segunda-feira, novembro 07, 2011

Notas aos Relógios na Praxe

O relógio de bolso e o relógio de pulso na Praxe

 Não há como negá-lo: grassa uma enorme confusão e um enorme equívoco quanto ao uso de relógio de pulso com traje académico.
Muito se ouve dizer, nos meios estudantis, nos meios praxísticos, que não se usa relógio de pulso quando trajado.
Nunca ninguém, contudo, conseguiu dar uma cabal explicação e justificação para esse facto. Nenhum código que preconiza tal tonteria sequer explica o porquê dessa determinação.

Esse mito, criado sabe-se lá bem quando e onde (entre os anos 80 e 90 do séc. XX), foi replicado por sucessivas criações de novos códigos de praxe, nas emergentes e recém-criadas instituições de ensino superior, que mais não eram do que cópia de outro(s) que se adaptava(m) e reformulava(m) – e que outros copiavam e alteravam…e assim por diante.
O facto é que essa ideia, tornada lei proibitiva em muitos códigos, não passa de um enorme equívoco que não tem qualquer suporte histórico que o valide.
Todos eles (os que dizem que é proibido o relógio de pulso) permitem, apenas, o uso de relógio de bolso (vulgo cebolas), supostamente por ser a tradição histórica entre os estudantes de antigamente; supostamente porque nunca o relógio de pulso foi de praxe, era usado, era tradicionalmente utilizado.

Pois nada mais falso.
Este é mais um dos muitos mitos, das muitas mentiras e ficções que enchem páginas e páginas de códigos ditos “de Praxe”.
E vejam que até estudantes de Coimbra e Porto encontramos com essa ideia errónea, quando nunca o código de Coimbra, nem mesmo o projecto de código do Porto (de Balau e Soromenho), alguma vez, proibiram o relógio de pulso.
De Praxe não é nenhum relógio, como nunca o foi historicamente.
De Praxe, então, é qualquer relógio, seja de pulso ou de bolso, de ponteiros ou digital, de marca ou comprado nos chineses.


O que sabemos, historicamente?

 O relógio de pulso aparece na 2ª metade do séc. XIX, com várias empresas a reclamarem para si o ónus da invenção, como é o caso da empresa Patek Philippe, no fim do século XIX com rápida difusão, a qual, segundo consta, se deve, igualmente, ao famoso Alberto Santos Dumont que, em idos de 1904, pediu ao seu amigo, o famoso joalheiro Louis-François Cartier, que lhe desenhasse um relógio adequado aos rigores e necessidades dos aviadores, e que viria a ser o 1º relógio de pulso masculino (pois femininos já existiam).

Dada a enorme fama que gozava, foi, de imediato, imitado, popularizando-se o uso do relógio no pulso, passando a ser ícone de “estar na moda” e, logo, entrando nos adereços imprescindíveis da toilette masculina, a começar pelos da alta sociedade.

Note-se, a título de curiosidade, que o relógio de pulso se torna referência social para diferenciar o lado esquerdo do direito, dizendo a etiqueta que “o lado esquerdo é o do braço onde colocamos o relógio.”

 Sabemos, igualmente que, em Portugal, o relógio se populariza muito rapidamente a partir de 1914, como aliás em toda a Europa, por impulsão da I Guerra Mundial, pois os soldados precisavam de um meio prático de saberem as horas.
Um artigo publicado na revista "Sábado" (nº 334 de 23 a 29 de Setembro de 2010, p. 52-68), sobre "O dia-a-dia em Portugal há 100 anos", do historiador Rui Ramos, confirma (p. 60) que " O relógio de pulso se tornou popular entre os jovens em 1914".

Assim, a rapaziada rapidamente teve acesso a um “gadjet” bem mais barato e apetecível, bem mais prático e na moda, substituindo, rapidamente, os dispendiosos relógio de bolso (que não estavam ao alcance de todas as bolsas e eram reservados à idade adulta – muitas vezes passados de pais para filhos, normalmente ao mais velho, em jeito de herança, quando estes se emancipavam e “substituíam” seus pais no “comando” da família).

 Relógio de Bolso? Só para alguns.

NOTA: o tema foi actualizado (2019) sobre os relógios de bolso que até eram proibidos com traje. Ler AQUI.

 É, pois, natural que, até mesmo em Coimbra, Porto ou Lisboa, assim se verificasse essa mudança entre os estudantes.

 De realçar que afirmar que era prática generalizada os estudantes usarem relógio de bolso (que é o que supõem, mal, os códigos de praxe, numa espécie de revivalismo histórico romanceado) é falacioso. Não apenas por ser objecto dispendioso, mas porque a larga maioria dos estudantes nem posses teriam para ter um seu – mas porque, para terem horas, podiam sempre recorrer ao rebater da “Cabra[1]” ou de qualquer outro sino que, do alto das torres das igrejas, iam dando as horas (as “matinas”, as “ave-marias” pelas quais o povo organizava a sua vida no campo ou na cidade).

O relógio de bolso era, de facto, usado pelos estudantes até à década de 40-50, e António Nunes diz que "O relógio de bolso ou “cebola”, em ouro e prata, com ou sem símbolos, com e sem monogramas, é um objecto de prestígio tradicionalmente usado pelos estudantes de Coimbra do sexo masculino" , mas, mesmo assim, não o era pela maioria, tendo sido gradualmente substituído pelo de pulso (esse sim bem mais generalizado).
Estranha-se, assim, que os muitos praxistas que defendem (e defendem mal, por ignorância) que o traje foi criado para esbater as diferenças sociais (bem sabemos que tal é falso), sejam, muitas vezes, os mesmos que dizem ser proibido o relógio de pulso para se usar o de bolso – quando o relógio de bolso, nesse contexto, é, até, sinal de riquismo e, logo, discriminatório (se visto desse prisma).

O meu amigo Zé Veloso, cujo belíssimo artigo dedicado às Latadas o N&M reproduziu, diz, a esse propósito, que “(…) só uma sociedade de abastança e desperdício como a de hoje se pode dar ao novo riquismo de adquirir um relógio de bolso (quando muitos nem relógio têm e usam o telemóvel) para usar meia dúzia de dias, que é o tempo que muitos hoje vestem a capa e batina.”

Uma coisa é inegável: o relógio de bolso desde sempre está ligado a uma imagem iconográfica da alta aristocracia, dos mais abastados (burgueses, clérigos…), ou como peça de valor inestimável que só aparecia nos trajos domingueiros da plebe masculina.

Eduardo Coelho diz-nos, sobre o assunto:

"...a ostentação do relógio de bolso na viragem do séc. XIX era uma declaração política da burguesia republicana - tal como o bigode, por contraposição às barbas, preferida pela nobreza (ou com aspirações a...)
Outros
símbolos eram o chapéu de coco e a casaca.
Não podemos esquecer que a moda das sociedades secretas anarquistas, maçónicas - libertárias, de uma forma geral - assolou a comunidade estudantil de Coimbra e, em muito maior medida, a do Porto, cujas propensões livre-pensadoras encontravam expressão muito mais declarada num meio burguês como o do Porto (cf, por ex., a revolta dos sargentos de 31 de Janeiro).
Que se vejam inúmeras fotos de académicos de 189... sempre de relógio de bolso, entendo, por 2 razões: a raridade do relógio de pulso e a afirmação política, por um lado, e a ostentação de riqueza - as correntes dos relógios não seriam propriamente de latão.
Além disso, o relógio de pulso não se via. Na mentalidade do burguês, de que serve gastar dinheiro em algo que não se vê nem dá para esfregar na cara do vizinho?
Se essa gente soubesse história... Perceberia que o relógio de bolso ( a corrente do relógio) é muito mais um sinal exterior de riqueza (porque se vê) do que o relógio de pulso ( que não se vê).
Na Tuna de Arentim, Braga, nos anos 40, um dos elementos comprou um relógio de pulso. Mandou o alfaiate subir a manga esquerda do casaco para que, ao tocar viola, todos pudessem ver a maravilha - era o primeiro das redondezas. Esta história é verídica.".


De onde vem a questão da proibição?

O historiador, e investigador, António M. Nunes, autor do reputado blogue Virtual Memories, diz que, e citando, “A interdição do uso do relógio de pulso é uma regra de etiqueta própria da grande casaca preta civil de abas de grilo, muito usada por chefes de estado, cantores de ópera, membros de grandes orquestras, ilusionistas. O porte da casaca obedece a normas muito rigorosas, que constam habitualmente dos manuais de cerimonial e protocolo. Por extrapolação, alguns estudantes oriundos das classes populares e da média burguesia em busca de afirmação social importaram para o mundo das tradições académicas preceitos do cerimonial de Estado.”.

Não estou em crer que fosse essa a razão entre os estudantes, pois a proibição nasce a partir da década de 80-90 do século XX, pela mão de algum saudosista que, como está bem de ver, pouco ou nada perceberia de protocolo, de história ou mesmo de tradição académica.

 Não deixa de ser verdade que, em momento de gala, de cerimonial, manda a etiqueta que não se use relógio de pulso. António Nunes sublinha que tal é “desaconselhado quando se envergam vestes de gala sejam elas masculinas ou femininas.”. Mas, nessas mesmas circunstância, também o de bolso não se permite.

