Terça-feira, Setembro 23, 2008

Notas sobre praxes e Praxe.

O presente artigo pretende reflectir sobre um dos fenómenos que mais paixões e acesas discussões têm levantado na comunidade académica, quase desde sempre:
Qual a validade e pertinência das “praxes”, que sentido tem a Praxe e, neste caso, as ditas “praxes”?

Escusado será fazer, aqui, uma exposição histórica e social da praxe (até porque abordado em artigos anteriores), mas deve ficar bem vincado que por praxe académica se entende o conjunto de usos e costumes praticados no foro universitário, ou seja entre os estudantes dessa condição, e que estão, actualmente, regulamentados em código.

Desde logo um ponto de ordem se apresenta essencial: não confundir a praxe académica com os ritos de iniciação aos caloiros. Por demasiadas vezes, principalmente pelas mentes mais ignorantes, tacanhas e mesquinhas, se reduziu o conceito de praxe apenas aos ritos de iniciação, quando a praxe é um todo bem mais vasto e significativo, de que esses ritos são uma parte apenas (e, fique bem claro, a menos importante – no modo como são hoje vividos).

Mas este artigo é precisamente para falar desses ditos Ritos de Iniciação, as ditas “praxes” aos caloiros, que tanta tinta, argumentos e fratricidas “guerras” têm alimentado.

Para que servem as “praxes” aos caloiros?

Para os defensores das mesmas, serve para integrar os novos alunos; para os seus detractores, é uma humilhação gratuita que serve apenas para alimentar o ego dos veteranos.

O que, no meio disto tudo, mais me cria aversão é que, de ambos os lados, os argumentos são de gente ignorante, totalmente desprovida de reflexão séria e ponderada. De uma maneira geral, quer os auto-proclamados “anti-praxe”, quer os ditos praxistas (a começar pelos que lideram os organismos de praxe), colocam-se ridiculamente nos antípodas, ambos pecando por reduzida visão e saber.

As “praxes” servem para integrar?
Diz-se, à boca cheia, que sim, mas de que maneira?

Respondem os “praxistas” que criam amizades entre caloiros, entre estes e os doutores, que ganham espírito académico …….. (e outras baboseiras que escuso reproduzir).
Sempre que ouço este tipo de argumentos não sei se chore ou se ria. É assim que se define e resume a res praxis? Não me parece.
Fala-se em integração, quando nem sequer se percebe o alcance desse conceito ou se espera que ela se faça com acções muito pouco potenciadoras disso mesmo.
Obviamente que os ritos são uma forma de integração, mas tal não sucede no imediato e por magia das praxes, mas ao longo de toda uma vivência que se estende no tempo, e em que as “praxes” são uma parte, apenas, desse processo.

As “praxes”, neste caso os Ritos de Iniciação, visam antes de mais, marcar uma separação clara de grau de ensino e vivência. Os ritos a que os caloiros são submetidos visam, antes de mais, desprover o indivíduo do seu egoísmo e individualismo (próprio de um modo de pensar muito…”liceal”), para o integrar numa nova matriz de cariz mais corporativista, conferindo-lhe espírito de corpo, de unicidade a um foro social e cultural totalmente díspar do restante da sociedade (e do que, até aí, pudera experienciar).
Através dos ritos, o indivíduo é consciencializado da existência de uma tradição, cultura e história que o transcende, que é maior que ele, levando-o a tomar conta que, neste novo “sistema operativo”, o indivíduo é parte integrante e não o contrário.
Para isso, o primeiro conceito trabalhado (quando o é, de facto, bem feito – o q ue não acontece amiúde, diga-se) é o da humildade e obediência a um valor que a todos rege: o respeito (para com os usos, costumes, regras, hierarquias….). Infelizmente, o mais que se consegue, à boa maneira do Estado-Novo é uma “obediência” promovida pelo medo, relegando para a clandestinidade ou para o desterro todos os que não aceitam o que alguns teimam em apelidar de praxe.

O indivíduo que percebe e apreende a grandeza a que foi chamado a fazer parte, mais facilmente lhe dará valor, a irá promover, viver e defender.
Para isso, servem os ritos - no mesmo processo usado para obtenção do metal, de modo a separar as impurezas e apenas ficar o metal valioso.
Assim, as “agruras” por que passam os caloiros têm por finalidade reduzir a soberba, orgulho egoístico e “manias” (os ditos “vícios”) que devem ficar à porta do estatuto de académico.
Não sejamos ingénuos a ponto de dizer que tudo se faz com palmadinhas nas costas e umas rodadas.
Há necessidade de uma depuração que passa por um processo que implica alguma “dor”, a qual não deve ser entendida como violência. Essa “dor” deve ser entendida como o esforço que implica ajustar-se, reajustar um modo de ser e pensar ao modo de viver de um grupo.
Um processo que não é exclusivo do foro universitário, como sabeis. Por isso é que há sempre um preço a pagar (essa sim, a verdadeira patente), algo que ninguém faz sem custo, pois mudar, desfazer-se do seu egocentrismo, perceber que os direitos pagam-se com o cumprimento de deveres, é um exercício que a todos custa, principalmente numa idade onde todos estamos a rebentar de “autodeterminação” e afirmação pessoal.

Não se trata de robotizar, nem mesmo deve ser entendido numa politização fascista, mas tão-somente como uma (re)educação, uma nova aprendizagem, necessárias, aí sim, a uma integração num grupo que tem regras de convivência próprias e que marcam o percurso do estudante universitário enquanto tal.
O grande problema queda-se, contudo, na forma como são esses ritos praticados. Como não existe a compreensão da finalidade dos ritos (porque a maioria existe como fim em si mesmo), cai-se na humilhação gratuita, com práticas abjectas e desprovidas de sentido (cuja natureza de muitas nem sequer sem insere na praxe, mas sim no foro do crime e, por isso, de natureza policial). As práticas, para surtirem efeito devem ter objectivos concretos a serem alcançados, algo que todos, a começar pelos caloiros, devem conhecer.
Nada há pior do que nos obrigarem a algo que não gostamos, principalmente quando não lhe compreendemos a finalidade.
As “praxes” não são para gostar, são para preparar o indivíduo – a primeira fase da formação (infelizmente, quase sempre se fica por aqui, ficando a formação na gaveta).

A esmagadora maioria dessas práticas esgotam-se passada a fase de recepção ao caloiro e não tem qualquer continuidade gradativa, ou seja, a continuação da formação do indivíduo – o qual só volta a tomar consciência da existência de ritos, quando chega a Queima das Fitas (e, por sua conta e risco, espera-se que lá chegue já integrado e conhecedor, de facto, do que é Praxe).

