O
presente artigo visa reflectir sobre a simbologia, a iconografia utilizada
pelos organismos de Praxe para se identificarem e identificarem a sua
actividade.
Tradicionalmente,
servem para ilustrar os diversos logotipos associados a Comissões de Praxe ou
Conselhos de Praxe/Veteranos as insígnias de Praxe, a saber a colher de pau, a
moca e o par de tesouras (Sobre a origem e história das Insígnias de Praxe, ver AQUI)
Estas
insígnias estão directamente ligadas a uma primeira concepção de Praxe, a qual
passava exclusivamente pela relação entre caloiros e veteranos.
Expressão
mais visível de tal eram, naturalmente, as trupes e o gozo ao caloiro.
De
todas essas 3 insígnias, a mais antiga ligada aos ritos com caloiros será a
tesoura, ligada ao ritual da tonsura, seguindo-se a moca (usada como arma nas
refregas entre estudantes, ou entre estes e os futricas) e, mais tarde, a
palmatória. Quando a palmatória é abolida, recupera-se, em sua substituição, a
colher de pau, numa romanceada reabilitação dos antigos sopistas.

A
associação à Praxe dessas insígnias cristaliza-se e passam as mesmas a ser
usadas como logótipo para documentos de cariz praxístico.
Se
bem sabemos que Praxe não se restringe ao relacionamento entre caloiros e
veteranos, e muito menos aos ritos de recepção dos novos alunos, o facto é que
a trindade das insígnias em causa ganhou esse reconhecimento simbólico e, por
isso, usado, por exemplo, no emblema do Conselho de Veteranos de Coimbra, e de
muitos outros que na mesma passada adoptaram tal como representativo, por
sinédoque (uma parte que representa o todo).
Até
aqui, "so far so good"; mera constatação de factos.
O
que já nos poderá causar estranheza é a pródiga capacidade que alguns têm de
contaminar a simbologia com adornos que resultam mais de romancismos
ficcionados e de alguma falta de senso.
Muitos
dos logotipos que encontramos parecem dar maior primazia a uma certa mensagem
de intimidação iconográfica, metendo caveiras, por exemplo, quando estas nada
têm a ver propriamente com Praxe (antes sim um elemento cénico, adereço usado
nos julgamentos, a par com velas, livros a fazerem de códigos de leis, etc.).
Aliás, temos, até, quem só utilize a caveira como figura identificativa.
E
quando não são caveiras, são ossos cruzados ou desenhos de doutores embuçados
em torno de um caloiro com ar ameaçador.
Aliás,
são inúmeros os desenhos que, na qualidade de logotipos de organismos de praxe,
parecem visar uma clara intimidação, inspirar medo e temor.
Não
se percebe tal, se um organismos de praxe existe precisamente para regular e
supervisionar a etiqueta académica e o
cumprimento das normas; se existe para orientar e se existe para controlar e
evitar quaisquer abusos. Parece-nos que a iconografia que muitos deles utilizam
expressa precisamente o contrário.
Pena
é que, em virtude das funções de um organismo de praxe, assente na Lei
Académica (e esta, de acordo com a Tradição), não haja, por exemplo, a
figuração de uma balança, precisamente para exprimir a função da Lei e do
organismo que tem o dever de por ela zelar, em consonância com o lema
"Dura Praxis Sed Praxis" que, adaptado do "Dura Lex sed
Lex", significa apenas, e só, que a lei académica, a Praxe portanto, é
"dura" em razão de ser equitativa e igual para todos.
Esse
especial gosto pelo mórbido, pelo cariz fúnebre e cadavérico em nada abona em
favor da Praxe e muito menos dos organismos que assim se apresentam: como carrascos, como inquisidores.
São
esses mesmos que, paradoxalmente, vêm depois afirmar que os ritos com caloiros
visam a integração. Com tais sinais de "trânsito", como tal sinalética
identificativa............ não estamos em crer.
Depois,
temos, num outro patamar, o desvirtuar das insígnias de praxe, substituindo-as,
pasme-se, por vassoura, remos, rolo da massa e corda de enforcado, pá e chave
de boca, ceifeira e/ou forquilha, naquilo que é um exercício de puro ridículo.
Entenderemos
que a ideia será expressar o âmbito, o contexto (uma escola agrária, por
exemplo), mas esqueceram-se que as insígnias de praxe não pretendem, per si,
evidenciar geografias, mas a res praxis.
Seria
igual ridículo termos um organismo de medicina a usar bisturis e algálias; um
organismo de engenharia cruzando um martelo pneumático com uma régua ou uma
comissão de direito cruzando uma guilhotina com um martelo de juiz.
Haja
senso.
Outros
logotipos utilizados enveredam, depois, pelo absurdo, como é o caso da escolha
de simbologia maçónica, importando esses desenhos e apenas
acrescentando/substituindo os dizeres.
Uma
vez mais presente essa idiotice do secretismo e do mundo místico, como se a
praxe tivesse algo a ver com sociedades secretas ou fraternidades, como se
alguma vez tivesse a ver com os ritos maçónicos.
Gente
que certamente vivia fascinada com tais grupos e, por pueril patetice, decidiu
decalcar para parecer "fixe", para parecer "misterioso",
brincando a um faz de conta sem pés nem cabeça.
E
esquecem-se os praxistas em causa, que são precisamente esses cartões de visita
que também ajudam à descredibilização da Praxe e das Tradições e que dão uma
impressão negativa e pouco séria junto da sociedade (e de qualquer pessoa
inteligente, diga-se).
Temos,
igualmente, os que, com igual ideário ficcionado pelo gosto do romancismo ao
jeito do séc. XIX, decidem brasonar-se, metendo um pouco de tudo sem nexo, da
Flor-de-Lis ao burro de carga, da caveira a estudantes trajados, numa
simbologia onde qualquer interpretação serve como desculpa para validar o que
não tem, do mesmo modo, qualquer sentido.
Não
se ganha pedigree ou respeitabilidade querendo parecer antigo e nobiliárquico,
ostentando precisamente falta de critério e de seriedade naquilo que se faz e
publicita.
Pormenor
interessante, em muitos logotipos, é a forma como é desenhada a moca, que mais
parece o batente (baqueta) de um bombo.

E
quando o logótipo escolhido é preconizado, em tamanho XXL, por um sorridente burro,
claramente que está tudo dito.
Mas
cada qual se identifica como bem entende, e até concordaremos que muitos desses
organismos serão, porventura, uma espécie de estrebaria (pelo menos fazem gala
de assim se apresentarem). Mas se o "Burra Praxis Sed Praxis" é lema
que facilmente cola a muito organismo praxeiro, não é certamente essa a imagem
que se pretende dar, ou que se pretende que seja expressiva da realidade (temo,
infelizmente, que o seja cada vez mais).
Simplicidade,
antes, e acima, de tudo.

A
julgar por muitos que temos nas prateleiras da Praxe......o melhor mesmo é não
consumir, ou porque contrafação ou porque veneno puro e simples.
Há logotipo de Praxe e
há logos, tipo praxe.
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