Ora, em quantas situações o Traje Académico é usado em momento de gala ou cerimonial, de facto (julgamento e baptismo do caloiro, latada, cortejo da queima, entre outros, não assumem essa dimensão)?

Ora, exceptuando uma Oração de Sapiência, uma Missa de Finalistas, uma Entrega de Diplomas, um Chá Dançante (Baile de Gala), considerando que sejam os momentos de maior gala e solenidade……. poucas serão as ocasiões onde o relógio tenha de sair do pulso (ou do bolso do colete, no caso da "cebola").

Na larga maioria das vezes em que os estudantes trajam não o fazem nesse contexto, daí não haver qualquer fundamento para proibir o relógio de pulso.

Aliás, disse-me António Nunes que “Pela praxe conimbricense, não há nada que proíba o porte de relógio de pulso e quem o vier proibir será por desconhecimento.”, a que acrescentamos que também o não é pela praxe do Porto, como nunca o foi, até finais de 1980 e inícios dos 90, em nenhuma outra academia.

 Ao que parece, a proibição virá de uma interpretação deturpada de algum testemunho pessoal, do ideário construído em torno das imagens de época retratadas em tantos e tantos filmes, no fundo, uma espécie de febre do passado, a relembrar o gosto dos historiadores de finais do séc. XIX e inícios do XX, na sua adulação pelo medieval, pelo antigo (o mesmo que levou tanta gente a dizer, erradamente, que as Tunas eram uma tradição de 6 séculos).


Qual usar?

 O facto é que, goste-se ou não, essa febre pelo relógio de bolso em detrimento do de pulso, que tanto código apregoa, mais não é do que mero snobismo, quando imposto.

Esteticamente é bonito, não podemos negar. Quem o quiser usar, pois que o faça, mas não se queira é tolher o entendimento e vir com argumentos sem qualquer fundamento, a quererem proibir o relógio de pulso e a elevar as qualidades histórico-praxísticas (inexistentes) da “cebola”.

Não há nenhum motivo de natureza tradicional ou histórica que, em Praxe, determine coisa alguma.

Usou-se o relógio de bolso, tal como, depois, e de forma muito mais generalizada (e em maior número) o relógio de pulso.

Note-se que, até à data, ainda não encontrei qualquer documento fotográfico de época, que evidenciasse o uso corrente do relógio de bolso; aliás, todas as fotos que observei (abarcando clichés desde o séc. XIX), é difícil vislumbrar estudantes com relógio de bolso (um ou outro, apenas), prova de que o uso não era generalizado (se bem que, e em abono da verdade, quando devidamente trajado, seja difícil ver o mesmo, quando se está a posar para a máquina).

Alguns exemplos:

1907:
























1908:





























1909:




















1912:














1923:



















1927:













1936:
















 Inquirindo o ilustre Zé Veloso, também ele um investigador destas matérias, o mesmo me disse que, e passo a citar, “não tenho dúvida de que o meu pai, nos anos 30, usava a capa e batina com o único relógio que tinha, que era um relógio de bolso, já que os de pulso não eram correntes naquela época

Assim como não tenho qualquer dúvida de que no meu tempo de Coimbra - anos 50 (liceu) e 60 - só se usava relógio de pulso... porque o relógio de bolso tinha caído em desuso e só era usado por homens maduros ou velhos. Falo também pela Academia do Porto, onde estive integrado de 66 a 69.”


Parece, pois, evidente, que o relógio de pulso era usualmente utilizado pelos estudantes, já nas décadas de 50 e seguintes, em contraposição ao relógio de bolso, entretanto caído em desuso.

Note-se, também, este testemunho elucidativo:

“Cheguei à Estação Velha, um quase descampado, já com muita noite caída sobre mim e o mundo. A folhinha marcava o dia 15 de Outubro de 1960: os ponteiros do relógio de pulso que minha Avó me oferecera pelo meu 19.º aniversário, ainda não tinham iniciado a ladeira que sobe até à meia-noite (…)” Cristóvão de Aguiar, Escritor, In Corpo de delito na ilha de Coimbra, http://www.mundoacoriano.com/index.php?mode=noticias&action=printMe&id=92)




Concluindo:


Se quiséssemos ser puristas, e numa toada mais ortodoxa, diríamos que nenhum aparelho medidor de tempo deveria ser usado com traje académico, pois quando este surgiu, nomeadamente a capa e batina, os relógios de bolso não eram usados (quanto mais de pulso ou os telemóveis).

Mas se, como muitos propalam, e bem, a Praxe deve, gradual e pertinentemente, acompanhar os tempos, então é preciso olhar para a evolução social e perceber, quanto a este assunto de relógios, que, em momento algum, faz sentido ignorar o relógio de pulso sob o pretexto analéptico de reavivar o de bolso.

Ambos são legítimos, conquanto sejam úteis.



Use-se, pois, relógio, seja ele de bolso ou de pulso, pois se há algo que a Praxe nunca preconizou foi que ela prejudicasse o estudo e a pontualidade às aulas, daí que impedir o uso de um instrumento desta natureza nem lógica sequer tem.

Cabe a cada estudante escolher o que mais lhe apraz.

Obviamente que, no meio de tudo isto, existe a questão estética, daí que deva existir o devido bom senso na escolha do relógio de pulso a usar, para que seja discreto e sóbrio (em harmonia com o traje). Na falta desse discernimento, mais vale, mesmo, é não usar e recorrer ao telemóvel.



[1] O relógio da Torre da Universidade andou avariado na década de 1860, e em Abril de 1867 esteve em Coimbra um relojoeiro francês com a missão expressa de consertar o maquinismo. As horas eram tangidas na mesma pelo sineiro da Universidade (cabreiro), mas manualmente, o que obrigada o pobre empregado a subir o escadão de caracol com frequência. O arranjo do relógio teve repercussão mediática na cidade e originou a polca O Tocar da Cabra, de Francisco Lopes Lima de Macedo, datada de 1867, segundo informa A. Nunes no blogue de Octávio Sérgio, Guitarra de Coimbra (Parte II),  artigo de 2 de Novembro de 2008 (em linha: http://guitarrasdecoimbra.blogspot.com/search?q=rel%C3%B3gio)

Nota: Um agradecimento penhorado pelos informes e prestabilidade do Zé Veloso e António Nunes.

quinta-feira, novembro 03, 2011

Notas à Festa das Latas e Latadas

Embora o N&M tenha já dado, em tempos, um pequeno "lamiré" sobre as Latadas (ver AQUI), julgo que, para um conhecimento mais profundo e contextualizado, nada como reproduzir os 2 artigos publicados no blogue Penedo d@ Saudade, pelo amigo Zé Veloso, também estudioso destas matérias, que retrata magistralmente a evolução desta festivade e a sua gradual mutação.

"DAS LATADAS À FESTA DAS LATAS

(Parte I)

As latadas do final do ano lectivo. A emancipação dos caloiros

Daqui a pouco, quando passar da meia-noite de quarta para quinta, começará no largo da Sé Nova a serenata que irá marcar o início da Festa das Latas, cujo ponto alto coincidirá com o corteja da Latada, na próxima terça-feira. Nos próximos dias o Queimódromo encher-se-á de malta para assistir aos concertos de um cartaz que, venha quem vier, será sempre um bom pretexto para manter a animação durante esta espécie de mini-Queima de Outono.
Quem tenha passado por Coimbra nas décadas de 50/60 e não mais tenha tido contacto com a vida académica da cidade, deverá abrir uma boca de espanto perante a notícia que acabo de dar: – Festa das Latas em lugar de Latada? Serenata? Noites no Queimódromo? Cortejo único? Fará depois um encolher de ombros e dirá que «a tradição já não é o que era». Nada de mais errado! As praxes académicas de Coimbra sempre evoluíram ao longo dos séculos, o que me leva antes a dizer que «a tradição nunca foi o que foi»!
Aliás, é esta capacidade de adaptação a novas realidades – Bolonha, aumento do número de Faculdades, presença maioritária das raparigas, novos contextos socioculturais… – que tem permitido às praxes manter-se vivas, já que são vivenciadas e não apenas representadas. Custa-me ver alterações gratuitas da tradição, sem causa que as justifique que não seja a ignorância. Mas quando as adaptações aos novos tempos são feitas de forma inteligente e no respeito pelo passado… só tenho de aplaudir.
As Latadas – ou Festas das Latas, como agora são chamadas, retomando uma terminologia já antes utilizada por Trindade Coelho – são, porventura, dentro das diversas manifestações praxísticas de Coimbra, as que mais transformações sofreram, tanto na forma, como no significado/objectivo. Vamos a isso:
Trindade Coelho (In Illo Tempore, 1902) conta que, no seu tempo (1880-1885), as coisas se passavam assim: … as aulas de Direito fechavam-se nesse dia, e à noite, como era da tradição, a rapaziada tinha de sair pelas ruas de Coimbra – naquela extraordinária inferneira chamada a Festa das Latas, em que cada um, incluindo os novatos (equivalente aos caloiros de hoje), que nesse dia ficam “emancipados” e já podem sair de noite sem protecção, arrasta atrás de si as latas que pôde ir juntando durante o ano, ou as que comprou na «feira das latas» aos garotos, que vendem uma banheira velha por um pataco e três cântaros de «folha» por um vintém!
Essa é a tremenda noite de Coimbra, em que ninguém prega olho – troça aos estudantes das outras Faculdades, que ainda têm aulas no dia seguinte –, e que uma vez obrigou a fugir não sei que inglês «touriste», que berrava de mala na mão, a correr para o caminho-de-ferro, – Doidos! Doidos! Doidos varridos!
A descrição de Trindade Coelho é consistente com outras da mesma época. As latadas do Séc XIX – só Trindade Coelho lhes chama «Festa das Latas» – estavam ligadas ao facto de nem todas as Faculdades terem o mesmo dia do ponto (último dia de aulas), o que levava os alunos já libertos das aulas a caçoar dos restantes, através de cortejos barulhentos que os não deixassem estudar ou dormir em paz. Para além disso, os caloiros que iam tendo o seu dia de ponto emancipavam-se nessa mesma noite.


