terça-feira, outubro 02, 2007

Notas de cor sobre a Capa e Batina

Porque me foi pedida essa informação, e também porque acabei por perceber que não havia dados sobre o assunto, escreverei breves linhas sobre a razão de ser da cor negra do traje académico.

Antes de responder, farei uns breves considerandos para contextualizar, aproveitando para desfazer o mito do "traje comunista", utopia de uma só classe.
Como muitos saberão, certamente, a "capa e batina" não tem origem nas lobas, sotainas e batinas do clero, mas em vestes burguesas que vieram substituir ou sobrepor-se à "abatina", numa clara tentativa progressista e anti-clerical iniciada na década de 80 do séc. XIX.
Ao contrário do que muitos pensam, e apregoam à boca cheia, a capa e batina, como traje académico, não foi instituída para criar qualquer paridade ou igualdade entre os universitários (entre pobres e abastados). VER AQUI
O argumento de que o traje serve para esbater as diferenças sociais não podia estar mais errado.

Se o traje talar assumia feições de "uniforme" para diferenciar os estudantes das demais classes sociais, para identificar o foro académico que reclamava, para si, o direito de ser uma classe à parte (vincadamente diferenciada da dos artesãos, juristas, comerciantes, médicos, etc.), a Capa e Batina deu seguimento a essa identitária diferenciação, servindo, para identificar o estudante português.
Assim, o traje académico foi a componente visível do estabelecer de uma identidade que se queria demarcada e prontamente identificada, não sendo confundida com nenhuma outra classe, profissão ou mester.

Eis a razão do traje.

Dizer que foi para tornar todos iguais é uma patetice, já que, até à nossa história recente, os que cursavam a universidade vestiam conforme a sua condição (daí haverem panos melhores, mais berloques nuns, cores diferenciadas noutros, etc.), variando inclusive o tipo de traje em certas instituições (Agrária, em Coimbra, que sempre teve traje diferenciado, por exemplo).
E se recuarmos aos modelos anteriores á abatina, então encontramos trajes com outras cores, como o castanho, o cinzento, ou até o branco, conforme a indumentária em vigor nas ordens religiosas e segundo o grau hierárquicos dos clérigos que frequentavam os estudos gerais.

Quando se fala em traje académico que veio tornar todos iguais, isso é tão somente um consequência (recente, até), possível quando o traje se fixou com um padrão definitivo trazido pela produção em linha por parte das fábricas de confecção, pois que é de La Palisse que quando todos trajam igual não haja diferenças, mas isso é descobrir o óbvio.....a posteriori.


E a cor do traje?
Por que razão o preto?

Tem razão de ser a pergunta, porque a resposta não se encontra nos muitos estudos evolutivos do traje ou discertações sobre a origem do mesmo que pululam na net, em sites "especializados" sobre praxe ou traje (eu, pelo menos, nunca encontrei, diga-se).
Fica, aqui, em 1ª mão na Internet (pelo menos), essa explicação, convindo salientar que nem sempre os trajes estudantis foram pretos, convivendo com estes, nomeadamente, os de cor castanha.

Antigamente a "abatina" (de que derivará o termo "batina"), com origem em França e Itália, era usada  por padres e sacerdotes da Igreja Católica para que eles fossem reconhecidos como tais, uma norma que foi abolida (abolição da obrigatoriedade) no Concílio Vaticano II.
A "abatina" era conjunto de capa e túnica (talar) dos abades seculares de França ou de Itália, com vestido de seda negra, capa curta, volta singela e cabeleira pequena.
O preto, que tingia suas vestes, representa o luto, ou seja o desapego do sacerdote pela vida mundana (morrendo para o material, para o mundo "carnal"), para se dedicar a Deus e ao bem comum. Assume carácter simbólico de renúncia e de missão, de entrada num novo estrato social, num novo ministério.

Assim, o preto, que também simboliza, quando brilhante, nobreza, distinção, elegância e masculinidade, acabou por se manter, obviamente, no "paramento académico", não em razão do significado eclesiástico da "abatina", mas pela ideia de dignidade que a cor empresta, para além do cariz pragmático de uma cor que fica bem em qualquer ocasião, além de se sujar menos.
Bastará anuir que a quase totalidade dos que trajam não sabem a razão da cor preta, colando-lhe interpretações várias, muito romanceadas mas imprecisas.

É certo que, romanticamente, poderão muitos doutos emprestar-lhe novas significações e simbologias, como a ideia de noite, de mistério, de fuga, disfarce/camuflagem ou vadiagem, que podem associar-se ao noctívago e boémio estudante ou à arte de "correr la tuna"e .......... correr saias (e/ou fugir de algum pai ou irmão mais "ultrajado"), mas uma coisa são os mitos romanceados e outra são os factos.

Eis, pois, a razão de ser da cor preta nos nossos trajes académicos que, apesar de terem preterido o modelo da "abatina" (um modelo que diferia da dos lentes, que era talar, por ser mais subida) por um modelo laico (na definitiva separação escolar entre Igreja e Estado), mantiveram a cor, emprestando-lhe ou substituindo a significância clerical por uma mais civil, mais assente na etiqueta e no ideário do preto como cor solene, tida como mais em linha com a ideia acima referida de porte formal, de sentido prático (que fica bem em qualquer ocasião), de vantagem em se sujar menos.

12 comentários:

Anónimo disse...

Acedendo pela 1ª vez a este blog,e numa primeira leitura muito enviesada-deixarei para,eventual,participação futura,algumas correcções de conceitos-segundo a minha óptica...sugeria desde já a discussão sobre o termo TUNANTE,que não acho adequado-pois tem sentido pejorativo-e passar a utilizar TUNO...

