sábado, maio 16, 2015

Notas aos Anéis de Curso



A ORIGEM

O denominado "Anel de Curso" deriva dos anéis doutorais.
Os anéis com ou sem sinete, são usados desde a antiguidade e, na tradição europeia, estão historicamente associados aos actos de investidura e autenticação de documentos solenes/oficiais.
Temo-los, pois, usados por monarcas, papas, bispos, reitores e docentes universitários, bem como notários.

Como nos refere António Nunes,

"Eram obrigatórios nos actos de colação do grau de doutor nas universidades católicas estabelecidas em Roma, em Coimbra, Salamanca e Oxford. No caso específico de Coimbra, o anel doutoral tem base em ouro e pedra na cor da especialidade científica. Nesta universidade portuguesa a tradição estatutária não especificava anel para bacharéis nem para licenciados, costume que se afirma nas ourivesarias de Coimbra pela década de 1950."[1]

O anel apresenta-se, tradicionalmente, respeitando as caraterísticas do ouro português, de 19,2 quilates, e a peça será encimada por um uma pedra  fixa na chamada "incrustação em caixa".

Como dissemos, é nos actos de doutoramento que o anel ganhou importância para, mais tarde, ser replicado pelos licenciados.
Vejamos, sumariamente, o contexto do anel nos actos doutorais:

"Compete a cada candidato à laurea convidar individualmente o seu «Apresentante», dignitário de certa categoria que terá de adquirir o Anel Doutoral a ofertar ao recipiendário. Não existe um modelo padronizado para o Anel Doutoral conimbricense, mas é obrigatório que tenha a base em ouro e uma pedra na cor oficial da respectiva Faculdade (annulus cum gema)."[2]

É essencialmente a partir da década de 1980 que os anéis de curso ganham notoriedade e se tornam moda em quase todos os estabelecimentos universitários do país, mimetizando a tradição  conimbricense que não será anterior à década de 1950.

DOS ANÉIS DOUTORAIS AOS ANÉIS DE CURSO

Contudo, e como nos alerta A. Nunes, tais anéis não estão propriamente em conformidade com qualquer disposição estatutária ou com a heráldica académica, pois não é considerado próprio o uso de anéis ao grau de licenciado (e muito menos ao de bacharel - na altura em que também estes os usaram), algo que será contrariado pelas ourivesarias da década de 1950 (a quem se deverá, em grande parte, a moda dos anéis de curso).
E por que razão?


"Em primeiro lugar porque, segundo os estatutos e as tradições mais ascentrais, quem pode usar anel de ouro com gema na cor da especialidade científica são os detentores do grau de doutor e não os licenciados nem os bachareis. Em segundo lugar porque a maior parte dos distintivos figurados são puras invenções kitsch sem suporte algum na cultura greco-latina que estriba as alegorias das escolas maiores e respectivos atributos.


Doutoramento honoris causa del-Rey D. Juan Carlos I de Espanha 
pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra
Sala dos Actos Grandes, 17 de Maio de 1989.
O Prof. Doutor Orlando de Carvalho procede à imposição do anel doutoral. 
fonte: http://www.gettyimages.com/detail/89666207/Hulton-Archive
citada e usada por A. Nunes em Virtual Memories, 3-10-2010
.
O anel conimbricense de pedra (hoje em dia fabricado pelos ourives de Gondomar) é muito tardio. Na verdade, generaliza-se na sequência da moda dos aneis de curso que desde ca. 1920 se tinham popularizado nas universidades da Austrália, Canadá e EUA.

Atendendo a que foi criada a marca Universidade de Coimbra, seria pertinente elaborar um manual actualizado das alegorias de cada faculdade, selos oficiais e distintivos de cursos, de modo a que a UC pudesse tirar proveito económico do património que tem o seu nome e que outros exploram livremente. O que fazer a mais de meio século de aneis de curso de manufactura e uso espontâneo? Adequá-los às normas heráldicas e integrá-los na revitalização dos actos de formatura, dando sinal institucional de apreço pelo património simbólico."[3]

A verdade é que os anéis de curso se espalharam um pouco por todo lado, embora, na actualidade, a sua procura e ostentação tenha drasticamente diminuído, fosse por razões económicas, fosse porque, cada vez mais, a ostentação de tal peça ser vista como uma presunçosa afirmação de superioridade.