Mas a tradição das latadas poderá ter vindo mais de trás e ter alguma relação com as «Soiças» (cortejos trapalhões e barulhentos que foram proibidos em 1541, em face dos desacatos que provocavam). Esta relação é estabelecida tanto por Hipólito Raposo (Coimbra Doutora, 1910) como por Teófilo Braga (História da Universidade de Coimbra… Tomo I, 1982), sendo que este último atribui às latadas igualmente a denominação «Tocar das Latas».
Com a Reforma de 1901 todos os cursos passaram a terminar as aulas ao mesmo tempo, deixando de haver razão para a troça. Mas as latadas continuaram, centradas agora na emancipação dos caloiros, ainda que com intermitências que, segundo Reis Torgal (Boémia da Saudade, Tomo II, 2003) se ficaram a dever a diversas convulsões políticas e académicas, à I Grande Guerra e à pneumónica. Sobre este período, há uns quantos depoimentos publicados em livro, deles se percebendo que, para além de variantes várias, nunca o essencial se alterou: caloiros a correr por Coimbra afora que nem loucos, debaixo de um barulho infernal, protegidos da praxe por tudo quanto fosse elemento metálico barulhento, atado por barbantes ou arames aos tornozelos, à cintura ou aos pulsos, em busca de uma emancipação que chegaria no final da corrida. Pelo caminho – fosse ele da Porta Férrea à Portagem ou de Santa Clara até à Porta Férrea – lá estavam os doutores de piquete, munidos de bengalas e mocas, tentando fazer soltar as latas, na expectativa de uma imediata rapadela daqueles que perdessem o seu «escudo protector». Como em todas as estórias com final feliz, há notícias de confraternizações e abraços entre uns e outros no final da refrega.
As latadas foram a dada altura transferidas para 27 de Maio e integradas nos festejos da Queima das Fitas. Branquinho da Fonseca, formado em 1930, conta-nos (Porta de Minerva, 1947) que havia no seu tempo duas formas de um caloiro obter a alforria: ou submeter-se à latada ou seguir no cortejo, no carro de um quartanista. Não é de estranhar: somos um país onde sempre houve duas vias para tudo…
Por artes que nunca ninguém me conseguiu explicar, mas que poderão ter a ver com a barbaridade do ritual e a sua progressiva desadequação à evolução da sociedade, as latadas emancipadoras dos caloiros desapareceram de cena por volta de 1935 e os caloiros passaram a emancipar-se de forma menos selvática, tal como eu o fiz em 1963: chegado o cortejo da Queima à Portagem, pedi a uma madrinha que me tirasse com jeitinho os adesivos da testa, onde as marcas de mercurocromo deixavam antever as supostas cicatrizes da recente amputação de um valente par de cornos.
Terminada a época das latadas do final do ano lectivo, emancipadoras dos caloiros, iniciou-se, uma década mais tarde, a época das latadas do início do ano lectivo, ligadas à imposição de insígnias. Mas essa estória fica para o próximo «post»."
Zé Veloso, artigo de 26 Outubro 2011, in http://penedosaudade.blogspot.com/2011/10/das-latadas-festa-das-latas-parte-i.html


 "(Parte II)

 As latadas do início do ano lectivo. A imposição de insígnias




Vimos na Parte I deste tema que as latadas do final do ano lectivo, coincidentes com a emancipação dos caloiros, terminaram por volta de 1935.


Mas como lata faz barulho e barulho é sinal de festa, as latadas voltaram no final da década de 40, continuando pelos anos 50 e 60. Só que, desta vez, aconteciam no início do ano lectivo e estavam ligadas à imposição de insígnias: aos quartanistas que, a partir desse dia, poderiam colocar na pasta o grelo que tinham posto na lapela na Queima do ano anterior; e aos quintanistas que, tendo posto fitas na Queima anterior, podiam agora exibi-las até à Queima seguinte.


As latadas eram 5, uma por cada Faculdade de então – Medicina, Direito, Ciências, Letras e Farmácia – e aconteciam, não necessariamente por esta ordem, às quartas e sábados, depois de terminados os exames de Outubro.


Para os quartanistas grelados, os jovens lobos que iriam iniciar o seu ano de glória, a manhã começava muito cedo, com a visita ao mercado D. Pedro V. Era o reencontro entre os estudantes e as vendedeiras de hortaliça, a pretexto da compra de um nabo de rama farfalhuda que se metia na pasta onde o grelo florescia pela primeira vez. Dali saíamos a cantar uma lenga-lenga já caída no esquecimento da Academia de hoje,



Meu nabo, meu grelo
Sinto prazer em tê-lo
Que não há nada mais belo
Que o grelo do nabo
Que o nabo do grelo

enquanto, pela cidade, se ouvia já ao barulho dos Zés Pereiras e do foguetório.


Estes ritos eram automáticos e ninguém se questionava. Mas eu coloco a questão agora: Por que carga de água se chamará «grelo» à fita estreita? E que relação intrigante era esta, entre estudantes e vendedeiras de hortaliça, que levava os primeiros, no ano que representava o zénite da sua passagem por Coimbra, a ter como primeiro acto, após a imposição do grelo, uma visita ao Mercado D. Pedro V?


António Rodrigues Lopes (A Sociedade Tradicional Académica Coimbrã, 1982) parece trazer-me a resposta em quatro escassas linhas: O “grelo” seria a reminiscência de um molho de bróculos que floresceu de uma greve de hortaliceiras que a academia, solicitada, secundou. Surgiu deste modo, como símbolo heráldico de reivindicação contra a truculência da Câmara Municipal (in “À Porta Férrea”, de Serrão Faria).


A greve a que se refere ARL ficou conhecida pela «Revolta do Grelo». Foi uma insurreição muito séria, que durou vários dias e chegou a envolver 10.000 manifestantes, juntando estudantes e futricas do mesmo lado da barricada. Vamos aos factos: Em 11 de Março de 1903, insurgindo-se contra o aumento do imposto do selo, as vendedeiras de hortaliça do Mercado D. Pedro V entraram em greve, no que foram secundadas pelo comércio e operariado da cidade, ficando Coimbra sem abastecimentos por alguns dias. Seguiram-se tumultos vários e a intervenção das forças da ordem, vindas de fora, a qual se saldou por quatro mortos e vários feridos entre os populares e um morto entre os soldados. A Academia reuniu, declarou-se incondicionalmente ao lado do povo de Coimbra e organizou uma recolha de fundos para auxiliar as famílias das vítimas. O Governo encerrou a Universidade a 14 de Março e determinou que todos os estudantes não residentes saíssem de Coimbra, mas poucos arredaram pé. As aulas só reabririam a 20 de Abril.

Será que a ida ao mercado era o ritual inconsciente de um encontro que se repetia, por uma aliança forjada sessenta anos atrás entre os estudantes e as vendedeiras de hortaliça? E será que a denominação de «grelo» é alheia a tudo isso?


À tarde tinha lugar a latada propriamente dita. Era um cortejo trapalhão, com alguns zabumbas à mistura, que seguia o mesmo trajecto do cortejo da Queima. Para além dos grelados e fitados, de capa e batina e insígnias, desfilavam os caloiros que tivessem sido mobilizados, razoavelmente mascarados, tipicamente de pijama ou com o casaco do dia-a-dia vestido do avesso e as calças arregaçadas. Poucas latas havia, para além duns quantos penicos de esmalte, baixela indispensável das praxes coimbrãs. As greladas e fitadas seguiam na latada mas as caloiras não eram mobilizáveis. Os caloiros, que podiam pertencer a qualquer curso, ou seguiam ao serviço de um doutor que fizesse questão de levar o seu animal de estimação – eu levei um caloiro que me chegava um penico para aparar a cinza do cigarro e me estendia uma passadeira de cada vez que decidia ir cumprimentar um conhecido na assistência – ou faziam parte da legião de porta cartazes, a função mais chata mas também mais digna, já que os cartazes eram o prato forte da latada; e uma latada se dizia boa ou má consoante a piada, a classe e o atrevimento dos seus cartazes.