Nesse aspecto, os detractores da praxe acabam por ter muita razão quando se insurgem contra as práticas realizadas.
Quando os ritos servem apenas para alimentar o ego ditatorial e sádico dos veteranos (que só se mostram nessa altura, diga-se), reduzindo à condição de escravo ou empregado os caloiros, não podemos estranhar que nasçam associações anti-praxe (principalmente com a quantidade de excessos praticados que nada têm a ver com praxe) ou redobrem as queixas policiais.
Mas se os ditos “anti-praxe” são “alimentados” pela ignorância e estupidez de muito “doutorzinho”, não posso deixar de endereçar os mesmos adjectivos aos componentes desses grupos “anti-praxe”: que mostram a mesmíssima ignorância bruta daqueles que condenam, ao reduzir o significado de praxe apenas aos ritos de iniciação (e pior ainda – e isso é prova cabal de má-fé, acefalia e estupidez total – quando atacam tunas).

Qual o problema?

O problema reside em 3 aspectos essenciais:

A falta de formação, competência e saber dos organismos de praxe. O exemplo deve vir de cima e a aposta passa sempre por formar e informar, mais do que autorizar praxes e fiscalizar as mesmas. De nada vale fiscalizar pessoas que nunca foram, realmente, formadas e informadas. Um código escrito não basta, quando muitas vezes está, ele próprio, longe da realidade praticada. Vale mais o exemplo de conduta do que quilos de decretos e normas.
Mas como só se pensa em praxe, fazer desfiles, festas e afins, cada qual vai improvisando e/ou copiando o que vai vendo (nem sempre copiando bem, ou o que está bem), muitas vezes com total sentimento de impunidade.
E Espírito Académico passa a ser algo tão indecifrável que cada um tem o seu, e defini-lo fica no âmbito do “inexplicável” por palavras.
Antigamente, tendo em conta as academias serem pequenas, existia um espírito mais familiar, o que facilitava a passagem do saber oralizado, alicerçado numa real vivência da tradição, sendo o código bem mais do que um documento, pois era vivido e apreendido – fazia implicitamente parte de cada um, ao contrário da actualidade.
Os códigos de hoje são uma sucessão de milhares de artigos (alguns dúbios) que a maioria desconhece, distantes da realidade (porque querem regrar em demasia, ao invés de acentuar o essencial), observados mais por obrigação do que por convicção (e onde as proibições e normas sobre caloiros ocupam parte considerável do documento).

A natureza da maioria dos códigos de praxe. Uma grande parte aparece pouco tempo de pois da implantação da instituição, não sendo reprodução escrita (devidamente articulada e ajustada) de usos e costumes anteriormente praticados, mas a imposição de regras nas quais poucos encontram eco ou se revêem. Um código, na sua primeira edição, deve reproduzir o que já era feito, o que já era tradição oral (regrando, ajustando esses usos aos objectivos desejados), para que possa ter o devido precedente e justificação histórica, social e cultural para se averbar código que possa servir de modelo aos vindouros.
Nesse aspecto, uma grande maioria dos códigos existentes são documentos artificiais que apenas vieram alimentar usos e costumes eles próprios vazios de significância, mais seguidos por serem lei, do que por serem aceites como pertinentes.
É facto que grande parte dos códigos que por aí pululam visaram, num primeiro momento, definir uma identidade própria, diferente das demais academias e cidades, nomeadamente de Coimbra, criando uma catadupa de “praxes”, regras e disposições “de plástico”, usos artificiais, a que a panóplia de “trajes académicos”, cada qual ao seu estilo, veio a reboque. Nesse aspecto, terá sido, esse, um dos maiores erros históricos e a maior falta de bom senso registados na história da praxe. Bairrismos inusitados e a força de ter de ser, à força, diferente, levou a trajes sem qualquer razão de ser perante a capa e batina – traje oficialmente definido como Traje Nacional (e, por isso, não apenas de Coimbra), identificativo do estudante universitário português.

A formação de cada indivíduo. Um aspecto que resulta dos dois anteriores, obviamente, a que acrescem as características sociais e culturais das novas gerações.
À falta de formação dos futuros agentes da praxe (mais congressos, colóquios, tertúlias, fóruns, publicações urgem), a relação causa-efeito que daí advém surge natural e inexorável. A praxe perdeu a sua linearidade vertical e horizontal, passando a um “sistema de ilhas” ou evento sazonal, centrado exclusivamente no parecer em detrimento do ser – fenómeno superficial que existe “para inglês ver”, numa de “Maria vai com as outras”!
Valores como o respeito, abnegação, espírito empreendedor, participação voluntária, desejo de valorização complementar vão dando lugar à apatia, indiferença, egoísmo, competição, materialismo e facilitismo que não são condizentes com o perfil de académicos activos, produtores e reprodutores de cultura e excelência que deveriam caracterizar o estudante universitário, o praxista. Mas se tal não acontece, não podemos imputar tudo à sociedade ou aos paizinhos ausentes ou permissivos.
Os ritos de iniciação servindo para formar, depurar, educar e preparar o indivíduo para compreender, apreender, aprender e tomar parte da comunidade universitária, deveriam bastar para garantir que cada um exercesse consciente e proficuamente a sua cidadania académica. O problema é que nem quem os pratica e aplica tem idoneidade e competência para essa tarefa.
“Quando os princípios são maus, não se esperem bons fins”, diz o povo e tem razão.


Concluindo:

Perante o actual panorama dos ritos e práticas exercidos, temos de convir que são um fenómeno que carece de pertinência e que serve interesses que não interessam de facto.
Troque-se as pinturas e as brincadeiras (que de maior ou menor gosto, não passam disso: brincadeiras) por momentos de formação, informação e debate, tertúlias animadas e outros momentos de convívio que possam preparar as pessoas para exercerem, de facto, a missão de integrar os caloiros, movidas pelo dever e competência e não por desejos recalcados de vingança, sadismo ou simples vontade de afirmação.

Quando a praxe está reduzida, na sua imagem pública, ao que se passa em Outubro e Novembro, seria bom que outra postura fosse adoptada e algumas medidas firmemente tomadas, de modo a que quer os protagonistas directos, quer os responsáveis pela praxe deixem de envergonhar e manchar os pergaminhos de uma tradição e cultura que merecia outro trato e respeito, e de quantos viveram, com elevação, a condição de académicos.

35 comentários:

Vasco Miguel Casimiro disse...