Com efeito, são muitos os que o adquiriram e, entretanto, passado o tempo "do pavão" (a vaidade de ostentar o grau académico perante terceiros), o guardaram na gaveta.




HERÁLDICA E MOTIVOS INCRUSTADOS



Uma das muitas dúvidas surge precisamente com os motivos incrustados em baixo relevo no anel. Quais os adequados?
Aliás essa questão da herálidica académica está igualmente presente quando pensamos nos brasões de curso, especialmente aqueles que os estudantes ostentam nas suas capas (e que são, na maioria das vezes, adulterações e desenhos fantasiosos que nada têm a ver com a heráldica oficial e tradicional).

Afinal, também os anéis de curso obedecem, ou deveriam obedecer, a algum critério?
Pegamos, uma vez mais, nas palavras de António Nunes, que nos serve de guia, que sobre isso nos diz, a respeito dos anéis doutorais:

" Não existe um modelo padronizado para o Anel Doutoral conimbricense, mas é obrigatório que tenha a base em ouro e uma pedra na cor oficial da respectiva Faculdade (annulus cum gema). Ao contrário do admitido para a Borla e Capelo, no Anel Doutoral nunca se misturam cores.

Quando uma Faculdade tem duas cores (Carmezim e Branco, de Economia, ou Castanho e Branco de Educação Física), a pedra é bicolor. Nas Faculdades onde está consagrada uma só cor, apenas se pode aplicar uma pedra na parte superior do anel, mas não orlas de diamantes em torno da mesa onde assenta a gema principal.

As duas faces do besel costumam ser esculpidas, mas nunca foi obrigatório nelas figurar o Sigillum da Alma Mater nem o emblema de cada Faculdade.

Quando um docente é doutorado por mais do que uma Faculdade, dispõe a tradição que possa ter tantos anéis quantas as Escolas por onde se graduou e não um só anel com mistura cromática de gemas."[4]

Depois, temos os baixo-relevo:

" A fábrica nem sempre respeita os motivos heraldísticos, o que confere a estes "anéis de curso" um ar vincadamente kitsch. Significa isto que em vez do bastão e serpente de Esculápio, podemos deparar com caveiras, dentes ou até com o caduceu de Mercúrio (erro iconográfico propalado pelos serviços médicos do exército dos EUA). Ou em lugar do caduceu de Mercúrio (Economia) podemos ver o símbolo do euro (€). O mais certo é a taça e a serpente de Higeia (Farmácia) andarem confundidas com a palmeiras das antigas boticas.

E não surpreenderá que a graciosa borboleta de Psiché (Psicologia) ceda pleno foro à letra do alfabeto grego. No limite, tamanha arbitrariedade não convence e pode mesmo desacreditar os respectivos portadores. O mesmo vale para os códigos cromáticos aplicados às gemas, que em certas instituições são totalmente aleatórios."[5]


Se o anel de curso deriva dos anéis doutorais, não é despiciente falarmos na influência que esses mesmos anéis terão sofrido, dentro da cultura eclesiástica, se nos lembrarmos que as universidades estiveram, durante longo tempo, sob tutela da Igreja.

Assim, a elevação académica dos reitores e lentes, seria a transposição da elevação hierárquica dentro da hierarquia da Igreja. Recordemos, pois, o mais famoso dos anéis: o anel papal, também denominado de "Anel do Pescador"[6], que ostenta o brasão de armas de cada papa, o qual é destruído após a morte do pontífice (sendo feito um novo par ao seu sucessor). O beija mão que ainda hoje se pratica, entre fieis e o seu bispo, costuma ser traduzido por um beijo no anel bispal, símbolo do estatuto e poder espiritual (e que chegou a também ser poder temporal).

