quinta-feira, setembro 11, 2014

Notas Burlescas (Defecaram na Praxe, a culpa é da D. Júlia)

Uma estória, em jeito de parábola, e no seguimento do artigo anterior, dedicado à defesa (séria) da Praxe.
Um texto que retoma a idieia vicentina de "Ridendo Castigat Mores".

Para bom entendedor.......





No Bairro da Tradição, encontra-se o edifício da Praxe, com várias dezenas de condóminos e suas famílias.
Dois elevadores servem o prédio e tudo parece correr naturalmente, naquele pacato bairro.
O problema é que nas escadas do prédio têm aparecido coisas bizarras e mal cheirosas.
Com efeito, parece que alguns condóminos mais aflitos ou "sonâmbulos" têm feito do vão (e degraus) das escadas o seu sanitário, mas como são raramente usadas, a coisa tem passado algo despercebido (ou pelo menos tem sido ignorado, pois obrigaria a incómodos, desde logo limpar ou denunciar os vizinhos - quando todos querem "boa vizinhança").
 
No outro dia, a D. Júlia, que é a funcionária do CTT que distribui o correio, teve de entrar para entregar uma encomenda no 10º andar. Como é claustrofóbica, utilizou a escadas para cumprir a sua tarefa.
 
Qual não foi o seu espanto, quando, ali-acolá, num ou noutro ponto mais escuro, descobriu aquelas “alheiras”. Tinha-lhe cheirado a algo “esquisito”, mal abrira a porta de acesso à escadaria, mas nunca imaginara que ali faria tais descobertas.
 
D. Júlia, há que o dizer, é uma grande quadrilheira e faz do mexerico a sua segunda especialidade, logo a seguir à confecção de tartes de maçã.
Claro está que, em poucos dias, toda a vizinhança sabia do caso, tornando-se alvo de chacota até nas reuniões da paróquia, do clube de caça e pesca ou no supermercado. E não se fizeram esperar as piadinhas do costume aos moradores do edifício.
 
Tal alvoroço pôs em pé de guerra o prédio em causa e foi marcada assembleia geral de condóminos.
 
Olhando para a acta lavrada dessa reunião foi possível perceber que:
 
Muitos condóminos pretendiam processar a D. Júlia por difamação.
Outros, por sua vez, diziam que as poias eram rareadas, só num ou noutro sítio e que, comparando com a larga maioria dos degraus e patamares limpos, não havia razão para alarme.
Um ou outro, mais afoito, reclamava que como quase todos usavam elevador, isso não prejudicava ninguém e que o problema era tão só dos condóminos que não cumpriam a tarefa de limpar também as escadas (ficando-se apenas pela porta de entrada, elevadores e patamares dos elevadores).
Muitos, também, diziam que nunca lhes tinha cheirado mal a eles, pelo que não percebiam que cheirasse mal aos de fora.
 
A culpada de tudo isso, pelos vistos, era da D. Júlia ou de quem quer que fosse de visita ao prédio e usasse as escadas.
 
Defecaram nas escadas do prédio da Praxe, mas, e segundo a acta da reunião, apenas 2 ou 3 condóminos discordaram, mostrando-se, isso sim, indignados por haver moradores a cagar nas escadas.
Só esses 2 ou 3 é que não percebiam como podia, a  tantos, não lhe fazer diferença aquele cenário (e a imagem que isso dava do prédio e moradores), e como já nem o cheiro era incomodativo (um odor apenas disfarçado, enquanto as portas de acesso às escadas se mantivessem fechadas).
Só esses 2 ou 3 moradores pretendiam descobrir quem “obrava” no seu prédio, porque as escadas, afinal, eram parte dele.
 
Foram vozes logo abafadas pelos demais condóminos.
Aquilo era um caso isolado; não eram assim tantos “coisos” e o cheiro, esse, tratava-se com um desodorizante ambi-pur adequado. Nao era hora de divisões, mas de se unirem contra quem falava mal do prédio.
 