Caro Pena (WB),

Excelente artigo sobra a praxe. Gostei muito de o ler.

Cumprimentos

Vasco Miguel Casimiro

www.vascocasimiro.blogspot.com

Pena (WB) disse...

Essa dapetição dá vontade de rir. Petição para quê?
As instituições não perseguem a praxe, mas apenas os abusos que se praticam, tentando, é verdade, regrar os ritos de recepção aos caloiros (que, em certos casos, passa por proibir as actividades no seu campus).

Ponham-se no lugar de um reitor que tem a sua faculdade referenciada como antro de ilegalidades e abusos e cuja imagem pública está fortemente comprometida. Que fariam?

Não defendo a intromissão de terceiros em assuntos de praxe, mas percebo, até certo ponto, o "desespero" que força essa decisão, até porque nenhuma outra medida profiláctica ou remediativa encetada pelos próprios estudantes parece ter resolvido coisa alguma.

Como se costuma dizer, "casa roubada, trancas à porta"!!!

Anónimo disse...

O melhor artigo que li até hoje sobre as praxes. Só podia ser do meu antigo Dux.

Anónimo disse...

Fui praxado este ano.Ninguem me obrigou a nada, ninguem me obrigou a ir, nem sofri nenhum tipo de pressao psicologica ou de qualquer outro tipo para ser praxado.Fui , pura e simplesmente porque QUIS.
Se ao inves de escreverem textos a maldizer as praxes, fossem para o terreno perguntar as pessoas se la estao obrigadas, entao elas responderiam que nao.Posso tambem dizer que foram 3 semanas em que fiz bastantes amizades, nao da minha escola, ou curso ( que tambem fiz, como e obvio) mas tambem de outras faculdades, ja que fomos todos praxados em conjunto.Por isso, nao consigo desvendar em que ponto as praxes merecem tantos pontos de discordia entre pessoas, é na realidade muito simples, quem quer ser praxado é, quem nao quer nao é.

Pena (WB) disse...

Caro anónimo, praxado este ano,

Não foi obrigado e ainda bem.
Gostou do que viveu e ainda bem.
Não sofreu pressões físca sou psicológicas, que bom!
Foi porque quis, tanto melhor!

Mas há quem o seja e ainda mal.
Há quem não goste, infelizmente.
Há quem seja violentado fisicamente psicológicamente, para mal da praxe e do bom nome da tradição aademica.
Há quem vá sem querer, o que se lamenta, ou porque é coagido a tal ou porque não quer perder certas regalias futuras da condição de académico!


A realidadeé esta e não se pode escamotear.
Há, ainda bem, muitas e honradas excepções, contudo o fenómeno generalizou-se e criou má fama, pagando o justo e o pecador!

O texto que escrevi condena todo e qualquer acto que,pela sua natureza, não é praxe (embora certos inergúmenos achem que sim) e que conspurca e envergonha tudo e todos.

Este texto condena todos os muitos actos atentatórios à integridade física e moral dos caloiros. Isso não é praxe, mas sim matéria criminal.

Este texto não diz mal da praxe, mas de certas práticas e protagonistas que deveriam ou estar nums instituição psiquiátrica ou atrás das grades.
A crítica é feita por quem foi Dux-Verteranorum e tem uma enorme estima e respeito pela Praxe, contudo não se conforma com o que vai sucedendo na ditas "praxes".

O meu caro amigo anónimo é demasiado novo e inexperiente no assunto, mas daqui a uns anos realizará que não é com certas práticas (as que o meu amigo não viveu ou presenciou, mas que não significa não existirem) que se defendem e promovem as nossas tradições académicas.

Tomo a liberdade de lhe dar alguns conselhos, não apenas por o meu amigo ser ainda um"teenager", mas por ser caloiro (ignorante, à partida, sobre assuntos de praxe):

- Leia mais e fale/escreva menos sobre assuntos de praxe. Na sua idade e condição tem mais a aprender e a receber do que a ensinar ou julgar.

- Procure ouvir, informar e formar-se sobre os assuntos.Pesquise e não se contente com a primeira "solução" encontrada. Confronte as teorias, tenha espírito crítico e o descinermiento para aplicar os seus saberes académicos em prol da sua formação sobre praxe.

Se tiver esse cuidado, certamente que daqui a cerca de 2 décadas, conseguirá sentar-se à frente de um teclado e escrever com mais propriedade do que eu sobre o assunto.

Anónimo disse...

Ó caloiro, só porque gostaste da praxe e tiveste a sorte de ter pessoal porreiro a praxar-te isso apaga o que acontece a quem sofre na pele as maiores barbaridades?
Isso é mesmo desta geração: egoístas que só conseguem ver o seu mundinho e umbigo!
Ninguém está aqui contra a praxe, mas é preciso distinguir a praxe daquilo que não é.
Se a praxe na tua faculdade é boa lembra-te que em muitos outros sítios isso não acontece e é contra isso que o Pena está a falar.

Miguel Cardoso disse...

Eu fui praxado, este ano em Beja.No inicio sempre achei que a praxe não tinha nada de mal, até porque tenho diversos amigos que foram praxados, e todos eles me disseram que as praxes não tinham nada de mal, por isso decidi ser praxado,não vendo qualquer inconveniente nisso.O que se passou foi que, ao invens do que nos disseram, no primeiro dia de praxe, não foram as melhores tres semanas da minha vida, mas sim as piores, nunca tinha sido tao enxuvalhado na minha vida, como o fui nessas três semanas.Fiz de todo um pouco, apenas e so para poder usar o traje, para ser aceite,enfim para me socio-universitar nesse meio.Tive que fazer de homossexual ( nada contra as opçoes sexuais das pessoas, nem ha nenhum racismo aqui)comi papa, que no fim descobri, que tinha vomitado de um vet. la dentro,levei com comida de cao nas zonas pubicas,tive que fazer croquetes na relva onde os caes defecam,enfim... e muito mais, que não vale a pena estar aqui a escrever, porque voces podem-no imaginar.No ultimo dia de praxe, desisti, apesar de ter aguentado 3 semanas, o meu psicologico veio abaixo completamente, chamei todo o que sabia aos meus veteranos, ao dux, ao todos que me apareceram pela frente.Passei-me.Sou a favor das praxes, mas no sentido educativo, e de integraçao e recessão ao caloiro, não no sentido de ser enxuvalhado por toda a gente, isso não.
Anonimo,ainda bem que as praxes para ti foram fixes e porreiras, e ainda melhor, dou te as felicitações por teres feito bastantes amigos,e ainda bem que não passaste pelo que eu passei.

cumprimentos a todos.

