sábado, outubro 25, 2014

Notas ao uso da Capa (Praxe Traçada com praxismos)



O que não falta por aí são versões, lendas e romanceadas ideias de como se deve usar uma capa com o traje académico.
Assim, temos ditames que determinam que se usa desta ou daquela maneira, em função de inúmeras variáveis que rivalizam entre si em ignorância e autismo.
Ele é em função da hierarquia, de praxes com caloiros, de estar na praxe, de praxismo, do "disse que disse"...... uma caterva de razões que os códigos respectivos consagram a modos que registo de idiotices.
 
 
A capa tem uma função primordial e existe por uma única razão: AGASALHAR.
 
Porque parte de um uniforme, segue, para um conjunto muito restrito de situações, aquilo que é a etiqueta e protocolo próprios do uso do traje (Praxe), a saber:
 
 
- TRAÇADA: APENAS E UNICAMENTE (como próprio da etiqueta/praxis académica) em serenatas (Monumentais) e em trupe;
 
- DESCAÍDA PELOS OMBROS (sem quaisquer dobras): APENAS E UNICAMENTE (como próprio da etiqueta/praxis académica) em momentos solenes ou perante autoridades;
 
 
Assim, meus caros leitores, nem mesmo para praxar é imperativo traçar a capa, como alguns preconizam. Muitos menos por ser noite.

Fora estas situações específicas em que a capa se tem de usar como acima mencionámos, a mesma usa-se como cada um bem entender, seja caloiro ou veterano.

A essas maneiras informais e comuns de usar a capa, se dão várias designações, conforme o modo como a mesma é transportada (à tricana [1], também apelidada de "à senador", ou seja com a capa passando por baixo do braço direito; à ninja, pelos ombros, ao ombro, ao braço, à cabeça........), que não passam disso mesmo: designações correntes e em jeito de cognomes, atribuídas com a época em que se tornaram moda.
 
Nisso não há Praxe alguma, precisamente porque esses usos não são nem obrigatórios nem proibidos (salvo nas únicas situações que atrás citámos).

Nota: Como referimos em nota de rodapé, a designação do "traçar à tricana" poderá não ter propriamente origem nas mesmas e no modo como usavam o lenço em torno do tronco, pois que já os estudantes usavam a capa desse modo, ainda antes das tricanas o fazerem, além de que dificilmente se explica que, no país vizinho, estudantes e tunas já o fizessem também.
 
 
Mas é proibido usar capa traçada numa praxe ou descaída sem dobras noutras situações do dia-a-dia? NÃO!
Pode-se, então, usar? PODE!
Mas sou obrigado a usar? NÃO!!
 
Existe, recordemos, uma diferença enorme entre aquilo que é obrigatório, secundum praxis, e aquilo que é permitido fora dessa obrigatoriedade

Porque não existe proibição ou restrições a nenhum modo de usar a capa fora dos casos previstos, cada qual usa como lhe der jeito e lhe for confortável.

Não há obrigatoriedades que não as acima mencionadas, sendo que não há igualmente restrições fora das situações referidas.

E muito menos existe qualquer fundamentação para não estar afastado da capa mais que X distância. Isso não tem qualquer base histórica ou tradicional. E quem acha que tem, prove-o documental e historicamente, e não com recurso ao produto dos seus intestinos ou com aquilo que emprenhou pelos ouvidos.

Estar demasiado afastado da sua capa, seja por que razão for (cada um sabe de si), pode é implicar alguém no la roubar, tal como deixar a carteira ou o telemóvel, nada mais [2].

As únicas situações em que é imperativo estar correctamente trajado é nas actividades em que, por tradição, o estudante se deve apresentar rigorosamente uniformizado.
Obviamente que, fora estas situações, o estudante tem apenas o dever moral, e brio pessoal, de saber dignificar o traje que enverga, sem contudo que tal implique ortodoxias  e papismos fundamentalistas de medições de distâncias ou contagem de peças que se traz no corpo, especialmente em situações em que o bom-senso e a etiqueta mandam que não se esteja vestido como se estivéssemos em noite gélida.