A moda do anel de curso, ou "graduation ring", fortemente impulsionada pelas ourivesarias, poderá, porventura, também ter sido impulsionado pela influência que estes já tinham fora de Portugal.
Os anéis de graduação têm uma já longa história, colocando, alguns, a sua origem no ano de 1835, quando, em West Point, os alunos fizeram uns quantos para assinalar o fim do seu curso de instrução e a amizade que os unia, constando do anel o ano (turma/classe) que tinham frequentado.[7]
Tal foi copiado pelos alunos que iam terminando, ganhando contornos de tradição e espalhando-se dentro e fora do EUA, quer no domínio académico quer, também, no desporto - de onde são bem conhecidos os anéis de campeão em várias modalidades). Uma moda que se acentua a partir da década de 20 do séc. XX.
Terá sido tal a razão que levou os licenciados e bacharéis a aderir a esta moda, aliciados pela possibilidade de já não apenas os doutorados possuírem um, mas também eles?

Faz isto lembrar um pouco a actual moda das fitas aos milhares e pastinhas cartonadas inventadas pelas lojas de comércio de artigos académicos (tendo criado a oferta e aliciado a procura), embora com diferenças:
1ª travestiram a tradição da pasta da praxe e das 8 fitas, inventando por cima (e ignorando que já existiam uma balizada tradição neste particular) e jogando com a ignorância e narcisismo pueril dos alunos;
2ª o anel de curso não é matéria de Praxe, e a pasta de finalista com fitas, no que respeita à sua configuração, é-o.


PRAXIS

 

Não existe propriamente uma praxis associada ao momento em que se deve colocar.
O que poderemos avançar é que, seguindo o protocolo académico dos doutoramentos, ele deve ser colocado ou no dia em que se recebe o diploma (muitas academias organizam uma cerimónia de entrega de diplomas), logo após receber o mesmo.
Não sendo possível nesse dia, coloca-se depois,  quando for adquirido.
Usa-se, claro está, no anelar da mão direita.


CONCLUSÃO


Os anéis de curso são uma prática recente no meio discente universitário português.
São uma cópia, transposição dos anéis doutorais.
O seu uso decorre de uma moda que, ao que tudo indica, foi fortemente impulsionada ("inventada", pelos vistos) pelas ourivesarias, a partir da década de 1950.
Existe uma forte possibilidade que as ourivesarias em causa, fosse por auto-iniciativa ou por sugestão de alguns alunos (ex-alunos) tenham sido influenciados pela moda dos anéis de graduação muito em voga fora de Portugal.

Sabemos, portanto, que os anéis que os nossos bacharéis e licenciados passaram a usar, não eram, para todos os efeitos, algo próprio aos mesmos, tendo sido instituídos à revelia de qualquer norma estatutária e muito menos alicerçados numa tradição heráldica tradicional.
Hoje são uma realidade que, como já o dissemos, parece ter tido, já, muito mais adeptos do que actualmente.








[1] NUNES, António, In Virtual Memories, artigo de 07 Março 2010.
[2] Idem, artigo de 08 de Março de 2008.
[3] Idem, artigo de 18 de Março de 2010
[4] Idem, artigo de 08 Março de 2008.
[5] Idem. artigo de 07 de Março de 2010.
[6] igualmente conhecido por "Anel do Pescador de Almas".
[7] Em Portugal tal evocação também se regista, quando se fala no curso de X e se coloca o ano de início e término desse grupo de alunos.

domingo, maio 03, 2015

Notas ao Caloiro de Traje Académico


Por muito que já nos tenhamos detido sobre o Traje Académico, parece que, ainda assim, ou não léem (que é o mais certo) ou preferem fazer de conta que não leram.
A verdade é uma só: o Traje Académico existe apenas e unicamente para identificar o foro estudantil, ou seja identificar a condição do estudante. É um uniforme que pretende identificar e distinguir o estudante de qualquer outro mester. Essa é a sua função genética e primordial.
 
