Sobre o Traje Estudantil, deixo aqui alguns
excertos (de um amplo conjunto de artigos que se debruçam sobre a origem e
evolução do património vestimentário académico, docente e discente, em Portugal
e na Europa), produzidos pelo consagrado especialista e historiador, o Professor António M. Nunes,
publicados no seu blogue Virtual Memories
(http://virtualandmemories.blogspot.com/).
NOTAS PRÉVIAS:
- O traje escolar foi sempre marcado pela indumentária religiosa dos clérigos que, nos primeiros séculos da Universidade, tinham o exclusivo de cursar os Estudos Gerais;
- Os clérigos, esses, vestem segundo a regra da sua ordem e, também, a sua hierarquia;
- As cores mais usuais eram o castanho, o pardo ( que originará a figura do “pardillo” em Espanha) e, mais tardiamente, o preto, não por imposição, mas proibição de cores mais garridas.
- A evolução do vestuário nota-se, paulatinamente, com a abertura da frequência universitária a outras classes, tornando-se mais permeável a modas (rendas, berloques, sedas, frisados, diversos tipos de chapéus/barretes, cações…..), embora fortemente balizado por critérios de sobriedade e austeridade;
- Nos Séc. XVII a tónica eclesiástica do traje foi-se acentuando, sendo de realçar a utilização da "loba", espécie de batina ou sotaina eclesiástica sem mangas, guarnecida na frente com duas filas de botões desde o pescoço até abaixo do joelho, junto com calção , capa e barrete redondo ou de cantos (o gorro só em finais do séc. XVIII).
- Loba: Vestidura eclesiástica, clerical e honorífica, que chega até o chão, cortada de maneira que nela entram os braços; dela usam também os bedéis (responsáveis pela disciplina)da Universidade.
- Os que não eram eclesiásticos sentiam-se impelidos a não destoar, vestindo à maneira dos clérigos, e também pela necessidade de identificar o foro académico e quem por ele estava abrangido. Os trajes assumem, pois, figura/função de uniforme, para distinguir so estudantes de outros mesteres e profissões.
Em inícios
do séc. XVIII a loba vai dar lugar progressivamente à “abatina”, sendo
também a partir dessa época que os trajes estudantis começam a convergir para
uma mesma forma de traje académico - embora essa forma estivesse dependente de
flutuações de moda.
Abatina: conjunto de capa e túnica (talar)
dos abades seculares de França ou de Itália, com vestido de seda negra, capa
curta, volta singela e cabeleira pequena. Mais curta e barata que a loba. O
negro, esse, significando o desapego ao mundo material e os seus votos eclesiásticos.
A “abatina” estudantil, modelo talar, (que os
estudantes passam a designar apenas por
“batina”) não seria tão comprida como a
dos lentes (até aos calcanhares = ”talons”)
e seria até bem mais curta que a capa , pelo que o uso de calções, por
exemplo, mesmo quase não se vendo
debaixo da “batina” (viam-se apenas as meias), se mantivesse.
Durante muito tempo o uso da capa e batina foi obrigatório
para o estudante, tal como, aliás, para o lente, ainda que este usasse uma
batina comprida até aos pés.
Entre 1718 e 1834, esta obrigatoriedade estendia-se a toda a
cidade.
De 1834 até à
implantação da República, em 1910, a capa e batina era apenas obrigatória
dentro do perímetro da Universidade.
Sobre a questão da origem da cor e também do mito do "traje para igualizar", já nos debruçámos anteriormente (ver AQUI).
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Passemos, pois, agora, o que nos diz o historiador, o Professor António Nunes:
O Traje Feminino e o Traje Académico
(…)
Até à consagração da
legislação abolicionista promulgada após o 5 de Outubro de 1910, em Portugal
não há notícia do uso de qualquer uniforme por parte das alunas que
frequentaram os liceus, a Universidade de Coimbra ou as Médico-Cirúrgicas de
Lisboa e Porto. A opção crescentemente generalizada pela capa e batina de
Coimbra, após a Conferência de Berlim, não parecia reunir ingredientes
satisfatórios para uma extensão unissexo ao universo feminino.
