igreja), a respectiva legenda já não especifica os cursos envolvidos (porventura porque já os teria congregado a todos), mas apenas que os estudantes são católicos. De notar o número considerável de mulheres que, embora não envergando traje, se apresentam de pasta e fitas.

 
(Ilustração, 11º Ano, Nº 251 , de 01 Junho de 1936, p.26 - Hemeroteca Municipal de Lisboa)


Apresentamos, também, mais 2 imagens da década de 1950, confirmando que esta cerimónia, a par com demais festividades da Queima das Fitas, estavam bem vivas na capital, embora apenas a Missa de Bênção das Pastas reunisse, ao que tudo indica, todos os estudantes (sendo as demais festividades organizadas no seio de cada faculdade).
 
 
Queima das Fitas FDL - Diário Popular,N.º 4523 de 10 de Maio de 1955, p.8.

Benção das Pastas de Lisboa - Diário Popular,N.º 4885 de 13 de Maio de 1956, p.6.
 

Na actualidade, a Missa de Bênção das Pastas, como sucede um pouco por todo lado, é momento de grande celebração, por vezes notícia de telejornais. Lamentavelmente, nomeadamente em Lisboa, é também um verdadeiro circo, com pouco respeito pelo momento, para além do desrespeito à praxis própria.



 

Benção das Pastas em Lisboa (Terreiro do Paço) na actualidade
(com o então Cardeal Patriarca, D. José Policarpo)



PORTO

 
Tal como sucede em Lisboa, sabemos que, na Invicta, esta cerimónia tem  lugar desde, pelo menos, 1933 (e não 1944 como inicialmente se pensava) e que, nos anos 50, se torna parte integrante do programa da Queima das Fitas portuense.
 Relata o artigo abaixo, datado de 1933, que esta cerimónia foi organizada por iniciativa da Associação dos Estudantes Católicos do Porto (em Lisboa, cremos passar-se o mesmo) e que as pastas estavam "...amontoadas numa ampla mesa, ao lado da Epístola".

Depois de abençoadas as pastas, estas foram entregues aos alunos pelos lentes da Universidade.

 


(O Comércio do Porto, de 04 Maio, de 1933, - ref. do Arquivo da UP - AN2-N83-P74)

 
Seguem-se mais 2 clichés, também referentes à Bênção das Pastas do Porto; o primeiro de 1938 e o segundo de 1939, recentemente descobertos pelo N&M.
Note-se que o uso da capa e batina ainda não é, aqui, tido como obrigatório, dado que a etiqueta académica não contemplava, ainda, este tipo de cerimonial.

 


(Ilustração, 13º Ano, Nº 298, de 16 Maio de 1938, p.10 - Hemeroteca Municipal de Lisboa)


(Ilustração, 14º Ano, Nº 322, de 16 Maio de 1939, p.7 - Hemeroteca Municipal de Lisboa)
 

As imagens que se seguem, obtidas no Arquivo Digital da UP, vêm reforçar o que já expusemos, ou seja que a cerimónia da Bênção das Pastas ainda era, de certa forma, algo "à parte", só para alguns, sendo explícitas as referências a "Finalistas Católicos", menções que irão tendencialmente desaparecer, à medida que a cerimónia se abre a toda a academia (e esta a adopta igualmente como o momento mais solene dos festejos de fim de ano).

 
(O Comércio do Porto de 14 de Maio de 1945 - Ref. do Arquivo da UP - AN2-N261-P278)
 



(O Comércio do Porto, de 7 de Maio de 1951 - Ref. do Arquivo da UP - AN2-N618-P480)


(O Comércio do Porto de 10 de Maio de 1958 - Ref. do Arquivo da UP - AN2-N447-P400)
 


Benção das Pastas no Porto (Av. dos Aliados, com a Câmara Municipal ao fundo), na actualidade.
 
A Benção das Pastas é, actualmente, uma cerimónia que envolve milhares de pessoas, o que obrigou a que, em muitas cidades, a mesma ocorresse fora dos locais de culto, tornando "missa campal".
A esta cerimónia está associada a etiqueta da praxis que determina que o estudante se apresente rigorosamente trajado e com a sua pasta fitada (pasta da praxe com 8 fitas).
Um dos costumes que está igualmente associado a esta cerimónia é a de os pais(ou muitas vezes a “cara metade”) oferecerem ao finalista, no fim da Eucaristia, um aramo de flores, preferencialmente com as cores do curso/faculdade.
Mantém-se a bênção por parte do prelado, mas já não existe a apresentação individual dos finalistas ao bispo (ajoelhando-se para receber a bênção), nem a consagração, tal como não existe o registo (assinatura) dos finalistas em livro próprio (o tal “livro de ouro”).
Com efeito, em virtude da massificação, e tendo em conta, também, uma feição “ecuménica” (muitos vão lá, mas sem fé sequer, apenas e só pela cerimónia – a lembrar alguns casamentos de véu e grinalda), a cerimónia aligeirou-se, continuando, ainda assim, a ter a Eucaristia por centro e cerne do acto.


 
Benção das Pastas em Viseu (largo da Sé) presidida por D. António Marto
(actualmente bispo de Leiria-Fátima)

 




Poderá interessar ao leitor o seguinte artigo (AQUI) dedicado à ocorrência da Benção dasBastas nas Escolas do Magistério Primário (tradição iniciada nos anos 50) e que, no caso de Lisboa, explicam o porquê dessa "peregrina" tonteria de usar pastas com dezenas de fitas (em vez das 8, como manda a tradição) e as mesmas apresentarem desenhos e monogramas.



 



[1] Estudos. Juklho de 1948, Ano XXVI (facs. VI-VII), nº 268-269, pág. 390-391.
[2] LAMY, Alberto Sousa – A Academia de Coimbra, 1537-1990. Lisboa, Rei dos Livros, 2ª Edição, 1990, pp. 671-672
[3] SOARES, António José – Saudades de Coimbra, 1917-1933 (Tomo III). Almedina. Coimbra, 1985, p. 5 do ano de 1932.
[4] O Concílio Vaticano II (CVII), XXI Concílio Ecumênico da Igreja Católica, foi convocado no dia 25 de Dezembro de 1961, através da bula papal "Humanae salutis", pelo Papa João XXIII, que o inaugurou no dia 11 de outubro de 1962. O Concílio só terminou no dia 8 de dezembro de 1965, já sob o papado de Paulo VI.