Pena (WB) disse...

É sempre de lamentar quando toca a aponta ro dedo a práticas revestidas de praxe, mas que o não são.

É certo que não podemos esperar um serviço de luva branca, tapete vermelho e menu "à la carte".
Poderia, eu próprio, atirar: "Também, sabe Deus, o que passei no meu tempo - e nem por isso morri!", mas reconheço que não foram algumas más práticas a que me sujeitaram que ajudaram à minha integração.

Para tudo há limites, obviamente.
Condena-se, por isso, que se sujeitem caloiros a certas brincadeiras cujo o objectivo não apenas não existe (ou existe algum em por 2 caloiros em simulações de cariz sexual?), como nem sequer são, de facto, praxe, mas sim crimes públicos.

Bastaria dar o exemplo de "baptismos" feitos com uma mistela que, para além de muitos ingredientes estranhos, continha urina dos proprios veteranos.
Venha alguém dizer-me que isso é praxe!

Ainda assim, também não venham alguns "vidrinhos" pregar indignação só porque estiveram de 4a imitar os sons de um qualquer quadrúpede, (excepção feita se, como no meu tempo, tenham sido obrigados a percorrer mais de 500 metros nessa posição, em plena chuva, a ponto de rasgar umas calças de ganga, enquanto um veterano cowboy fazia dos caloiros a sua montada).

Ao caloiro de Beja, apenas dizer que, apesar de tudo, não se defendem direitos infringndo a lei. Quem tem razão deve manté-la e não revestir-se de telhados de vidro, por mais indignado e ofendido que se tenha sentido.
Ofender a hierarquia da praxe não é solução, mas antes usar a cabeça para servir-se da lei (código da praxe, para começar) para repor a legalidade e punir os infractores.

Se os caloiros tivessem, pelo menos, a sensatez de se informar sobre o código da praxe (não acredito que não lhe possam aceder - o que seri auma ilegalidade), melhor saberiam defender-se. Os veteranos abusam com base na ignorância dos caloiros.

A Praxe merece-nos todos o respeito, mesmo se alguns dos seus protagonistas não!

O seu testemunho torna-se, pois, útil, para servir de alerta e ajudar a uma maior reflexão e ponderação sobre os ritos de recepção aos caloiros.

Sir Giga disse...

Ainda sobre o tema das "praxes", mais concretamente sobre o artigo 121 dos novos estatutos da UTAD:

http://transmontunices.blogspot.com/2008/10/praxe-e-utad-uma-breve-reflexo-parte-1.html

http://transmontunices.blogspot.com/2008/10/praxe-utad-uma-breve-reflexoparte-2-da.html

http://transmontunices.blogspot.com/2008/10/praxe-e-utad-uma-breve-reflexo-parte-3.html

JoZeg disse...

Bem, antes d mais o texto tá impecável, posso dizer q discordo de alguns pontos mas é dos poucos textos que nao peca por só defender ou só atacar as praxes....

Acho q toda a gente concorda que uma praxe com fundamentos TÉM mto de bom...realmente alguém que vive uma praxe intensa deixa de ser caloiro mas nao volta mais a ser aquilo que era antes de entrar pa UNI...é realmente uma pena que maus actos praxisticos estejam a denegrir a praxe boa...

Anónimo disse...

O melhor artigo que li na minha vida sobre praxe. Verdadeira praxe era que ele fosse de leitura obrigatória por parte dos doutores e dos caloiros.
Parabéns ao autor pela qualidade do blog e deste artigo em concreto. Concordo que fazem falta debates e colóquios sobre as praxes para formar e informar os praxistas e os caloiros e o senhor teria muito a dizer e a ensinar neles.

Joana

Anónimo disse...

Muito bom este artigo. Fazem falta estas reflexões e ouvir quem fala com conhecimentos.

Ivone Silva disse...

Impressionante a qualidade do artigo e de outros do género. Uma exposição estupenda com a vantagem de o autor a fazer de forma realista olhando aos dois lados da questão.

Ivone Silva

Anónimo disse...

Sou anti-praxe apesar disso congratulo o autor do texto que se distingue de muitos outros que são ignorantes e extremistas.

Pedro Pinheiro disse...

Caro Pena (WB),

Sendo eu "anti-praxe" (ou melhor, "anti-praxes" já que não tenho absolutamente nada, muito pelo contrário, contra a tradição académica "fora" dos vulgares rituais de iniciação) não posso passar sem o felicitar por este excelente texto.

Concordo em absoluto com tudo o que diz e deixe-me dizer que fosse a Praxe como você a vê e deseja, eu teria todo o gosto (e orgulho) em fazer parte dela. Contudo, parece-me que incorre num erro comum neste género de análises. Refere que os actuais rituais de iniciação (leia-se: flexões, simulações de cariz sexual, pinturas e todas as alarvidades que podemos ver quando passamos por um qualquer campus universitário) não fazem parte da Praxe mas, o que é uma tradição senão a sua vivência? Neste momento, as praxes são em larga medida tudo o que compõe a Praxe (ou são pelo menos, uma parte significativa dela para uma franja significativa de pessoas) logo, a Praxe que defende (e a Praxe que eu esperava quando ingressei no ensino superior) está morta e dela só restam textos saudosistas como o seu.

Tenho pena que assim seja, tenho pena que as "elites" tenham deixado cair uma tradição tão intensa e cheia de orgulho num mero jogo de berros e urros no meio da lama. Tenho pena que as serenatas tenham dado lugar a jantares e "ralis tascas" onde se batem recordes de consumo de álcool. Tenho pena que a "noite universitária" se tenha tornado no símbolo de depravação e acima de tudo tenho pena por não ter vivido a Praxe de que ouço saudosamente falar (por textos e relatos de pessoas mais velhas).
Compreenderá então, que dado o estado a que chegámos, não tenha aceite à uns anos fazer parte desse jogo de humilhação com o qual me deparei nos primeiros dias como universitário. Compreenderá que deparado com um mundo académico distorcido qualquer pessoa com um pingo de valores e respeito próprio não possam aceitar fazer parte dele.
Tenho pena, porque pela parte quebra-se o todo, e com rituais de iniciação ridículos perde-se tudo o resto mas, isso torna-se imperativo para alguém (que como eu) se respeita minimamente.

Entretanto... continue com estes fantásticos textos para dar um vislumbre a todos que, como eu, não podem ter acesso a um mundo passado que só pela bestealidade de alguns não é o presente.

Pena (WB) disse...