Em época de censura, tudo era dito por meias palavras, por frases cândidas que escondiam malandrice, por frases banais cujo arranjo gráfico poderia sugerir muito mais do que uma banalidade: Numa altura em que a palavra «Salazar» logo levantaria suspeitas, poderia o «sal» estar no início da frase e o «azar» no final dela mas escritos com uma cor que os realçasse. Aí, a censura, ou não entendia de todo ou não encontrava forma de cortar, fazendo-se, então, desentendida.


À noite a festa terminava no Tetro Avenida, já que os seus proprietários deixavam entrar de borla grelados, fitados e caloiros mobilizados, numa balbúrdia tremenda, um autêntico salve-se quem puder na busca de um lugar. O Avenida ficava cheio que nem um ovo, do galinheiro às coxias. Enquanto decorriam os documentários, ainda os porteiros tentavam controlar as entradas. Mas mal rugia o leão da Metro, a malta que ainda estava cá fora, como que galvanizada pelo ronco do bicho, logo fazia saltar os porteiros do lugar antes que fossem as portas a saltar dos gonzos.


O filme era quase sempre mauzinho, ainda que, na minha latada, tenha sido o West Side Story, que nos deixou mudos de espanto. Claro está que mal o Richard Beymer (Tony) começou a cantar «Maria, Maria, Maria…», logo do galinheiro alguém pediu uma bolachinha e estalou a gargalhada geral… Ai, aquele galinheiro! Empoleirados junto ao tecto, mal enxergavam o ecrã! Mas quando aparecia um decote mais generoso, logo gritavam para a plateia que dali é que se via tudo.


E hoje em dia como é? Acabadas as Latadas, aí temos a Festa das Latas, com algumas diferenças importantes mas não diferindo no essencial, ou seja: uma festa que acontece no início do ano lectivo e que está associada à imposição de insígnias dos novos grelados e fitados. Aliás, a denominação oficial da festa deste ano é «Festa das Latas e Imposição de Insígnias 2011». No entanto, ela serve também para mostrar os caloiros à cidade e promover o seu baptismo.


Mas o que há, então, de diferente?

Desde logo, um cortejo único. Se assim não fora, com o actual número de Faculdades (8) mais os Politécnicos e outras escolas de ensino superior (mais 8) teríamos latadas até ao Natal. Mas se o cortejo é único, o grosso da festa prolonga-se por quase uma semana, fora os preliminares, uma série de «inventos» que a malta organiza, desde concursos literários e fotográficos a torneios desportivos e peddy-papers, passando por uma caça ao tesouro em Conímbriga e por umas olimpíadas do conhecimento sobre Coimbra e a vida académica. São «inventos» que têm para o caloiro que chega uma função integradora muito mais eficaz do que as mais que estafadas praxadelas do tipo brincadeiras bobas no meio da rua.


A abertura oficial das Festas é marcada por uma serenata que tem lugar às zero horas de quarta para quinta, sem local fixo mas que se pretende não seja na Sé Velha. Já foi no Largo da Sé Nova, à Porta Férrea e na Praça Velha. Gosto da ideia de abrir as festas com uma serenata, acarinhando e perpetuando os fados e guitarradas e Coimbra. Mas agradar-me-ia mais que a serenata fosse sempre na Alta, já que é lá o seu espaço natural, por ser na Alta que reside a fonte de todas as tradições académicas. Mas se até o Hilário cantava no Choupal, conforme reza o fado que tem o seu nome, quem sou eu para condenar uma serenata na Baixa?


Como sucedâneo de luxo dos filmes no Teatro Avenida temos as noites no Queimódromo / Praça da Canção, com um cartaz de «show business» à escala dos nossos dias, do poder de compra dos estudantes de hoje e dos interesses comerciais que se movem em torno das festas académicas, onde cada vez a cerveja mais escorre e o INEM mais acorre.


Mas é no cortejo de terça-feira – cerne praxístico das festas – que eu encontro mais novidades: qualquer estudante universitário pode desfilar – não apenas os novos grelados e fitados – incluindo as caloiras, que podem agora ser mobilizadas pelas doutoras. Aliás, penso que a entrada da mulher em peso naUniversidade terá sido a mola impulsionadora da mudança. Embora mantendo ainda um cunho reivindicativo e crítico, o cortejo ganhou uma alegria que não tinha no meu tempo, mais se assemelhando a um desfile carnavalesco, onde cada curso canta o seus hinos e faz as suas coreografias, com os caloiros e caloiras vestidos com fantasias de cores garridas.


Para além disso, existem dois conceitos completamente novos, cuja origem desconheço: o baptismo de caloiro e o morder do nabo. Quanto a este último, os caloiros, durante o cortejo, têm de ir mordendo os nabos dos semis, cuja rama é mais tarde atirada ao Mondego. Quanto ao baptismo, cada caloiro/caloira escolhe, entre os doutores, um padrinho/madrinha de baptismo (ver Nota no final). Chegados ao largo da Portagem, a turba dirige-se para essa enorme pia baptismal que dá pelo nome de Mondego e, fazendo-se uso dos penicos que cada caloiro transportou consigo durante o cortejo (conjuntamente com uma chupeta), vai de mandar pela cabeça da caloirada abaixo – «in nomen solenissima praxis caloiro(a) baptizado(a) est»! – um chapadão de água do rio que, embora não me constando que seja benta, tem a propriedade de curar na hora uma boa parte das borracheiras em que o cortejo é fértil. Tudo previsto!


Deixei para o fim a visita ao mercado D. Pedro V, onde se introduziu, há já mais de uma década, a triste ideia de que a tradição impunha que o nabo fosse roubado e não comprado. Em 1/11/2000 li no Diário de Coimbra uma exortação do Conselho de Veteranos, lembrando que o nabo é para ser comprado e não roubado. Mas, sete dias mais tarde, o mesmo jornal anunciava, como fazendo parte do programa oficial da latada, o «Roubo do nabo»…


Estive em Coimbra há poucos dias e falei com várias vendedeiras do mercado que me disseram que já se rouba menos… mas ainda se rouba! É uma pena. E é indigno de um estudante, que assim se diverte no que é o trabalho dos outros.


Faço votos para que este estúpido costume – o roubo do nabo – caia rapidamente em desuso. Seria uma pena que, por brincadeiras inconscientes, fosse posta em causa uma aliança tão bonita e tão antiga. É que os estudantes de Coimbra aprenderam a ir ao mercado abraçar as vendedeiras muito antes dos políticos. E não o fizeram para caçar votos, mas sim por solidariedade.


Nota: A escolha de um padrinho pode ser inspirada nas descrições do Palito Métrico, que nos transmitem que era frequente os caloiros colocarem-se sob a protecção de um veterano “lá da terra” ou que lhes tivesse sido recomendado. "
Zé Veloso, artigo de 03 de Novembro 2011, in http://penedosaudade.blogspot.com/2011/11/das-latadas-festa-das-latas-parte-ii.html

segunda-feira, outubro 31, 2011

Notas de Denúncia (Parte III)

Em coerência com a linha editorial do blogue, e no seguimento do anterior artigo que evidenciava 3 tunas que trocaram a sua idoneidade tunante por um prato de lentilhas (ver AQUI), ficou em suspenso a dúvida ou suspeita que recaía sobre a Tuna do ISEP (masculina), segundo o artigo "Notas de Denúncia (Parte I)", que pode reler AQUI.
O N&M esperou, pacientemente, que o cartaz (ver AQUI) do festival de Tunas do ISEP saísse, de modo a pronunciar-se com alguma propriedade, bem como por informações fidedignas das suas fontes.

Bastante tinta correu no fórum do PortugalTunas sobre este assunto (ver AQUI), nomeadamente com a vinda a terreiro de um dos elementos da TAISEP a fazer o ridículo papel de ofendido na sua condição de membro e negando a pés juntos as suspeitas levantadas, menorizando os indícios, menosprezando as fontes e, até, atacando o próprio PortugalTunas ao dizer que tudo quanto lá se dizia não valia nada.
Não bastante, ainda afirmava que, para além da suspeita ser infundada, tudo não passava de um gratuito ataque à sua Tuna,  que tudo não passava de intriga malidicente............no fundo, que era tudo uma cambada de mentirosos.
"Pela boca morre o peixe", diz o povo - e com razão.
Certamente que, agora, deve estar engasgado com o tamanho do sapo que engoliu e a triste figura a que se prestou.

Confirma-se, desde logo, que os afilhados da TAISEP, a Tuna Académica da Universidade Portucalense, não participarão, desta feita (como vinha sendo usual) neste XVIII FITISEP.
Confirma-se, no entanto, que estavam convidados para tal, sendo que, subitamente, o que estava agendado deixou de o ser, como abaixo se pode verificar:

PrintScreen de 03-10-2011.


PrintScreen de 14-10-2011.


Estranho? Só para os mais desatentos.
No espaço de 1 semana, o que estava confirmado e assente deixou de o estar.


