quinta-feira, setembro 03, 2015

Notas às Colheres no Traje


Importa meter uma colherada, e bem grande, neste assunto de colheres que infestam pandemicamente as gravatas de tantos e tantos trajes académicos.

São ainda muitos os que acreditam ser "da praxe" meter uma, ou mais, colheres na gravata ou lapela do seu traje, emprestando-lhe uma quantidade enorme de significados e explicações fantasiosas que, contudo, não encontram qualquer fundamento histórico ou praxístico na tradição académica portuguesa.

Pior ainda quando, em alguns códigos, podemos ler que a colher (de café, ainda por cima) deve ser roubada (leram bem: ROUBADA).
Mas de onde vem essa moda das colheres que, ainda há menos de 20 anos não existia?

Sabemos que, tradicionalmente, a colher de madeira é uma insígnia de praxe usada, como tal, desde finais do séc. XIX, supostamente como referência aos antigos sopistas. No entanto, ela surge de facto como substituta da palmatória, ou seja como instrumento repressivo (que, juntamente com a moca e tesoura, forma a trindade das "armas" que os alunos mais velhos usavam para exercer os castigos sobre os novatos - embora convenha dizer que, no caso da moca, ela era muito mais utilizada como arma de defesa do que propriamente para aplicar sentenças ou punições).

A colher que vemos por aí disseminada, tal doença contagiosa, por gravatas e lapelas, parece ter surgido por cópia equivocada e romanceada da tradição tunante espanhola (volta e meia, um ou outro tuno aparecia de bicórneo e com as ditas colherinhas de madeira no mesmo)
Com efeito, era bastante comum, entre a segunda metade do séc. XIX e primeiros anos do séc. XX, vermos tunos espanhóis ostentando, nos seus bicórneos (chapéu de 2 bicos), uma ou duas pequenas colheres de madeira cruzadas.

As explicações (bastante posteriores) dadas a tal era uma suposta evocação das colheres que os sopistas de antanho supostamente usavam para ir à "sopa boba", ou seja um sinal da sua mendicidade.
Só que até isso é lenda.

Desenho publicado por
Vicente de la Fuente em 1842,
Conforme informações adicionais dadas por Félix Martín Sárraga, presidente do Tvnae Mvundi, e um dos mais conceituados investigadores tunantes a nível mundial, tal colher teria surgido, ela também, por uma cópia de um desenho inventado no séc. XIX.
A primeira referência ao uso de uma colher num chapéu de um (suposto) tuno/estudante  é de Vicente de la Fuente que publica um desenho no "Semanário Pitoresco Español" em 1842[1], onde se vê uma figura de um tocador com colher no chapéu. 
Com efeito, e sem se percebe porquê (pois não era uma tradição ou prática existente), ele pintou uma colher no chapéu da personagem (fictícia, note-se). 

Décadas mais tarde o próprio autor, e segundo testemunho do próprio, ficou espantado com a importância que teve  tal desenho na rápida apropriação por parte das estudiantinas carnavalescas, passando os seus membros a ostentar tal colher que, contudo, nunca antes o fora.

Obviamente que, mais tarde ainda, surgiram as explicações costumeiras dos sopistas, quando questionados sobre o porquê de tais colheres, ganhando laivos de verdade histórica o argumento da evocação dos sopistas (sopistas esses que não eram todos estudantes, note-se; com efeito apenas os estudantes mais pobres viviam de esmola e caridade, mas não eram os únicos a quem se chamavam sopistas) que, fique claro, não ostentaram nunca qualquer colher no seu traje estudantil, fosse a capa y gorra ou no mantéu (Vd. Qvid Tvnae? A Tuna Estudantil em Portugal, pp. 48-62).

Uma estudiantina em França, ca. 1900
Fica, pois, claro que nunca  se usou qualquer colher num traje estudantil e que, a partir da 2ª metade do séc. XIX, só os tunos espanhóis, até sensivelmente as primeiras décadas do séc. XX (depois é já mais pontual ver-se, pois o bicórneo, entretanto, cai igualmente em desuso generalizado a partir da década de 1920[2]  - altura, também, em que vemos tunos a ostentar as colheres no peito) o fizeram, mas num traje de tuna, não num traje estudantil (em Espanha, o traje estudantil foi abolido em 1834, quando cessou o foro académico).

