sábado, julho 14, 2018

A palavra "Tuna" (andar à tuna) - Sua mais antiga referência num dicionário.







A primeira vez que a palavra "Tuna"  aparece grafada num dicionário, com o significado de vida "holgazana" (vadiagem, ócio, vagabundagem - maganear) é num dicionário português, em 1713.
Este dado é, demasiadas vezes, ignorado por uma comunidade internacional tuneril, a começar pelos seus investigadores, muito centrada na matriz da diáspora espanhola (que constitui a esmagadora maioria das tunas estudantis no mundo).



Para quem não pertence a esse universo, poderá, porventura, cair no equívoco de, ao ler os estudos existentes e diversas publicações que aparecem pela Net sobre o assunto, ficar a pensar que o vocábulo "Tuna" aparece inicialmente no Diccionario de Autoridades (Espanha). Aliás, o mesmo risco corre a comunidade Hispano-americana (dado que, como é natural, lê preferencial, e quase exclusivamente, o que vem publicado na língua de Cervantes).

Portanto, em abono de um esclarecimento correcto, holístico e isento, que esclareça qualquer pessoa, sejam tunos ou não, independentemente da sua geografia, fica aqui essa informação:

A primeira vez que o termo "Tuna" surge num dicionário, ligado a "andar à tuna" é em 1713, na obra de Rafael Bluteau:  Vocabulario Portuguez e latino (Volume VIII de T-Z), p. 325.

"TUNA. Andar à tuna. Andar maganeando[1]. Vid. Maganear. Vid. Tonante."

Vocabulario Portuguez e latino (Volume VIII de T-Z). Bluteau, Rafael, 1713, P. 32


Vocabulario Portuguez e latino (Volume 08 de  Ta Z). Bluteau, Rafael, 1713



O que é muito interessante é que, para além de remeter para "Tonante", o mesmo dicionário estabelece claramente que "Tonante" está co-relacionado com "Tunante" (apresenta-os como sinónimos, até), com o significado de "andar à tuna" que, em castelhano, mas também em português, significa burlão, embusteiro (o significado de "embuste", volta a ser sublinhado na edição de 1789 do mesmo Rafael Bluteau) e que, na língua francesa aponta para "Truand" (pedinte, vadio), estabelecendo uma clara relação com a origem de Tuna em "Thune", conforme tese explicada e documentada em Qvid Tvnae? (2012).


Diccionario da Lingua Portugueza (Reformado e Accrescentado por António Moraes Silva). Tomo II, L-Z. Lisboa, 1789


Interessante, igualmente, é que, ao contrário do que sucede com o Diccionario de Autoridades (Real Academia Espanhola) de 1884, onde a "vida holgazana" surge como a segunda acepção, depois de primeiramente se referir ao fruto/planta (figueira da Índia - um fruto proveniente de um cacto), no dicionário de Rafale Bluteau (1713), a primeira acepção é "andar à tuna /manganeando".
Significará isso, porventura, que a acepção de "andar à Tuna", em Portugal, sempre teve precedente de antiguidade sobre o significado de planta/fruto (Figueira da Índia), ou seja que o termo "Tuna" esteve primeiramente ligado ao "tunar" e só depois se descobre e insere o nome do fruto/planta que os espanhóis descobriram na América.

Nota: No país vizinho, e segundo a investigação de Félix Sárraga[2], o famoso fruto chamado de "Tuna" (nopal), já teria constância num dicionário de 1609, de Hiersome Victor Bolonou[3], editado em Genebra.
Curiosamente, enquanto no país vizinho, o termo consta inicialmente com a designação do fruto e só depois (1739), também, a planta; em Bluteau já tinha ambos significados.
Segundo o alemão Alexander von Humboldt, geógrafo e naturalista, o termo original seria "opuntia", palavra oriunda da língua dos Taínos (povo da região das Bahamas, Antilhas e Caribe) absorvida pela língua espanhola por volta de 1500.


Fica este apontamento que, como referido, é demasiadas vezes ignorado, mesmo quando os estudos publicados estão mais vocacionados para falantes do mundo hispânico.
A história da Tuna não pode ficar compartimentada por fronteiras geográficas, já que é um fenómeno que atravessa continentes. Um património que inclui,  portanto, a realidade lusitana e, assim sendo, deve ser tida em conta, quando se publica para toda essa comunidade internacional.





[1] O significado de maganeando é o de vadiar. Vid. Vocabulário Portuguez & Latino, Rafael Bluteau - volume 5, 1728, p. 245.
[2] Tuna, significado del vocablo a través del tiempo. Tvnae Mvndi, 2015 [Em linha: http://tunaemundi.com/index.php/component/content/article/7-tunaemundi-cat/555-tuna-significado-del-vocablo-a-traves-del-tiempo]. Ver também La palabra 'Tuna' no significaba lo mismo en el siglo XVIII que en la actualidad. Tvnae Mvndi, 2012. [Em linha: http://tunaemundi.com/index.php/publicaciones/sabias/1159-la-palabra-tuna-no-significaba-lo-mismo-en-el-siglo-xviii-que-en-la-actualidad].
[3] Tesoro de las tres lenguas francesa, italiana y española. Genève, Philippe Albert &Alexandre Pernet, 1609, pp. 605.

BIBLIOGRAFIA DE REFERÊNCIA: COELHOEduardoSILVA, Jean-Pierre, TAVARES, Ricardo, SOUSA, João Paulo - "QVID TUNAE? A Tuna Estudantil em Portugal", Porto (2011), Euedito. ISBN 978-989-97538-0-8.

segunda-feira, fevereiro 19, 2018



12 anos passados ................. o que tem, ainda, o N&M para oferecer?
O seu papel ainda é pertinente, serve de fonte válida e partilhada para as novas gerações ou empoeirou-se do desinteresse das mesmas pelo conhecimento aqui veiculado?
 
Um reflexão, uma ponderação já encetada. Dela resultarão 2 caminhos possíveis: continuidade ou fecho de emissão.

sexta-feira, fevereiro 09, 2018

Cronologia da Queima das Fitas em Portugal - Séc. XIX a 1985

Dados e imagens documentais que traçam o percurso dos momentos mais marcantes da Queima das Fitas em COIMBRA, PORTO e LISBOA, das suas formas primitivas, atravessando todo o séc. XX, um olhar que ajudará a ter uma ideia mais clara sobre o assunto, de forma sucinta e de fácil apreensão, consulta e partilha.