Mas para que o traje seja considerado académico, tem obrigatoriamente de ter por base o seguinte critério: é uniforme de todo o estudante da instituição, seja ele praxista, adventista, comunista, niilista, benfiquista, nacionalista ou, até, apenas parvo. Nunca, por nunca, em função de outra coisa que não seja ser aluno matriculado no ensino superior.
 
E o único merecimento que o estudante tem de demonstrar para trajar passa exactamente pelo seu mérito académico. Se conseguiu entrar no ensino superior, o seu merecimento está precisamente aí atestado e certificado pela única entidade com legitimidade para tal reconhecimento: a instituição de ensino, segundo os critérios de ingresso/candidatura estipulados pelo Ministério da Educação.
 
Significa, portanto, que seja caloiro ou não, o estudante tem direito a trajar.
Significa, pasmem-se as mentes fechadas e doutrinadas na treta, que os caloiros podem trajar. Não diremos "devem", apenas porque o uso ou não uso do traje é algo facultativo. Mas qualquer caloiro que o deseje, deve poder fazê-lo sem quaisquer constrangimentos, pois é um direito inalienável da sua condição de estudante.

Podem, pois, os caloiros trajar, segundo o que sempre, e repetimos, SEMPRE foi tradição, uso e costume em Portugal.
Não existe documento ou prova documental alguma que suporte a ideia de que os caloiros não pode ou não devem trajar. Sempre o puderam fazer, sempre o fizeram.
Muitos, aliás, usavam precisamente o mesmo traje na universidade que traziam dos liceus, onde também se trajava, fosse na altura em que o traje era de porte obrigatório, fosse mesmo depois, quando o traje passa a ser de uso facultativo.
 
Reparem que o Dec. Lei nº 10.290/1924, que procede à nacionalização do Traje Nacional (cuja alcunha é "capa e batina") e que, ao mesmo tempo, torna o seu uso facultativo, deixa bem claro algumas coisas:
 
- confirma a longa tradição da "capa e batina" nos liceus e escolas superiores, com origens na segunda metade do séc. XIX;
- reconhece a "capa e batina" como o traje apropriado ao estudante universitário.
- define o modelo "capa e batina" como Traje Nacional do estudante português, o único, aliás, a gozar desse estatuto;
- NADA DIZ, NADA REFERE sobre os caloiros não poderem trajar - até porque sempre trajaram, pelo que fica patente que o uso do traje NADA tem a ver com praxes ou merecimentos praxísticos.
 
Bem sei, caro leitor, que na sua academia, o seu código diz o contrário, que os mais velhos e os "senhores" mandantes da Praxe vos dizem diferente, que todos seguem a mesma cartilha e chorrilho. Bem sabemos dessa doutrinação cega que, de tantas vezes repetida e praticada (nos últimos 25/30 anos), parece até lógico, especialmente quando a isso adicionam as enganadoras teorias do "merecimento". Mas o erro reiterado não se torna virtude.
Ainda hoje é difícil perceber como se (re)importaram os costumes académicos nos anos 80 e parece ter escapado a tantos esta questão do traje.
Uma vez mais, lamenta-se que, nessa altura, se tenha tão leviana e incautamente copiado sem sequer se ter procurado perceber o que se copiava, retirando as coisas de um contexto que demasiadas vezes se ignorou por facilitismo e economia intelectual.
 
 
Mas pedimos, então, e porque estamos a falar para estudantes do ensino superior (a quem se exige espírito crítico; a quem se exige que o seu saber assente em provas documentais, em factos; a quem se exige a metodologia científica para constrastar e avalizar as teorias), que confrontem essas teorias e doutrinas dogmáticas, com a existência de um precedente histórico, uma Tradição que, na génese da prática, justifique tal.
Peçam aos tais "senhores mandantes da Praxe" que vos (com)provem tais concepções com algo mais do que códigos que eles próprios definem ao sabor daquilo que acham. Peçam-lhes justificação para o que os códigos sobre isso dizem.
 