Não passa pela cabeça de alguém inteligente que se muda um pneu furado totalmente trajado ou que é crime de lesa praxis estar numa esplanada de café sem o poder fazer em colete. Do mesmo modo que almoçar sem casaca (batina) é não apenas conveniente como nada tem a ver com praxe.
E mesmo, por exemplo, em eventos académicos como Baile de Gala, mandam os bons costumes que o estudante dance sem capa, e não deixa de estar "fora da praxe" por isso.


Estar na Praxe é saber obedecer ao que a etiqueta e protocolo académicos determinam para certas situações e não para todas só porque se está trajado.

Pasme-se que, até no que concerne ao traçar da capa em serenatas não havia inicialmente qualquer codificação que obrigasse a taparem-se os colarinhos brancos (quanto mais a estupidez de arregaçar as mangas - más há gente idiota que o faz pensando que é obrigatório, que é da praxe).
Isso de "tapar os brancos" (e apenas os colarinhos) foi uma convenção mais tardia, tanto que Alberto Lamy nada refere quando fala das Serenatas Monumentais (nem quando fala de Trupes), o que por si só é suficientemente esclarecedor:

"A Serenata Monumental, ao cimo das escadarias que conduzem à entrada principal da Sé Velha, o altar do Fado de Coimbra, marca o início das festas da Queima das Fitas.
Integrada nas festas da Queima, pela primeira vez em 1949, a Serenata Monumental é a consagração dos guitarristas e cantores que nela actual.
(...)
É praxe, na Serenata Monumental, não se baterem palmas e os assistentes manterem-se em silêncio até ao final. Os estudantes devem ter a capa traçada e as insígnias pessoais recolhidas.
Após a restauração das tradições (1980), voltou a ser praxe a realização, em seguida à Serenata Monumental, da Ceia dos Boémios (actualmente na cava do Departamento de Química)." [3].

Nota: nas demais serenatas, não existia, em épocas mais recuadas, qualquer codificação em sequer se traçar a capa. Algumas fotos esclarecedoras disso são prova no artigo que anteriormente dedicámos à praxis da Serenata (ver AQUI).

Como se pode verificar, nem mesmo essa obsessão pelos "brancos proibidos" merece tão devota ortodoxia, especialmente no que concerne às mangas, as quais, quando trajado a rigor (momentos formais), secundum praxis, devem estar abotoadas, porque assim é educação e etiqueta, como a Praxe preconiza. Fora isso, cada qual arregace à vontade.

Usa-se a capa como dá jeito, sabendo que há ocasiões muito específicas (e são tão poucas que não há que enganar) em que ela se usa de determinada maneira.

Tudo o que vá para além disso, esteja num código ou em papel higiénico usado (muitas vezes são sinónimos) é excesso de zelo movido por fantasias romanceadas pela ignorância, pelo gosto da picuinhice e promover farisaicos preceitos que obstruem as mentes, asfixiam a Tradição e cobrem de ridículo quem assim pavoneia a sua ignorância.
Ficam alguns clichés suficientemente claros.
Estudante de Coimbra no séc. XVIII
 com capa traçada descaída sobre o peito.


Estudante de Coimbra no séc. XVIII


Estudante espanhol, no séc. XIX


Antigo estudante espanhol. do séc. XIX
(Museo Internacional del Estudiante)
Julgamento do caloiro (1940) com o mesmo trajado com a capa pelo ombro
e os demais usando a capa de diversas formas (sem obrigatoriedade de estar traçada).


Pintura mural de uma trupe, na qual podemos ver o uso da
traçada ou até enrolada ao pescoço.
(Real República Rás-Teparta)
Trupe (cliché tirado para postal ilustrado - por isso foto diurna)
em que alguns elementos usam a capa pela cabeça e o caloiro a tem descaída.
(1940)

Trupe em foto de estúdio (para postal ilustrado) com o
caloiro a usar a capa no braço.
Estudante da UC em 1891

Manuel Louzã Henriques, dia de formatura,
com os sineiros da Torre da Universidade (p.189) em 1961.

Quintanistas de Coimbra em Récita, onde podemos ver alguns
estudantes disfarçados de tricanas (e usando o lenço traçado sobre o peito).
Ilustração Portugueza, 1ª Ano, Nº 23, de 11 de Abril de 1904, p. 359
 (Hemeroteca Municipal de Lisboa).