Caro Pedro,

Percebo perfeitamente o seu ponto de vista e aproveito para agradecer as suas simpáticas palavras.

Ainda assim, dizer que não me faz mossa que os caloiros sejam sujeitos a alumas brncadeiras, como andar de 4, servir à mesa ou ajudar em tarefas várias, como criado (havendo, acima de tudo, contenção e sem abusos). Mas o problema é quando as praxes se resumem apenas a isso, quando essas brincadeiras não são somente coisas pontuais: quando apenas se humilhia gratuitamente e não se oferecem outras formas e outros meios ritualístico.

Os ritos são importantes, em qualquer sociedade, em qualquer etapa e situação, mas quando são um fim em si mesmo, deixam de o ser, para serem outra coisa qualquer que, neste caso, de praxe muito pouco terão.

Bem sei que caíu no uso generalizado, mas quem sabe não seja responsabilidade de todos, depois de caloiros, mudarem as coisas (o que não se consegue ficando de fora), mudarem esses novos "costumes".

Eu não sou anti-praxes, mas sim anti-abusos em nome delas, como percebo que o meu amigo será também.

Forte abraço

Rafael Ortega disse...

Caro Pena,

Apenas hoje vim ler o seu texto apesar de me ter deixado o link na caixa de comentários do meu blog há já algum tempo.
Concordo com a sua visão da Praxe e penso até que se, enquanto Dux, a pôs em prática, teria muito gosto em ter sido seu caloiro.

Infelizmente a praxe está a tornar-se um pouco as palhaçadas, e às vezes crimes, que se ouve nos media. Posso até referir o meu exemplo. Este ano estou no segundo ano e entrei para a comissão. Ia cheio de ideias, mesmo sabendo que muitas não seriam levadas para a frente. Muitos outros colegas de 3ºano também queriam envolver-se. As coisas acabaram por ser organizadas pela meia dúzia que faz sempre tudo. No primeiro dia muitos caloiros desistiram de ir as actividades depois de os obrigarem a rastejar por uma mistela com margarina, maionese, farinha e sei lá que mais.

O tribunal de praxe (para caloiros mais conhecidos) são sempre iguais, uma repetição do que os organizadores sofreram nas suas praxes (não são coisas humilhantes mas revela falta de ideias no mínimo).

Quando fala na perda das tradições concordo inteiramente. Eu, muito provavelmente, fui mais vezes trajado para a universidade que o resto da comissão toda junta. Cheguei a estar num anfiteatro cheio e só eu estava trajado.

Para finalizar apenas referir que no meu curso não se faz enterro do caloiro porque no fim do ano é altura de "muito trabalho".

É difícil mudar as coisas quando 99% das pessoas tem o traje "para praxar" e a ideia de praxe é ver caloiros a rastejar no chão.

Marco Oliveira disse...

Viva! Em primeiro lugar, queria dar os parabéns ao autor pelo texto. Eu sou aluno da Universidade de Aveiro, actualmente Mestre Marnoto (aluno de 4ª matrícula, para os que não estão por dentro do nosso código), tendo já pertencido à Comissão de Faina (Comissão de Praxe) e, como tal, tenho vivido a Praxe desde que iniciei a minha vida académica. Só um pequeno aparte, a nossa tradição académica está inspirada nos costumes da nossa cidade, tradicionalmente ligada à pesca, ou faina, e à produção de sal. Penso que seja um boa maneira de transmitir ao corpo académico um pouco da História da cidade que nos recebe, e criar uma certa empatia e respeito pela mesma.

Devo dizer que partilho da mesma opinião do autor, e, felizmente, posso dizer que a Praxe na nossa academia, tanto quanto tenho visto, tenta aproximar-se o melhor possível do descrito pelo autor. Isto não implica que já não tenha assistido às ditas "brincadeiras", como pinturas, flexões, ou até mesmo a cenas de cariz sexual que, pessoalmente, condeno e acho que demonstram mau gosto e falta de originalidade. Quanto às brincadeiras, penso que são inofensivas. Tirando casos de pessoas que possam ter algum problema físico, não vejo mal nenhum em fazer uma brincadeira, quando existe uma finalidade, quer seja esta melhorar a aptidão física do aluvião (dito caloiro nas demais academias), quer seja como forma castigo em caso de falta de respeito com a tradição, colegas ou veteranos.

Penso que o ponto fundamental da Praxe é precisamente a educação do recém chegado às tradições e costumes da academia que está a integrar, a criação de um espírito de comunidade em detrimento de um espírito individualista ("liceal", como o autor referiu) e também a criação de um ambiente de respeito, mais uma vez, com a tradição, com os colegas, e com os veteranos.

Por fim, em relação aos ditos "anti-praxe", penso que é uma pena que algumas pessoas sejam forçadas a isolar-se, e deixar de viver o ambiente e tradições académicas, por causa dos "doutorzinhos", que têm mais de sádicos que de académicos, possivelmente porque também já foram educados desta forma. Acredito que haja muito "anti-praxe" que gostaria imenso de participar na tradição, se esta fosse realmente cumprida, ao invés de uma visão distorcida da tradição. Os únicos que considero realmente "anti-praxe", são aqueles que se acham bons demais para participar nas actividades promovidas ou aqueles que acham que ficar a conhecer um pouco os costumes das academias que integram não é para eles. Estes podem-se chamar de "anti-praxes". Não querem, nem esperam nada da academia, por isso também não trazem ou fazem nada pela a mesma.

Não sei se o autor partilha de algumas das minhas opiniões, mas quis deixar aqui o meu parecer, por achar que este era um artigo imparcial e completo sobre o que foi, o que é, e o que deveria ser a Praxe.

Cumprimentos, Marco Oliveira.
marcooliveira [at] ua [dot] pt
MIECT - Universidade de Aveiro

Magrinho ;) disse...

Acabar com a praxe não seria só acabar com os actos de violencia e de humilaçao, mas seria também acabar com seculos de tradição universitaria portuguesa.
Desde sempre que a praxe poe em causa varios principios e desde sempre tem ocorrido incidentes, alguns devidos a abusos e outros não.
Já em 1727 a praxe foi pela primeira vez proibida por D.João v devido á morte de um aluno. Hoje, e quase 300 anos depois, a tradição é mantida.
Praxes que passaram pela implatação da republica, lutaram contra o Salazarismo e assistiram á Guerra Colinal, nunca irão cair.

IsaMar disse...

Gosto tanto do seu texto que o vou anunciar no meu blog, se me permitir.

obrigado

isamar

Caloira disse...