Como já dizia A. Herculano, sobre factos históricos, "se não houver prova documental e factual de determinada teoria, ela não passa, então, de mito".
 
E como sabemos que não estamos igualmente isentos de ter de provar o que aqui dizemos, apresentamos algumas evidências documentadas (textuais e fotográficas) que provam, indiscutivelmente, que os caloiros sempre trajaram, sempre o puderam fazer (algo que só a partir de finais da década de 1980, em certas novéis academias, foi pervertido - academias onde, recordamos, existe, até, longa tradição académica enraizada nos liceus, contudo ignorada).

 
 Provas Documentais

 
 Comecemos por uma figura de todos conhecida: Antero de Quental, estudante da UC entre 1861 e 1867. Dele, narra-nos Carmine Nobre que, no seu 1º ano, se apresentou trajado e:
 
"Ao atravessar pela primeira vez a "Porta Férrea", Antero de Quental não se apresentou com a clássica timidez do "caloiro"; antes atravessou-a com uma provocante barba ruiva e com uma altivez de veterano respeitado.. Em breve a sua irreverência conquistou o meio académico (...)".[1]
 
Diamantino Calisto recorda o seu tempo de novato (caloiro) dizendo:
 
“Em 1901 – 17 de Outubro, salvo erro -  apresentei-me na Universidade com a minha capa e batina “rota e velhinha” (…) atravessei a “Porta Férrea” sem apanhar o “canelão” a que já me referi, isto é, sem apanhar como “caloiro” que era, pastadas na cabeça e nas costas e pontapés ou caneladas acompanhadas das respectivas assuadas, e sem, tão pouco, já dentro da Universidade, ser troçado”.[2]
 
Alberto Costa (ex Pad-Zé) dizia do seu tempo de novato:
 
“Já então desfrutava de uma certa popularidade (…)  minha audácia de entrar a porta-férrea sem protecção, desafiando o coice segundanista, a descarada resistência que opunha às troças, de que o veterano saía por vezes com trombuda cara de caloiro (…)Para mais, eu era o preferido de uma apetitosa tricaninha do Bêco dos Militares, a quem um lente de Direito “fazia bem”, e que me cosia a capa e batina nas ausências recatadas do catedrático.” [3]
 
Por sua vez, Antão de Vasconcellos narra, nas suas famosas memórias, o episódio de um famoso caloiro, de seu nome “Bica”, num desacato com alguns veteranos:
 
“O Bica tirou a capa e com ella dobrada a meio, como arma de combate, a única de que dispunha, rompeu o cerco e, recuando, disputou palmo a palmo o terreno, até que pôde esgueirar-se com a capa em petição de miséria…..não o apanharam!!” [4]

Também em Barbosa de Carvalho, encontramos a seguinte passagem, referente à exploração do caloiro por parte dos veteranos, a quem se vendia um traje em mau estado ou má qualidade, ainda que exigindo pagamento como se fosse pano de 1ª qualidade:
 
“Já o José Vitorino se abrigou indevidamente á sombra deste principio, impingindo a um caloiro certa batina de má fazenda, muito para lástimas e com buracos, por preço exorbitante e desmedido.” [5]

No In Illo Tempore de Trindade Coelho, atente-se nesta referência a caloiros trajados:
 
 “…porque nos apareceu no 1° ano um fedelhote e formou-se não tendo ainda na cara sinais de barba! Era Além disso muito branquinho, muito coradinho, muito tenrinho e um quase nada louro, e andava sempre com a sua capa e batina muito escovadas e a risquinha do cabelo muito bem feita!”
(...)
“Eu, por exemplo, enverguei uma batina no dia em que cheguei a Coimbra, pus-lhe por cima uma capa – e capa e batina foram elas, que me fizeram a formatura!”. [6]
 
