Vamos lá agitar as águas e falar das coisas frontalmente.
Sabemos que por Praxe se deve entender o conjunto de normas que regulamentam usos e costumes da Tradição Académica. Assim, quando nos referimos a Praxe não nos referimos a tradições (e muito menos a praxes), mas ao protocolo, etiqueta e normas que as regulamentam (ver AQUI).
Sabemos que a Tradição Académica abarca um conjunto de costumes que se manifestam
através várias expressões - o que não significa que toda a Tradição Académica esteja
sob alçada da Praxe, pois não estão, sendo que algumas só na etiqueta ou
protocolo a observar, nomeadamente no porte adequado do traje (ou seja é o
indivíduo e não o evento que está), estabelecemessa ténue ligação.
Respeitante a ambos os casos, existe, por isso, uma terminologia própria que, linguística e simbolicamente, distingue o foro académico (aquilo que expressa e é próprio da natureza e praxis estudantil), seja na gíria ou no uso de denominações que reportam ao contexto e significância académicas.

Qual a razão de termos centuriões, imperadores, gladiadores, condes e marqueses, etruscos ou pastores, infantes ou sertórios, grão-mestres, cardeais ou papas, carascos, aluviões ou inquisidores, eremitas, moliços ou patrões?
Se as designações da gíria estudantil são tradicionalmente ligadas ao
contexto estudantil, precisamente porque ajudam a definir e circunscrever a sua
identidade, o que têm a ver certas designações com o mundo estudantil?

Se o foro estudantil tem precisamente por objectivo distinguir-se de todas essas situações, qual a ideia de as trazer para dentro do contexto académico, pervertendo o que tradicional e logicamente se quer distinto, para garantir uma identidade única e inequívoca?
Qual o ganho e pertinência de querer rebaptizar tudo, importando, sem
critério e fundamentação, aspectos que nunca tiveram nada a ver com estudantes
e com a universidade?
O que tem a hierarquia militar romana ou os títulos nobiliárquicos a ver
com a Universidade, com estudos ou estudantes?
Pois também o não fazem outras que não pertencem ao contexto estudantil,
sublinhamos nós.
E, em coerência, perguntamos, então, porque não se vestem precisamente de acordo com a cultura a que foram pescar os termos? É que, no que respeita a termos hierárquicos em Praxe, não conheço nenhum barão, senador, highlander ou quejandos que usassem traje estudantil.
Designa-se, a título de exemplo, um estudante de gladiador e usa traje académico? Designa-se um estudante de senador e o traje não é uma toga? Designa-se um estudante de Grão-Mestre e não o vemos vestido de túnica templária ou hospitalária, ou ainda de avental maçónico?
E obviamente que já nem nos reportamos ao facto de muitas designações nem sequer terem a ver com a história da localidade a que pertence a instituição de ensino, ou daquelas que misturam, numa mesma hierarquia, um pouco de tudo (figuras romanas de classes e profissões distintas, junto com figuras do povo, figuras de títulos de ordens militares monásticas ou maçónicas, hierarquia universitária e povos bárbaros), sem qualquer organização e circunscrição geográfica e/ou social lógicas.
E, em coerência, perguntamos, então, porque não se vestem precisamente de acordo com a cultura a que foram pescar os termos? É que, no que respeita a termos hierárquicos em Praxe, não conheço nenhum barão, senador, highlander ou quejandos que usassem traje estudantil.
Designa-se, a título de exemplo, um estudante de gladiador e usa traje académico? Designa-se um estudante de senador e o traje não é uma toga? Designa-se um estudante de Grão-Mestre e não o vemos vestido de túnica templária ou hospitalária, ou ainda de avental maçónico?
E obviamente que já nem nos reportamos ao facto de muitas designações nem sequer terem a ver com a história da localidade a que pertence a instituição de ensino, ou daquelas que misturam, numa mesma hierarquia, um pouco de tudo (figuras romanas de classes e profissões distintas, junto com figuras do povo, figuras de títulos de ordens militares monásticas ou maçónicas, hierarquia universitária e povos bárbaros), sem qualquer organização e circunscrição geográfica e/ou social lógicas.
Claro está que alguns, e bem, alegarão que alguns termos tradicionais, como pastrano, são designações que originalmente não eram do meio estudantil, mas não podemos esquecer que surgem inicialmente como alcunhas atribuídas de forma espontânea e não definidas à partida como uma hierarquia ou designação formal. Foi o seu uso reiterado que os cristalizou – algo bem diferente de inventar um termo com o propósito de seriar ou promover o paradoxo de instituir uma tradição autóctonamente, passe o neologismo, artificial.

Sei do que falo, também tenho de assumir que contribuí para a asneirada, pese embora ter ficado circunscrita à Tuna.
Parecendo antigo ou revestindo-se de títulos pomposos, pregava-se a
imagem de algo respeitável, muito tradicional e remoto, encarregando-se o tempo de dar largas ao adágio de que "um mentira muitas vezes repetida, toma-se por verdade", resultando, hoje, que os estudantes julgam ser tal algo sério e fundamentado, mesmo se o não é.
Complicou-se o que sempre se quis simples, o que sempre
deveria ser simples e assim deveria ter permanecido.
Com isso também se conseguiu ir delapidando uma noção de
identidade do estudante nacional (a par com a invenção de trajes sem nexo
algum) que, fosse em que lugar fosse, falava "a mesma linguagem" e
era assim reconhecido por todos.

À força de querer catalogar tudo e todos no universo da
praxis estudantil, cada qual usando o seu sistema de medição (e por vezes
inventando "alfabetos" próprios), cada qual procurando ser o mais
exótico possível...... perdeu-se a graça e espontaneidade e, acima de tudo o
lado pragmático (prático) e a eficácia daquilo que a Tradição sempre promoveu:
simplificar e ser inequivocamente entendido por quem está dentro (para
facilitar a integração e vivência) e fora (para facilmente distinguir e
identificar) do foro/contexto académico.
E não ficam de fora as muitas designações atribuídas a caloiros, como se existissem graus de caloiro.
Caloiro é a designação histórica, sucedânea de "novato" que, de igual modo, designa todo o estudante que frequenta o Ensino Superior pela 1.ª vez. Não se é Caloiro só depois de um qualquer baptismo ou cerimónia.
Caloiro é a designação histórica, sucedânea de "novato" que, de igual modo, designa todo o estudante que frequenta o Ensino Superior pela 1.ª vez. Não se é Caloiro só depois de um qualquer baptismo ou cerimónia.
Uma coisa são as referências humorísticas e informais ao caloiro (besta, animal...) e outra é pretender, pateticamente, formalizar isso como hierarquia (e há tontos que metem isso em código). Tanto mais que é atentatório à dignidade quer da Praxe quer dos indivíduos (e o paradoxo absoluto para aqueles que apregoam a integração e o respeito) o uso de expressões tão humilhantes, degradantes e abjectas para algo oficial, formal e a constar d eum código.
Infelizmente, há sempre gente que, nestas coisas, faz uma prova de falta de senso absoluto e quer etiquetar tudo e mais um par de botas, quase sempre com recurso ao brejeiro (e depois queixam-se que a Praxe é mal vista).
Terminamos este artigo reconhecendo que muitos dos termos
usados têm a sua graça e, alguns, alinhados com qualidade e criatividade, embora isso
não invalide, de todo, o que acima reflectimos.
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