Em Portugal, entretanto, não há nenhuma tradição de colheres seja em que traje for; e sopistas, tendo-os havido, não tiveram sequer a expressão que marcou a cultura do país vizinho - além de que não existe qualquer referência a andarem de colher, note-se.

Portanto, caros leitores, ir em busca de argumentos de antanho, recuperando a desculpa dos sopistas para justificar colheres no traje estudantil não tem ponta por onde se lhe pegue, senão como neo-romantismo ficcionado

Quanto à imitação histórica das antigas estudiantinas e tunas do país vizinho, parece-me, uma vez mais, pretender enxertar-se, ad hoc, na nossa tradição académica, algo que lhe é de todo alheia.

Neste preciso momento, o leitor mais atento ao Notas&Melodias lembrará o caso da influência das tunas espanholas no uso dos emblemas nas capas.
Tem razão. 
De facto, a partir da década de 1980, tal prática dos tunos espanhóis aparece em força nas tunas portuguesas e rapidamente se cristaliza pelos restantes estudantes (uma "tradição" que, como sabemos, surge em Espanha apenas a partir dos anos 60, por força da "moda mochilera"). 
Mas se o leitor reparar bem no artigo que explica a origem dos emblemas nas capas (ver AQUI), verá que já bem antes os estudantes costumavam coser emblemas no fundo da sua capa, nomeadamente em Coimbra, cosendo o símbolo da Briosa ou o caso dos orfeonistas e coral de letras.
Há, pois, um antecedente; um antecedente português de feição estudantil.

Mas outro aspecto assoma  em oposição ao uso desbragado e infundado de colheres de café nos trajes: a colher, como insígnia, é insígnia de Praxe e não como insígnia pessoal.

Faz toda a diferença, quando, na verdade, temos uma tradição secular em torno da colher de pau, enquanto instrumento da prática praxista e o uso de colheres mais pequenas a modos de coisa nenhuma.

- Nunca a tradição académica portuguesa contemplou outra colher que não a colher de pau (e não de metal; e não de café), e como insígnia de praxe apenas.
- Nunca a tradição académica contemplou colheres no traje estudantil; nem ela nem qualquer das primeiras codificações ou documentos que, ainda hoje, nos ilustram as práticas e tradições estudantis mais antigas.
- Não há qualquer referência a estas seja em que documento ou código for, anterior a ca. 2000. O primeiro Código de Praxe existente em Portugal (1957) nada refere também, como é óbvio.

Infelizmente, quando a falta de senso reina e os estudantes são menos criteriosos, temos estas invenções, acompanhadas das simbologias e significados tão diversos quanto fantasiosos e disparatados (nº de matrículas, amizades, amores, chumbos, provas de amizade, grau hierárquico ......), quase lembrando as que costumam acompanhar as dos dos rasgões e tranças (uma aberração, note-se, essa das tranças) nas capas.

Continua a ser preciso questionar e perceber de onde vêm as práticas que copiamos, seguimos (demasiadas vezes com cego fundamentalismo) ou que nos impingem, de modo a aferir da sua validade e fundamento.
É dever de um estudante universitário saber, de forma mais criteriosa e alicerçada, a razão de ser das "tradições" que segue, evitando "comer gato por lebre" e andar a defender precipitada e emocionalmente aquilo que não consegue com a razão.

Há quem queira seguir e respeitar a Tradição. Outros optam pela Tra(d)ição.
Uma escolha que implica saber, para bem se viver.





[1] Edição de 08 de Maio de 1842
[2] A partir dessa altura, o bicórneo vê-se muito pontualmente num ou noutro tuno.

1 comentário:

Anónimo disse...

Sinceramente, sempre considerei um notório sinal de mau gosto a ostentação de tal adorno, mais pindérico só mesmo os pin's que proliferam pelas lapelas.

Faço igualmente votos de que o "troféu", quando obtido, seja através do furto e não do roubo, como erroneamente surge nos Códigos e afins, ou seja, sem o emprego de violência. Para violência já basta a que nos fere as vistas...