A
excessiva aproximação ao traje masculino burguês oitocentista retirara à capa e
batina estudantil a sua feição talar, pormenor denunciado por José Ramalho
Ortigão em 1888, o que na prática implicava duradoura impossibilidade de
feminilização.
Não sendo propriamente fácil, o processo de feminilização não era radicalmente impossível,
se tivermos em consideração a adaptação de fardas militares a certos corpos
femininos no decurso da Primeira Guerra Mundial.
A obrigatoriedade de uso diário de
uniforme estudantil na Universidade de Coimbra foi abolida por Decreto de
23.10.1910, situação de certa forma extensiva aos liceus onde o porte diário
masculino fora autorizado por diplomas do Ministério do Reino. O diploma
referido não declarava abolido o traje, apenas o tornava facultativo, tanto
mais que no curto prazo a esmagadora maioria dos alunos da UC, da TAUC e do
Orfeon Académico manifestaram vontade de continuar a envergar a capa e batina.
Entre 1911-1912, na Universidade do Porto, Tuna e Orfeão foram pelo mesmo
caminho. A maior parte dos liceus manteve a capa e batina que já era usada
desde a segunda metade do século XIX, ou a ela aderiu. Seguindo na esteira dos movimentos em
vias de expansão nas high schools britânicas, norte-americanas e japonesas, as
alunas dos liceus de Lisboa e do Porto surpreenderam ao optarem pela invenção
de um uniforme facultativo de tipo "high school".
Em Lisboa, alunos dos liceus tocaram a
reunir por alturas de Setembro/Outubro de 1915, com o fito de discutir e
aprovar que trajes envergar por alunos e alunas. Estas sessões terão sido
participadas por alunos da Universidade de Lisboa que decidiram adoptar a capa
e batina. Alunos mais radicais reclamaram mesmo obrigatoriedade de porte, mas
na prática, o uso da capa e batina ficou confinado aos edifícios do Campo de
Santana e a grupúsculos masculinos da Faculdade de Direito.
Na Universidade do Porto, em reunião
inter-faculdades, realizada em finais de Fevereiro de 1916, decidiu-se
implementar o uso generalizado da capa e batina a partir do dia 15 de Março de
1916. Faltam-nos
dados sobre as matérias deliberadas nestas reuniões e perfil dos participantes,
não sendo possível apurar se a decisão abrangeu alunos e alunas da UP, ou se
marcaram presença alunos/alunos dos liceus. A "Gazeta de Coimbra",
nas suas edições de 27.10.1915 e 4.03.1916 dá conta que em Lisboa já se viam
"meninas" trajadas, certamente liceais. Aliás, a promulgação do Decreto nº 10.290, de 12.11.1924, que procedeu
à nacionalização da capa e batina nos liceus e ensino superior, teve como
antecedente imediato um conflito entre uma liceal e um reitor de um dos liceus
de Lisboa por conta do uso ou não uso de traje.
Ao
referido conjunto se adicionou uma capa preta, e conforme atestam as
fotografias supra uma barretina redonda. Este último elemento, resulta de uma
transformação do barrete islâmico do magrebe, o "chéchia" ou
"kufix", que também era usado desde 1859 em escolas militares
britânicas de formação de cadetes ("pillbox hat"). Antes de ter feito
a sua entrada triunfal nos liceus de Lisboa, Porto e Évora ("tacho"),
em versão unissexo, o "pillbox" já era largamente usado em Portugal
por militares e impedidos de oficial.(…).
