quarta-feira, novembro 16, 2016

Notas ao livro Praxe e Tradições Académicas (de Elísio Estanque. 2016)

 


"Praxe e Tradições Académicas" é o mais recente trabalho do sociólogo Elísio Estanque, o qual, nos últimos anos, se tem debruçado sobre o fenómeno das praxes estudantis.


Após uma leitura atenta, alguns considerandos se podem tecer, desde logo deixando claro que é um livro de leitura obrigatória, para quem pretende compreender e reflectir sobre os fenómenos sociológicos afectos às práticas estudantis, com especial enfoque nas conhecidas por praxes académicas.
 
Começaríamos por dizer que o título, de certa forma, não corresponde exactamente ao que o comum estudante, praxista ou estudioso destas coisas perspectiva.
O livro não fala, efectivamente, de Praxe, no seu sentido mais correcto, mas de Praxe no sentido em que, actualmente, demasiadas academias e estudantes o intuem, confinando o seu significado meramente aos ritos que envolvem caloiros.
Embora o autor deixe claro que situa a sua noção no contexto sociológico devido, ou seja no meio e tempo presentes (e, sob essa perspectiva, até está correcto), cremos que deveria ter, pelo menos, deixado no ar que é um conceito truncado e pervertido; resumido a praxes e pouco mais, e que, embora assuma no discurso o entendimento de hoje, reconhece que o entendimento actual de "Praxe" é, ele próprio, resultante de um fenómeno sociológico que adulterou o conceito genuíno.
Aliás, uma primeira crítica que faríamos, é precisamente quando, a páginas tantas[1], elenca as perspectivas de Praxe existentes (com base em textos publicados em vários blogues), e omite, nomeadamente, a que é apresentada por nós neste blogue, e comungada por outros blogues de referência, como o blogue "Praxe Porto"[2], entre outros, que, modéstia à parte, têm não só maior peso no meio académico, mas o fazem com o rigor da investigação, servindo de fonte e referência ao maior grupo facebookiano dedicado a estas matérias: o "Tradições Académicas&Praxe" (olimpicamente ignorado, aliás, quando as redes sociais fazem já parte do fenómeno sociológico em causa).
 
Não é, portanto, um livro sobre Praxe, mas sobre praxes e a sua análise sociológica.
E é nesse âmbito que deve ser lido, e aí reside a sua mais-valia, passado o equívoco provocado pelo chamariz do título.
Também não é um livro sobre Tradições Académicas, embora aborde diversas manifestações da cultura e tradição estudantis, que são pretexto para análise comportamental do contingente estudantil na vivência de algumas dessas tradições, que não um retrato histórico e diegético dessas tradições.
 
Não é, pois, um livro que explique Praxe ou Tradições, suas origens, significados, simbologia, etc., mas um livro que, a propósito disso, analisa, com bastante pontaria, diga-se, as motivações, comportamentos, fenómenos de sociológicos que ocorrem dentro desse meio e, muitas vezes, sob essas designações.
E quando, já mais para o final, aborda algumas manifestações da tradição (latada, cortejo da queima...), fá-lo para observar atitudes e comportamentos; constatando, portanto.
 
Temos alguma dificuldade em reconhecer um público alvo para esta obra, para além dos aficionados da sociologia.
Ela é algo densa e exige algum esforço para se acompanhar o leitmotiv. Com efeito, não seguindo propriamente um fio condutor intuitivo, somos levados a saltitar entre assuntos nem sempre bem colados entre eles, mesmo se cada um tratado com bastante rigor do ponto de vista sociológico e apresentando diversos testemunhos, entrevistas e dados recolhidos e tratados - resultantes do contacto directo com diversos protagonistas.
Também saudamos o facto de, sem grandes desvios, manter uma posição isenta na análise ou, pelo menos, a não prejudicar por qualquer posicionamento quanto às questões sempre controversas como são os ritos com caloiros.
 
Mas se este livro é, incontestavelmente, uma análise arguta e bem suportada, do fenómeno sociológico que representam as praxes, e de todos os que se vão criando debaixo do teto das tradições estudantis,  peca, contudo, por diversas imprecisões, quanto a factos históricos.
 
 Alguns erros
 
Um dos lapsos detectados ocorre a propósito do salto que faz à vizinha Espanha, quando aborda a questão da extinção do foro académico naquele país (quase na mesma altura em que tal também sucede em Portugal) e da crescente rejeição de uma sociedade em mudança, empurrada pelos ideais das revoluções liberais ocorridas (levando a sucessivas proibições de praxes, com recurso a forças policiais ou militares,  em Portugal),  para dizer, e passo a citar, que "Também em Espanha, parte da cultura pícara seria expulsa dos claustros das universidades, sendo depois continuada pelas tunas escolares."[3].
Só que isso não corresponde inteiramente aos factos.
Com efeito, se é verdade que a cultura pícara é extinta com a abolição do foro académico em Espanha, no início do séc. XIX não existiam tunas. Aliás, as primitivas formas de associação tuneril surgem sob a designação de comparsas ou estudiantinas carnavalescas, que saíam à rua apenas no Carnaval ou para pontuais préstitos e peditórios em favor de vítimas de guerra, cheias, terramotos ou estudantes necessitados, logo desaparecendo.
Eram, portanto, fenómenos efémeros.
 