O N&M foi averiguar e soube que a Tuna do ISEP "desconvidou" os seus afilhados, em razão dos ditames do MCV do Porto, via Dux do seu Instituto.
Ao que se sabe, o desconvite até era, ou foi também, para ser via telefone, mas presencialmente foi notificada a Tuna da Portucalense que o convite deixava de ter efeito, sendo-lhe, pasme-se, dado o "consolo" da promessa da oferta de entradas/bilhetes e bebidas - algo que a Tuna da Portucalense declinou, e muito bem.
O N&M também confrontou um dos elementos da TAISEP - o mesmo que tanta prosápia derramou no PortugalTunas, o qual se escudou no facto de ser uma decisão da Tuna e que não estava autorizado a tecer comentários publicamente.
Muito estranho que, num primeiro momento, tivesse toda a liberdade para bradar "Aqui Del-Rei!", em defesa da sua Dama, supostamente ultrajada, mas, agora, para reconhecer e dar o dito pelo não dito já não o possa fazer.
Pena essa falta de verticalidade.


Perante isto, perante factos, é lógico que se repudie tal atitude vinda de uma tuna que, até à data, tinha um percurso exemplar quanto à sua postura tunante.
Hoje, vendeu a sua idoneidade por um prato de lentilhas (FITA a quanto obrigas), traindo os valores tunantes mais sagrados e rebaixando-se à mera condição de "Trupe musical".

É por isso que tanto sentido fez, e faz, que alguns tenham urdido o denominado Manifesto Tunante, precisamente contra todos aqueles que vendem a própria condição tunante para submissões praxísticas sem qualquer fundamento histórico ou cabimento lógico.
Se a subserviência advém de um qualquer docmento lavrado pelas partes, gostava que no lo escarrapachassem na cara. Se advém de pura ignorância e iliteracia, pois estava na hora de reverem historicamente as singularidades que diferenciam e mantêm ambas as realidades em espaços autónomos. Se, porventura, há má fé, contra isso nada se pode fazer senão lamentar.

Vergonhoso, vexatório e lastimável que uma Tuna renegue o apadrinhamento que fez, que assim trate uma outra Tuna; mais grave: uma Tuna afilhada. Execrável tal punhalada nas costas, algo que não se esperava de Tunos, de facto, de uma Tuna com a dimensão e historicidade de uma TAISEP. Mas mesmo no melhor dos panos cai a nódoa - uma nódoa que acompanhará por muito tempo quer a Tuna quer todos aqueles que, nela, desenharam tal ataque à instituição tunante, mostraram tão pouca postura e solidariedade, tão poucos valores tuneris  na hora de saberem ser, e estar, Tuna.

Lamenta-se, também, que ao FITISEP se associem algumas tunas do Porto, que perante este cenário, deveriam demonstrar clara desaprovação pela atitude tomada por um do seus pares. Já nem digo as de fora (embora também se estiverem a par da situação), mas obviamente que não se livram de qualquer juízo, como aliás já se vão ouvindo/lendo, considerando-as cúmplices (mesmo que indirectamente ou por mera omissão) ao subscrevem com o seu silêncio e passividade, tal tomada de decisão e atitude da Tuna do ISEP.

É com enorme mágoa que estas linhas são tecidas, dados os laços de amizade com alguns dos seus elementos, dada a admiração dispensada à TAISEP ao longo dos anos.
Mas antes ser coerente do que eufemisar a situação só porque existem laços, de certa forma afectivos.
Por uma questão de coerência, mesmo percorrendo os caminhos do "politicamente incorrecto", e sujeito às esperadas reacções, o N&M não se vende a favor do nacional-porreirismo.
Não deixarei de gostar da TAISEP e dos amigos que lá tenho, mas certamente que, como instituição, perdeu a credibilidade que lhe atribuia, porque não soube ser Tuna, porque preferiu despir essa condição para vestir as cores do MCV, para trajar-se "Trupe Musical".

Em coerência, a TAISEP deveria incluir o seu Dux na sua hierarquia, pois se tal poder detém, certamente que também lhe assistirá o direito (se o quiser acionar) de determinar o repertório, as actuações e, quiçá, até, as relações pessoais dos seus tunos enquanto tal. Pelas bandas do ISEP, o Dux tem, pois, o poder de fazer da Tuna o que bem lhe aprouver, pois esta obedece religiosamente à Praxe e por ela é tutelada................como está bom de ver.

É triste o quão baixo algumas tunas descem.
O comunicado oficial da Tuna Académica da Universidade Portucalense (ver AQUI ou no PortugalTunas) vem rematar toda esta novela e, com elevação, dar a devida, e merecida, chapada de luva branca ao MCV,  Dux Facultis do ISEP, às Tunas do ISEP e demais tunas que estragaram a foto de tão mal que nela ficaram.




sábado, outubro 22, 2011

Notas Praxísticas I

Não me posso impedir de transcrever um post colocado no fórum do Praxe Porto, por um utilizador que dá pelo nome de "Mocas".
Uma crítica tão acertada que é uma verdadeira "moca", uma autêntica "mocada" no actual estado desta Praxe burocratizada e mais papista que toda a galeria de pontífices que ocuparam a cátedra de S. Pedro.

Ao fim de algumas matrículas (parcas para uns, vagamente abundantes para outros) ainda me consigo surpreender com a necessidade que as pessoas têm de criar grupos específicos, com nomes, com funções, cargos e hierarquias próprias simplesmente para fazer coisas, refiro-me mesmo a coisas no geral. Não percebo muito bem porque é que um grupo de pessoas que, com muito valor, e para minha/nossa sorte, lutaram para restaurar a Praxe do Porto não são tão simplesmente um grupo-de-pessoas-que-lutaram-para-restaurar-a-Praxe-do-Porto.

Então eu agora pego em 3 ou 4 amigos e vou a um Festival de Tunas e somos o quê? Os Tunestus? E eu que os convidei e tive a ideia? Sou o Master-Tunestus? E quem paga? É o Tesoureiro-Tunestus? Obviamente estou a fazer uma redução ao ridículo e sei bem que ir a um Festival de Tunas é um bocadinho diferente de re-instaurar Praxe numa Academia. Isto nao é nada contra ninguém, apenas um desabafo de quem olha para as coisas no geral e vê que, hoje em dia, é preciso formar um grupo praxístico, ali bem apetrechado de nomes e tachos, nem que seja para ir ali jantar com uns amigalhaços.
A espontaneidade da Praxe está cada vez mais abafada e pegamos num Academismo que devia ser vivido em conjunto e compartimenta-mo-lo em grupinhos que se juntam só para uma dada funçãozinha e com a sua hierarquiazinha. Isto nao é Praxe, isto é uma repartição de Finanças! E daquelas bem burocratizadas. Está-se a pegar na Praxe como forma de se ser estudante no mundo real, e faz-se disto um teatrinho que todos representamos quando pomos a capa às costas. Quando estou na minha Faculdade sou quartanista ou quintanista, sou caloiro no Grupo de Fados, sou Cardeal no Transeptus, sou Bolinho-de-bacalhau quando almoço trajado com a minha avozinha.
Não percebo porque é que as pessoas não têm uma ideia, juntam-se e a põem em prática como Estudantes que são, tão simplesmente.
(In http://www.forum.praxeporto.com/viewtopic.php?f=3&p=1375&sid=593d99351f623592415dbb00f838f8ff#p1375)

Nada mais verdade.
Por diversas vez se encheu o mail deste blogue a pedir parecer ou conselho, a pedido de estudantes que pretendiam criar grupos de reflexão, tertúlias, e outros "ajuntamentos" com fins praxísticos, no nobre e louvável intuito de imprimirem nova dinâmica à Praxe da sua casa, de lutarem contra o que consideravam más práticas.
Muitos desses grupos desejavam promover o debate, a informação e formação, lutando contra os mitos e as ficções e certos dogmas que não tinham lógica ou fundamento.

É certo que são iniativas que devem ser apoiadas e incentivadas e, até aí, nada a apontar.
O problema é que, quase sempre, à mistura perguntavam como deveriam fazer para se distinguirem, se deveriam/poderiam usar algum sinal distintivo (mediante conssentimento do organismo de Praxe). Outras vezes, apresentavam, à cabeça, um organigrama a implementar no grupo e nomenclatura a atribuir aos membros. Uma outra vez, deparei-me com um pequeno elenco de estatutos e normas internas, para um mero grupo de meia dúzia de pessoas que apenas pretendiam discutir (mas depois sairem à rua de forma mais ou menos formal.


Como está bem de ver, apesar dos nobres ideias, há ainda esse sentimento de que para se fazer algo é preciso trazer um cartão ao peito, que só um sinal, um emblema, uma devisa ou insígnia qualquer é que conferem legitimidade para se ser ou fazer algo.
Já não basta ser-se estudante ou trajar, mas antes ter chancela de "organismo" revestido de autoridade ainda antes de ter feito algo para merecer tal (ou como se tal fosse preciso, de facto).

Muitas Comissões de Praxe (que não são mais do que comissões de praxes) são, neste entender, o exemplo mais evidente disso mesmo.

Note-se que se chega ao ridículo de tratar/conceber essas comissões como verdadeiras associações estudantis ou comissões de curso, com listas e tudo, como o exemplo AQUI.

É importante que as pessoas se associem, porque o direito á livre associação é algo consagrado na lei. É impiortante existirem, muitas vezes, grupos à margem dos organismos de Praxe, que possam contribuir com uma visão mais imparcial e equidistante, e apoiarem esses mesmos órgãos de Praxe (ou, quando não, serem uma alternativa credível, mas não um governo sombra num pseudo-exílio).
Mas mais importante do que posições, rótulos e burocracias, importa é tratarem do essencial, e não criar mais regiões autónomas.