Importava era tratar da D. Júlia, conhecida língua de víbora que estava a exagerar, que preferia ver as 5 ou 6 poias sem olhar aos milhares de degraus limpos.
E tudo porque, em tempos, a D. Júlia tinha contado numa reunião da tupperware que, no prédio, as pessoas acumulavam os sacos lixo à porta de casa, para só ao fim de 2 ou 3 sacos o irem colocar nos caixotes defronte ao prédio. Ela, afinal, é que perseguia o prédio que já tinha má fama por causa dela.
A D. Júlia é que era a culpada de tudo e da má imagem do prédio, mesmo se era verdade que várias pessoas no bairro já sabiam (e comentava à boca pequena) da falta de higiene que por lá se registava.
 
Estranhamente, dessa acta nada sobre limpar “aquilo”, nem mesmo contratando uma empresa de limpeza.
Já “limpar o sebo” à cusca da D. Júlia, isso sim era imperativo e foi votada a marcação de uma reunião extraordinária e uma comissão para a liderar e apresentar medidas.

 
EPÍLOGO

Têm chegado várias queixas (a maioria anónimas) à delegação dos CTT a acusar a D. Júlia de distribuir mal o correio, de se atrasar ou de ir ao café beber a bica em hora de expediente.

Na sede da associação cultural, durante os jogos de bridge ou nos ateliers de lavores, diz-se em surdina que D. Júlia bebe e tem um amante.

Nas paredes defronte à igreja, alguém escreveu que a D. Júlia era uma vaca.

Chegou a haver uma vigília, com vela e tudo, à porta do prédio, por parte dos condóminos e famílias. Foi tudo filmado pelo filho da D. Deolinda, que trabalha na loja de informática, que o colocou de imediato no FB e youtube.


No pacato prédio da nossa história, pouco ou nada mudou.
Bem, na verdade, chegou ontem uma remessa de 10 caixotes de ambientadores Air Quick e vários estão a ser colocados nas escadas.
Junto aos extintores existe também um dispensador automático de máscaras para, em  "casos de incêndio", proteger da inalação de "fumos".

Sabe-se, pelo Sr. Gervásio (que substitui nos CTT a D. Júlia, agora de baixa) que 2 ou 3  condóminos limparam os patamares da escadas do seu andar e os degraus imediatamente circundantes, mas a larga maioria não.

Na porta do rés-do-chão, que dá acesso às escadas, foi colocado um letreiro com o aviso de que as escadas estavam fora de serviço e que os elevadores eram óptimos, mais práticos e modernos, usando, até, sistema anti-poeiras e anti-ácaros, para evitar alergias.
Nos elevadores existe um dispensador de toalhetes perfumados (bónus pela compra da remessa de ambientadores).
 


 

 

4 comentários:

Anónimo disse...

Um texto excelente. Pudera que muitos mais pudessem ler isto e abrir os olhos, tanto ao sensacionalismo da televisão como à defesa cega que certos "praxistas" mandam em resposta.

Anónimo disse...

Simplesmente espetacular.

Anónimo disse...

Adorei ler este texto.
Diz bem daquilo que se passa na Praxe. As pessoas não assumem os problemas que existem e desculpam-se que não são a regra.
Ninguém quer limpar nada mas apenas dizer que não foram eles a fazer asneira mesmo quando é feita na sua própria academia.

Anónimo disse...

Está tudo neste texto: os que preferem a porta fechada para não se saber, os que preferem entrar em negação, os que se desculpam com o facto de ser uma excepção, os que acusam a televisão de ser culpada, os que se acham vítimas de uma cabala dos mídia e os que fazem manifestações e criam grupos de facebook para defender a praxe mas não mexem uma palha para a melhorar.

Mais um texto sensacional deste blogue.
Vale mais do que um like, vale muitos aplausos e partilhas.