O saber actual.
Pode parecer caricato, mas é
verdade: sobre a origem dos pins e alfinetes de lapela, no contexto da Praxe,
do Traje Académico, não existe uma única fonte de informação na Net ou em
qualquer Código de Praxe.
Pode parecer estranho, de facto,
mas sobre um dos adereços mais populares no seio académico, não existe
informação alguma acessível, que não a reprodução de normas e ditames sobre
quais usar ou onde colocar.
Os estudantes, ontem, como hoje, não sabem, de facto, de onde provém essa tradição, pelo que, naturalmente, o que hoje vemos é, na esmagadora maioria dos casos uma contínua invenção ou cadeia de suposições.
Nuns casos há um claro exagero,
noutros está-se mais perto do genuíno, embora em nenhum dos casos se saiba bem
por que razão é este e não aquele, qual a razão de ser ali ou acolá.
Quando era estudante, também não sabia, é um facto, mas sempre tive curiosidade em saber por que razão se usava, quanto mais não fosse para estabelecer uma causa-efeito, saber se aquilo que se praticava era provindo de uma fonte fidedigna ou se era mero copy-paste de um artificialismo que ia mutando ao sabor de modas (ou gostos de quem mandava na praxe).
A resposta obtive-a bem mais
tarde, infelizmente (embora valha mais tarde do que nunca, diz o povo).
Vamos então a factos, socorrendo-me da preciosa informação que me facultou o insigne António Nunes, historiador e especialista nesta área.
Crachás, pins e alfinetes, no
meio académico (e também fora dele), terão a sua origem no foro militar.
São os uniformes militares,
enquadrados pelos respectivos regulamentos, os que admitem, desde pelo menos o
séc. XVIII as placas e distintivos para barretinas, colarinhos, ombros e, até,
botões metálicos.
Desde há muito que as
universidades portuguesas ou escolas diversas (médico-cirúrgicas, politécnicas,
belas artes, etc.,) acolhiam no seu seio estudantes militares, os quais não
trajavam capa e batina, mas sim o seu uniforme militar, sobre o qual, então
sim, usavam capa ou gibão. Existem vários clichés, do séc. XIX ou de inícios do
XX que o comprovam inequivocamente.
Daí emana, por cópia e pelo
fascínio que daí advinha, por parte de outros estudantes, a adopção de
distintivos metálicos, para uso na lapela da casaca/batina, os crachás e
alfinetes.
Desde logo, fica claro que esse
costume não tem por base qualquer tradição local ou regional.
Estes adereços exprimem historicamente a pertença a um grupo, fraternidade ou, então, expressam o reconhecimento de feitos alcançados (condecorações), como é o caso, em França, por exemplo, em que os agraciados com a Légion d’Honneur (condecoração atribuída pelo presidente da república francesa, como, por cá, o nosso atribui a da Ordem de Cristo ou da Torre e Espada, - entre outras, por exemplo, no dia 10 e Junho) não usam diariamente essa condecoração (porque muito grande), colocando antes, na lapela, um pequeno pin alusivo.
Em Coimbra, e citando A. Nunes, “A únicas tradições que se conheciam eram as que autorizavam o porte de monograma (letras do nome próprio entrelaçadas em prata) na lágrima da guitarra, o que só acontece a partir de 1905, e na pasta de luxo com fitas de seda (distintivo do curso). A tradição autoriza ainda o uso de heráldica das Faculdades em lenços de bolso, botões de punho, fivelas de prata dos sapatos de gala, livros encadernados que se utilizam em determinadas cerimónias (autos, juramentos).
Por conseguinte a metalurgia de
lapela foi uma apropriação/invenção divulgada por alunos que tinham sido
militares ou gostavam das cerimónias paramilitares da Mocidade Portuguesa e da
Legião Portuguesa. “
Alguns sectores de opinião, no seio académico-praxístico, pretendem diferenciar alfinetes dos pin’s, quando se trata, basicamente, do mesmo, com a diferença, apenas, na forma de os pregar (longo alfinete, para uns, alfinete curto, ou pico, com fecha, para outros). Na parte visível são ambos similares (ora maiores ora mais pequenos; mais simples ou trabalhados; com ou sem cores).