Também a Praxe precisa de um programa "simplex", que devolva simplicidade e pragmatismo, e passe uma borracha sobre tudo quanto é acessório (mesmo que por vezes tenham de "rolar cabeças" nos próprios lugares de chefia, de modo a que se faça o que é preciso, e todos o possma fazer sem precisarem de ter cartão de "partido", mas apenas como cidadãos académicos, como praxistas.
Como dizia uma colega minha: "quem não tem competência não se estabelece".

terça-feira, outubro 18, 2011

Notas sobre a Origem e Evolução da Capa e Batina (Traje Académico/Estudantil Nacional)




Sobre o Traje Estudantil, deixo aqui alguns excertos (de um amplo conjunto de artigos que se debruçam sobre a origem e evolução do património vestimentário académico, docente e discente, em Portugal e na Europa), produzidos pelo consagrado especialista e historiador, o Professor António M. Nunes, publicados no seu blogue Virtual Memories (http://virtualandmemories.blogspot.com/).


NOTAS PRÉVIAS:


  • O traje escolar foi sempre marcado pela indumentária religiosa dos clérigos que, nos primeiros séculos da Universidade, tinham o exclusivo de cursar os Estudos Gerais;
  • Os clérigos, esses, vestem segundo a regra da sua ordem e, também, a sua hierarquia;
  • As cores mais usuais eram o castanho, o pardo ( que originará a figura do “pardillo” em Espanha) e, mais tardiamente, o preto, não por imposição, mas proibição de cores mais garridas.
  • A evolução do vestuário nota-se, paulatinamente, com a abertura da frequência universitária a outras classes, tornando-se mais permeável a modas (rendas, berloques, sedas, frisados, diversos tipos de chapéus/barretes, cações…..), embora  fortemente balizado por critérios de sobriedade e austeridade;
  • Nos Séc. XVII  a tónica eclesiástica do traje foi-se acentuando, sendo de realçar a utilização da "loba", espécie de batina ou sotaina eclesiástica sem mangas, guarnecida na frente com duas filas de botões desde o pescoço até abaixo do joelho, junto com calção , capa e barrete redondo ou de cantos (o gorro só em finais do séc. XVIII). 
  • Loba: Vestidura eclesiástica, clerical e honorífica, que chega até o chão, cortada de maneira que nela entram os braços; dela usam também os bedéis  (responsáveis pela disciplina)da Universidade.
  • Os que não eram eclesiásticos sentiam-se impelidos a não destoar, vestindo à maneira dos clérigos,  e também pela necessidade de identificar o foro académico e quem por ele estava abrangido. Os trajes assumem, pois, figura/função de uniforme, para distinguir so estudantes de outros mesteres e profissões.

Em inícios do séc. XVIII a loba vai dar lugar progressivamente à “abatina”, sendo também a partir dessa época que os trajes estudantis começam a convergir para uma mesma forma de traje académico - embora essa forma estivesse dependente de flutuações de moda.

Abatina: conjunto de capa e túnica (talar) dos abades seculares de França ou de Itália, com vestido de seda negra, capa curta, volta singela e cabeleira pequena. Mais curta e barata que a loba. O negro, esse, significando o desapego ao mundo material e os seus votos  eclesiásticos.

  A “abatina”  estudantil, modelo talar, (que os estudantes  passam a designar apenas por “batina”)   não seria tão comprida como a dos lentes (até aos calcanhares = ”talons”)  e seria até bem mais curta que a capa , pelo que o uso de calções, por exemplo,  mesmo quase não se vendo debaixo da “batina” (viam-se apenas as meias), se mantivesse.




Durante muito tempo o uso da capa e batina foi obrigatório para o estudante, tal como, aliás, para o lente, ainda que este usasse uma batina comprida até aos pés.
Entre 1718 e 1834, esta obrigatoriedade estendia-se a toda a cidade.
De 1834 até à implantação da República, em 1910, a capa e batina era apenas obrigatória dentro do perímetro da Universidade.



Sobre a questão da origem da cor e também do mito do "traje para igualizar", já  nos debruçámos anteriormente (ver AQUI).





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Passemos, pois, agora, o que nos diz o historiador, o Professor António Nunes:


O Traje Feminino e o Traje Académico

(…) Até à consagração da legislação abolicionista promulgada após o 5 de Outubro de 1910, em Portugal não há notícia do uso de qualquer uniforme por parte das alunas que frequentaram os liceus, a Universidade de Coimbra ou as Médico-Cirúrgicas de Lisboa e Porto. A opção crescentemente generalizada pela capa e batina de Coimbra, após a Conferência de Berlim, não parecia reunir ingredientes satisfatórios para uma extensão unissexo ao universo feminino.



A excessiva aproximação ao traje masculino burguês oitocentista retirara à capa e batina estudantil a sua feição talar, pormenor denunciado por José Ramalho Ortigão em 1888, o que na prática implicava duradoura impossibilidade de feminilização. Não sendo propriamente fácil, o processo de feminilização não era radicalmente impossível, se tivermos em consideração a adaptação de fardas militares a certos corpos femininos no decurso da Primeira Guerra Mundial.

A inércia coimbrã nesta matéria não encontrou melhor solução nas recém-instituídas universidades de Lisboa e Porto. Os anos que se sucederam à instauração da República não foram favoráveis aos trajes e cerimonial académicos, e quando as universidades de Lisboa e Porto se decidiram pela continuidade da toga das antigas Escolas Médico-Cirúrgicas, a questão não ficou inteiramente resolvida: os adeptos da toga tiveram de conviver com os defensores do abolicionismo e as facções que de forma mais ou menos persistente foram preferindo o hábito talar dos lentes de Coimbra; à semelhança de Coimbra, a discussão sobre a adopção de um traje institucional cingiu-se ao ponto de vista dos corpos docentes, não tendo havido por parte daqueles qualquer conscencialização quanto à necessidade de integrar os estudantes como elementos activos da instituição formadora. O facto de as universidades portuguesas fundadas em 1911 não terem optado pela realização de cerimónias de formatura para bacharéis e licenciados, legitimou atitudes de inércia quanto aos trajes discentes. Entregues a si próprios, em atitude de não diálogo com os senados das instituições em que se encontravam matriculados, os alunos/alunas optaram quase invariavelmente pela capa e batina de Coimbra, numa época em que a visão do estado e da sociedade pareciam apontar para princípios de perfectibilidade como o centralismo e a homogeneidade.

A obrigatoriedade de uso diário de uniforme estudantil na Universidade de Coimbra foi abolida por Decreto de 23.10.1910, situação de certa forma extensiva aos liceus onde o porte diário masculino fora autorizado por diplomas do Ministério do Reino. O diploma referido não declarava abolido o traje, apenas o tornava facultativo, tanto mais que no curto prazo a esmagadora maioria dos alunos da UC, da TAUC e do Orfeon Académico manifestaram vontade de continuar a envergar a capa e batina. Entre 1911-1912, na Universidade do Porto, Tuna e Orfeão foram pelo mesmo caminho. A maior parte dos liceus manteve a capa e batina que já era usada desde a segunda metade do século XIX, ou a ela aderiu. Seguindo na esteira dos movimentos em vias de expansão nas high schools britânicas, norte-americanas e japonesas, as alunas dos liceus de Lisboa e do Porto surpreenderam ao optarem pela invenção de um uniforme facultativo de tipo "high school".

Em Lisboa, alunos dos liceus tocaram a reunir por alturas de Setembro/Outubro de 1915, com o fito de discutir e aprovar que trajes envergar por alunos e alunas. Estas sessões terão sido participadas por alunos da Universidade de Lisboa que decidiram adoptar a capa e batina. Alunos mais radicais reclamaram mesmo obrigatoriedade de porte, mas na prática, o uso da capa e batina ficou confinado aos edifícios do Campo de Santana e a grupúsculos masculinos da Faculdade de Direito.



Na Universidade do Porto, em reunião inter-faculdades, realizada em finais de Fevereiro de 1916, decidiu-se implementar o uso generalizado da capa e batina a partir do dia 15 de Março de 1916. Faltam-nos dados sobre as matérias deliberadas nestas reuniões e perfil dos participantes, não sendo possível apurar se a decisão abrangeu alunos e alunas da UP, ou se marcaram presença alunos/alunos dos liceus. A "Gazeta de Coimbra", nas suas edições de 27.10.1915 e 4.03.1916 dá conta que em Lisboa já se viam "meninas" trajadas, certamente liceais. Aliás, a promulgação do Decreto nº 10.290, de 12.11.1924, que procedeu à nacionalização da capa e batina nos liceus e ensino superior, teve como antecedente imediato um conflito entre uma liceal e um reitor de um dos liceus de Lisboa por conta do uso ou não uso de traje.