Além disso, não existe qualquer registo de, mesmo a partir de 1870 (quando as tunas emergem com maior relevo, embora sem cariz permanente, ainda), de práticas de praxe dentro das mesmas, coisa que só começa a ocorrer (e de modo bem diferente) em Espanha a partir do Franquismo (e, em Portugal, a partir dos anos 70-80 do séc. XX). Além disso, as estudiantinas/comparsas nem sequer usavam traje estudantil, que fora abolido, antes usando trajes carnavalescos, dos mais variados, até a famosa Estudiantina Fígaro (a partir de 1878-79) contagiar o mundo tunante com o seu modelo estético e musical que perduraria até às primeiras décadas do séc. XX, quando os panos se fixam no actual traje de tuna espanhola que conhecemos (que nada tem a ver com traje estudantil sequer).
Não existindo tunas na época referida por Elísio Estanque, é errónea a afirmação que faz[4].  Cremos que falou, aqui, algum cuidado em documentar-se e informar-se devidamente sobre Tunas, apesar da não haver falta de informação creditada.
 
Uma outra passagem que suscita reticências vai para quando trata do caso específico do Porto, afirmando, e passo a citar, que "Apesar do peso da tradição ser escasso no Porto, o poder atrativo da praxe cresceu rapidamente, induzindo uma entrega quase sem limites da parte de sucessivas gerações de estudantes que forma ingressando nas instituições de ensino superior da cidade."[5].
 
Ora o Porto tem uma longa tradição académica e uma praxis bem enraizada, desde o séc. XIX. Da festa da pasta à queima, da tradição orfeónica passando pela tunante............... a Invicta tem pergaminhos no que toca a ter uma tradição académica[6].
Poderia não ter quanto a praxes com caloiros, mas lá está: ou bem que estamos a falar de tradições académicas ou bem que estamos a falar de praxes; e a tradição académica não se resume, nem nunca resumiu, a praxes.
 
Um outro erro, um pouco mais grave, em nosso entender, é quando opta por citar uma dissertação de licenciatura de uma, então, aluna, escrevendo o seguinte:
 
 “Igualmente digno de registo é a popularidade de alguns nomes ligados ao imaginário académico, embora não estudantes, que povoaram a cidade em épocas distintas, e o papel que desempenharam no universo das representações intelectuais e estudantis.
 Personagens como o Agostinho Antunes, o Pantaleão, o Pad Zé, o Castelão de Almeida, entre outros, fazem parte da história da academia de Coimbra, sendo de certo modo apropriados por essa espécie de "academia paralela" que animava os ambientes boémios e contestatários de Coimbra do passado."[7].
 
Ora, como bem sabemos, porque documentado, Pantaleão, Pad-Zé (Dr. Alberto Costa), Castelão de Almeida.....foram estudantes, de facto, devidamente matriculados na UC.
Esse erro histórico resulta de um excesso de confiança em fontes não verificadas, sabendo nós, tão bem, que, em matéria de Praxe e Tradições, se têm cometido verdadeiras atrocidades científicas, até mesmo em trabalhos e dissertações universitárias que passam incólumes pelo crivo pouco rigoroso de docentes também eles pouco habilitados e rigorosos nestas matérias[8].
 
E para fazer corresponder essas figuras aos factos, desdizendo o que essa tal de Madalena Duarte dissertou (e que incautamente o autor considerou), aqui deixo, ipsis verbis, o que muito bem respondeu o Ricardo Figueiredo na página de FB "Penedo d@ Saudade" em 14-11-2016:
 
"- Pad-Zé, (Dr. Alberto Costa) foi uma das figuras centrais na organização e conteúdo do “Centenário da Sebenta”, na companhia de D. Thomaz de Noronha, Luís de Albuquerque, Afonso Lopes Vieira. Acontecimento elogiado pelas autoridades universitárias, eclesiásticas e civis de Coimbra da época. Mereceu ser incluído no convite para a refeição de congratulações, pelas autoridades.
Depois, bacharel, teve um percurso, como jornalista e figura no período politico, controverso e conturbado, antes da implantação da República.
Teve nome em rua da Velha Alta (onde se litografou a primeira sebenta)e, ainda hoje, figura na toponímia do Fundão[9].
 