Ia adiantado o século XX quando se acendeu a discussão sobre
a necessidade de as alunas da Universidade de Coimbra tirarem benefícios
práticos do uso de um traje de tipo uniforme. Não ter traje académico fazia
parte da identidade das académicas da UC desde 1891, ano em que
contemporaneamente se matriculou a primeira aluna. A não participação feminina
na vida associativa, a ausência de organismos culturais mistos até 1938 e a
omissão da cerimónia de formatura de bacharéis e licenciados desde 1910, foram
justificando a inércia observada em Coimbra. A nível dos liceus locais, mesmo
considerando o Liceu Feminino Infanta D. Maria, nada consta quanto a um
hipotético uso de farda, se considerarmos que a muito usada bata não era
propriamente um uniforme.
As alunas da UC tinham o privilégio do uso de pasta com fitas
e capa preta sem uniforme, costume que na década de 1980 ainda era praticado por
quintanistas que iam ao Baile de Gala das Faculdades. Nos finais da década de
1940 este estado de coisas começou a mudar quase imperceptivelmente. As
universitárias de Coimbra estavam a par do uso do tailluer nos liceus e no
Orfeon Universitário do Porto. O peso crescentemente atribuído desde meados da
década de 40 às latadas de começo de ano escolar e às cerimónias de imposição de
insígnias (grelos no 4º ano, fitas no 5º ano), começaram a suscitar em alunas da
Faculdade de Letras vontade de adopção de um traje académico. Nos festejos de
Novembro de 1949, a estudante de Germânicas Ilda Pedroso desfilou com um
conjunto saia/batina/capa, acontecimento muito comentado no millieu, mas bem
acolhido. Todas as informações consultadas testemunham a opção pela saia, numa
época em que os códigos vigentes não poderiam aceitar na mulher o porte de calça
comprida, e a batina masculina abaixo do joelho (frock coat), com lapelas de
cetim.

Em face dos conhecimentos disponíveis ainda não é possível saber se as alunas da UP começaram a usar o tailleur preto em Março de 1916, ou se o movimento ficou confinado às liceais. Sabe-se, no entanto, que a feminilização do Orfeão Universitário desde ca. 1944-1945 esteve na origem da consagração do tailleur pelas orfeonistas portuenses. Na fotografia supra, do ano lectivo de 1946-1947, oriunda do espólio do Dr. Álvaro Andrade, é bem visível uma orfeonista com tailleur preto, conforme o figurino tubular da época, meias cor da pele, gravata e capa. Terá o tailleur debutado restritamente no Orfeão Universitário, com ulterior generalização na universidade?"
(…)
Na Coimbra de finais do século XIX, e anos que se lhe seguiram, a profunda
masculinização operada no imaginário académico e no conjunto casaca/calça
comprida/colete inviabilizaria por décadas o processo de feminilização. Dizendo-se um traje progressista no
confronto discursivo entre cultura burguesa e herança aristocrático-clerical, o
traje académico burguês revelou-se empedernidamente sexista, e nessa medida
reccionário face à dinâmica de mudança. Não sendo detentor da riqueza artística
das vestes talares nem da sua polivalência unissexo, os fatos burgueses apostam
na demarcação territorial e simbólica dos sexos através da sobrevalorização de
peças secundárias como a calça comprida (sexo M) e a saia (sexo F), mesmo
quando em contextos militares e policiais tal distinção foi abandonada
.

Como se verá mais adiante, os modelos de colete e de capa vulgar
louvados pelos estudantes de Coimbra como grandes conquistas civilizacionais
contra o “obscurantismo” eram aflorações retardadas e esteticamente inferiores
a peças vestimentárias que as mulheres do povo conheciam e usavam desde o século
XVI. O colete feminino, de bainha lisa ou recortes, a fechar com atilhos, era
usado pelas camponesas em contextos de trabalho e solenidades. A versão de luxo
podia comportar motivos bordados e tecidos de seda enramada. A capa de honras
feminina das lavradreiras abastadas e meias-senhoras (bem com os capotes,
mantéus e capoteiras), em lã fina, com golas e bordados ainda era usada um
pouco por todo o Portugal nos casamentos, baptizados, funerais, missas,
entradas régias e entradas episcopais no tempo em que as primeiras alunas
chegaram à UC.