O traje feminino, espontaneamente consagrado em Lisboa no segundo semestre de 1915 é um tailleur preto, à base de saia pela meia perna, casaco cintado, cortado pelo meio da coxa, e blusa branca. A gravata demoraria a impor-se. Este fato, de linhas trapezoidais, era o mesmo envergado pelos corpos de enfermeiras da marinha, nos EUA (em azul marinho, com capote e chapéu de abas), e em certos hospitais europeus pela mesma época (em cinzento), conforme determina o Decreto nº 4:136, de 24.04.1918, que o manda aplicar às enfermeiras militares portuguesas.

Ao referido conjunto se adicionou uma capa preta, e conforme atestam as fotografias supra uma barretina redonda. Este último elemento, resulta de uma transformação do barrete islâmico do magrebe, o "chéchia" ou "kufix", que também era usado desde 1859 em escolas militares britânicas de formação de cadetes ("pillbox hat"). Antes de ter feito a sua entrada triunfal nos liceus de Lisboa, Porto e Évora ("tacho"), em versão unissexo, o "pillbox" já era largamente usado em Portugal por militares e impedidos de oficial.(…).






Ia adiantado o século XX quando se acendeu a discussão sobre a necessidade de as alunas da Universidade de Coimbra tirarem benefícios práticos do uso de um traje de tipo uniforme. Não ter traje académico fazia parte da identidade das académicas da UC desde 1891, ano em que contemporaneamente se matriculou a primeira aluna. A não participação feminina na vida associativa, a ausência de organismos culturais mistos até 1938 e a omissão da cerimónia de formatura de bacharéis e licenciados desde 1910, foram justificando a inércia observada em Coimbra. A nível dos liceus locais, mesmo considerando o Liceu Feminino Infanta D. Maria, nada consta quanto a um hipotético uso de farda, se considerarmos que a muito usada bata não era propriamente um uniforme.
As alunas da UC tinham o privilégio do uso de pasta com fitas e capa preta sem uniforme, costume que na década de 1980 ainda era praticado por quintanistas que iam ao Baile de Gala das Faculdades. Nos finais da década de 1940 este estado de coisas começou a mudar quase imperceptivelmente. As universitárias de Coimbra estavam a par do uso do tailluer nos liceus e no Orfeon Universitário do Porto. O peso crescentemente atribuído desde meados da década de 40 às latadas de começo de ano escolar e às cerimónias de imposição de insígnias (grelos no 4º ano, fitas no 5º ano), começaram a suscitar em alunas da Faculdade de Letras vontade de adopção de um traje académico. Nos festejos de Novembro de 1949, a estudante de Germânicas Ilda Pedroso desfilou com um conjunto saia/batina/capa, acontecimento muito comentado no millieu, mas bem acolhido. Todas as informações consultadas testemunham a opção pela saia, numa época em que os códigos vigentes não poderiam aceitar na mulher o porte de calça comprida, e a batina masculina abaixo do joelho (frock coat), com lapelas de cetim.
Parecia encontrada a solução, numa instituição onde a cultura histórica não legitimava de ânimo leve nem o tailluer, nem uma distinção formal entre modelo masculino e modelo feminino. A breve trecho, a evolução seria bem outra. Em 1951 as alunas do Teatro dos Estudantes (TEUC) preparam uma digressão ao Brasil, tendo decidido levar um conjunto prático que substituísse os custos e os incómodos habitualmente havidos com os vestidos de gala. Ficou decidido levar nas bagagens o tailleur preto, traje que em diferentes padrões cromáticos era então usado no Ocidente por enfermeiras militares e hospedeiras de aeronáutica civil. Nas revistas de moda, as estrelas de cinema e do musical deixavam-se fotografar com este tipo de fato. Entre 12 de Agosto e finais de Outubro de 1951 o TEUC actuou no Brasil e visitou a Universidade de São Paulo, onde deixou uma réplica da "cabra". De 1951 a 1954 não se sabe com rigor que nível de adesão o tailleur terá conhecido em Coimbra, que lhe possa ter grangeado ser mais do que o fato que as alunas do TEUC levaram ao Brasil. Uma coisa é certa, se estivesse popularizado e se fosse querido das estudantes, não teria havido necessidade de o impor por decreto. (...) 

Em face dos conhecimentos disponíveis ainda não é possível saber se as alunas da UP começaram a usar o tailleur preto em Março de 1916, ou se o movimento ficou confinado às liceais. Sabe-se, no entanto, que a feminilização do Orfeão Universitário desde ca. 1944-1945 esteve na origem da consagração do tailleur pelas orfeonistas portuenses. Na fotografia supra, do ano lectivo de 1946-1947, oriunda do espólio do Dr. Álvaro Andrade, é bem visível uma orfeonista com tailleur preto, conforme o figurino tubular da época, meias cor da pele, gravata e capa. Terá o tailleur debutado restritamente no Orfeão Universitário, com ulterior generalização na universidade?"

António M. Nunes, In Blogue Virtual Memories, artigo de 31 de Outubro de 2008


O Traje Nacional / Capa e Batina

(…) Na Coimbra de finais do século XIX, e anos que se lhe seguiram, a profunda masculinização operada no imaginário académico e no conjunto casaca/calça comprida/colete inviabilizaria por décadas o processo de feminilização. Dizendo-se um traje progressista no confronto discursivo entre cultura burguesa e herança aristocrático-clerical, o traje académico burguês revelou-se empedernidamente sexista, e nessa medida reccionário face à dinâmica de mudança. Não sendo detentor da riqueza artística das vestes talares nem da sua polivalência unissexo, os fatos burgueses apostam na demarcação territorial e simbólica dos sexos através da sobrevalorização de peças secundárias como a calça comprida (sexo M) e a saia (sexo F), mesmo quando em contextos militares e policiais tal distinção foi abandonada .

Como se verá mais adiante, os modelos de colete e de capa vulgar louvados pelos estudantes de Coimbra como grandes conquistas civilizacionais contra o “obscurantismo” eram aflorações retardadas e esteticamente inferiores a peças vestimentárias que as mulheres do povo conheciam e usavam desde o século XVI. O colete feminino, de bainha lisa ou recortes, a fechar com atilhos, era usado pelas camponesas em contextos de trabalho e solenidades. A versão de luxo podia comportar motivos bordados e tecidos de seda enramada. A capa de honras feminina das lavradreiras abastadas e meias-senhoras (bem com os capotes, mantéus e capoteiras), em lã fina, com golas e bordados ainda era usada um pouco por todo o Portugal nos casamentos, baptizados, funerais, missas, entradas régias e entradas episcopais no tempo em que as primeiras alunas chegaram à UC.

Ao abandonarem o hábito talar tradicional, substituindo-o por um traje burguês citadino, singelo em tecido e figurino, os estudantes de Coimbra proclamavam-se progressistas. Ponderando estas afirmações em 1888, um profundo especialista da cultura e dos trajes propulares, José Ramalho Ortigão, duvidou da pertinência do discurso. A partir do momento em que o traje académico se transformava num produto esteticamente inferior à maior parte das peças usadas pelos camponeses portugueses como traje domingueiro, para se nivelar com o chamado traje ou fato de trabalho, tornara-se difícil descortinar-lhe traços de progressismo.

Em Portugal, as Escolas Médico-Cirúrgicas de Lisboa, Porto, Funchal e Ponta Delgada, fundadas a partir de 1836 , começaram por não instituir qualquer traje talar ou militar para docentes e discentes. O mesmo rumo foi seguido desde 1837 pela Escola Politécnica de Lisboa e Academia Politécnica do Porto , onde o fácies paramilitar não foi bastante para trazer aos muros destas instituições, nos anos iniciais, o grande uniforme napoleónico. Não obstante, os docentes militares das politécnicas usavam as fardas respectivas.

Novas instituições portuguesas de ensino como o Curso Superior de Letras (1859) e o Instituto de Agronomia e Veterinária (1864) não se mostraram receptivas a insígnias, rituais académicos ou trajes para alunos e docentes. A casaca preta/calça comprida/colete/cartola/chapéu de coco, com o indispensável complemento de bengala de castão de prata, terão sido os elementos vestimentários laico-burgueses mais celebrados por este tipo de instituições que não se reviam no modelo talar conimbricense.

Nos alvores da década de 1850, concretamente em 1852, a Rainha D. Maria II foi recebida pelos lentes da Academia Politécnica do Porto em casaca preta, colete, calças compridas, sapatos e meias de seda ,a que não terá faltado a indispensável cartola [e bengala]. (…)



Confirmando o paradigma laico-burguês, docentes e discentes do Curso Superior de Letras e do Instituto de Agronomia e Veterinária entrariam no século XX de labita preta e cartola, costume de certa forma prolongado após a respectiva integração nas universidades fundadas em Lisboa após 1910 .

As escolas de ensino técnico-profissional de agricultura, lançadas pela legislação fontista de 16 de Dezembro de 1852, e reorganizadas por Emídio Navarro (Decreto de 2.12.1886), não terão definido traje docente.