- O curso do Pantaleão lançou a venda/peditório das Pastas, com a companhia das meninas do Asilo Elysio de Moura, percorrendo a cidade, revertendo a receita para aquela instituição, o que muito sensibilizou os bem feitores e cidadãos de Coimbra.
Também, introduziu a “praxe” da cartola e da bengala, que se mantém na atualidade.
Depois, licenciado em medicina com 14 valores, o Dr. Henrique Mota foi o “João Semana” da sua região, ainda lembrado, colaborando na causa pública e no ensino. Há quem possa testemunhar a sua conduta, filantrópica e amiga.
 
- Castelão de Almeida, com o Pantaleão, iniciou a publicação do Jornal "O Poney" – “acérrimo defensor dos interesses da Academia de Coimbra“ (Carminé Nobre), onde se podem revisitar, com piada/crítica, acontecimentos da época.
A República Ribatejana, onde viveram Agostinho Antunes, Henrique Mota (Pantaleão) e Castelão de Almeida, foi palco privilegiado de homenagem a figuras nacionais e estrangeiras, de visita à Universidade (António Ferro, Fernanda de Castro, Humberto Cruz, Carlos Bleck e outras).
O Dr. Castelão de Almeida, licenciado em Direito, destacou-se na sua região - Alpiarça, onde é lembrada a sua conduta profissional - ação, na defesa profícua, longa e difícil, numa causa em favor de pequenos lavradores e que ganhou, contra os latifundiários da lezíria. Tem, por isso, nome de rua e placa evocativa[10].
-O Dr. Agostinho Antunes “conceituado boémio” foi, depois, “abalizado clinico”, em Lagares da Beira, com o seu nome no Largo evocativo.".
 
Não sendo Elísio Estanque um especialista em matéria de história das tradições académicas, isso não o desresponsabiliza de, como docente universitário, usar de maiores cautelas em áreas que não a sua.
 
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Esta obra faz diversas vezes referência a este nosso blogue, o que muito nos honra, mas não deixamos de constatar que, em diversos outros assuntos abordados, outros artigos nossos pudessem tê-lo sido também, especialmente no que concerne a questões ligadas aos alunos declarados (ou que são levados a declararem-se) "anti-praxe" e todas as consequências proibitivas que servem, tantas vezes, de coação dissuasora ou burlosa chantagem psicológica[11], mas também para analisar as falácias em torno do, no meio praxístico, tão apregoado lema "Dura Praxis Sed Praxis"[12] ou, ainda, quando (nas páginas 240-241) fala do rasganço[13], para só referir estes.

Não deixamos, igualmente, de estranhar que na Bibliografia (pp. 227-231), não haja qualquer menção à maioria dos blogues que foram sendo referidos em nota de rodapé ao longo do livro, excepção feita ao artigo do António Nunes, constante no blogue "Guitarras de Coimbra (Parte I)", o qual aparece devidamente referenciado (p. 231), como é próprio.
Esquecimento, falta de cortesia....?
Falta de menção devida, diríamos nós.
 
Para não tornarmos fastidioso este artigo, apontamos algumas páginas cujo conteúdo merece destaque, e deve suscitar reflexão crítica por parte, nomeadamente, dos estudantes e organismos praxísticos (para já não dizer dos pais dos alunos):
 
- páginas 28-31;
- páginas 97-98;
- páginas 137-144;
- páginas 145-147;
- páginas 156-176;
- página 179;
- página 194 (com a revelação de que o Dux de Coimbra recebe 1% do lucro da Queima, que aplica nas despesas do MCV);
- página 217-226 (síntese conclusiva).
 
Contas feitas, e ignorando algumas imprecisões, é uma obra a não perder.
É verdade que não é uma obra sobre Praxe e Tradições Académicas, mas essencialmente sobre os ritos com caloiros e os diversos fenómenos sociológicos que ocorrem no contexto estudantil universitário, mas que se aconselha vivamente.
Ficou a faltar, em nosso entender, uma mais clara confrontação tripartida desse apaixonante e controverso fenómeno das praxes aos caloiros:
 
1.º das antigas investidas até ca. 1910-30 (entre 1910 e 3 ca. 1930 existe uma hiato com avanços e recuos), em que esses rituais envolviam muitos excessos e muita violência, mas que, de certo modo, estavam em linha com os usos e costumes, regras de educação e civilidade da época, pelo que toleradas a maioria das ocorrências que não envolvessem casos graves, como aliás refere A. Nunes, quando diz, e passo a citar:
 
"Contrariamente ao que se possa pensar, esta violência ritualizada, e veementemente condenada desde o iluminismo, pouco ou nada se distinguia das troças com que os fidalgos mimoseavam os vilões e as raparigas do povo; das penalidades infamantes vigentes nos forais e Ordenações até ao advento do Liberalismo; da defesa da honra entre rapazes de aldeias rivais; da exercitação da vingança privada nas comunidades rurais, sendo disso exemplo as latadas aos recém-casados e nubentes viúvos; as cornetadas à porta das adúlteras; os chocarreiros testamentos da Serração da Velha e Queima do Judas; o deitar pulhas, os entrudos porcos com arremesso de cinzas, ovos podres e tripas; as pancadarias dos habilidosos manejadores de paus em feiras e romarias; os insultos acompanhados de murros, taponas, escarros, sinais obscenos, palmadas nas nádegas, a coroação e sermonário dos maridos cucos/cornos."[14].
 