Os Estudantes Portugueses em Paris, onde podemos ver
 diversas formas de usar a capa.
 Illustração Portugueza, 2ª série, Nº 11, de 7 de Maio de 1906, p. 341.
Liceu Alexandre Herculano, do Porto, no ano lectivo de 1905-1906.
Foto de Padre Moreira das Neves, -o Cardeal Cerejeira, Lisboa, ProDomo, 1948
Benção das Pastas na capital, a qual se realizou em 1933
 (na Igreja dos Mártires), para os "quintanistas católicos de direito e medicina.
Por se tratar de cerimónia solene, a capa está descaída sobre os ombros.
(Ilustração, 8º Ano, Nº 6 (174), de 16 Março 1933, p.10 - Hemeroteca Municipal de Lisboa)
Tuna Porto 1897, com os elementos usando capa de várias maneiras
 O Tripeiro, V série, ano VII, n.º 10 (Setembro de 1951), pág. 99
Pequena BD onde se retratam estudantes na praxe,
usando a capa de várias formas (pelos ombros, à tricana e ao braço)
O Caspa e Batina - Jornal da Mocidade Portuguesa da 1ª série, 1938, p.4
Serenata Monumental em Coimbra, com o uso da capa traçada.
Queima do grelo (que dá o nome à Queima das Fitas) na UC,
onde podemos ver o estudante de capa ao ombro.




[1] Por, segundo certas correntes, imitar a forma como as tricanas de Coimbra usavam o lenço em torno do tronco (algo que não consegue explicar como a mesma moda ocorria no ps estudantes do país vizinho). Uma forma de usar a capa muito comum no séc. XIX e (até à década de 1960), como dezenas de clichés da época o comprovam, tunas portuguesas e espanholas inclusive.
[2] E se é para praxar ou participar de uma actividade formal, então a questão não se coloca, porque obrigatório trajar a rigor.
[3] LAMY, Alberto Sousa, A Academia de Coimbra, 1537-1990, História, Praxe, Boémia e Estudo, Partidas e Piadas, Organismos Académicos. Lisboa, Rei dos Livros, 2ª edição, 1990,p. 673

4 comentários:

Jane Doe disse...

Boas! Antes demais, quero apenas dizer que sou grande admiradora deste blog e que tenho vindo a aprender mais e mais, de cada vez que o visito.
A riqueza do que escreve e a fundamentação que apresenta, em vez do típico "é assim, porque sim!" é de valor.
Posto isto, sendo segundanista da Academia da Universidade do Porto,e sobre este tema gostaria de deixar uma questão.
Ao contrário daquilo que já algumas vezes me foi dito, sabia que não havia obrigação cega de ter a capa traçada quando em praxe, ou á noite. Tudo depende da situação. Quero apenas perguntar, se, como forma de respeitar a hierarquia intrínseca á Praxe, um praxista com mais matriculas que eu tiver a capa traçada,sou obrigada a traçar? (reforço: como forma de respeitar a hierarquia).
Obrigada!

WB disse...

Jane Doe,

Em momento algum precisa de fazer tal para respeitar outro praxista.
Imagine que o tipo está com febre e, devido aos arrepios traça a capa, isto apesar de estar calor. Você faz o mesmo?
Claro que não.

O respeito é pela Tradição. Respeitando-a, todos se respeitam.

Abraço

Anónimo disse...

Boas, desde já aproveito para dizer que sou um grande admirador deste blog e sempre que o visito tenho cada vez mais tenho noção de que nem tudo o que aprendo sobre "praxe" é Praxe. Tenho uma dúvida no que diz respeito ao uso da capa no gozo ao caloiro. Quando estamos a fazer o gozo ao caloiro, somos livres de qualquer protocolo de uso da capa ou como sempre me disseram "tem de estar sobre os ombros ou traçada" ou então "como estiver o mais velho"? Obrigado

WB disse...

Caro anónimo,

No gozo ao caloiro a capa pod estar como bm entender, traçada, aosombros, dobrada ao ombro..... tem é de estar com ela, apenas isso.

Abraço