Ao abandonarem o hábito talar
tradicional, substituindo-o por um traje burguês citadino, singelo em tecido e
figurino, os estudantes de Coimbra proclamavam-se progressistas. Ponderando
estas afirmações em 1888, um profundo especialista da cultura e dos trajes
propulares, José Ramalho Ortigão, duvidou da pertinência do discurso. A partir
do momento em que o traje académico se transformava num produto esteticamente
inferior à maior parte das peças usadas pelos camponeses portugueses como traje
domingueiro, para se nivelar com o chamado traje ou fato de trabalho,
tornara-se difícil descortinar-lhe traços de progressismo.

Em
Portugal, as Escolas Médico-Cirúrgicas de Lisboa, Porto, Funchal e Ponta
Delgada, fundadas a partir de 1836 , começaram
por não instituir qualquer traje talar ou militar para docentes e discentes. O
mesmo rumo foi seguido desde 1837 pela Escola Politécnica de Lisboa e Academia
Politécnica do Porto , onde o fácies paramilitar não foi bastante para trazer
aos muros destas instituições, nos anos iniciais, o grande uniforme
napoleónico. Não obstante, os docentes militares das politécnicas usavam as
fardas respectivas.
Novas instituições portuguesas de
ensino como o Curso Superior de Letras (1859) e o Instituto de Agronomia e
Veterinária (1864) não se mostraram receptivas a insígnias, rituais académicos
ou trajes para alunos e docentes. A casaca preta/calça
comprida/colete/cartola/chapéu de coco, com o indispensável complemento de
bengala de castão de prata, terão sido os elementos vestimentários laico-burgueses
mais celebrados por este tipo de instituições que não se reviam no modelo talar
conimbricense.
Nos alvores da década de 1850, concretamente em 1852, a
Rainha D. Maria II foi
recebida pelos lentes da Academia Politécnica do Porto em casaca preta, colete,
calças compridas, sapatos e meias de seda ,a que não terá
faltado a indispensável cartola [e bengala]. (…)

Confirmando o paradigma laico-burguês,
docentes e discentes do Curso Superior de Letras e do Instituto de Agronomia e
Veterinária entrariam no século XX de labita preta e cartola, costume de
certa forma prolongado após a respectiva integração nas universidades fundadas
em Lisboa após 1910
.
As
escolas de ensino técnico-profissional de agricultura, lançadas pela legislação
fontista de 16 de Dezembro de 1852, e reorganizadas por Emídio Navarro (Decreto
de 2.12.1886), não terão definido traje docente.

Situação próxima da referida terá sido vivenciada pelos
alunos e docentes das escolas industriais de ensino médio (Decreto de
30.12.1852), cuja rede regional atravessaria um processo de intensificação
quando António Augusto Aguiar liderou a pasta das Obras Públicas . Aqui, a
opção terá recaído na articulação de um conjunto prático civil (calça
comprida/camisa) com um boné de pala e uma bata, conforme usança oficinal nas
escolas francesas de artes e ofícios mecânicos. Ao longo da primeira metade do
século XX, os alunos da Escola Industrial Brotero, de Coimbra, ficariam
conhecidos pelo apodo “lagarto azul”, graças ao fato de ganga ou fato de macaco
oficinal que não sendo uma farda acabava por funcionar como tal .
Estabelecimento
de ensino médio era também o Instituto Industrial e Comercial de Lisboa, filho
do Decreto de 25 de Janeiro de 1894, substituído após 1911 pelos Instituto
Superior Técnico e pelo Instituto Superior de Comércio, para o qual não foi
definido traje profissional. O mesmo acontecia com o Instituto Comercial do
Porto, criado pelo Ministro João Franco em 1891 .