2.º De ca. 1930 a 1969, numa fase em que só mesmo nas trupes[15] podemos encontrar, de facto, laivos claros de violência e coação física sobre caloiros, sendo que, como o podem testemunhar os antigos estudantes de então, nessa época não se admitiam coisas que hoje vemos, como meter caloiros de 4, pintá-los, sujá-los, insultá-los, gritar palavrões na rua, banhos forçados, brincadeiras de cariz sexual, proibi-los de usar traje ou participar das actividades caso se recusassem ser praxados.....ou seja, uma fase de mais civilizade e brandura só interrompida, à noite, pela acção das trupes cujo castigo máximo era o rapanço (apenas a rapazes).
 
E, neste ponto, Elísio Estanque omite um facto importante, até mesmo quando refere as regras que regem as trupes, segundo o código de 57: é que esse código foi praticamente ignorado pela comunidade coimbrã da altura (muitos nem dele tinham efectivo conhecimento), a qual continuou a reger-se pela tradição oral[16]. Pelo que só mesmo a partir de 1980 é que, e na falta de um testemunho pessoal transmitido pelos anteriores estudantes (fruto da suspensão da Praxe e actividades académicas e 1969), foi o Código de 57 tomado como referência  e base para a reintrodução das tradições.
 
3.º de 1980 aos nossos dias, onde há um regresso ou ressurgimento de práticas de verdadeira barbárie e reaparecem, como sucedia anteriormente a inícios do séc. XX, inúmeros casos de abusos e incidentes graves.
Embora Elísio Estanque explique o caldo social que leva a muitas dessas práticas, e até estabeleça as diferenças entre a sociedade académica de finais de 50-60 e as que se seguiram, fá-lo explorando o lado político e empenhamento associativo, mas não tão claramente entre modelos, conceitos, práticas e paradigmas de praxes.
É que, efectivamente, o que hoje temos como Praxe (na maneira como o termo é entendido, embora equivocadamente, pelos praxistas) não encontra um precedente lógico e de continuidade, e muito menos contexto favorável na sociedade - e, ainda assim, multiplicou-se a agudizou-se.
 
 Em suma:
 
Um bom livro (mesmo ignorando a questão do título e os erros que aqui apontámos), que recomendamos vivamente, para quem quer tentar compreender e fazer uma leitura sociológica do fenómenos das praxes.
 
 



[1] pp. 110-114.

[2] Vd. nomeadamente, COELHO, Eduardo - Entre "Ir" e "Estar", a Tradição abandonar. Artigo publicado no blogue "Praxe Porto", 2013 [Em linha]

[3] p. 21

[4] Vd. COELHO, Eduardo, SILVA, Jean-Pierre, SOUSA, João Paulo e TAVARES, Ricardo - Qvid Tvnae? A Tuna Estudantil em Portugal. Euedito, 2011; SÁRRAGA, Félix O. Martin - El Traje de Tuna. Tvnae Mvndi, 2016; La Tuna para legos, Tvnae Mvndi, 2016; Mitos y evidencia histórica sobre las Tunas y Estudiantinas. Tvnae Mvndi, 2016;

[5] p. 105

[7] DUARTE, Madalena - A taberna e a boémia coimbrã – Práticas de lazer dos estudantes de Coimbra. Coimbra: FEUC (dissertação de licenciatura), 2000, citado/transcrito pelo autor, na página 72.

[8] Ao longo dos últimos anos, deparámo-nos, já, por diversas vezes, com trabalhos finais (de licenciatura ou mestrado), ou trabalhos no âmbito de uma disciplina específica do curso, publicados na internet (nos mais diversos suportes) sem qualquer rigor histórico, especialmente sobre Tunas e sobre Praxe/Tradições Académicas, com a aparente chancela dos docentes orientadores. O mais recente foi feito no âmbito de uma cadeira de comunicação social e não deixámos de apresentar queixa ao docente responsável e ao director do curso, fornecendo, concomitantemente, as provas documentais que contradiziam os erros detectados nesses trabalhos. Temos de o dizer, mesmo que em nota de rodapé: é vergonhoso isso ocorrer numa instituição de ensino superior.