Pena disse...

Sobre asua participação futura, certamente que ficarei gratopela troca de ideias e saberes que posam concorrer ao objectivo de oferecer dados e informações credíveis e enriquecedoras.

Sobre o termo tunante, historicamente, ele é tão pejorativo quanto o termo tuno (até porque sinónimos).
Os tempos evoluem e a significação dos vocábulos também, daí não estranharmos que certas palavras tenham tido conotações diversas (por vezes opostas) ao longo dos tempos.

O termo tunante é, actualmente, usado para distringuir géneros (por isso adoptado para designar os tunos do sexo feminino), bem como adjectivo que qualifica uma actividade ou propriedade ligada à actividfade da tuna ou do tuno.

Fico, pois, à espera do seu contributo.

Anónimo disse...

Achei este artigo muito importante para desfazer alguns mitos. Eu também pensava que o preto tinha a ver com a noite ou para os estudantes se esconderem quando precisavam, mas era pelo que tinha ouvido dizer.
Ainda bem que veio trazer luz sobre o assunto, com a qualidade e saber que lhe são reconhecidos e que eu também subscrevo.
Parabéns pelo seu magnífico blog.

Com os melhores cumprimentos,

António Marques

João Carvalho disse...

Foi a 1ª vez que li e entendi sobre o verdadeiro significado do preto no traje.
Tanto mito e tanta história inventada só trouxeram confusão e muitos andavam e andam por aí armados em sabichões e afinal não sabem nada.
Ainda bem que há quem perceba realmente do assunto e, paa sorte nossa, tenha partilhado o que sabe.
Parabéns.

Anónimo disse...

Foi a primeira vez que alguém explicou o significado do preto. Estudo em Coimbra e nenhum veterano sabia dizer a razão (excepto aquelas explicações do costume) e nem mesmo na internet havia uma explicação que, afinal, se tinha de ir buscar a sites que falassem de vestimentas religiosas (e mesmo assim ainda demora a encontrar).
Parabéns pela iniciativa de ser o primeiro a dar uma real explicação que, por sinal, é tão simples.

Cristina Silva

Anónimo disse...

Se mais gente houvesse a ler o que escreve sobre praxe e tradições estudantis não se cometeriam tantos atentados à tradição nem se andariam a dizer tantas bacoradas sobre traje, praxes etc.
O pessoal hoje não sabe nem admite isso e depois ainda refila quando alguém que sabe se dá ao trabalho de ensinar e mostrar como as coisas são. Foi disso que me apercebi num certo fórum sobre praxe onde muita gente tem a mania que sabe de praxe e acha que sabe praxar bem.

Parabéns por este site e por aquilo que já aprendi sobre praxe. Quanto mais leio o que diz mais percebo que os meus veteranos são uma cambada de analfabetos que se passeiam como se fossem as maiores sumidades em praxe.

Francisco

Ângela disse...

Não, a Capa e Batina derivam das vestes do clero, as vestimentas actuais essas sim tem origem nas vestes burguesas numa tentativa de distanciar a academia da igreja, pois esta tradição é bastante anterior ao século XIX.

Apesar de algumas contradições e do tom meio jocoso é um artigo interessante.

WB disse...

Cara Ângela,

A capa nunca derivou do clero.
A "abatina" (que é depois designada, por facilitismo, de "batina") é de facto oriunda do clero (moda iniciada em Itália e França - vindo substituir os anteriores trajes).

Quando falamos de capa e batina, falamos deste traje, como assim se continuou a designar, na gíria, o Traje.
O Traje estudantil tem essa designação deste a adopção da abatina pelos docentes (que era pelso calcanhares - daí o termo "talar", que vem do francês "talon") e da versão um pouco mais curta da mesma dos estudantes (a meio da canela, e alguns rente ao joelho).

Não há contradições nenhumas,minha cara.

Susana disse...

Boa noite,

ainda que não tenha directamente que ver com a questão aqui retratada, mas uma vez que se me surgiu após a leitura do presente texto quero colocar uma/várias questões.

Muitas vezes se faz referência ao romancismo empregue nas justificações de determinado acontecimento e no carácter não verídico, mas sim, digamos, inventado das mesmas.

Ainda que o que se sabe de praxe vá sendo passado de pessoa para pessoa há vários anos, como é então possível que tenham surgido estas novas "teorias"?
Qual é a posição dos mais velhos face a estas alterações? Como e porque é que permitem que tal aconteça?

Com os melhores cumprimentos,
Susana

WB disse...

Cara Susana,

Desde já obrigado pela sua participação.

Responder-lhe-ia de bom grado, mas ficaram-me algumas dúvidas sobre as suas perguntas que me impedem de perceber as mesmas sem correr o risco de interpretar mal.

De que "novas teorias" fala, em concreto, das teorias romanceadas ou das explicações avançadas neste blogue?

De que alterações fala, do factos concretos ou dos mitos?

Também não entendi bem o que preende perguntar ao questiona ro facto dos mais velhos permitirem "tal"? "Tal" quê?

Se puder ser mais objectiva, facilitar-me-á a tarefa de lhe responder.

Cumprimentos

Telmo Pereira disse...

Sei que isto nada faz o artigo pior ou melhor. Contudo é um erro. O Concílio Vaticano II nunca aboliu o uso de batina pelos sacerdotes. Tanto que o Papa anda sempre de batina... Os bispos nem sempre... e infelizmente os sacerdotes raramente.

WB disse...

Caro Telmo, foi abolida a obrigatoriedade do seu uso (está no artigo, se ler mais atentamente), neste caso do uso diário.