R. Salinas Carvalho refere, quanto a ele, enquanto caloiro (1991-12), o seguinte:
 
“Éramos todos doutores, mesmo em caloiros [para a população] (…)
O nosso traje era a capa e batina, e a farda de cavalaria para o Alvim , louro e garboso cadete, de bicha dourada, e duas estrelas de metal amarelo, de segundanista e o pequeno barrete militar, “taxinho”, sem pala com francelete de verniz prêto". [7]
 
Outro testemunho deveras interessante, sobre os anos de 1890, é-nos narrado por João Eloy, que refere que até mesmo antes de concluído formalmente o acto de matrícula, o caloiro já trajava (ou porque vinha já do liceu onde já usava capa e batina ou porque era das primeiras coisas que o estudante fazia para se apresentar no paço universitário):
 
"O primeiro acto oficial do caloiro perante a Universidade era o "encerramento da matrícula".
Envergando a capa e a  batina, o caloiro ia à Secretaria, e só se considerava matriculado depois de jurar sôbre os Santos Evangelhos defender o dogma da Imaculada Conceição.
Era dos Estatutos e todos juravam com a mesma fé e certeza de cumprir com que, ao sair de casa, se prometera dedicar todo o tempo ao estudo e só ao estudo.
Feito o juramento e esportulados uns tantos réis de propina, tinha o caloiro de pagar a patente [praxe] aos companheiros de casa."[8]
 
A. Nicolau da Costa, que cursou Coimbra na década de 1940, relata o seu 1º dia como caloiro, com 17 primaveras acabadas de fazer, na UC, sendo se sobremaneira interessante verificar que até os caloiros eram chamados de "Senhor Doutor" (exactamente porque todos trajavam por igual, fossem caloiros ou não):
 
"Foi o caso de que, logo no primeiro dia entrei no "Pirata", o velho Joaquim da "Leitaria Académica", a tomar um café.
É bom de ver que a capa e batina novinhas em folha, a "gaucherie" de caloiro, os verdes anos, e a cara nova, logo alertaram o manhoso Pirata, na sua luta constante em evitar que a freguesia lhe fugisse para o "Jesuíta", o tratante que tinha estabelecimento em frente (...).
"O Senhor Doutor, se não quiser pagar agora, paga depois. Cá em casa é assim". E, largando na mesa um grosso volume de papel pautado: "É só apontar aí, que depois paga".[9]
 
Contra factos, meu caro leitor..........................
 
Mas reforçamos:
Com a abolição definitiva  do Foro Académico (1834), sente-se a necessidade de dotar a Universidade de um regulamento disciplinador que não deixe a instituição sem regras. Será, pois, decretado e publicado em Diário da República de 25 de Novembro de 1839, o regulamento que, concomitantemente, institui a famosa "Polícia Académica". O conhecido "Decreto Sanches", tratava-se, afinal, do verdadeiro Regulamento Disciplinar da UC (que, pro erro, se continuou a chamar de "foro académico").
Este regulamento possuía poderes mais amplos que os comuns regulamentos disciplinares em vigor nos liceus, seminários ou colégios particulares, servindo de instrumento de enquadramento disciplinar e social.
Este regulamento dotava a UC, das seguintes prerrogativas (que a Polícia Académica se encarregava de executar):
  • Vigilância e manutenção da ordem em todos os espaços do Paço das Escolas Gerais e suas dependências;
  • Inspecção dos uniformes docentes e discentes e dos oficiais administrativos;
  • Policiamento nocturno das ruas, casas d ejogo clandestino, prostíbulos e tascas;
  • Instauração de processos disciplinares por desrespeito, agressão, roubo e homicídio;
  • Aplicação de penas através de acórdãos ratificados pelo Conselho de Decanos.
 