[9] Vd. ROSA, Mendes J. - Pad-Zé,  O Cavaleiro da Utopia. 2000

[10] Vd. Jornal Alpiercense, 05-01-2013.

[11] Vd. Notas&Melodias - Notas aos "anti-praxe". Artigo de 14 de Outubro de 2013. [Em linha]

[12] Vd. Notas&Melodias - Notas ao DURA PRAXIS SED PRAXIS. Artigo de 05 de Fevereiro de 2015. [Em linha]

[13] Vd. Notas&Melodias - Notas ao Rasganço . Artigo de 03 de Julho de 2015. [Em linha]

[14] NUNES, António Manuel - As Praxes Académicas de Coimbra, Uma interpelação histórico-antropológica. Artigo publicado no blogue Guitarra de Coimbra (Parte I) a 19 de Novembro de 2005 [Em linha], com base na comunicação proferida pelo próprio nas Primeiras Jornadas “As Praxes Académicas - Sentido actual e perspectivas”, promovidas pelo Instituto Piaget de Viseu nos dias 29 e 30 de Abril de 2003. Trabalho publicado na revista Cadernos do Noroeste, Braga, Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho, Volume 22 (1-2), ano de 2004, págs. 133-149, por gentileza do Prof. Doutor Albertino Marques.

[15] Nem mesmo os julgamentos que ocorriam nas repúblicas, os quais eram mais jocosos que outra coisa.

[16] E tanto assim é que, mais do que o testemunho de antigos estudantes nesse sentido, tal está patente na forma como as meninas, durante muito tempo, ignoraram a prescrição que o código inventou em usarem meias de vidro pretas, continuando a usar ou meias de vidro cor da pele ou meias nenhumas (Vd  Blogue Notas&Melodias - Notas à Saia e Meias do Traje Académico Feminino. Artigo de 21 de Novembro de 2014).

sábado, setembro 24, 2016

Notas ao Código de Praxe do ISEG (2016-2017)

A pedido de um nosso leitor, apresentamos a nossa análise ao dito "código de praxe" em vigor no ISEG, para o ano 2016-2017.
 
Poderão encontrar o código em causa AQUI (para download), a partir das imagens do mesmo, publicadas no FB da Comissão de Praxe do ISEG a 16-09-2016.
 



Temos de começar por dizer que foi dos código que mais nos custou analisar, pela enorme quantidade de erros e equívocos constantes.

Fazemos uma análise rápida e acintosa, deixando claro que o pouco  respeito (nenhum, neste caso) que nos merece tal documento ou quem o redigiu não põe em causa o enorme respeito que nos merece a instituição.
Se crítica possa haver ao ISEG é na incapacidade de impedir gente idiota e incompetente de o frequentar como aluno, como a que urdiu o documento em causa.

Informamos que  já foi enviado mail ao presidente do ISEG, o Professor Doutor Mário Fernando Maciel Caldeira, dando-lhe conhecimento deste "código" e dos artigos que põem em causa a imagem e bom nome da instituição que dirige.


 
 
Este artigo n.º 2 encerra, desde logo erros de incompetência pouco admissíveis no ensino superior.
Quando não se sabe latim, evita-se inventar e delapidá-lo. Termos como "lacaiumns, "aprendizis" ou "Veteranuns" são coisa sem nexo, até em latim macarrónico (ver AQUI).
Depois, não se percebe a inserção do termo "Duque", como se essa designação tivesse algo a ver com o foro académico, se tivesse algo a ver com a realidade estudantil.
Chamar, depois, de veterano a um aluno de 3 matrículas é um non-sense total.
 
 O artigo 3 é, a todos os títulos, ridículo, quando afirma que a ética se rege pelo respeito mútuo, mas, depois, o código explicita, todo ele, falta de respeito pelos outros, por outras instituições e pela própria Tradição Académica.
 Já o artigo 4.º é verdadeiramente escandaloso, pela apologia que faz à boçalidade, à falta de educação e civismo.
Escolher o hino nacional francês para hino, é um desrespeito a um símbolo nacional (que diriam, se os neo-nazis escolhessem o termo ISEG como sinónimo de, por exemplo, holocausto?) O que tem a ver tal hino com Praxe, com os estudantes, nomeadamente os portugueses?
É vergonhoso!!!
 
 
E se acima falámos do ridículo de falarem em respeito mútuo, está ele, aqui, bem patente.
Começa pela presunção de estarem acima de qualquer outro (só se for em estupidez e mediocridade) e fazem a apologia ao ódio a outras instituições (ponto 1 e 5), algo verdadeiramente inadmissível (e que motivará, da nossa parte, a apresentação deste documento ao reitor do ISEG).
Pretender que defender o bom nome do ISEG é apelando ao ódio a outras instituições e a apologia da falta de educação e civismo, é algo que não conseguimos compreender, quanto mais aceitar.
Voltam, uma vez mais, a falar do hino francês, sem se perceber, de todo, essa escolha.
 