Mas note-se que, em larga medida, a prática do uso de alfinete ou pin na lapela era quase inexistente. A larga maioria dos estudantes não usava qualquer alfinete ou pin (e a atestá-lo estão centenas de clichés).
Portanto, mesmo que coloquemos a inspiração numa origem militar (dos alunos militares que cursavam a universidade), parece mais evidente que a moda que explode a partir da década de 1980 tem mais de inspiração das tunas espanholas (que usavam pins nas mangas dos seus trajes) do que outra coisa.
A questão dos exageros começou, desde logo, porque os estudantes portugueses não tinham uma informação essencial: o traje de tuna espanhol não era um traje académico, como sucedia com os trajes académicos que os estudantes portugueses usavam no contexto das suas tunas.
Numa espontaneidade vaidosa, começou-se a meter pins no traje académico como se ele fosse um traje exclusivo de tuna, omitindo que o traje académico obedecia a uma etiqueta de sobriedade nem sempre compatível com o desejo de imitar os "floridos" trajes dos tunos do país vizinho.
1º - Usa-se apenas 1, e só um!
2º - Deve colocar-se aquele que
contenha a heráldica da instituição frequentada.
Com mais reticências, o de curso,
mas só se este contiver no seu desenho a heráldica da instituição (ou seja ter
nele o logótipo da Universidade ou Instituto).
Mesmo no caso das Tunas, se
exige, pelo menos aos que são estudantes, que sigam esse preceito, porque antes
de serem tunos, são estudantes. Já aos demais, é normal que substituam o da
instituição onde se formaram pelo da Tuna a que pertencem (e só esse).
O que se aconselha para o traje,
para os estudantes, é mesmo o da Instituição.
Vou abster-me de adjectivar assertivamente
essas práticas (que a vontade é chamar-lhes nomes feios), nas quais vemos
algumas casas a promoverem uma fantochada pegada, onde parece que lá militam os
antigos generais da era soviética.
Nesse caso, a regra a seguir é a
mesma que para os emblemas: apenas se coloca a “ferraria” relativa ao exercício
académico (locais/instituições visitados em missão oficial académica ou grupos
contactados).
Assim, pins da Coca-Cola, do Rock in Rio, da Luta contra a Sida, do Mickey, da Sagres, os que brilham e piscam e quejandos não são apropriados (mas próprios para meter noutras roupas que não o traje, seja ele qual for).
Mas se o colete apresenta mais espaço para “medalhas”, convém recordar que enchê-lo de pin’s tem, pelo menos, o problema de o tornar pesado (em alguns casos, e porque só os colocam apenas de um dos lados, esse lado até chega a descair um pouco de tanto quilate – como eu já vi).
Atente-se que a regra de ouro é que, ao fechar-se a batina, nenhum pin do colete fique visível.
Para terminar, fica a questão do lado onde usualmente se colocam.
Há quem defenda na lapela
esquerda, outros na direita; uns no lado esquerdo do colete, outros no oposto.
Usualmente é o lado esquerdo o
escolhido. No caso da lapela, também porque é onde se encontra o bolso (usado,
nos fatos e smokings, para colocação de lenço, segundo a etiqueta).
Assim ficou convencionado. Dirão que é por ser
o lado do coração, etc&tal, mas, isso, cada qual invente o que quiser
(entre teorias místicas, pseudo-históricas e afins, há muito por onde arranjar “estórias”).
Eu não conheço, documentalmente,
qualquer razão tácita e inequívoca para essa determinação.
Foi assim definido, ao que tudo
indica, seguindo a etiqueta em uso no meio civil, que estipula, na maioria dos
casos, a colocação do alfinete ou pin à esquerda, embora também se contemple o
uso no lado direito.
Posto isto, e concluindo, é fácil, agora, perceber onde a
tradição é preservada e onde se inventou, ou mesmo se adulterou.
Por falta de conhecimento, muito se inventou, claro está.
Não basta regrar e dizer que é assim ou assado, que se mete
isto ou aquilo, ali ou acolá, só porque sim, sem sequer ter fundamentação.
Ficam estes dados à superior consideração dos praxistas.