O etnólogo José Leite de Vasconcelos,
antigo aluno da Médico-Cirúrgica do Porto, mostrar-se-ia hostil ao uso da capa
e batina nas escolas politécnicas portuguesas e liceus . E com Vasconcelos
estariam muitos dos liberais de oitocentos que assumiam como traço identitário
o fato masculino burguês usado nas cidades ocidentais.
Em Lisboa, o ambiente propiciatório da
constituição de tunas académicas e o empenhamento dos estudantes em causas
públicas após o Ultimatum terão contribuído para a naturalização da capa e
batina entre os liceais e politécnicos.
Seria
a Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa a dar o passo em direcção ao grande e ao
pequeno uniformes, mas restringindo-os ao corpo docente. O Decreto de 1 de
Outubro de 1856 adoptava a título de pequeno uniforme de porte quotidiano uma
toga preta talar, de um corpo, em grande parte resultante da fusão da beca
judiciária portuguesa com a toga de advogado, lacinho branco, cintura de borlas
pendentes, sapatos pretos de fivela e barrete cónico; e um grande uniforme
napoleónico, à base de casaca militar azul escura, com bordados a ouro, gravata
e colete brancos, calça comprida azul escura avivada a ouro, bicórnio emplumado
e espadim .

A
militarização imagética das academias científicas e dos politécnicos
inscrevia-se num conjunto de representações liberais e descristianizadoras, reunindo
amplos consensos entre as elites ocidentais que vociferando contra a hegemonia
espiritual católica se reviam no perfil heróico e disciplinado do militar
fardado.
(…)
No
caso de Coimbra, o abolicionismo periodicamente reclamado, não se confinava a mera
parusia niilista. Um
horizonte imaginário de símbolos alternativos à batina, aos calções, ao
colarinho raso e ao cerimonial tradicional piscava o olho à labita burguesa e
às fardas militares. Quanto ao destino a conferir à capa, o romantismo estético
pululante reservou-lhe lugar especial no imaginário masculino das vivências
anónimas e do heroísmo individualizado. A gesta de capa e espada, muito
enraizada na centúria de oitocentos, e depois apropriada pelo cinema de
aventuras de Hollywood, não concebia um prestidigitador, um Drácula, um
Fantasma da Ópera, um Zorro ou um Superman sem capote ou capa esvoaçante . Eça
de Queirós, também ele, não concebeu Antero de Quental a discursar revoltas no
adro da Sé Nova de Coimbra sem a romântica capa negra a descair pelo ombro .
(…)
Mas
não nos deixemos ludibriar perante este aparente fracasso do paradigma
napoleónico naturalizado nos países ocidentais não abrangidos na esfera da
cultura escolar anglo-saxónica. Relendo com atenção a literatura de época e
visualizando as fotografias disponíveis, rapidamente
se conclui que na UC, nas Médico-Cirúrgicas e nas Politécnicas de Lisboa e
Porto, o traje militar masculino fora reconhecido aos alunos como equiparado a
“traje académico” para efeitos de frequência de aulas, exames e cerimónias
.
(…)
Seriam ainda os liceus de Lisboa e Porto a inventar espontaneamente entre 1915-1916 o traje feminino, à base de tailleur saia-casaco e capa, o qual só muito tardiamente entrou nas universidades: na do Porto em 1946, pela mão das alunas sócias do Orfeão; na de Coimbra em 1951, devido à acção das sócias do Teatro dos Estudantes, seguindo-se generalização não pacífica decretada pelo Conselho de Veteranos em 1954 .