 
O artigo n.º 6 é, uma vez mais, uma aberração, provinda de gentalha sem educação e verdadeiramente acéfala.
A forma como designam os colegas caloiros é inadmissível, especialmente num documento destes.
Parece mais um auto-retrato de quem redigiu e aprovou este "documento" (o qual parece partilhar essas mesmas características).
 Virem, depois do que disseram no artigo 6, afirmarem que o caloiro tem direito a não ser humilhado (artigo 7) é verdadeiramente ridículo.
 
 
O artigo 8.º é certamente tirado das regras prisionais ou experienciadas por movimento xenófobos, no que se refere aos pontos 5 a 9. Só falta chamarem Kaffir aos caloiros. Depois seguem-se normativos jocosos - esses, sim, com graça - mas que de modo nenhum são apropriados a um código da PRAXE.
 
No que respeita ao apadrinhamento, sugerimos que leiam o seguinte artigo AQUI, de modo ver se compreendem melhor o que ele é.
Condenamos e denunciamos veementemente os pontos 9 e 10 que constituem crime de extorsão.
 
 
Alto e pára o baile!
Usam Traje Nacional como traje do estudante do ISEG?
Então a que propósito só a partir de determinada matrícula se pode usar? Isso vai contra a Tradição (ver AQUI).
Se só alguns o podem usar e não qualquer estudante da instituição, como é suposto (pois o traje é para identificação do estudante e não do praxista), então estamos perante um traje que não é académico (ver AQUI), antes uma indevida apropriação.
 O ponto 5 está totalmente errado, obviamente, pois não existe norma que determine quando e onde se possa usar a capa, muito menos a partir dessa coisa asquerosa a que chamam de "traçar da capa" (um acto que é anti-Praxe - ver AQUI).
 
Gostaria que algum dos iluminados autores deste "código" explicasse o fundamento do ponto 6. Desde quando não poder afastar-se da sua capa mais que x distância é norma?
Pois: na verdade isso não tem qualquer fundamento.
Gostaria igualmente que fundamentassem o número de dobras na capa, quando a tradição nunca estipulou coisa nenhuma, porque, na verdade, se dão as dobras que se entendam necessárias para a capa se segurar nos ombros.
O ponto 9 é outra mostra penosa que evidencia a qualidade e o rigor científico e de carácter destes praxeiros de ocasião.
 
Não, meus caros, OS RELÓGIOS DE PULSO NÃO SÃO PROIBIDOS. E se dúvidas têm, convidamos a verificarem AQUI, porque contra factos não há argumentos.
Não, meus caros, os brincos não são proibidos, desde que sejam discretos, o mesmo se passando com maquilhagem ou unhas pintadas. Não existe nenhum fundamento na tradição que o estipule.
Os óculos escuros não são proibidos, nem nunca o foram na Tradição. O que a etiqueta manda é que não se usem em locais fechados (onde não há sol a encadear).
Os anéis seguem a mesma norma. Alianças de casamento ou de comprometimento, por exemplo.
E agora expliquem-me, caros autores praxeiros, a que propósito é que as proibições têm a ver com sinais exteriores de riqueza? Aliás, o que é que isso tem sequer a ver com Praxe ou com traje?
Ou também fazem parte daquele grupo de idiotas que afirmam que o traje é para esbater as diferenças sociais e tornar todos iguais?
Se acham que sim, ESTÃO REDONDAMENTE ENGANADOS e a promover normas e conceitos que desrespeitam a Tradição Académica. Podem ler, e comprovar isso AQUI. O Traje não foi criado para tornar todos iguais.
 
E não, meus caros, com o traje académico não se podem carregar malas. Não, pelo menos, quando se está no âmbito escolar. Para isso serve a pasta. O que deveriam ter definido era a permissão do uso de malas pretas adequadas e dedicadas exclusivamente ao transporte de materiais pedagógicos. Malas de senhora e afins não são permitidas, quando o aluno tem de estar na Praxe.

Estranhamente, não proíbem o uso de colheres de café na gravata!
Contudo, não são para usar (ver AQUI).
 
Mal lemos o início do código e sabíamos de antemão que viriam as tretas do costume sobre pins e emblemas.
Ainda bem que não ajuizamos a qualidade dos estudantes todos do ISEG pela mediocridade daqueles que redigiram o "código". Mas esperamos, ao menos, que os demais tenham o devido espírito crítico para perceberem as heresias deste documento, optando por não seguir cegamente normas anti-Tradição.
NÃO, os pins ou emblemas não têm de ser em número ímpar. Promover o número ímpar como norma não é estar segundo a Praxe, mas inventar palermices. Podem ver precisamente isso AQUI.
 
