Importa
meter uma colherada, e bem grande, neste assunto de colheres que infestam
pandemicamente as gravatas de tantos e tantos trajes académicos.
São
ainda muitos os que acreditam ser "da praxe" meter uma, ou mais,
colheres na gravata ou lapela do seu traje, emprestando-lhe uma quantidade
enorme de significados e explicações fantasiosas que, contudo, não encontram
qualquer fundamento histórico ou praxístico na tradição académica portuguesa.
Pior
ainda quando, em alguns códigos, podemos ler que a colher (de café, ainda por
cima) deve ser roubada (leram bem: ROUBADA).
Mas
de onde vem essa moda das colheres que, ainda há menos de 20 anos não existia?
Sabemos
que, tradicionalmente, a colher de madeira é uma insígnia de praxe usada, como
tal, desde finais do séc. XIX, supostamente como referência aos antigos
sopistas. No entanto, ela surge de facto como substituta da palmatória,
ou seja como instrumento repressivo (que, juntamente com a moca e tesoura, forma
a trindade das "armas" que os alunos mais velhos usavam para exercer
os castigos sobre os novatos - embora convenha dizer que, no caso da moca, ela
era muito mais utilizada como arma de defesa do que propriamente para aplicar
sentenças ou punições).
A
colher que vemos por aí disseminada, tal doença contagiosa, por gravatas e
lapelas, parece ter surgido por cópia equivocada e romanceada da tradição tunante espanhola
(volta e meia, um ou outro tuno aparecia de bicórneo e com as ditas colherinhas de madeira no
mesmo)
Com
efeito, era bastante comum, entre a segunda metade do séc. XIX e primeiros anos do séc. XX, vermos tunos espanhóis ostentando, nos seus bicórneos
(chapéu de 2 bicos), uma ou duas pequenas colheres de madeira cruzadas.
As
explicações (bastante posteriores) dadas a tal era uma suposta evocação das
colheres que os sopistas de antanho supostamente usavam para ir à "sopa boba", ou
seja um sinal da sua mendicidade.
Só
que até isso é lenda.
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Desenho publicado por Vicente de la Fuente em 1842, |
Conforme
informações adicionais dadas por Félix Martín Sárraga, presidente do Tvnae Mvundi, e
um dos mais conceituados investigadores tunantes a nível mundial, tal colher
teria surgido, ela também, por uma cópia de um desenho inventado no séc. XIX.
A
primeira referência ao uso de uma colher num chapéu de um (suposto) tuno/estudante é de Vicente de la Fuente que publica um
desenho no "Semanário Pitoresco Español" em 1842[1],
onde se vê uma figura de um tocador com colher no chapéu.
Com efeito, e sem se percebe porquê (pois não era uma tradição ou prática existente), ele pintou uma colher no chapéu da personagem (fictícia, note-se).
Décadas mais tarde o próprio autor, e segundo testemunho do próprio, ficou espantado com a importância que teve tal desenho na rápida apropriação por parte das estudiantinas carnavalescas, passando os seus membros a ostentar tal colher que, contudo, nunca antes o fora.
Com efeito, e sem se percebe porquê (pois não era uma tradição ou prática existente), ele pintou uma colher no chapéu da personagem (fictícia, note-se).
Décadas mais tarde o próprio autor, e segundo testemunho do próprio, ficou espantado com a importância que teve tal desenho na rápida apropriação por parte das estudiantinas carnavalescas, passando os seus membros a ostentar tal colher que, contudo, nunca antes o fora.
Obviamente
que, mais tarde ainda, surgiram as explicações costumeiras dos sopistas, quando
questionados sobre o porquê de tais colheres, ganhando laivos de verdade
histórica o argumento da evocação dos sopistas (sopistas esses que não eram
todos estudantes, note-se; com efeito apenas os estudantes mais pobres viviam de esmola e
caridade, mas não eram os únicos a quem se chamavam sopistas) que, fique claro, não ostentaram nunca qualquer colher no seu traje
estudantil, fosse a capa y gorra ou no mantéu (Vd. Qvid Tvnae? A Tuna Estudantil em Portugal, pp. 48-62).
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Uma estudiantina em França, ca. 1900 |
Fica,
pois, claro que nunca se usou qualquer colher num traje
estudantil e que, a partir da 2ª metade do séc. XIX, só os tunos espanhóis, até sensivelmente as primeiras
décadas do séc. XX (depois é já mais pontual ver-se, pois o bicórneo,
entretanto, cai igualmente em desuso generalizado a partir da década de 1920[2] - altura, também, em que vemos tunos a
ostentar as colheres no peito) o fizeram, mas num traje de tuna, não num traje estudantil (em Espanha, o traje estudantil foi abolido em 1834, quando cessou o foro académico).
Em
Portugal, entretanto, não há nenhuma tradição de colheres seja em que traje
for; e sopistas, tendo-os havido, não tiveram sequer a expressão que marcou a
cultura do país vizinho - além de que não existe qualquer referência a andarem
de colher, note-se.