Após a criação das universidades de
Lisboa e Porto, os alunos portuenses ligados à tuna e orfeão adoptaram desde
1911-1912 a capa e batina dos conimbricenses, seguindo-se uma adesão
generalizada a partir de 15.03.1916. Em Lisboa, o uso da capa e batina ficaria
duradouramente restringido aos liceus e a franjas de alunos da Faculdade de
Direito então situada no Campo de Santana. Na vizinha Faculdade de Medicina, o
uso de capa e batina seria bem menos expressivo do que o filme A canção de
Lisboa (1933) parece deixar antever .(…)
NOTA: Sobre o papel dos estudantes da República da
Ladeira do Seminário, em Coimbra, diz-nos A. Nunes que o “ que os “ladeiras”
fizeram foi hiperbolizar o uso ostensivo de coletes de seda multicolores
(brancos, vermelhos, cinzentos, em brocado ou seda enramada) que exibiam
trazendo as carcelas das batinas desabotoadas. Pareciam noivos em dia de
casamento. Não reformaram nada no traje.
O actual figurino da capa e batina de matriz
conimbricense, variante masculina, tem a sua origem nas transformações
implementadas pelos adeptos da Greve Académica de 1907, que logo se começaram a
generalizar na Academia de Coimbra: sobrecasaca preta desabotoada, lapelas
dobradas em V sobre o peito e forradas de cetim preto, capa enrolada no
colarinho ou deitada no braço ou no ombro direito. Em 1910 os liceus e a
Universidade do Porto adoptaram as propostas dos conimbricenses.
O actual modelo de traje feminino, embora tenha começado
a usar-se em 1915 nos liceus de Lisboa, só ganhou a feição actual por 1945
quando passou a ser usado pelas estudantes membros do Orfeão Universitário do
Porto.”
13 comentários:
Até que enfim uma explicação cabal e objectiva que acaba com essa coisa de que o traje tem origem no clero. Parabéns ao historiador António Nunes pelo trabalho e ao Notas e Melodias por o ter citado de forma resumida.
Aprende-se muito aqui, quando se tem vontade de aprender.
Carlos Martins
Obrigado, caro Carlos.
Quando não se sabe tanto como quem sabe, e correndo o risco de não ser tão preciso e minucioso, o melhor é citar os mestres.
E fez-se luz!
Tanta historietas que foram uns estudantes da Ladeira de Coimbra, e que foi isto ou aquilo, tanta teoria, mas finalmente alguém se dignou disponibilizar uma informação de jeito.
Adorei saber da origem do traje feminino e vou recomendar às minhas colegas e aos meus colegas praxistas.
O grande mérito do autor deste blogue não está apenas no que sabe, mas em disponibilizar essa informação seja dele ou de outros que merecem a mesma credibilidade.
Divulga-se tanta merda por aí e por vezes esquecemo-nos de divulgar o que é de qualidade como este site.
Parabéns e boa continuação.
Rosa Quinteiro
Atenção que os Primeiros Estudantes Universitários a Usarem o Trajo Académico na forma que o conhecemos hoje foram os da Republica da Ladeira do Seminário. e isto são factos históricos comprovados (Jornal de Coimbra se não estou em erro)
Mas basta irem ao Museu Académico que está lá...
E não nos podemos nunca separar do facto que o Trajo Académico e uma forma de continuação do Habito Talar usado pelos primeiros Estudantes
Caro Imperator, nada mais errado!
Cuidado que notícias jornalísticas nem sempre são fiáveis. Muitos jornalistas interpretam o que véem sem conhecerem as circunstâncias ou terem visão holística das coisas.
Estudantes universitário a usarem a capa e batina como hoje a conhecemos (e que pouco mudou desde inícios do séc. XX) já os há há bem mais tempo. E não, meu caro, a capa e batina não tem rigorosamente nada a ver com o hábito/traje talar. Releia atentamente de fio a pavio o estudo de António Nunes, por favor.
Só mais uma nota segundo consta dos dados da Universidade do Porto o Trajo Académico Feminino foi pela primeira vez usado por 3 alunas da Faculdade de Belas Artes um modelo transposto do Trajo Académico Liceal
Existe a fotografia nos Arquivos da Universidade do Porto com esta referencia feita no verso...
As alunas do OUP usaram nas suas primeiras actuações um vestido de gala "purpura" sendo que algumas começaram a usar Capa preta em conjunto com o vestido. Sendo que depois dotaram o Trajo falado em cima.