Adoro a praxe, estou a ser praxada e estou a viver momentos inesquecíveis (pela positiva, óbvio), posso mesmo dizer que estou a viver os melhores momentos da minha vida. Mesmo quando a praxe nos parece dura (e por vezes é, "Dura Praxis, Sed Praxis"), há que viver o momento, aproveitar ao máximo, se nos divertimos com a praxe, ou não, depende de nós, depende principalmente da nossa personalidade e da maneira como encaramos as coisas na vida, sinto que estou a crescer e a tornar-me numa pessoa melhor, já para não falar nas pessoas que conheci nas praxes... Claro que nem sempre depende de nós, estou a falar dos problemas que ocorreram devido às praxes, mas não podemos generalizar: "Lá porque uns são malucos, não significa que nós também sejemos", disse o Dux da minha faculdade na primeira semana de praxes. E com muita razão. Não vale a pena falar das praxes com alguém que nunca viveu este espírito, pois este só é sentido por quem as viveu (excepto aqueles que foram vítimas de agressões nas praxes, mas isso já é outro assunto).
Conclusão, para mim as praxes são algo absolutamente fantástico, é impossível descrever o que se sente ao viver esta maravilhosa tradição! Viva a praxe! Desde que esta seja practicada com bom senso.
As praxes têm também o intuito de 'semear' o orgulho pela escola ou instituto e pelo traje académico e toda a sua tradição.

P.S.- Acabei de vir da Noite Negra da minha faculdade, foi uma das melhores noites da minha vida, e confesso que fiquei muito emocionada hoje, quando os doutores e veteranos fizeram uma saudação aos caloiros, isso demonstrou que não só os caloiros devem respeito aos doutores e veteranos, como também os doutores e veteranos devem respeitar os caloiros... Para quem nunca viveu isto deve achar uma 'palhaçada', mas quem viveu, pelo menos da maneira que eu vivi, sabe do que estou a falar.

Avé!

Bastian disse...

Ressoa a inteligência de algumas pessoas quando a defenderem a praxe se recordam de crimes que já aconteceram (também estava familiarizado com a da proibição no reinado de D.João V), e entretanto defendem que esta se deve manter a todo o custo.

Exactamente que tipo de acéfalos são capazes de achar que um rito de iniciação que pode resultar na morte de alguém é aceitável não passa pela cabeça de ninguém com dois dedos de testa.

Quanto ao texto, está muito bem elaborado. Pena que na realidade as coisas nem sempre se processem desta forma...

Bastian disse...

Ressoa a inteligência daqueles que quando mencionam a praxe e a defendem, apesar de conscientes que este tipo de ritos de iniciação já resultaram em abusos ou até na morte de outras pessoas.

Não tenho nada contra as pessoas que realmente não se sintam incomodadas pela praxe e sintam que a têm de defender. É um direito legítimo.

Mas aqueles que o fazem e a promovem como algo de legítimo sabendo que já houve quem tenha morrido a propósito disso... vai para demonstrar a (pouca) inteligência dessas pessoas.

matrafisco disse...

Bastian,

O seu argumento é de uma desonestidade gritante.
É quase como defender banir o automóvel porque andam pessoas a matar com eles.
Ou pior, vamos tirar as pessoas do mundo porque elas matam outras pessoas.
A Praxe, ou a Tradição Académica, é uma forma de articulação social num estrato universitário.
Tudo o resto é problema de policia.

WB,

Agradeço-lhe muito as suas palavras.
Nunca conseguiria tanta eloquência apesar de ter andado imensos anos a pregar as suas ideias sem o saber.
É uma dialéctica constante transmitir a ideia que não estamos lá pela recepção, não estamos lá pela integração, nunca estamos lá pela humilhação (e como cada pessoa é um caso, o que é para uns não é de todo para outros).
Queremos estar lá por um ideal de humildade e de aprendizagem constante seja com quem for! Um estudante universitário deve ser a imagem do que queremos para um país; excelente!
Não é fácil.

Anónimo disse...

Caro Pena. Caros comentadores.

>> Praxe em Coimbra

Está tudo dito.

Marta disse...

Dos melhores artigos que alguma vez li sobre Praxe.

Ricardo disse...

Muito bom artigo, e um dos primeiros que vi que realmente consegue abordar as praxes de uma perspectiva sensata. Mas apesar de tudo permita-me discordar nalguns pontos (que verdade seja dita, se fosse tudo como o expõe, não existiriam).

Não consigo aceitar que a maioria dos praxantes se considere superior aos caloiros simplesmente por ter um número maior de matriculas. Dentro de uma universidade todos sao estudantes, e como tal, todos têm os mesmos direitos. Não é por estarem a estudar a mais tempo que simplesmente ganham o direito de mandar em quem quer que seja. Muito menos humilhar quem quer que seja como se vê em tantos sitios. Simplesmente não me entra na cabeça que rastejar no chão, gritar obscenidades na rua, olhar para o chão, não rir, não olhar para as pessoas nos olhos, não falar, e não poder ir a casa quando se quer (seja por cansaço, por querer ir estudar, ou simplesmente por não aguentar mais), tenha alguma coisa de integração. Apenas fiz praxe durante uma semana. Por motivos pessoais não quis, nem aguentava, passar mais tempo. E embora pouco tempo posso dizer que não conheci absolutamente ninguém nesse tempo. Seria de esperar que depois de passar todos os dias com os meus colegas, durante uma semana, de manha a noite, daria para conhecer alguém. Mas a verdade é que não. No 2º ano tentei fazer pelo menos a latada e o baptismo com os meus colegas de 1º ano. A verdade é que me expulsaram e nem o baptismo de curso me deixaram fazer. E eu pergunto-me. Que autoridade têm estas pessoas para dizerem o que podemos ou não fazer? O código de praxe não é lei, e muito menos são eles força de autoridade para poder mandar. Desde o 1º dia me disseram que para trajar, e fazer bênção das pastas teria de passar pela praxe, latada e baptismo. Não é o traje símbolo de igualdade? Onde está ela quando supostamente para o obter necessitamos de nos rebaixar e humilhar perante pessoas sem esse direito?
Desconheço o que são realmente as tradições académicas, e como foram as coisas antigamente, admito-o. Mas neste momento e pelo que vivi até agora, não aceito qualquer autoridade a quem praxa, a comissões de praxe, nem a qualquer outra organização ligada a praxe. Fui ameaçado de que se saisse à rua com o traje vestido corria o risco de me o rasgarem por não ter feito praxe. O que não só é ameaça, como tentativa de agressão caso o tentem realmente, como destruição de propriedade privada caso o realizem. Para além disso, dizer a alguém que não o pode vestir senão fizer o que lhe mandam pode ser considerado coacção. Não sou advogado, nem perto disso, mas pelos fundamentos básicos da lei portuguesa acho que não disse nenhuma baboseira.
Se sou anti-praxe? Não. A praxe poderia ser muito útil se bem utilizada. Poderia servir de ponte para novas amizades. Conhecer novas coisas, trocar ideias e culturas diferentes. Mas a partir do momento em que alguém sofre uma humilhação, e em que alguém a faz contra vontade, por medo ou intimidado, e apenas com o objectivo de não perder certas coisas que ninguém tem direito a tirar, perde toda a utilidade para ser uma forma de violência gratuita.