 
NÃO EXISTE nenhum número fixo ou ordem de colocação de emblemas. Isso é ficção inventada por ignorantes.
 
 
Pior ainda, quando, depois das linhas que apresentam, dizem que outras linhas são dedicadas a "diversos". "Diversos" é o quê, à vontade do freguês? Que linda coerência!
Mostra isso que nem sequer sabem a origem, significado e a praxis própria da colocação de emblemas. Mas nós ajudamos. Basta ler AQUI.
 
 
NÃO, os emblemas não têm de estar escondidos de noite, sabiam? Onde foram buscar essa? Ah, já sabemos: não sabem!
 
 
E essa coisa de como se dobra a capa e de poderem ou não traçar a capa é por demais ridícula. O USO DA CAPA obedece apenas a simples normas, que AQUI poderão aferir.
Sobre o uso da capa, apenas apontamos o seguinte artigo AQUI, a ver se se faz luz.
 
Terminamos apontando o ponto 17.
A que propósito a Tuna é chamada para o assunto?
Tunas e grupos académicos não estão sob alçada da Praxe, meus caros. Que nada entendam de Praxe, já sabemos. Ficamos igualmente a saber que nada entendem de Tunas.
 
Rapidamente dizer que o uso do traje se faz sempre que o estudante (e qualquer estudante) quiser, sendo próprio no eventos académicos (todos eles).
O dia do estudante não se celebra todas as 5ª feiras,  mas no dia 24 de Março.
Todos os dias são bons para usar traje, quer para ir às aulas quer para actividades académicas. Perceberam?
 
E foi preciso esperar 13 artigos para encontrar o que deveria estar logo no início do documento.
Esperamos que saibam melhor organizar os seus trabalhos académicos. Começamos a ter pena dos docentes.
Obviamente que a definição está errada. É aliás um hino à ignorância e incompetência (que parecem ser os atributos fundamentais para fazer parte da comissão de praxe do ISEG que redigiu o dito "código").
Não, meus caros, a Praxe não é a cerimónia protocolar para receber caloiros.
Mas numa coisa somos capazes de, com jeitinho, concordar: mediante o que este "código" exibe, deve ser o inferno!
Quando os próprios o afirmam, quem somos nós para contrariar?
Mas se isso é que é a tal defesa do bom nome do ISEG, parece plausível dizermos que os autores deste "código" são indignos de o frequentar.
 
O artigo 14.º é simplesmente a anedota que se esperava.
Com que então o objectivo da Praxe não é humilhar? Mas vocês leram bem o que nele vem escrito? Este documento, a que têm a lata de chamar código da "Praxe", é um hino e um apelo à humilhação, quer de novos alunos, quer da Tradição quer da imagem do ISEG, como instituição de ensino respeitável e credível.
O artigo 15.º é outro triste. Pelos visto "Praxe" tem N significados, ora é cerimónia, ora é período de caloiragem.................. que confusão vai nessa cabeças....ocas!
 
Querem saber o que é Praxe?
Leiam AQUI.
 
 
Essa coisa de só poder praxar quem a comissão de praxe indica (artigo 16.º) é enorme estupidez e não tem qualquer fundamento histórico, nem lógico sequer.
Aliás, é até ridículo que tal seja assim posto, quando está mais que provado que os membros dessa comissão (os autores deste código) são verdadeiramente incompetentes e ignorantes, e o exemplo supremo do perfil de aluno do ISEG que não é suposto frequentar tão honrada instituição.
Só por ordem de pessoas praxisticamente medíocres, que julgam ter "um rei na barriga", é que se pode exercer a cidadania académica?
Mas alguém no seu juízo perfeito dá crédito a isso?
 
 
Não se percebe muito bem por que razão o apadrinhamento está separado do baptismo. Uma vez mais se espelha a falta de competências académicas de quem nem sequer organizar, logicamente, um trabalho consegue.
O baptismo e apadrinhamento obedecem a uma tradição. Convidamos a apontar  AQUI, a ver se as sinapses dão sinal de vida!

O artigo 19.º é prova provada da falta de organização e reflexão.
Andam um código inteiro a desrespeitar o caloiro, para, depois, virem desdizer-se e afirmar que as praxes devem ter em conta a integridade física e psicológica do caloiro (já agora, "ter em conta" quer dizer o quê?).
 
Supostamente, deve respeitar a integridade física e psicológica do caloiro, mas, depois, preto no branco, o adjectivam de todos os nomes e mais alguns (artigo 6.º), para além dos tratarem como seres inferiores (artigo 8.º). Que respeito é esse?
 