Se já antes não existia qualquer menção, também este regulamento nada diz quanto aos caloiros não poderem trajar. Tinham de o fazer, tal como os demais colegas mais velhos. Nenhum regulamento alguma vez distinguiu qualquer hierarquia entre estudantes. Tal sucedeu quer quando o traje era de porte diário obrigatório, quer quando a obrigatoriedade do seu uso ficou confinado à alta (perímetro da universidade), quer mais tarde, após o seu uso se tornar facultativo.

Todos trajavam e deviam observar as mesmas regras. Ponto final.
 
Como já o mencionámos, o  decreto 10290 de 12 de Novembro de 1924 (chancelado pelo então Ministro da Instrução Pública, Manuel Teixeira Gomes) que reconhece, simultaneamente o modelo "capa e batina" como Traje Nacional do estudante português e torna o seu uso facultativo, nada refere quanto ao caloiros ou estudantes proibidos de o usarem:
 
 "Considerando que o Estatuto Universitário de 6 de Julho de 1918, determinando no seu artigo 101.º, § único, que não é obrigatório qualquer traje académico para os estudantes, implìcitamente reconhece o uso facultativo de capa e batina para os alunos de ambos os sexos;
 Considerando que se tem sempre reconhecido a capa e batina como traje escolar dos que freqüentam as Universidades, escolas superiores e liceus:
Usando da faculdade que me confere o n.º 3.º do artigo 47.º da Constituição Política da República Portuguesa:
Hei por bem decretar, sob proposta do Ministro da Instrução Pública, o seguinte:
Artigo 1.º É permitido aos estudantes de ambos os sexos das Universidades, liceus e escolas superiores o uso da capa e batina, segundo o modêlo tradicional, como traje de uso escolar. (...)".
 
 
 
Provas Fotográficas
 
 
CALOIRO TRAJADO sob trupe
(foto diurna, pois era para publicar em Bilhete Postal Ilustrado)
in Illustração Portugueza, II Série, Nº 302, de 04 Dezembro 1911, pp.711
(Hemeroteca Municipal de Lisboa).
 
Uma trupe e o CALOIRO TRAJADO
- Coimbra -P Borges, 1911 BNP, PI-5882-P
 
Tonsura a um CALOIRO TRAJADO,
em desenho mural na Real República Rás-Teparta

Simulacro de um rapanço e de uma ida às unhas ao CALOIRO TRAJADO.
(os estudantes posando para Bilhete Postal Ilustrado) ca. 1911

Trupe praxando um CALOIRO TRAJADO
In Estudantes de Coimbra e a sua Boémia,
 Ilustração, Ano 6, Nº 141, de 01 Novembro de 1931, p.22
(Hemeroteca Municipal de Lisboa).

Tonsura de um CALOIRO TRAJADO por elementos de uma trupe.
Pintura mural de finais da década de 1950 que existiu na extinta República dos Paxás


CALOIRO TRAJADO protegido pela pasta do veterano,
escapando, assim, ao canelão.
In "Estudiantes de Coimbra",
Revista Estampa Ano 9, nº 437, 30 Maio 1936,.Madrid. p3

CALOIRO TRAJADO alvo de praxe (no que parece ser um rapanço)
In "Estudiantes de Coimbra",
 Revista Estampa Ano 9, nº 437, 30 Maio 1936,.Madrid. p.3

Representação do CALOIRO TRAJADO sob domínio do doutor.
In Leis extravagantes da Academia de Coimbra
ou código das muitas partidas
de Barbosa de Carvalho (1916), logo na 1ª página.

Quartanista Grelado de Direito(à esquerda) e
Apadrinhamento de um CALOIRO TRAJADO (à direita).
 Pintura de Varela dos Reis, feita na República dos Paxás, anos 50.