Quanto à Escola Nacional de Agricultura, aberta em Coimbra no ano de 1887, não se conhece prescrição de traje profissional para o corpo docente. Os alunos começaram a usar no dia a dia um pequeno uniforme composto por boné de pala ou barretina com pompom, colete e gravata, camiseiro à “farmer” e calças compridas . Nos dias de gala optavam por um grande uniforme à lavrador, cujo figurino era o mesmo do chamado traje português masculino de equitação . O primeiro destes dois conjuntos gozava de acrescido prestígio junto das quintas britânicas oitocentistas de agricultura experimental, e foi desde cedo institucionalizado em Portugal como farda dos menores internados em casas de correcção instaladas em quintas agrícolas como Vila Fernando (1895), e posteriormente na Penitenciária de Lisboa (1913 e ss.) e na Colónia Penal de Sintra (1915 e ss.). O mesmo tipo de camiseiro seria adoptado desde ca. 1900 pelos “juízes” do Tribunal de las Aguas de Valência.

Foi com um pequeno uniforme deste tipo, à base de calça comprida, camiseiro de cotim, bota de montar e barretina à cadete com pompom, que a primeira fornada de formandos da Escola Nacional de Agricultura de Coimbra se fez fotografar em 1892. A pasta de ganga esverdeada, com fitas largas verdes e brancas surgiria alguns anos mais tarde .

Situação próxima da referida terá sido vivenciada pelos alunos e docentes das escolas industriais de ensino médio (Decreto de 30.12.1852), cuja rede regional atravessaria um processo de intensificação quando António Augusto Aguiar liderou a pasta das Obras Públicas . Aqui, a opção terá recaído na articulação de um conjunto prático civil (calça comprida/camisa) com um boné de pala e uma bata, conforme usança oficinal nas escolas francesas de artes e ofícios mecânicos. Ao longo da primeira metade do século XX, os alunos da Escola Industrial Brotero, de Coimbra, ficariam conhecidos pelo apodo “lagarto azul”, graças ao fato de ganga ou fato de macaco oficinal que não sendo uma farda acabava por funcionar como tal .

Estabelecimento de ensino médio era também o Instituto Industrial e Comercial de Lisboa, filho do Decreto de 25 de Janeiro de 1894, substituído após 1911 pelos Instituto Superior Técnico e pelo Instituto Superior de Comércio, para o qual não foi definido traje profissional. O mesmo acontecia com o Instituto Comercial do Porto, criado pelo Ministro João Franco em 1891 .

É tardiamente, em 1889, que os alunos do terceiro ano da Escola Médico-Cirúrgica do Porto, se lançam no uso da capa e batina, traje que possivelmente já seria envergado pelos escolares do Liceu do Porto . A formação da Tuna Académica do Porto, por 1890, com alunos do liceu, da Politécnica e da Médico-Cirúrgica, o nacionalismo fervilhante gerado pelo Ultimatum e requentado pelo 31 de Janeiro de 1891, e o debutar de festividades carnavalescas e de fim de ano (Enterro da Farpa, Festa da Pasta) , terão ajudado a sedimentar a capa e batina na cidade do Porto.

O etnólogo José Leite de Vasconcelos, antigo aluno da Médico-Cirúrgica do Porto, mostrar-se-ia hostil ao uso da capa e batina nas escolas politécnicas portuguesas e liceus . E com Vasconcelos estariam muitos dos liberais de oitocentos que assumiam como traço identitário o fato masculino burguês usado nas cidades ocidentais.

Em Lisboa, o ambiente propiciatório da constituição de tunas académicas e o empenhamento dos estudantes em causas públicas após o Ultimatum terão contribuído para a naturalização da capa e batina entre os liceais e politécnicos.

Seria a Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa a dar o passo em direcção ao grande e ao pequeno uniformes, mas restringindo-os ao corpo docente. O Decreto de 1 de Outubro de 1856 adoptava a título de pequeno uniforme de porte quotidiano uma toga preta talar, de um corpo, em grande parte resultante da fusão da beca judiciária portuguesa com a toga de advogado, lacinho branco, cintura de borlas pendentes, sapatos pretos de fivela e barrete cónico; e um grande uniforme napoleónico, à base de casaca militar azul escura, com bordados a ouro, gravata e colete brancos, calça comprida azul escura avivada a ouro, bicórnio emplumado e espadim .

Não existiam diferenças dignas de nota entre o grande uniforme descrito e o traje dos diplomatas ocidentais , ministros e conselheiros de estado (França, Portugal, Espanha, Itália), Real Academia das Ciências de Lisboa ou o “habit vert” do Institut de France. Um ano decorrido, o Decreto de 15 de Setembro de 1857 estendeu estes dois trajes profissionais à Escola Médico-Cirúrgica do Porto . Na viragem do século, o Decreto de 6 de Fevereiro de 1902 alargou o conjunto talar referenciado à Academia Politécnica do Porto, precisando que as rosetas peitorais da toga fossem nas cores das especialidades científicas ministradas naquele estabelecimento de ensino.

A militarização imagética das academias científicas e dos politécnicos inscrevia-se num conjunto de representações liberais e descristianizadoras, reunindo amplos consensos entre as elites ocidentais que vociferando contra a hegemonia espiritual católica se reviam no perfil heróico e disciplinado do militar fardado.


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No caso de Coimbra, o abolicionismo periodicamente reclamado, não se confinava a mera parusia niilista. Um horizonte imaginário de símbolos alternativos à batina, aos calções, ao colarinho raso e ao cerimonial tradicional piscava o olho à labita burguesa e às fardas militares. Quanto ao destino a conferir à capa, o romantismo estético pululante reservou-lhe lugar especial no imaginário masculino das vivências anónimas e do heroísmo individualizado. A gesta de capa e espada, muito enraizada na centúria de oitocentos, e depois apropriada pelo cinema de aventuras de Hollywood, não concebia um prestidigitador, um Drácula, um Fantasma da Ópera, um Zorro ou um Superman sem capote ou capa esvoaçante . Eça de Queirós, também ele, não concebeu Antero de Quental a discursar revoltas no adro da Sé Nova de Coimbra sem a romântica capa negra a descair pelo ombro . (…)


Concluído o périplo pelos estabelecimentos de ensino técnico-profissional fundados em Portugal entre 1836-1910, pode dizer-se que à data da Revolução Republicana de 5 de Outubro de 1910 o traje militar fora oficialmente adoptado nas médico-cirúrgicas e politécnicas de Lisboa e Porto (traje docente de gala), e em versão mais modesta no Real Colégio Militar (traje discente).

Mas não nos deixemos ludibriar perante este aparente fracasso do paradigma napoleónico naturalizado nos países ocidentais não abrangidos na esfera da cultura escolar anglo-saxónica. Relendo com atenção a literatura de época e visualizando as fotografias disponíveis, rapidamente se conclui que na UC, nas Médico-Cirúrgicas e nas Politécnicas de Lisboa e Porto, o traje militar masculino fora reconhecido aos alunos como equiparado a “traje académico” para efeitos de frequência de aulas, exames e cerimónias .


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 Contrariando a hipótese pró-farda, os alunos das escolas comerciais e industriais viveriam um século XX com bata funcional e fato de macaco vestidos apenas em contextos oficinais. Nos liceus manteve-se até à década de 1960 a herança masculina da capa e batina herdada da UC.

Seriam ainda os liceus de Lisboa e Porto a inventar espontaneamente entre 1915-1916 o traje feminino, à base de tailleur saia-casaco e capa, o qual só muito tardiamente entrou nas universidades: na do Porto em 1946, pela mão das alunas sócias do Orfeão; na de Coimbra em 1951, devido à acção das sócias do Teatro dos Estudantes, seguindo-se generalização não pacífica decretada pelo Conselho de Veteranos em 1954 .

Após a criação das universidades de Lisboa e Porto, os alunos portuenses ligados à tuna e orfeão adoptaram desde 1911-1912 a capa e batina dos conimbricenses, seguindo-se uma adesão generalizada a partir de 15.03.1916. Em Lisboa, o uso da capa e batina ficaria duradouramente restringido aos liceus e a franjas de alunos da Faculdade de Direito então situada no Campo de Santana. Na vizinha Faculdade de Medicina, o uso de capa e batina seria bem menos expressivo do que o filme A canção de Lisboa (1933) parece deixar antever .(…)

 António M. Nunes, In Blogue Virtual Memories, Património vestimentário e insigniário conimbricense artigo de 28 Agosto de 2009.



NOTA: Sobre o papel dos estudantes da República da Ladeira do Seminário, em Coimbra, diz-nos A. Nunes que o “ que os “ladeiras” fizeram foi hiperbolizar o uso ostensivo de coletes de seda multicolores (brancos, vermelhos, cinzentos, em brocado ou seda enramada) que exibiam trazendo as carcelas das batinas desabotoadas. Pareciam noivos em dia de casamento. Não reformaram nada no traje.



O actual figurino da capa e batina de matriz conimbricense, variante masculina, tem a sua origem nas transformações implementadas pelos adeptos da Greve Académica de 1907, que logo se começaram a generalizar na Academia de Coimbra: sobrecasaca preta desabotoada, lapelas dobradas em V sobre o peito e forradas de cetim preto, capa enrolada no colarinho ou deitada no braço ou no ombro direito. Em 1910 os liceus e a Universidade do Porto adoptaram as propostas dos conimbricenses.



O actual modelo de traje feminino, embora tenha começado a usar-se em 1915 nos liceus de Lisboa, só ganhou a feição actual por 1945 quando passou a ser usado pelas estudantes membros do Orfeão Universitário do Porto.”