Isto é apenas uma opinião pessoal, pelo que vivi na minha universidade. Admito que provavelmente muitas das coisas que disse não são nada de mais, e muito menos relevantes no que trata a tradições académicas. Contudo, neste momento foi esta a definição de praxe que me mostraram. Teria todo o gosto de viver uma praxe como a expõe no seu artigo.

Anónimo disse...

Este foi sem dúvida o melhor artigo de praxe que eu li.Desde que entrei na Universidade (este ano) que tenho feito várias pesquisas sobre este assunto e formulado 1 pequena opinião sobre este mundo tão vasto.A verdade é que me fartei das praxes,fui à semana de recepção do caloiro e confesse-vos que quando cheguei a casa no primeiro dia senti-me extremamente entusiasmado com a praxe,embora tivesse ficado com os joelhos todos queimados,ao contrário de outros colegas meus que ainda continuam na praxe.Mas esse entusiasmo começou a degradar-se nos últimos dias da semana de recepção, senti que as coisas já estavam a ser feitas só por mera tradição e não com o intuito da integração.Depois da semana de recepção começaram a controlar quem ia às "aulas de praxe",uma atitude que detestei,visto que só anda lá quem quer e num dos dias tive de me declarar "anti" para poder sair da faculdade.
Cumprimentos,

Susana disse...

Boa noite,

Há algum tempo li alguns posts deste blog, muito interessantes, devo dizer.

Quanto a este artigo, foi uma benção. Isto porque concordo e identifico-me com o que aqui está escrito. No meu curso Praxe é exactamente isto, nós não fazemos "praxes", nós fazemos com que ela viva durante o ano inteiro, criamos objectivos, temos uma hierarquia onde cada um tem o seu papel com o objectivo comum de fazer viver uma tradição de alimentar o bom uso do termo Praxe, e de criar uma vivência académica não só saudável, mas que nos orgulhemos.

Obrigada por este artigo, é muito bom saber que não somos assim tão poucos a pensar e viver assim. : )

Susana Silva

Anónimo disse...

Boas!

Gostei muito do artigo, como muitos já por aqui disseram, devido ao seu cariz. Muitos veteranos/doutores/engenheiros defendem as suas atitudes escondendo-se atrás de um código que não justifica as suas acções, mas talvez devido a ignorância deles próprios - que não foram formados e não pretendem formar os seus caloiros - continuam com as suas atitudes.

Posso assim partilhar a minha opinião. Fui, por 2 anos, lama (caloira) na Universidade de Aveiro. Como já disse o Marco Oliveira anteriormente, é uma Universidade em que toda a Praxe (ou Faina) é ligada aos costumes da nossa cidade.

Ingressei no meu primeiro ano de universidade num curso maioritariamente constituído por mulheres, e apesar de nunca ter sido psicológicamente forçada a nada, ou humilhada, não achei que as praxes tivessem muito o cariz de nos integrar, mas talvez fossem as Veteranas, que mesmo depois do Desfile do Enterro do Caloiro continuavam a passar por nós e a fingir que não nos conheciam.

Felizmente no fim desse ano consegui entrar no curso onde estou hoje, e decidi ser novamente praxada. Não tive que ir a todas as praxes, porque já era de segunda matrícula, mas aproveitei todas as que participei. Sim, houve brincadeiras de cariz sexual, mas nunca um aluvião foi impedido de rir - ainda que entre dentes - das situações caricatas que ali presenciou ou realizou (cada um tinha que demonstrar a nossa posição favorita, que não tem mal nenhum, nem estava implícito). Sim, sujámos a cabeça com porcaria, mas não era nada de especial, e não continha nenhum tipo de detritos pertencentes a veteranos ou animais. Foram praxes carregadas de ovos, cantorias, corridas, "ri-me f*di-me", rebolar na relva depois de uma luta de iogurtes, com ordem e respeito mas sem demasiado autoritarismo.

Ao contrário do meu curso anterior, logo no fim da primeira semana todos os Veteranos socializavam com Aluviões. Eu própria e vários colegas caloiros fomos a jantares a casa de vários Veteranos, fizemos festas juntos, ao contrário do que tinha acontecido no meu curso anterior. Nunca, dentro ou fora da praxe, fomos desrespeitados ou inferiorizados por sermos caloiros da UA.

Penso que esta mentalidade vem logo desde o dia das Matrículas. Para quem não sabe, no final das Matrículas, todos os caloiros são obrigados a assistir a uma palestra sobre a Praxe em Aveiro, dada por pelo menos um Veterano pertencente à Salgadíssima Trindade (ou seja, os três Veteranos que "mandam" na Praxe, para ser breve). Eles explicam-nos o que é ou não permitido, explicam-nos para que servem os nós na lapela, as restantes insignias, o que devemos fazer que algum Veterano tentar "abusar" de nós. Incitam-nos a ler o Código de Faina, para nos ajudar a perceber melhor o que vamos viver nos próximos anos.

(continua... lol)

Anónimo disse...

(continuação)

Infelizmente, sei que nem em todo o lado isto funciona assim. Tenho dois casos bem presentes, infelizmente da mesma Faculdade, em Tomar. Duas das minhas melhores amigas foram para lá estudar.

Uma declarou-se anti-praxe antes de qualquer praxe, e teve o desprazer de mais do que uma vez ser obrigada a sair de um local público por pressão dos colegas Doutores, que diziam "não podes estar neste café porque estamos a tratar de assuntos da Praxe" ou "Não podes passar nesta rua porque está aqui a acontecer uma praxe".

Outra deixou-se ser praxada uma vez, mas depois declarou-se anti-praxe. Os seus Doutores puseram-na em frente de todos os seus colegas e disseram "Esta aqui é anti-praxe, se virmos algum de vocês a socializar com ela, serão castigados na praxe". Esta minha colega anulou a matrícula um mês depois de começarem as aulas, e veio para casa com uma depressão por ser ostracizada pelos seus colegas.