CALOIRO TRAJADO, sob trupe, nos anos 40.
 CALOIRO TRAJADO, durante um julgamento (1940)
Pequena BD onde se retratam estudantes a interpelarem um CALOIRO TRAJADO
In "O Caspa e Batina" - Jornal da Mocidade Portuguesa da 1ª série, 1938, p.4

 
Conclusão
 
 
Dirão alguns que o traje que usam na sua instituição não é o modelo "capa e batina". E nós responderemos que, apesar de tal, pretende afigurar-se e equiparar-se no seu significado e função (caso contrário nem lhe chamariam traje académico).
 
Assim sendo, mesmo tratando-se de um outro modelo, deve seguir o que a Tradição estipula para o traje académico, o seu âmbito, função, propósito e significado.
 
Para ser traje académico, com a pretensão de ser o traje representativo dos estudantes de determinada instituição, tem de o ser de TODOS os estudantes. Ora ser estudante da instituição apenas exige que o aluno esteja matriculado. E esse reconhecimento só a instituição tem legitimidade para o fazer.

Se é traje académico, ele não pode fazer acepção de pessoas, muito menos estar vedado seja a quem for em função de praxes.

E mais: muito menos ser vedado o seu uso aos novos alunos, em razão de patranhas inventadas em nome da Praxe.

A Praxe nunca preconizou tal apartheid nem tal acefalia colectiva.
 
 
Zé Veloso, autor do blogue "Penedo d@ Saudade",
cursou Coimbra nos anos 50 e 60 (como aluno de liceu e universitário), assim como o Porto.
 
 

O Traje é Traje Académico e não traje praxístico. Serve portanto para quem quer praxar, como para quem é praxado; para quem não quer praxar ou ser praxado. É uniforme estudantil, apenas e só.
O traje é para todos, sob pena de não ser Traje Académico, mas um fato para alguns palhaços darem livre expansão à sua mediocridade.
 
Claro está que, alguns começarão, e bem, a questionar (mesmo que com dificuldade, ainda, em engolir tal) a razão de ser de certas pseudo-cerimónias do "traçar da capa" que assentam nesse equívoco e erro crasso que é defender que os caloiros não podem trajar excepto a partir da noite de Serenata Monumental.
 
O CALOIRO PODE TRAJAR?
PODE, seja a capa e batina ou outro traje que se diga equiparado, Académico, portanto.
Defender o contrário é anti-Praxe, anti-Tradição, uma perversão e deturpação total daquilo que é a Praxe Académica, sua cultura, história e diegese.
 
Apresentámos os factos, comprovámo-los documentalmente, deixámos suficientemente claro quais os pressupostos correctos.
 
Pode agora o leitor confrontar isso com o tipo de doutrina e argumentação que se prega na sua instituição.




[1] NOBRE, Carmine - Coimbra De Capa e Batina, Volume II. Ed. Atlântida, Coimbra, 1945, p.65.
[2] CALISTO, Diamantino – Costumes Académicos de Antanho, 1898/1950. 3º Milhar, Imprensa Moderna. Porto, 1950, pp. 71-72
[3] COSTA, Alberto – O Livro do Doutor Assis, 9ª edição, Livraria Clássica Editora. Lisboa, 1945, p. 35
[4] VASCONCELLOS, Antão – Memória do Mata-Carochas, in meo tempore – Empreza Litterária e Typográphica editora. Porto, 1906, p. 380
[5] CARVALHO de, Barbosa - Leis extravagantes da Academia de Coimbra ou código das muitas partidas. Livraria Cunha. Coimbra, 1916, p.59
[6] In Illo Tempore, Estudantes, lentes e futricas. Livraria Aillaud & Cª. Paris-Lisboa,1902. Citações extraídas das páginas 53 e189, respectivamente.
[7] CALADO, R. Salinas – Memórias de um estudante de Direito, Coimbra Editora Ldª, 1942, p.140
[8] ELOY, João - Boémia Coimbrã, A Vida Académica de Coimbra nos fins do século passado. Ed. Minerva, 1938, pp.25-26.
[9] COSTA, Nicolau A. - Boémia Coimbrã (dos anos 40), Ed. Athena, Coimbra, 1975, p.18.