 
O caloiro não é obrigado a pagar nada? MENTIROSOS!!!!
Então não estão recordados do que determinaram no artigo 10.º nos pontos 9 e 10, quando penalizam caloiros a pagarem minis?

São tão coerentes que ora dizem que se pode, para, mais à frente, dizer que não. Que rica coerência, que rico código este!!!!
E não, não há só Praxe onde a comissão determina. Nem mesmo praxes! Era o que mais faltava.
A comissão pode mandar nas actividades que organiza, mas não na vida e exercício da cidadania académica seja de quem for.
Aliás, desde quando é inteligência seguir o que dizem ignorantes?
 
 
O caloiro tem direito não apenas a recusar a Praxe como recusar as praxes (coisas distintas).
O caloiro que se recusa submeter a praxes não fica impedido de coisa nenhuma; quando muito de praxar, por questão de coerência (e mesmo assim....).
Não tem nenhum fundamento esse artigo, não tem e não passa de heresia anti-Praxe.
Os verdadeiros anti-Praxe são precisamente os autores deste "código".
 
 
E chamar bastardo a um colega, caloiro ou não, mostra bem a falta de nível.
A noção de anti-Praxe que transmitem é falsa, sem credibilidade, e apenas serve para se vingarem daqueles que, sendo inteligentes, não se identificam com pessoas de baixo nível e código da treta.
Sobre o que é o anti-Praxe e os erros à volta dessa ideia, podem, e devem, fazer o favor de ler AQUI.
 
O erro de concepção explanado passa por não terem presente o verdadeiro significado de praxe.
Uma comissão existirá para organizar actidades com caloiros. Deve ser, por isso, uma coisa efémera que se desmobiliza após essa altura própria de recepção ao caloiro.
Um organismo que tutela a Praxe, um código, não pode chamar-se comissão.
Queiram abrir um dicionário e ler o significado de "comissão". Fica na letra C!
Mas o que, no artigo 21.º, mais merece a nossa crítica é aquilo a que chamam de "símbolos".
Na Praxe há insígnias, não símbolos (ver AQUI), e essas insígnias são a colher, a moca e as tesouras (e, se quisermos, o penico). Essas insígnias não são para uso exclusivo de comissões.
Braçadeiras nem sequer são insígnias pessoais (como as fitas ou o grelo - que este "código" nem sequer menciona, pasme-se!).
O uso de braçadeiras para identificar determinadas pessoas é um ultraje ao traje nacional. E quando servem como símbolo de autoridade, é impossível não associarmos tal parvoíce às braçadeiras das SS.
Já não bastava a parvoíce igual no IADE (a tal instituição que dizem que deve ser odiada) e agora repete-se aqui.
 
O artigo 22.º enferma outro erro grave: nenhuma comissão tem legitimidade para reconhecer certificados de matrícula, nem esse documento é matéria de praxe.
 
 
Só cá faltavam as legiões. Não tarda temos regimentos, centuriões e afins.
Se é uma tentativa de aproximação às trupes (ver AQUI o que são e sua história), é mais uma tonteria.
Um artigo dúbio que não define exactamente as funções, pelo que mais perto de estarmos perante um surto de legionela.
 
Costuma-se, e bem, dizer que quem não sabe ou tem que fazer, inventa.
Inventar patronos para suprir a falta de padrinhos é realmente descobrir a pólvora.
Quando os códigos não estão cheios de erros, aparecem, para compor o ramalhete, as inutilidades.
Pena a Santa Inteligência ou o São Bom-Senso não terem sido escolhidos como patronos, ver se intercediam alguma coisa.
 
 
Para que serve tal tribunal? Para nada, obviamente. Serve para encher espaço, pois se, afinal, tudo pode ser, segundo o documento, resolvido pela comissão de praxe. Cena pomposa para uma inutilidade absoluta.
 
 

Pelos vistos, é preciso o presidente de um tribunal de praxe par ajudar a resolver casos omissos.
Bem, apresentaríamos aqui várias queixas (só algumas, para não enfastiar):
 - Onde estão as referências ao luto académico?
- Onde estão as protecções para caloiros?
- Onde estão as imprescindíveis referências à praxis do uso de pasta e insígnias?
- Onde estão as referências aos momentos protocolares do uso do traje, como eventos solenes, serenata, missa de bênção das pastas....?
- Onde estão as referências às insígnias pessoais e quando se usam?
- Onde está a referência à latada?
...........e poderíamos aqui citar N de omissões.
 
CONCLUSÃO
 
Isto não é um código de Praxe e muito menos tem pinta para ser um regulamento sobre praxes.
É um libelo de incompetência.
Uma coisa destas, editada em 2016, não tem desculpa.
Não dignifica o ISEG e muito menos a Praxe e Tradição Académicas, antes atenta dolosamente ao seu bom nome e honorabilidade.