Quando, em Aveiro, eu alguma vez vi isto, podem perguntar? NUNCA! Nunca nenhum anti-praxe foi impedido de assistir à praxe. Nunca nenhum anti-praxe foi impedido de aparecer nos jantares de curso. Nunca ninguém deixou de se dar com eles por não quererem participar. Sim, é uma escolha pessoa, e claro, não terão a mesma relação que o resto dos caloiros têm entre si, mas ainda assim cada um é que sabe o que faz ou deixa de fazer.

Pelo que vi até hoje, a Praxe em Aveiro é bastante organizada e fiscalizada, além de que os caloiros têm ordens específicas da Salgadíssima Trindade para não se deixarem ser abusados, pois não permitem esses comportamentos da parte dos Veteranos, e que qualquer um que seja provado ter abusado um caloiro seja física, psicológica ou moralmente, é castigado e, se em caso grave, proibido de participar da Faina.

Acho que todas as Faculdades deveriam procurar ser assim. Tenho noção que muitas coisas são tradição, mas nao concordo com cortar cabelo a caloiros só porque estão na rua, nem com mandá-los rebolar em estrume porque estão a tirar uma Licenciatura em Veterinária. Há brincadeiras e brincadeiras, e se tratarmos os nossos caloiros com respeito, conseguiremos torná-los em Veteranos responsáveis.

Peço desculpa pelo testamento!
Continuem com os bons textos,
Ana (Veterana de 3ª Matrícula na UA)

Anónimo disse...

Boa noite,

Em primeiro lugar gostaria de dizer que gostei do seu artigo caro(a) WB... Só uma coisa a apontar você deveria falar nas coisas boas da praxe, aliás os exemplos que deu não são de praxe mas sim, de pessoas que descarregam as suas raivas nos caloiros, não respeitam os caloiros nem a eles próprios. Uma vergonha. Fui praxado à 2 anos e digo lhe que a praxe não é isso. A praxe é integrar? Ok. Integrar é subjectivo.... A praxe acima de tudo é criar laços fortes para os caloiros se ajudarem entre si durante a sua vida académica e no seu mundo de trabalho. Haver um trabalho de equipa entre todos, e para mal de si, WB, isto resultou perfeitamente no meu ano em que fui praxado. Tenho pena que o senhor nao tenha sido praxado .

Continuação
José Faria

WB disse...

Caro José Faria,

Desde obrigado pela participação.
Como poderá imaginar, nestas coisas de Praxe importa relevar o erro com vista à sua correcção. O problema, a meu ver, actualmente, até é o constante ignorar dos problemas que existem no seio praxístico ou a tendência em os menorizar.
Como diz, e bem, há casos que nada têm de Praxe, mas muitos não sabem sequer distinguir tal, daí a necessidade de reparo e alerta.
Já os objectivos que enuncia sobre Praxe estão algo deturpados ou superficializados. A Praxe não tem a função de criar entreajudas ou amiguinhos; nem a Praxe, nem as praxes. Os laços de fraternidade, companheirismo, entreajuda...., são valores que devem ser incutidos em qualquer situação, de que a Praxe não é instrumento previlegiado ou porta-voz. São valores educativos que se cultivam "à la longue".
Quando as coisas correm bem, temos mais é de nos alegrar com isso. Se foi o seu caso (ao que relata), óptimo, mas, infelizmente, o país não se resume ao seu caso, e porventura nem a sua academia.
Ora, pelo seu texto, imagimo que seja terceiranista, contudo parte do princípio que eu não fui praxado. Mas fui e pude viver na pele o lado positivo, mas também o menos agradável dos ritos de iniciação, conforme foram protagonizados por pessoas esclarecidas como por meros frutrados e incompetentes que descarregavam nos caloiros as mágoas daquilo por que tinham passado. Não fiquei traumatizado, nem pro sombras, mas desde logo me apercebi do que era a falta de transversalidade, de uniformidade, onde uns faziam assim, outros assado; uns com propriedade e saber, outros inventando e abusando.
Apesar doJosé Faria ainda não ser gente, quando fui praxado (ou andaria de culotes), lembro-me perfeitamente disso, como dos anos em que fui estudante (e Dux, já agora) e tuno, a par daquilo que ao longo destes últimos 20 anos, pude observar, ainda enquanto aluno e tuno e, posteriormente, como investigador do fenómeno. observado em diversas academias.
Há de tudo. Há quem faça bem e quem faça menos bem. Há quem faça bem, apesar de também não se Praxe, como quem faça mal e o seja muito menos (confundindo-se rito de iniciação, e seu propósito, com brincadeiras à escuteiro ou jogos tradicionais).
Mas se está bem feito, pois bem fica.
O que está menos bem é que merece maior atenção. Como dizia Cristo, se me permite esta analogia, ele veio para os pecadores, e não para os justos (que os justos são como pacientes sãos que não precisam de médico); significando que temos é de nos preocupar com o que está mal e não escamotear com o que está nos conformes (tapando sol com peneira) - exemplo em que, de modo nenhum, tenho a presunção de ser Cristo ou sequer Rabi, nestas matérias.

Anónimo disse...

Depois de ler este artigo e comentários devo dizer que há coisas em que os aclamados não-praxistas não entendem e isso é o espírito da Praxe. Quem faz Praxe como os não-praxistas tão seguramente dizem que fazem não são praxistas. São reles aclamados de doutores que levam o significado da Praxe para brincadeiras de mau gosto para passarem o seu tempo livre a visualizarem caloiros em posições absurdas e a fazer coisas que não lembram a ninguém!
Quem alguma vez conseguir definir A PRAXE está a mentir. A praxe não se define, é um sentimento que só os verdadeiros praxistas o vao partilhar e compreende-lo.
Tenho o prazer de estar em jantares com o Primus Dux-Veteranorum Antonius Megafonis e sei que se algum dia entender todo o significado da PRAXE, foi muito graças a ele.

WB disse...

Caro anónimo,

Apenas uma correcção se impõe: a Praxe é perfeitamente definível, tanto que até é alvo de estudo pro parte de investigadores, de há longos anos a esta parte.
Não confunda o que cada um sente na sua vivência, com awquilo que é um conjunto de práticas, protocolos, etiqueta, hierarquia e ritos.
Praxe não é um sentimento, nem nunca foi (aliás, se assim o fosse, assim viria esplanado nos dicionários).
Não confunda Praxe com "Espírito Académico".
Abraço