Viva, Pierríssimo:
João Caramalho Domingues (blogue "Porto Académico") desenvolveu um interessantíssimo estudo sobre o traje académico feminino.
Segundo ele, o traje académico feminino não teria nascido no OUP. Em prova desta asserção, apresenta uma série de fotografias todas elas anteriores a 1940 de alunas de liceus vários do nosso país posando com diferentes peças, tendo como denominador comum a capa.
Ainda segundo o mesmo investigador, as alunas do Liceu Alexandre Herculano do Porto usariam já o modelo saia-casaco/gravata/meias pretas com camisa branca. A foto é de uma parente do autor.
No entanto, algumas dúvidas subsistem. Consultei pessoalmente o Prof. Dr. Aureliano da Fonseca (o compositor dos "Amores de Estudante"), ele próprio um "alexandrino", que me garantiu que as alunas daquele Liceu não usarem qualquer traje. O distinto médico e Tuno entrou para a Univ. do Porto em 1936/1937.
Do debate que mantive com o João, resultou que há sempre a hipótese de a fotografia ser uma pose de estúdio, já que a menina está de gorro e parece ter uma pasta com fitas na mão, o que invalida a possibilidade de ser um traje de frequência quotidiana.
Importa ainda ressalvar que a fotografia era um suporte extremamente caro, pelo que não era frequente a obtenção de instantâneos na rua. As fotografias desses anos eram quase sempre "estudadas" e tiradas em ambientes controlados, pelo que haverá que usar de alguma cautela na interpretação das mesmas.
Em todo o caso, fica a referência para quem quiser seguir e aprofundar este assunto.
Aquele abraço!
Eduardo
ÓTIMO BLOG. SUCESSO!
Boas parabéns Gostei do vosso blog, sou totalmente a favor da tradição do traje academico.
Gostei Principalmente de ver uma foto minha!!!
Eu sou aquele do traje actual sem cabeça nem mão.
Criei essa foto para quando fiz o regulamento do Traje Académico para a Associação de Estudantes de Geografia da Universidade Lusofona.
Abraços e Parabéns
Boa tarde,
Após a leitura deste texto, especialmente no que toca à origem do traje feminino, surgiu-me uma dúvida.
Se o traje feminino surgiu no Porto, com a Tuna Feminina do Orfeão e era composto por capa, saia, camisa, casaco e meias de cor da pele; como se explica que atualmente na academia do Porto, as meias utilizadas sejam de cor preta?
Desde já obrigada e espero que me consiga esclarecer.
Caro(a) anónimo(a),
O traje feminino não surgiu no Porto, fique claro. Existe um artigo neste mesmo blogue que explica a sua real origem (encontra-o listado do lado esquerdo da página).
Em breve será publicado um artigo a explicar a questão que coloca.
Apenas avançar que foi algo que resultou d euma determinação do MCV de Coimbra, no código de 1957, à revelia do corpo discente feminino (que não foi tido nem achado na questão).
A partir dos anos 1980, generalizou-se o uso da meia preta nas senhoras, quando até aí só Coimbra o fazia (erradamente).
Não me parece correcto dizer que em Coimbra, a meia usada pelas estudantes era preta. A meia era cor da pele e não preta. Disso tenho absoluta certeza, por ter sido do meu tempo. Só quando se voltou a usar o traje académico, após o luto académico sem data, é que, inexplicavelmente, em Coimbra, aparece a meia preta nas estudantes...
Porta férrea,
É com o código de 57 que se estipula o uso de meias pretas.
Obviamente que ouve resistências a tal, numa academia que ou as usava cor da pele ou nem sequer usava meias.
Foi bem mais tarde, nomeadamente a partir da década de 1980 que elas se generalizam. Isso está explicado aqui neste artigo:
http://notasemelodias.blogspot.pt/2014/11/notas-saia-e-meias-do-traje-academico.html
cumps
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