Portanto,
caros leitores, ir em busca de argumentos de antanho, recuperando a desculpa
dos sopistas para justificar colheres no traje estudantil não tem ponta por
onde se lhe pegue, senão como neo-romantismo ficcionado
Quanto
à imitação histórica das antigas estudiantinas e tunas do país vizinho,
parece-me, uma vez mais, pretender enxertar-se, ad hoc, na nossa tradição
académica, algo que lhe é de todo alheia.
Neste
preciso momento, o leitor mais atento ao Notas&Melodias lembrará o caso da
influência das tunas espanholas no uso dos emblemas nas capas.
Tem
razão.
De facto, a partir da década de 1980, tal prática dos tunos espanhóis aparece em força nas tunas portuguesas e rapidamente se cristaliza pelos restantes estudantes (uma "tradição" que, como sabemos, surge em Espanha apenas a partir dos anos 60, por força da "moda mochilera").
Mas se o leitor reparar bem no artigo que explica a origem dos emblemas nas capas (ver AQUI), verá que já bem antes os estudantes costumavam coser emblemas no fundo da sua capa, nomeadamente em Coimbra, cosendo o símbolo da Briosa ou o caso dos orfeonistas e coral de letras.
De facto, a partir da década de 1980, tal prática dos tunos espanhóis aparece em força nas tunas portuguesas e rapidamente se cristaliza pelos restantes estudantes (uma "tradição" que, como sabemos, surge em Espanha apenas a partir dos anos 60, por força da "moda mochilera").
Mas se o leitor reparar bem no artigo que explica a origem dos emblemas nas capas (ver AQUI), verá que já bem antes os estudantes costumavam coser emblemas no fundo da sua capa, nomeadamente em Coimbra, cosendo o símbolo da Briosa ou o caso dos orfeonistas e coral de letras.
Mas
outro aspecto assoma em oposição ao uso
desbragado e infundado de colheres de café nos trajes: a colher, como insígnia,
é insígnia de Praxe e não como insígnia pessoal.
Faz
toda a diferença, quando, na verdade, temos uma tradição secular em torno da
colher de pau, enquanto instrumento da prática praxista e o uso de colheres
mais pequenas a modos de coisa nenhuma.
- Nunca
a tradição académica portuguesa contemplou outra colher que não a colher de pau
(e não de metal; e não de café), e como insígnia de praxe apenas.
- Nunca
a tradição académica contemplou colheres no traje estudantil; nem ela nem
qualquer das primeiras codificações ou documentos que, ainda hoje, nos ilustram
as práticas e tradições estudantis mais antigas.
- Não há qualquer referência a estas seja em que documento ou código for, anterior a ca. 2000. O primeiro Código de Praxe existente em Portugal (1957) nada refere também, como é óbvio.
- Não há qualquer referência a estas seja em que documento ou código for, anterior a ca. 2000. O primeiro Código de Praxe existente em Portugal (1957) nada refere também, como é óbvio.
Infelizmente,
quando a falta de senso reina e os estudantes são menos criteriosos, temos estas
invenções, acompanhadas das simbologias e significados tão diversos quanto
fantasiosos e disparatados (nº de matrículas, amizades, amores, chumbos, provas
de amizade, grau hierárquico ......), quase lembrando as que costumam
acompanhar as dos dos rasgões e tranças (uma aberração, note-se, essa das
tranças) nas capas.
Continua
a ser preciso questionar e perceber de onde vêm as práticas que copiamos, seguimos (demasiadas vezes com cego fundamentalismo) ou que
nos impingem, de modo a aferir da sua validade e fundamento.
É dever de um estudante universitário saber, de forma mais criteriosa e
alicerçada, a razão de ser das "tradições" que segue, evitando "comer
gato por lebre" e andar a defender precipitada e emocionalmente aquilo que não consegue com a razão.
Há
quem queira seguir e respeitar a Tradição. Outros optam pela Tra(d)ição.
Uma
escolha que implica saber, para bem se viver.
2 comentários:
Sinceramente, sempre considerei um notório sinal de mau gosto a ostentação de tal adorno, mais pindérico só mesmo os pin's que proliferam pelas lapelas.
Faço igualmente votos de que o "troféu", quando obtido, seja através do furto e não do roubo, como erroneamente surge nos Códigos e afins, ou seja, sem o emprego de violência. Para violência já basta a que nos fere as vistas...
Mais uma pitada de sal a juntar aos mitos e lendas:
No meu caso (em 2005) o meu padrinho contou-me que a colher devia ser de facto furtada por alguém que depois nos oferecê-la-ia. A colher seria então usada como alfinete de gravata, no fundo da gravata e com a parte da colher escondida atrás da gravata e com o cabo à vista (ou seja, ao contrário do que se vê hoje em dia em que as colheres são usadas no topo da gravata e com a parte da colher para a frente, como um autêntico laçarote).
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